8ª
Conferência Nacional de Saúde: a atualidade de um projeto inacabado
Quarenta
anos depois, a 8ª Conferência Nacional de Saúde continua a desafiar o presente.
Poucos documentos da história recente brasileira resistiram tão bem ao tempo.
Relido hoje, seu relatório impressiona não apenas pelo valor histórico, mas
pela nitidez política de suas formulações. Foi um momento constituinte da vida
pública brasileira. E talvez por isso ainda tenha muito a dizer ao país.
Seu
relatório final condensou três ideias que continuam no centro da disputa
sanitária nacional: a saúde como direito social e expressão das condições de
vida; a necessidade de um sistema público unificado, universal,
descentralizado, regionalizado e com participação popular; e a defesa de
financiamento estável e suficiente para sustentar esse projeto. Ali já estava,
em estado quase acabado, o núcleo do que viria a ser o SUS.
Mas a
8ª Conferência não se limitou a propor uma reforma do sistema de saúde, ela
formulou uma visão de sociedade a partir da saúde, constituindo-se em um
movimento cultural emancipador, de transformação da percepção da saúde pela
sociedade. Um modelo de desenvolvimento humano, que transcendia a luta pela
garantia do acesso à saúde ou da saúde como um direito. Ali, a saúde aparece
como espaço de diálogo com outras dimensões do campo político e social,
destacando-se o conceito ampliado de saúde e a determinação social da saúde. A
ideia era transformar a sociedade através da saúde. O SUS seria apenas uma das
dimensões da Reforma Sanitária.
Seu
primeiro grande avanço foi romper com a visão estreita, médico-assistencial,
que reduzia saúde ao tratamento da doença. Ao afirmar que saúde depende de
alimentação, moradia, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte,
lazer, liberdade e acesso à terra e aos serviços, a Conferência antecipou, com
notável clareza, o debate que depois seria consagrado sob a linguagem da
determinação social da saúde. Mais do que isso, vinculou o direito à saúde à
democratização do país e à transformação do padrão de desenvolvimento. Não se
tratava apenas de reorganizar o setor. Tratava-se de construir uma nova relação
entre Estado, sociedade e cidadania.
Essa
talvez tenha sido sua maior vitória. O núcleo normativo da 8ª Conferência foi
absorvido pela Constituição de 1988 e pela legislação que estruturou o SUS nos
anos seguintes. A saúde tornou-se direito de todos e dever do Estado. O sistema
único deixou de ser formulação teórica e passou a ser instituição.
Universalidade, integralidade, descentralização e participação social
converteram-se em linguagem oficial da República. Nesse plano, a 8ª Conferência
venceu.
Mas a
distância entre o SUS constitucional e o SUS real nunca foi pequena.
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Questões em aberto
Nesse
período o SUS avançou muito, mas de forma desigual. Consolidou uma vasta rede
pública, expandiu a atenção primária, estruturou políticas de vacinação,
assistência farmacêutica, vigilância em saúde, transplantes e, mais
recentemente, novas agendas como a saúde digital e o enfrentamento da atenção
especializada. Ainda assim, várias das questões que a 8ª Conferência apontou
como estruturais continuam em aberto.
A
primeira delas é o financiamento. O relatório foi claro ao associar o direito
universal à necessidade de uma base estável de recursos, fundos próprios e a
uma reforma tributária. Quarenta anos depois, esse continua sendo um dos pontos
mais frágeis do sistema. O SUS cresceu mais do que sua base fiscal. A
engenharia jurídico-normativa avançou mais do que a equação
econômico-financeira. O resultado é conhecido: subfinanciamento recorrente,
forte pressão sobre estados e municípios, desigualdades regionais persistentes
e permanente tensão entre a ambição civilizatória do sistema e os limites
concretos de sua sustentação orçamentária.
A
segunda é a regionalização. A 8ª Conferência teve clareza de que um sistema
universal de saúde, em um país desigual e continental, não poderia ser apenas
descentralizado; precisaria também ser regionalizado e hierarquizado. O tempo
confirmou o diagnóstico. A descentralização foi decisiva para a expansão do
SUS, mas não resolveu, por si só, a organização do cuidado. Em muitas
situações, descentralização sem coordenação produziu fragmentação. A
dificuldade de articular atenção primária, serviços diagnósticos, atenção
especializada e alta complexidade continua sendo um dos principais entraves do
sistema.
Um
terceiro eixo em que a atualidade da Conferência impressiona é a crítica à
mercantilização da saúde. Esse conflito atravessa todo o relatório final. A 8ª
CNS foi produzida sob o pano de fundo de um sistema fortemente marcado pela
expansão do setor privado financiado por recursos públicos e pela lógica
previdenciária. Não por acaso, a tensão público-privado aparece em vários
momentos do documento, como na defesa da primazia da rede pública, no controle
da contratação privada sob as normas do direito público, na crítica ao peso do
mercado sobre o sistema e até em formulações mais radicais, como a proposta de
estatização da indústria farmacêutica e de setores estratégicos da atenção em
saúde.
Mas o
texto final também revela o limite político daquela radicalidade. A estatização
integral e imediata dos serviços privados não prevaleceu. Em seu lugar,
consolidou-se uma formulação mais pragmática, contemplando a expansão gradual
da oferta pública, o enquadramento jurídico da oferta privada e o
redirecionamento dos recursos públicos para fortalecer a rede estatal. A
Conferência não suprimiu o conflito público-privado; ela o inscreveu no
nascimento do SUS. E ele continua ali, quarenta anos depois, como uma das
tensões constitutivas do sistema.
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Como se constrói um sistema único
Esse
mesmo padrão aparece em outro debate decisivo daquele momento, que foi o da
unificação do sistema de saúde. A grande questão política não era apenas se o
Brasil deveria ter um sistema único, mas como chegar a ele. Havia, grosso modo,
duas vias. De um lado, a unificação “pelo alto”, com a transferência imediata
do INAMPS para o Ministério da Saúde e a constituição de um comando federal
unificado. De outro, a unificação “pela base”, radicalizando a experiência das
Ações Integradas de Saúde e construindo progressivamente, nos estados e
municípios, uma integração real de serviços, gestão e financiamento.
Esse
desacordo não era um detalhe burocrático, nem mero choque de personalidades.
Era uma divergência estratégica dentro do próprio campo da Reforma Sanitária.
De um lado, a lógica da ruptura institucional imediata. De outro, a lógica da
transição progressiva e territorializada. A solução histórica encontrada com os
SUDS, em 1987, foi justamente a mediação possível entre essas duas
racionalidades. Os SUDS não realizaram a unificação plena desejada por alguns,
mas impediram a paralisia e preservaram a unidade política do campo reformista.
Foram uma ponte entre o reformismo setorial das AIS e a formulação
institucional plena do SUS.
Essa
capacidade de produzir mediações sem abandonar o horizonte talvez seja uma das
lições políticas mais importantes daquele ciclo. O SUS não nasceu apenas de uma
convergência programática. Nasceu também de negociações complexas entre tempos,
métodos e lideranças. Em certo sentido, sua construção exigiu que o movimento
sanitário evitasse uma fratura interna num momento decisivo da
redemocratização.
Mas a
8ª Conferência não foi importante apenas pelo que disse explicitamente. Também
é reveladora pelo que deixou às margens. Temas que hoje consideramos centrais
como saúde ambiental, saúde do trabalhador, direitos sexuais e reprodutivos,
primeira infância, violência, luta antitabagista, racismo estrutural entre
outros, ou estão ausentes, ou aparecem de modo periférico ou embrionário no
relatório final. Isso não significa falta de sensibilidade para essas agendas.
Significa que a Conferência estava concentrada, antes de tudo, na fundação do
marco universalista e na arquitetura do sistema. Vários dos temas que hoje têm
identidade política e institucional própria ainda apareciam subordinados ao
conceito ampliado de saúde, sem desenho programático mais consistente. Isso
ajuda a entender por que o relatório final praticamente não desenvolve agendas
setoriais específicas. Isso se deve também ao fato de que a 8ª CNS foi uma
conferência de teses, com foco centrado no desenho da arquitetura do novo
sistema de saúde, no direito à saúde, na unificação do sistema, na
descentralização, no financiamento, na relação público-privada e na
participação social.
Mas um
ponto em que seu olhar foi surpreendentemente precoce, diz respeito ao que hoje
chamaríamos de sustentabilidade tecnológica do SUS. Ainda que o conceito não
existisse à época, a substância do problema já estava no relatório. A
Conferência criticava o controle do setor de medicamentos e equipamentos por
multinacionais, defendia o fortalecimento da capacidade pública de pesquisa e
produção e atribuía ao Estado papel estratégico na formulação de políticas de
pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção de insumos. Em retrospecto, é
difícil não reconhecer ali uma formulação embrionária do que hoje se expressa
na agenda do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
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A ausência do setor privado
A 8ª
CNS foi a primeira a contar com ampla participação da sociedade, com uma
exceção, a da ausência do setor privado. Houve um afastamento deliberado do
empresariado privado da saúde da 8ª CNS, num momento em que já estava claro que
a conferência caminharia para afirmar um sistema público unificado, com o setor
privado submetido a regras públicas e em posição complementar. A própria
memória do evento registra que representantes do setor privado foram
convidados, mas não compareceram ou se retiraram da organização por entenderem
que teriam peso menor do que julgavam compatível com sua importância na
prestação de serviços. Sérgio Arouca, na abertura, lamentou explicitamente a
retirada dessas entidades e disse que a conferência não pretendia excluir
atores sérios na prestação de serviços, mas sim enfrentar a mercantilização da
saúde.
Esse
movimento não surgiu do nada. Ele vinha sendo preparado desde o início dos anos
1980, quando propostas como o PREV-Saúde e, depois, as AIS, passaram a ser
atacadas por um bloco que reunia parte da burocracia estatal e do setor privado
organizado. Jairnilson Paim (PAIM, 2008) registra que, já naquele período, os
ministros da Saúde e da Previdência foram publicamente questionados por
representantes da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), da Abramge e da
Associação Médica Brasileira (AMB), por apoiarem propostas que denominavam de
“projeto estatizante”.
Em
relação às entidades médicas, os anais da própria 8ª CNS (BRASIL, 1987) mostram
a participação de representantes da AMB, do CFM e da Federação Nacional dos
Médicos em mesas e debates. Portanto, o que se pode dizer com mais precisão é
que houve uma forte resistência do bloco empresarial privado e de alguns
setores da corporação médica, mas não uma ausência total do campo médico
organizado.
O
núcleo do conflito era político. O empresariado hospitalar e a medicina de
grupo rejeitavam a ideia de que o setor privado passasse a existir apenas de
forma complementar e sob controle público. Já o movimento sanitário queria
deslocar o centro do sistema para o Estado e para a universalização do direito
com redução do setor privado na oferta de serviços. Por isso, o setor privado
preferiu não legitimar a 8ª CNS com sua presença, mas retomou a disputa em
outras arenas, especialmente na Comissão Nacional da Reforma Sanitária e,
depois, na Constituinte, onde apresentou posições próprias e batalhou contra a
estatização e contra a redução do espaço privado. Em seu livro seminal, Sarah
Escorel resume bem esse percurso.
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A Reforma Sanitária Brasileira funda uma nova ordem
É por
todo esse contexto que a 8ª Conferência continua sendo, ao mesmo tempo, memória
e programa. Ela foi extraordinariamente bem-sucedida em definir o sentido
histórico do SUS, venceu amplamente no plano dos princípios, na ampliação do
acesso, na atenção primária, na imunização, na vigilância e em vários
instrumentos e políticas de atenção e cuidado. Mas segue frágil em grau
relevante, naquilo que a Conferência identificou como condições estruturais
para a sustentabilidade do projeto: financiamento adequado, regionalização
efetiva, regulação robusta da relação público-privada, participação social
substantiva e autonomia tecnológica.
Mas a
8ª Conferência Nacional de Saúde pode ser lida também, como o momento de ápice
político e intelectual da Reforma Sanitária Brasileira. Ela condensou, em uma
arena nacional e institucional, um acúmulo que vinha sendo construído desde os
anos 1970 por sanitaristas, pesquisadores, gestores, movimentos sociais e
entidades como o Cebes e a Abrasco.
Nesse
sentido, a Conferência representou o ponto em que o projeto “saúde e
democracia”, elaborado e difundido pelo movimento sanitário, ganhou escala e
densidade institucional. O que o Cebes havia ajudado a formular ao longo da
década anterior, como as relações entre saúde e democracia, a crítica ao modelo
médico-assistencial privatista, a defesa da saúde como direito, a centralidade
dos determinantes sociais, a unificação do sistema e a participação popular,
aparecem na 8ª CNS já como linguagem política amadurecida.
Talvez
por isso a 8ª CNS tenha permanecido como símbolo e síntese de todo esse
movimento. Ela não foi apenas o prelúdio do SUS; foi o momento em que a Reforma
Sanitária Brasileira se reconheceu como força histórica capaz de fundar uma
nova ordem: a saúde coletiva. Depois dela vieram os SUDS, a Comissão Nacional
da Reforma Sanitária, a Constituinte e, finalmente o SUS. Mas a “Oitava”
permanece como o ponto em que essa energia reformadora atingiu sua expressão
mais alta, mais visível e mais ambiciosa. Ela foi, ao mesmo tempo, coroamento
de um ciclo e abertura de outro.
Quarenta
anos depois, a melhor homenagem à 8ª Conferência Nacional de Saúde não é
tratá-la como história. É relê-la como projeto inacabado. Sua força histórica
não está apenas no que ajudou a construir, mas no que ainda nos obriga a
enfrentar. O SUS de hoje é prova da potência daquela conferência, mas é também
a prova de que sua agenda estrutural permanece em aberto.
Fonte:
Por José Gomes Temporão, em Outra Saúde

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