Por
que julgamento sobre vício em redes sociais que condenou Meta e Google é
histórico
Um júri
de Los Angeles concedeu uma vitória sem precedentes a uma jovem que processou a
Meta e o Google por seu vício em redes sociais durante a infância.
Em
veredito proferido pela juíza Carolyn Kuhl nesta quarta-feira (25/3), o júri
considerou que a Meta — dona do Facebook, Instagram e WhatsApp — e o Google
criaram intencionalmente redes sociais viciantes que prejudicaram a saúde
mental de uma jovem de 20 anos, chamada apenas de Kaley no processo.
A
decisão do júri provavelmente influenciará centenas de casos semelhantes que
estão tramitando nos tribunais dos Estados Unidos.
Os
advogados da Meta argumentaram que, embora Kaley tenha sofrido em sua vida, seu
uso do Instagram não causou nem contribuiu significativamente para esses
problemas.
Após um
julgamento que durou cerca de cinco semanas, os jurados consideraram a Meta 70%
responsável pelos problemas sofridos pela autora da ação, e o YouTube,
responsável pelos 30% restantes.
Em um
comunicado, a Meta afirmou: "Discordamos respeitosamente do veredito e
estamos avaliando nossas opções legais."
Durante
sua primeira aparição perante o júri em fevereiro, o diretor-executivo da Meta,
Mark Zuckerberg, se baseou na política de longa data da empresa de não permitir
usuários menores de 13 anos em nenhuma de suas plataformas.
Quando
confrontado com pesquisas e documentos internos que mostravam que a Meta sabia
que crianças pequenas estavam, mesmo assim, usando suas plataformas, Zuckerberg
disse que "sempre desejou" um progresso mais rápido na identificação
de usuários menores de 13 anos.
Ele
insistiu que a empresa havia chegado ao "ponto certo ao longo do
tempo".
Embora
o Google, como proprietário do YouTube, também fosse réu no caso, a maior parte
do julgamento se concentrou no Instagram e na Meta.
O Snap
e o TikTok também foram inicialmente réus, mas ambas as empresas chegaram a
acordos confidenciais com Kaley antes do julgamento.
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O que aconteceu no julgamento
Ao
longo do julgamento, a Meta afirmou repetidamente que a empresa tomou medidas
para proteger os usuários mais jovens.
Mas
Mark Lanier, advogado da autora da ação, apresentou diversos e-mails internos,
mensagens e pesquisas mostrando Zuckerberg e outros funcionários da Meta
discutindo o uso do Instagram e do Facebook por adolescentes e crianças.
Um
e-mail de 2019, enviado a Zuckerberg e três altos executivos da Meta,
questionava as restrições de idade "não aplicadas" pela empresa.
Isso
tornava "difícil afirmar que estamos fazendo tudo o que podemos",
segundo o e-mail de Nick Clegg, que trabalhou como chefe de assuntos globais da
Meta por vários anos, após ter sido parlamentar do Partido Liberal Democrata
britânico e vice-primeiro-ministro do Reino Unido.
Lanier
questionou Zuckerberg sobre um relatório de pesquisa de 2019, realizado por uma
empresa externa a pedido do Instagram, que constatou que adolescentes que
usavam a plataforma se sentiam "viciados, apesar dos sentimentos que ela
lhes causava", acrescentando que os usuários adolescentes tinham "uma
narrativa de vício sobre o uso do Instagram".
"Pode
fazê-los se sentir bem, pode fazê-los se sentir mal, eles desejam poder se
preocupar menos com isso", dizia o relatório.
Zuckerberg
observou que a pesquisa não foi conduzida internamente pela Meta.
Quando
Paul Schmidt, advogado da Meta, questionou Zuckerberg sobre o mesmo relatório,
ele disse que o documento também mencionava aspectos "positivos" do
uso do Instagram, que surgiram da pesquisa.
Schmidt
apresentou o relatório como parte dos esforços contínuos da Meta para realizar
pesquisas sobre como suas plataformas são usadas e aprimorá-las constantemente.
Outra
apresentação de 2018 mostrou a empresa discutindo a retenção bem-sucedida de
pré-adolescentes na plataforma, apesar das alegações da empresa de que tais
usuários não eram permitidos.
Zuckerberg
observou que os usuários adolescentes representam "menos de 1%" da
receita publicitária da empresa e acusou Lanier de tirar o documento sobre
pré-adolescentes do contexto.
O CEO
da Meta disse que sua empresa teve "diversas discussões" sobre a
criação de versões de seus produtos que pudessem ser usadas por crianças
menores de 13 anos "de forma regulamentada".
Ele
mencionou o serviço Messenger Kids da Meta, que, segundo ele, "não era
muito popular", mas que ele usa "com meus próprios filhos".
Zuckerberg
e sua esposa, Priscilla Chan, têm três filhos.
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Metas para usuários adolescentes
Lanier
também confrontou Zuckerberg sobre os esforços para incentivar adolescentes a
usar a plataforma.
Ele
apresentou e-mails de Zuckerberg, bem como outras mensagens internas, nas quais
os funcionários discutiam em termos claros o "uso por adolescentes" e
como aumentá-lo.
Em um
e-mail de 2015, Zuckerberg disse a um grupo de executivos que suas metas para o
ano incluíam um "aumento de 12% no tempo gasto" e a "reversão da
tendência de uso por adolescentes".
Um
e-mail separado, de 2017, de um executivo, afirmava que "Mark decidiu que
a principal prioridade da empresa são os adolescentes".
Zuckerberg
disse que, "em um momento anterior da empresa", ele estabeleceu metas
para os executivos aumentarem o tempo gasto, mas insistiu que essa não era mais
a forma como a empresa operava.
Sob
questionamento de Schmidt, Zuckerberg explicou que, se a Meta tivesse se
concentrado apenas em métricas como o tempo gasto em suas plataformas, ela não
teria durado tantos anos.
Zuckerberg
observou que trabalhou por anos para lidar com o "uso problemático"
de plataformas como o Instagram "porque é a coisa certa a fazer".
Pais
enlutados estiveram entre os presentes no tribunal ao longo do julgamento.
Lori
Schott era uma dessas mães. Ela usou um grande broche com a foto de sua filha,
Annalee Schott, que se suicidou aos 18 anos.
"Essas
plataformas podem mudar", disse Schott do lado de fora do tribunal.
"Não
levaria muito tempo para alterar o conteúdo algorítmico para que as crianças
não se suicidem. É tão difícil assim, sr. Zuckerberg?", questionou ela.
Fonte:
BBC News

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