Gilberto
Lopes: Extradição de nacionais
Na
sexta-feira, 20 de março, foram extraditados para os Estados Unidos os dois
primeiros costarriquenhos, Celso Gamboa e Edwin López, acusados de
narcotráfico, na sequência da reforma constitucional que revogou a disposição
que impedia tal procedimento, em vigor até o ano passado.
A Costa
Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado, afirmou um jornal,
citando políticos nacionais. Na manhã daquele dia, na imprensa, podia-se ver a
foto dos dois nas mãos dos agentes da DEA norte-americana, com seus uniformes
laranja, prontos para embarcar no avião que os levaria para o Texas.
A foto
não me deixou indiferente. Dizia muitas coisas. Era, para mim, a foto do Estado
costarriquenho abdicando de uma de suas funções básicas: a de aplicar justiça.
Fazia-o de uma maneira humilhante, entregando, em território nacional, dois
cidadãos a uma potência estrangeira. Uma potência que – evidentemente – não
entrega seus cidadãos – nem o pior criminoso – a qualquer Estado estrangeiro.
Também
não entrega criminosos estrangeiros que encontraram asilo em seu território a
tribunais nacionais que os exigem. Existem muitos, responsáveis por graves
crimes. Veremos se, com essa medida, será obtido algum avanço da justiça. Os
antecedentes dizem-nos que não.
Voltaremos
a este tema. Por enquanto, gostaria de destacar duas coisas que este caso
evidencia: uma é o circo para as massas, o tipo de cobertura jornalística, a
exploração da tragédia humana.
A outra
é que, longe de servir à aplicação da justiça, o pedido de extradição será uma
poderosa ferramenta política utilizada de acordo com os interesses de
Washington. Ou alguém pensa que isso funciona, por lá, de forma alheia aos
interesses políticos?
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A extradição de nacionais tem pouco ou nenhum impacto na luta contra o
narcotráfico
“A
Costa Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado”, afirmava um meio
de comunicação nacional, citando políticos locais. Atribuía a frase a Óscar
Izquierdo, líder da bancada do Partido Libertação Nacional (PLN) na Assembleia
Legislativa. Não duvido que tal personagem possa dizer algo assim. Mas é
preciso refletir um pouco. Não é fácil, quando os fogos de artifício explodem,
quando tudo é circo e festa. Não é fácil, mas é preciso tentar!
A
primeira coisa é a afirmação de que a Costa Rica “é um paraíso para o crime
organizado”. É assim mesmo? Se assim for, a quem devemos responsabilizar pelo
que existe de correto nessa afirmação (que, na minha opinião, não é algo tão
generalizado)? Não tem nada a ver com seu partido (que governou o país durante
tantos anos), com sua bancada parlamentar?
Qualquer
pessoa minimamente informada sabe que a extradição de nacionais tem pouco – ou
nenhum – impacto na luta contra o narcotráfico. Sobre tal questão, veja-se a
situação do México ou da Colômbia. Ou, de certa forma, a própria situação dos
Estados Unidos, principal mercado das drogas, ou da lavagem de dinheiro, onde o
crime organizado sempre atuou com certa comodidade. Ou não?
O
desenvolvimento e a implantação do crime organizado em nossos países –
incluindo os Estados Unidos – têm muitas razões. Mas um modelo de
desenvolvimento cada vez mais excludente – na Costa Rica, baseado na
implantação de zonas francas, cujas consequências para o crescente desemprego,
sobretudo entre os jovens, e o déficit fiscal são bem conhecidas, estimulado
pela privatização dos serviços públicos – não é um dos fatores menos
importantes. Um modelo que o país vem promovendo há mais de 40 anos, incluindo o
governo atual.
Assim,
a extradição de nacionais continuará sendo um circo e uma ferramenta política
nas mãos dos Estados Unidos, mas não um instrumento eficaz de luta contra o
crime organizado.
Alguém,
algum meio de comunicação, já se perguntou por que, se considerarmos que a
extradição de nacionais é um instrumento tão importante para a concretização da
justiça, nenhum outro país demonstrou interesse em sua aplicação? Na verdade,
trata-se de uma medida com um destinatário bem definido: Washington. Embora não
faltem aqueles que, por aqui, elogiam a medida como um instrumento da “justiça
internacional”. Internacional? Não! Dos interesses norte-americanos.
A
imagem dos dois costarriquenhos nas mãos dos agentes da DEA no aeroporto
internacional de San José revelou a renúncia de um Estado a cumprir uma de suas
funções básicas, como já referimos.
A
extradição de nacionais acusados nos Estados Unidos responde a interesses
políticos, como ficou evidente com o sequestro do presidente venezuelano,
Nicolás Maduro, e com a investigação anunciada pelo FBI contra o presidente da
Colômbia, Gustavo Petro. Parece-me que o caso dos costarriquenhos não está
totalmente alheio a estes interesses políticos. Celso Gamboa, como sabemos, tem
um perfil político de destaque no país.
A
reforma constitucional que permitiu essa extradição foi aprovada no ano passado
por unanimidade pela Assembleia Legislativa. Nem um único deputado, homem ou
mulher, se manifestou contra.
Para
mim, é um exemplo da falência de um sistema político, da perda do sentido de
responsabilidade, da renúncia a um compromisso com o nacional, uma degradação
que o governo de Rodrigo Chaves representa, expressa com cinismo numa
declaração em que, na semana passada, anunciou a suspensão das relações
diplomáticas com Cuba, feita no contexto das ameaças do governo norte-americano
de que assumirá o controle do governo daquele país.
Não
surpreende, de qualquer forma, a posição do governo e do Ministério das
Relações Exteriores. Não deram mostras de qualquer independência em seus quatro
anos, que terminam agora em 1 de maio, nem contribuíram em nada para a
necessária reflexão sobre o lugar da América Latina na reconfiguração da ordem
internacional que está atualmente em desenvolvimento.
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As consequências políticas
Como
não se surpreender, então, com o ressurgimento, neste contexto de renúncia às
atribuições e capacidades do Estado, de propostas como a de dolarizar a
economia, tal como já fizeram, na América Latina, Panamá, Equador e El
Salvador, os aliados mais próximos de Washington?
É a
rota traçada por uma política neoliberal em que as funções do Estado de
integração social, de resposta às necessidades dos mais necessitados, vão
perdendo seu caráter, para se concentrarem nos interesses de uma minoria.
Um
modelo que, nos Estados Unidos, concedeu vantagens fiscais que dispararam a
concentração da riqueza, como nos lembrava uma notável reportagem do jornal New
York Times, publicada no dia 9 de março. “O surgimento de dezenas de novos
multimilionários ocorreu imediatamente após os cortes fiscais de 2017
impulsionados por Donald Trump no início de seu primeiro mandato”, afirmam. O
resultado é que hoje o 1% mais rico do país “controla 55,8 trilhões de dólares
em ativos, mais do que o PIB dos Estados Unidos e da China juntos”.
Creio
que muitos daqueles que ordenaram a entrega de cidadãos nacionais à justiça
norte-americana, aqueles que sonham em dolarizar a economia, não conseguem
imaginar destino mais feliz do que transformarmo-nos numa outra estrela da
bandeira dos Estados Unidos.
Não
consigo dissociar a imagem de dois cidadãos costarriquenhos (não direi uma
palavra sobre suas qualidades), entregues a funcionários da DEA em território
nacional, com essa desordem política no país, com a vergonhosa unanimidade com
que a medida foi aprovada na Assembleia Legislativa, com a necessidade de
reivindicar as funções de um Estado Nacional que promova a indispensável
solidariedade social, que assumam suas funções não delegáveis, como a de julgar
seus cidadãos que devam ser julgados, sem pretender fazer-nos acreditar que, ao
delegar essas funções a outras nações, a justiça avançará e nós avançaremos,
como nação. Será exatamente o contrário.
• O recado do império. Por Alexandre
Favaro Lucchesi
O novo
está na forma descarnada com que os EUA voltaram a enunciar seus objetivos. A
agenda inclui conter fluxos migratórios, militarizar o combate ao narcotráfico,
bloquear a influência chinesa, condicionar alianças, pressionar governos
recalcitrantes e premiar parceiros ideologicamente alinhados.
Mas o
antigo está na estrutura profunda dessa conduta, que é a reativação da América
Latina e do Caribe como espaço de disciplinamento geopolítico do “quintal
estratégico”. Não por acaso, o “laboratório de controle” é formulação precisa
para a política internacional MAGA.
Lida à
luz de Immanuel Wallerstein, a inflexão trumpista revela o comportamento típico
de um centro hegemônico pressionado por tensões sistêmicas. Em momentos de
perda relativa de dinamismo econômico e de crescente competição interestatal, a
potência dominante tende a reforçar mecanismos de controle sobre sua zona de
influência imediata, buscando compensar, no plano político-militar, aquilo que
já não lhe assegura com a mesma facilidade no plano econômico.
É
exatamente isso que aparece na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de
2025, quando o documento afirma explicitamente uma “Trump Corollary to the
Monroe Doctrine”, promete “reassert and enforce the Monroe Doctrine” e define
como meta “enlist and expand”. Alistar parceiros hemisféricos para conter
migração, neutralizar cartéis e reforçar a primazia estadunidense, ao mesmo
tempo em que se amplia a pressão para afastar influências extrarregionais sobre
portos, infraestrutura, ativos estratégicos e cadeias produtivas.
Os EUA
reservam-se o direito de recompensar governos e movimentos “aligned with our
principles and strategy” e de usar sua alavancagem financeira e tecnológica
para induzir países a rejeitar alternativas externas, num recado claramente
imperial.
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Fases de declínio
Na
leitura de Giovanni Arrighi dos ciclos sistêmicos de acumulação, fases de
declínio hegemônico costumam combinar financeirização, perda de liderança
produtiva e maior recurso à coerção. A novidade do trumpismo hemisférico não é,
portanto, a existência de essa pretensão imperial, mas sim a passagem de uma
hegemonia baseada também em consentimento, institucionalidade e promessa de
prosperidade para uma prática mais crua de comando, chantagem e demonstração de
força.
Quando
a estratégia oficial dos EUA no Hemisfério Ocidental passa a defender “targeted
deployments”, “use of lethal force” contra cartéis, expansão de presença
militar e condicionamento de ajuda e alianças ao recuo de influências externas,
o que está em jogo é administrar o entorno continental como espaço de
recomposição estratégica num contexto de disputa global com a China e de erosão
da legitimidade do universalismo liberal estadunidense.
A
centralidade do tema migratório confirma essa mutação. A Estratégia de
Segurança Nacional afirma que “the era of mass migration is over” e a associa a
fluxos populacionais a crime, terrorismo, espionagem e perda de soberania. No
plano latino-americano, isso significa que mobilidade humana, narcotráfico e
fronteira passam a ser tratados como partes de uma mesma gramática
militarizada.
A
região deixa de ser mostrada como parceira em desenvolvimento e volta a ser
concebida como cinturão de contenção. Não se trata somente de barrar pessoas,
mas de reorganizar o espaço continental segundo prioridades de vigilância,
interdição e externalização de custos. É um regionalismo de segurança
assimétrico, no qual o Sul administra os efeitos sociais da crise e o Norte
preserva sua capacidade de seleção soberana.
Os
fatos recentes confirmam essa linha. Em maio de 2025, o governo brasileiro
rejeitou uma solicitação de autoridades estadunidenses para classificar PCC e
Comando Vermelho como organizações terroristas, em uma agenda que os EUA
conectaram explicitamente à imigração, a sanções e à repressão transnacional.
Em agosto do mesmo ano, o governo de Donald Trump preparava opções militares
contra cartéis latino-americanos já designados como organizações terroristas
globais.
Em
março de 2026, a realização da cúpula “Shield of the Americas” foi o palco para
Donald Trump anunciar uma coalizão militar hemisférica voltada a “erradicar
cartéis”, enquanto membros do governo sustentavam que essas organizações
deveriam ser tratadas “just as brutally” quanto a Al Qaeda. Brasil, México e
Colômbia ficaram à distância ou demonstraram reservas, o que por si só revela
que não há consenso regional em torno dessa escalada.
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O destino manifesto retomado
O mesmo
padrão aparece no caso do Panamá. Logo no início de 2025, Donald Trump declarou
que os EUA iriam “retomar” o Canal do Panamá, evocando o imaginário do “Destino
Manifesto”. Pouco depois, o secretário de Estado Marco Rubio advertiu o governo
panamenho de que os EUA poderiam tomar “medidas necessárias” caso o país não
reduzisse aquilo que os estadunidenses classificaram como influência chinesa
sobre o canal e sua infraestrutura associada.
O ponto
central aqui não é apenas o canal em si, mas o fato de que logística, portos,
corredores marítimos e ativos estratégicos do istmo reaparecem como objetos de
tutela geopolítica direta. Seguindo Giovanni Arrighi, trata-se de impedir que
uma potência rival converta posições econômicas em influência estrutural dentro
da periferia historicamente subordinada ao centro estadunidense. É a prova de
que a disputa pela hegemonia global desce ao nível dos estrangulamentos
territoriais e dos nós logísticos do comércio mundial.
Venezuela
e Cuba ocupam, nesse tabuleiro, a função do exemplo punitivo. O episódio
venezuelano de janeiro de 2026 escancarou um projeto de submissão regional. A
Operação “Absolute resolve” capturou Nicolás Maduro e Washington passou a
pressionar severamente o entorno energético cubano, interrompendo o fluxo de
petróleo venezuelano para a ilha.
Em
março de 2026, o chefe do Comando Sul, Tenente-General Evan L. Pettus da Força
Aérea dos EUA, afirmou ao Senado que os EUA não se preparavam para invadir
Cuba, mas deixou claro que o país se encontrava pronto para defender
Guantánamo, responder a ameaças à embaixada e lidar com eventual migração em
massa.
Ao
mesmo tempo, a crise energética cubana agravou-se após o colapso da rede
elétrica nacional, num contexto de asfixia econômica reforçada pela pressão
norte-americana sobre fornecedores de combustível. O recado hemisférico é que
governos hostis, ou apenas insubmissos, podem ser cercados por uma combinação
de sanções, estrangulamento logístico, ameaça militar e deslegitimação
jurídica.
Nesse
sentido, a tese do “laboratório de controle” ganha uma densidade maior. A
América Latina não é apenas um terreno secundário no qual Donald Trump aplica,
em escala regional, sua agenda doméstica de securitização. Ela é também o
espaço onde uma potência em declínio relativo testa os instrumentos de uma
hegemonia menos universalista e mais abertamente disciplinar.
O
“laboratório” serve para três experimentos simultâneos. Primeiro, redefinir o
narcotráfico como terrorismo para legitimar novas formas de intervenção.
Segundo, aliar a criminalidade à migração e propor uma doutrina geopolítica de
contenção. E terceiro, remover ou reduzir presenças rivais, sobretudo chinesas,
em infraestrutura, energia, finanças e comércio. A segurança hemisférica é o
redesenho coercitivo de hierarquias num sistema mundial em transição.
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Enfraquecimento progressivo
Há,
contudo, um paradoxo decisivo. Quanto mais os EUA explicitam sua pretensão de
mando, mais enfraquecem os elementos consensuais de sua liderança. A reedição
de uma doutrina hemisférica em chave abertamente coercitiva pode produzir
obediência tática, mas tende a corroer legitimidade estratégica. Ao pressionar
o Panamá, hostilizar Cuba, militarizar o combate regional aos cartéis, buscar
enquadrar o Brasil em sua tipologia antiterrorista e converter a relação com a
América Latina num regime de comandos assimétricos, Donald Trump talvez consiga
vitórias pontuais; mas também acelera a percepção de que os EUA já não oferecem
um horizonte de hegemonia benigna, e sim um arranjo de subordinação de curto
prazo.
Segundo
Giovanni Arrighi, esse deslocamento do consenso para a coerção é precisamente
um dos sinais de exaustão dos ciclos hegemônicos. Para Immanuel Wallerstein, é
a marca de um sistema histórico em crise, no qual o centro já não organiza o
conjunto por direção estável, e sim por contenção violenta das margens.
Da
perspectiva latino-americana, a resposta precisa ser estratégica, o que não é
nada simples, pois envolve desde a coordenação regional, passando pela defesa
da soberania jurídica contra a expansão arbitrária da categoria de terrorismo,
e mesmo a resistência à militarização indiscriminada da agenda de segurança,
culminando em preservar autonomia decisória em infraestrutura e finanças,
retomando a integração como instrumento de proteção coletiva.
A
grande fragilidade regional é que ameaças bilaterais vêm sendo tratadas de
forma fragmentada, quando na verdade possuem natureza sistêmica e regional.
Enquanto a América Latina responder país por país, caso por caso, continuará
sendo laboratório. Só deixará de sê-lo quando voltar a agir como espaço
político.
Fonte:
A Terra é Redonda

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