Como
césio-137 em Goiânia pôs Brasil no mapa de piores acidentes radioativos do
mundo
Em
setembro de 1987, dois catadores de lixo na cidade de Goiânia entraram em uma
clínica abandonada, encontraram uma máquina ali dentro e a desmontaram.
Mal
sabiam eles que causariam o que já foi considerado o pior desastre nuclear do
mundo desde Chernobyl, em 1986, e o maior acidente radioativo da história fora
de uma instalação nuclear.
Os dois
homens, Wagner Pereira e Roberto Alves, retiraram a parte superior da máquina -
que era uma unidade de radioterapia usada para tratamentos contra o câncer - e
a levaram para casa em um carrinho de mão.
Eles
usaram chaves de fenda para abrir a pesada caixa de chumbo.
Dentro,
havia um cilindro que continha 19 gramas de césio-137, uma substância altamente
radioativa.
A
história agora é abordada na série 'Emergência Radioativa', que estreiou na
Netflix no dia 18 de março.
Os
homens que a encontraram venderam a cápsula para um ferro-velho, propriedade de
Devair Ferreira.
Um
relatório publicado um ano depois pela Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA) registrou que, em pouco tempo, Pereira e Alves começaram a sofrer com
vômitos frequentes, mas atribuíram à época os sintomas a uma intoxicação
alimentar.
Sofrendo
diarreia, tontura e com uma mão inchada, Pereira procurou atendimento médico no
dia 15 de setembro. Os sinais sugeriam, segundo o diagnóstico, um tipo de
reação alérgica causada pela ingestão de alimentos em más condições.
Três
dias depois, Ferreira entrou na garagem e notou um brilho azul emanando da
cápsula que havia comprado como sucata.
Achou
bonito o que via e pensou que aquele pó poderia ser valioso, como uma pedra
preciosa, ou mesmo algo sobrenatural.
Ele
levou o cilindro para casa.
Durante
os três dias seguintes, vários vizinhos, parentes e conhecidos foram convidados
a ver a curiosa cápsula.
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Como os brilhos do Carnaval
Um
amigo de Ferreira o visitou e, com a ajuda de uma chave de fenda, extraiu
alguns fragmentos do material raro, do tamanho de grãos de arroz, que se
desintegravam facilmente e viravam pó.
Ferreira
também distribuiu pedaços para a família. Houve vários casos de pessoas que
esfregaram o pó radioativo sobre a pele, como fariam com o brilho usado na
época do Carnaval.
Em 24
de setembro, Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou alguns fragmentos para casa e
eles foram colocados na mesa durante uma refeição. Sua filha de seis anos,
Leide das Neves Ferreira, os tocou enquanto comia, assim como outros
familiares.
Logo,
muitas pessoas adoeceram - 12 delas foram transferidas para um dos melhores
hospitais de Goiânia com os mesmos sintomas: diarreia, vômitos, febre alta e
queda de cabelo.
A
primeira pessoa a suspeitar que a cápsula com o pó brilhante estaria por trás
disso foi María Gabriela Ferreira, mulher do dono do ferro-velho.
Sueli
de Moraes, uma vizinha que também foi contaminada, contou à BBC News Brasil o
que aconteceu em seguida.
"María
Gabriela pôs o cilindro em um saco plástico e o levou, de ônibus, para um
escritório de saúde do governo local, onde ninguém sabia o que era, mas o
guardaram", lembrou ela.
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O físico
Já
haviam se passado 15 dias desde o início da contaminação. No hospital, os
médicos começaram a considerar a hipótese de envenenamento por radiação.
Quando
foram informados sobre a cápsula, os médicos pediram ao físico Walter Mendes
Ferreira que examinasse o dispositivo. Ele pediu emprestado um detector de
radiação de uma agência federal de prospecção de urânio e foi ao escritório de
saúde.
"Quando
estava a cerca de 80 metros do escritório o detector começou a agir de forma
estranha e pensei que estivesse com defeito", disse ele à BBC News Brasil.
Ele
pediu outro detector e voltou ao escritório.
"Mais
uma vez, a 80 metros, (o detector) começou a ficar saturado. Isso significava
que ou estava em um lugar com um campo de radiação muito alto, ou que ambos os
detectores estavam defeituosos."
Mendes
Ferreira conta que viu um bombeiro saindo do posto de saúde carregando o
cilindro a fim de jogá-lo no rio.
"Eu
disse: 'Pelo amor de Deus, não!'. Imediatamente, evacuei o posto de saúde e
perguntei aos trabalhadores locais de onde vinha aquilo. Eles me disseram que
uma mulher de um ferro-velho o havia levado. Fui ao ferro-velho e antes de
entrar, detectei radiação por todos os lados", lembra ele.
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Pânico
O
físico fez alertas às autoridades e instâncias públicas como a Comissão
Brasileira de Energia Nuclear (CNEN). Sua intenção era deter a contaminação e,
ao mesmo tempo, evitar o pânico. Mas os temores sobre um vazamento de radiação
se espalharam pelo Brasil.
Mendes
Ferreira conta que eles usaram ônibus da polícia, com o interior forrado por
chapas de plástico, para levar os possíveis contaminados para um estádio de
futebol vazio, onde ficaram em barracas de acampamento.
Milhares
de pessoas foram examinadas no local em busca de vestígios de radiação. Muitos
receberam alta após tomarem banho com água e vinagre. Mas outros foram enviados
para um abrigo temporário ou um hospital local.
Os
casos mais graves foram levados para um hospital militar no Rio de Janeiro.
De
acordo com relatório da AIEA, "a comunidade médica em Goiânia se mostrou
relutante em ajudar" e o medo da contaminação se estendeu pelo estado de
Goiás.
No
total, mais de 110 mil pessoas foram examinadas.
Verificou-se
que 249 delas tinham níveis significativos de material radioativo em seus
corpos.
Centenas
de pessoas com níveis leves de contaminação tiveram de permanecer em abrigos
especiais. Sueli de Moraes, que hoje é presidente da associação de vítimas,
passou três meses em um deles.
Ela
lembra que era preciso tomar banho com água, vinagre e sabão de coco, além de
trocar de roupa a cada meia hora.
"Tomamos
comprimidos para ajudar na descontaminação interna. Também tínhamos que
esfregar nossos pés, que eram as partes mais contaminadas. Não nos permitiam
sair ou receber visitas. Não podíamos assistir à TV, eles não queriam que
soubéssemos o que estava acontecendo lá fora", recorda.
O
ferro-velho e dezenas de casas foram demolidos. Centenas de objetos, de
refrigeradores a sofás, o pavimento de ruas inteiras, veículos, e até mesmo
árvores e animais foram destruídos e descartados como lixo nuclear.
O
desastre em Goiânia produziu cerca de 6.000 toneladas de resíduos, recolhidos e
enterrados em um centro especialmente preparado, a 20 quilômetros da cidade.
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As vítimas fatais
A
primeira pessoa a morrer foi Leide das Neves Ferreira, a menina de seis anos
que brincou com o pó brilhante e até engoliu um pouco do material. Tanto ela
quanto sua tia María Gabriela Ferreira morreram de septicemia e sepse -
infecções generalizadas - um mês após a exposição ao césio.
Seu
enterro em Goiânia ficou longe de ser um pacífico assunto de família. A vizinha
Sueli de Moraes diz que, quando os caixões chegaram ao cemitério, as pessoas
começaram a atirar pedras e tijolos, tentando impedir o sepultamento.
"Os
corpos foram descontaminados e eles decidiram enterrá-los em pesados caixões de
chumbo como uma precaução adicional para tranquilizar as pessoas. Mas o que
aconteceu foi o oposto. As pessoas entraram em pânico", diz De Moraes.
"Muitos
em Goiânia acreditavam que os corpos iriam contaminar o cemitério. E muitos no
Brasil acreditavam que toda a cidade estava contaminada, que os produtos
agrícolas do estado de Goiás estavam contaminados. Isso não era verdade, havia
muita desinformação que ajudava a espalhar o pânico", diz ela.
As
outras duas vítimas fatais foram homens que trabalhavam no ferro-velho.
Incrivelmente,
os catadores de lixo Wagner Pereira e Roberto Alves sobreviveram, assim como o
proprietário do ferro-velho Devair Ferreira.
Muitas
outras vítimas foram salvas pelo tratamento que receberam no hospital.
Em
1996, cinco pessoas ligadas à clínica onde havia sido abandonada a máquina de
radioterapia foram condenadas a três anos e dois meses de prisão por homicídio.
A pena foi reduzida depois a serviços comunitários.
O
governo passou a pagar pensões vitalícias para cerca de 250 vítimas.
Posteriormente, outras 2.000 pessoas, incluindo bombeiros, motoristas e
policiais que trabalharam nas unidades de emergência, também tiveram direito a
esses pagamentos.
Fonte:
BBC News Brasil

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