A
corrida armamentista e o colapso da segurança pública no Rio de Janeiro
A
dinâmica da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro consolidou-se, ao
longo das últimas décadas, como um laboratório trágico de políticas alicerçadas
na militarização e no uso ostensivo da força. A recente assinatura de um
contrato, superior a R$ 70 milhões, para a aquisição de um helicóptero militar
bimotor modelo Sikorsky UH-60 Black Hawk por parte do governo fluminense,
destinado à Polícia Militar, materializa a persistência dessa doutrina. Sob o
pretexto oficial de prover equipamentos blindados que garantam o transporte
tático e a superioridade em áreas conflagradas, a administração estadual
reitera um fetichismo tecnológico obsoleto. Em um cenário contemporâneo onde a
guerra assimétrica urbana foi radicalmente reconfigurada pela apropriação de
drones pelas organizações criminosas , a aquisição de maquinário bélico pesado
da era da Guerra Fria não apenas evidencia um profundo anacronismo tático, mas
escancara um modelo de gestão que produz letalidade e o esgotamento fiscal do
Estado.
Para
compreender a irracionalidade dessa corrida armamentista, é fundamental
analisar a insustentabilidade financeira que alicerça o atual modelo
fluminense. Segundo análises da Rede de Observatórios da Segurança, o Rio de
Janeiro é o estado da federação que mais compromete seus recursos com o aparato
repressivo, destinando proporcionalmente fatias exorbitantes ao setor. Em
orçamentos recentes, a previsão de gastos diretos com segurança pública
alcançou a marca de R$ 12,7 bilhões, o que representava 15,7% de todo o
orçamento estadual. No entanto, a verdadeira hemorragia emerge na
contabilização dos custos previdenciários: o impacto das aposentadorias e
pensões, impulsionadas pelas baixas e invalidezes precoces de agentes
superexpostos ao confronto contínuo, consome R$ 8,5 bilhões adicionais,
elevando o peso da segurança para estratosféricos 26,3% do tesouro estadual.
A
distorção de prioridades fica inegável ao se observar que os gastos com
inativos da segurança correspondem a mais que o dobro do gasto previdenciário
do setor de educação (R$ 4 bilhões), muito embora a educação possua um
contingente de beneficiários 83% superior. Esse dreno orçamentário canaliza 82%
das verbas apenas para o pagamento de salários e encargos. O resultado dessa
equação bélica é o abandono da elucidação de crimes: órgãos como a Polícia
Técnico-Científica e o Instituto de Segurança Pública (ISP), cérebros
estatísticos e periciais da persecução criminal, operam com repasses ínfimos e
estruturas precárias. O governo opta por investir R$ 70 milhões em um único
helicóptero, mas negligencia ferramentas forenses, rastreamento de lavagem de
capitais e tecnologias cibernéticas capazes de estrangular o fluxo financeiro e
logístico que irriga os arsenais do tráfico.
No
plano tático, a crença na superioridade do Black Hawk colide com a
democratização e o barateamento da guerra aérea. A verticalização do conflito
instaurou uma nova fase nas operações de segurança urbana. Inicialmente,
veículos aéreos não tripulados (VANTs) de uso civil eram empregados como
“mulas” para transpor muralhas de presídios com drogas e celulares. Logo
depois, facções como o Comando Vermelho (CV) evoluíram para o uso de
equipamentos de alta resolução para inteligência e contravigilância, monitorando
tropas policiais e bases do Estado de modo a anular o fator surpresa. A
inflexão definitiva rumo à “guerra open source“, contudo, deu-se com a
adaptação de mecanismos de baixo custo que transformaram drones de filmagem em
plataformas de bombardeio. O recrutamento de conhecimento especializado também
demonstra a gravidade do cenário, como exemplificado pela prisão de um militar
da ativa da Marinha do Brasil que desenvolvia garras de liberação de explosivos
e instruía criminosos nestas novas táticas de ataque aéreo.
A
materialização dessa doutrina insurgente ocorreu de forma trágica em 28 de
outubro de 2025, durante a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do
Alemão. Na ocasião, um efetivo de aproximadamente 2.500 policiais civis e
militares enfrentou granadas lançadas por drones controlados por traficantes.
Este evento selou a perda empírica da supremacia do espaço aéreo pelo Estado.
Diante de pequenos aparelhos que custam parcos milhares de reais e são
pilotados de dentro de construções civis por operados indetectáveis, a
blindagem e os 200 km/h de velocidade máxima de um helicóptero de R$ 70 milhões
oferecem pouca vantagem real em um ambiente de vielas e morros densamente
povoados.
O
colapso da viabilidade dos helicópteros em zonas de negação assimétrica do
espaço aéreo não é um pressuposto teórico, mas uma realidade comprovada
internacionalmente. A invasão russa à Ucrânia evidenciou como nações em
desvantagem material podem anular blindados terrestres e aeronaves
multimilionárias mediante o emprego massivo de drones kamikazes do tipo FPV
(First-Person View). Mais próximo à realidade fluminense, o cenário na Colômbia
emite um alerta irrefutável. Em 21 de agosto de 2025, no município de Amalfi,
departamento de Antioquia, um helicóptero Black Hawk idêntico ao comprado pelo
Rio de Janeiro, pertencente à Polícia Nacional Colombiana, foi completamente
destruído em pleno ar por um drone FPV carregado com explosivos. O ataque,
reivindicado por dissidências das FARC e que matou 12 policiais, forçou a
Colômbia a alterar imediatamente seus protocolos de voo. Se narcotraficantes
sul-americanos já possuem meios para abater aeronaves militares blindadas em
áreas rurais abertas, a vulnerabilidade de um Black Hawk pairando a baixa
altitude sobre os obstáculos naturais e lajes do Rio de Janeiro atinge um
limiar crítico e inaceitável.
No
entanto, a externalidade mais sombria da insistência nesse paradigma de guerra
encontra-se no custo humano imposto às populações periféricas e na deliberada
corrosão da transparência democrática. A letalidade torna-se um projeto
institucional. A mesma Operação Contenção de outubro de 2025 consolidou-se como
a mais letal da história do estado, registrando 121 mortes sob profundo
escrutínio do Supremo Tribunal Federal. As contradições no relatório enviado ao
STF pelo governador expuseram a leniência sistêmica com os abusos: embora a
justificativa para a megaoperação tenha sido o cumprimento de mandados, a
contagem de prisões, armas apreendidas e as alegações institucionais mostraram
graves divergências. O mais estarrecedor revelou-se na fraude do uso de câmeras
corporais (bodycams). O governo admitiu posteriormente que a Coordenadoria de
Recursos Especiais (CORE) mobilizou 128 agentes, mas apenas 60 estavam
equipados com o dispositivo; dentre estes, metade apresentou supostas “falhas
técnicas” em suas estações de recarga, garantindo o anonimato audiovisual dos
disparos em meio à chacina centenária.
Os
danos colaterais são mensuráveis e devastadores para a estrutura civil. Segundo
o relatório de 2025 do Instituto Fogo Cruzado, o Rio de Janeiro acumulou 2.532
tiroteios ao longo do ano civil de 2024, sendo que a maior proporção histórica,
36% dos confrontos, foi originada direta e proativamente pelas forças de
segurança do Estado. A rotina militarizada resultou na paralisação de 1.968
unidades de ensino e interrompeu os serviços de 1.136 unidades de saúde, além
de cravar o recorde inaceitável de 26 crianças de até 11 anos baleadas. A
corrida armamentista não garante paz; ela suspende os direitos fundamentais
constitucionais nos territórios marginalizados.
A
aquisição do helicóptero Black Hawk representa, portanto, a quintessência de
uma política de segurança baseada no populismo punitivo e na irracionalidade
administrativa. Em lugar de destinar montantes milionários à compra de
superestruturas vulneráveis e à manutenção de uma máquina de pensões e mortes,
a pacificação dos territórios fluminenses demanda uma ruptura dogmática. A
desidratação do crime organizado ocorrerá apenas pela inteligência financeira,
pela retomada permanente de territórios controlados e pelo combate à corrupção
que afeta as instituições do Estado.
A paz
social no Rio de Janeiro não descenderá dos rotores de um helicóptero
estrangeiro projetado para combates convencionais. Enquanto o poder público se
apegar à estética do confronto armado e à retórica vazia da supremacia
material, continuará financiando uma guerra assimétrica perdida, cobrando o seu
déficit insustentável em dinheiro público e, sobretudo, em sangue dos moradores
das periferias controladas pelo crime organizado.
• Violência armada impediu 190 mil
crianças de chegarem às escolas no RJ
Além de impactar o cotidiano, a integridade
física e mental da população, a violência armada também prejudica a ida e volta
das crianças às escolas. Estudo divulgado nesta quinta-feira (25) pelo Unicef,
o Fundo das Nações Unidas para a Infância; o Instituto Fogo Cruzado e a
Universidade Federal Fluminense aponta que cerca de 190 mil estudantes tiveram
percursos interrompidos para a escola, na cidade do Rio de Janeiro, por causa
de conflitos armados.
A
pesquisa, que se refere ao período entre janeiro de 2023 e julho de 2025,
analisa como a violência armada interfere na mobilidade urbana e compromete o
acesso de crianças e adolescentes a direitos básicos, como a educação.
Neste
período, foram identificadas 2.228 interrupções no transporte público da
cidade, fazendo os estudantes perderem praticamente um dia inteiro de aulas. A
maioria está associada a barricadas montadas pelo crime organizado e outras
ações criminosas; operações policiais, manifestações e registros de tiros ou
tiroteios.
Dentre
as pouco mais de 4.000 unidades escolares ativas em 2024 na capital fluminense,
cerca de 95% registraram ao menos uma interrupção do transporte público em seu
entorno ao longo do período analisado.
Para o
Unicef essas interrupções tornam a rotina escolar instável e dificultam a
permanência e o aprendizado dos alunos. De acordo com Flávia Antunes, chefe do
escritório do Unicef no Rio de Janeiro, esses eventos se concentram em
determinados bairros da cidade, produzindo calendários muito diferentes,
reforçando que a violência armada aprofunda as desigualdades que já existem.
“O
Unicef acredita que o maior desafio é garantir a circulação segura e previsível
nos territórios mais afetados. O outro desafio é integrar políticas públicas
que hoje operam de formas separadas, especialmente transporte, segurança
pública e educação. O Unicef entende também que é fundamental a gente reduzir
as desigualdades territoriais. Também que é essencial que a gente garanta
planos de continuidade da mobilidade e da educação para que as crianças e
adolescentes consigam chegar à escola e manter suas atividades mesmo em
contextos de grande instabilidade”.
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Dos 166 bairros cariocas, 96, ou seja, mais da metade, registraram ao menos uma
interrupção. O diretor de Comunicação do Rio Ônibus, o sindicato das empresas
de ônibus do Rio de Janeiro, Paulo Valente, admitiu que esse cenário de violência
dita o ritmo das ruas, tornando inviável, em diversas ocasiões, a manutenção do
serviço.
Além
dos efeitos da interrupção do transporte, ele citou que empresas têm ônibus
utilizados em barricadas ou incendiados nesses episódios. Já a Supervia,
responsável pelo transporte ferroviário de passageiros na Região Metropolitana,
informou que entre janeiro de 2024 e julho de 2025 o serviço foi interrompido
24 vezes por causa de tiroteios. O MetrôRio não respondeu sobre o impacto da
violência armada na circulação das composições.
Fonte:
Por Roberto Uchôa de Oliveira Santos, para Le Monde /Agencia Brasil

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