Sopravento:
crise política e conflito social no Brasil pós-2013
Medir
forças: quando, em uma comunidade política, a liberdade da forma se separa da
liberdade do conteúdo, isso sinaliza ao Estado a necessidade de determinar. O
Estado passa a agir como se estivesse em guerra – ainda que latente – contra si
mesmo. No principado civil, a censura à “liberdade de conteúdo” é o indício
dessa passagem. Junho de 2013 permanece como ponto de inflexão da crise
política brasileira. O biênio 2013-2014 revelou simultaneamente a emergência do
conflito social e o medo de suas consequências, em um processo marcado por
sincronismo e massificação inéditos. Já em 2015-2016, esse conflito é contido e
deslocado: o protagonismo das ruas passa a grupos de direita emergentes,
culminando no impeachment de Dilma Rousseff – aceito sob a promessa de “esfriar
as ruas”. O resultado foi um governo profundamente impopular, sustentado menos
por consenso do que por exaustão.
A
frágil mobilização pelo “Fora Temer” exemplificou essa passagem. A Reforma
Trabalhista e o ajuste fiscal consolidaram o novo tom: austeridade e perda de
direitos impostas no interior de um golpe rapidamente assimilado.
Em
2018, acumulam-se sinais de ruptura: o assassinato de Marielle Franco e a
obscuridade de sua investigação; a prisão de Lula; o colapso de alternativas
eleitorais moderadas; a facada que vitimou Jair Bolsonaro, abrindo espaço para
a emergência de novos termos simbólicos na disputa e reconfigurando o lugar do
próprio conflito político. É nesse cenário que emerge Bolsonaro, até então
figura marginal, apoiado pela expectativa difusa do empresariado – seja para
aprofundar o “esfriamento” iniciado por Temer, seja para viabilizar novos
“choques de ordem”.
Seu
governo desdobrou tendências anteriores de desestruturação neoliberal, mas
introduziu marcas próprias: a militarização da segurança pública, as investidas
sobre a Polícia Federal e a centralidade do discurso moral-religioso, que
redefiniu a luta política em termos político-culturais. Ao mesmo tempo, o uso
direto da máquina estatal para estruturar redes de comunicação e propaganda
revelou ao mesmo tempo a urgência e o improviso de uma oligarquia política em
ascensão.
No
plano econômico, essa experiência também expôs um descompasso revelador. A
agenda conduzida por Paulo Guedes apresentou-se como a mais explicitamente
liberal desde os anos 1990, orientada pela promessa de redução do Estado,
privatizações e disciplina fiscal. No entanto, sua realização foi irregular e
frequentemente contraditória: reformas importantes conviveram com expansões
significativas de gasto público, sobretudo em momentos de crise e pressão
eleitoral. Mais do que a implementação de um programa neoliberal coerente, o
que se observou foi a tentativa – apenas parcialmente bem-sucedida – de alinhar
a ação estatal a uma lógica de mercado, continuamente tensionada pelas
exigências políticas da própria governabilidade.
Em
2022, o confronto eleitoral reorganiza as forças abertas em 2013: Lula,
candidato popular com apoio das elites; Bolsonaro, candidato das elites com
apoio popular. A pandemia expôs os limites do bolsonarismo enquanto forma de
governo, abrindo caminho para o retorno, em 2023, de um governo popular apoiado
pelas elites. Por que essa combinação seria preferível? Maquiavel sugeriria:
para manter a “chave da cidade” nas mãos do povo por mais tempo, aposta-se na
mediação de lideranças com trajetórias populares, sindicais e democráticas.
É
justamente aí, contudo, que a hegemonia lulista encontra seu principal impasse.
Forjada na aliança entre sindicalismo e elites intelectuais no final do regime
militar, e consolidada ao longo de mais de quatro décadas de atuação eleitoral
e estatal, estruturada na articulação entre práticas sindicais e parlamentares,
trata-se hoje de uma hegemonia envelhecida no poder. Não apenas no sentido
biográfico – lideranças majoritariamente masculinas, brancas e acima dos 50
anos –, mas sobretudo no sentido político: uma forma de direção que já não se
renova com a mesma capacidade de absorver e reorganizar o conflito social. E
isso não é irrelevante.
Em
termos gramscianos: quando uma corrente popular alcança o poder e não o
transforma, ela se vê compelida a conter os efeitos de seu próprio impulso
originário sobre aqueles que vêm depois.
Quase
treze anos após junho de 2013, o que se observa é uma elevada permeabilidade do
governo petista às elites econômicas, intelectuais e culturais – nacionais e
internacionais – combinada a grandes esforços, e resultados limitados, na
administração de alianças com grupos políticos fisiológicos e frequentemente
corruptos.
Essa
forma de governar encontra seus limites mais evidentes justamente nos pontos em
que a transformação exigiria confrontar diretamente estruturas históricas de
propriedade e de poder: a questão agrária, os direitos territoriais indígenas e
a vida nas periferias urbanas.
Nesses
terrenos, a lógica da conciliação revela sua rigidez: torna-se pouco permeável
à crítica de políticas implementadas sob racionalidade de mercado, mesmo quando
voltadas à inclusão. Somado a isso, os cortes e contingenciamentos na educação
e na saúde públicas, a transferência de recursos para o grande capital e a
expansão de formas precarizadas de trabalho – como a uberização – indicam não a
ausência de ação estatal, mas a dificuldade em romper com os parâmetros que
organizam essa ação.
Como
lembram, por caminhos distintos, Ailton Krenak e Nego Bispo, há dimensões da
vida social – ligadas à terra, ao território e às formas de existência – que
não se deixam traduzir integralmente na linguagem da governabilidade sem que
percam aquilo que lhes é constitutivo. Até que ponto uma estratégia fundada na
conciliação consegue incorporar conflitos que, por sua própria natureza,
colocam em xeque os próprios termos dessa conciliação?
A
questão não é moral, mas estratégica: uma força popular que chega ao poder deve
decidir o que conservar e o que transformar. Não pode mudar tudo – mas tampouco
pode deixar tudo como está, sob pena de não caber na posição que ocupa. Deve
ampliar e deve envolver. A linguagem que garantiu a vitória de 2022 mostrou-se
eficaz, mas era estreita. As jornadas de 2013 foram também berço de grupos de
extrema-direita e funcionaram como antessala do bolsonarismo, derrotado
eleitoralmente em 2022. Os atos de 8 de janeiro de 2023 foram contidos e
punidos democraticamente. Mas o que se segue a isso?
A
questão remete à reflexão de Gramsci sobre a hegemonia antes e depois da tomada
do poder. O “dia seguinte” à vitória eleitoral – sobre o neoliberalismo, ou
mesmo sobre formas neofascistas – coloca problemas próprios. A punição aos atos
golpistas foi necessária, mas acabou também funcionando como um álibi para o
endurecimento da forma de governar, inclusive no interior da própria coalizão,
e essa questão foi suprimida do horizonte.
O
problema estratégico da forma petista de governar – e que a esquerda, em larga
medida, aprendeu não apenas a reconhecer, mas também a naturalizar – reside no
fato de que ela se orienta por uma dupla soberania. Trata-se de uma forma de
exercício do poder que busca simultaneamente responder às expectativas de sua
base social e às exigências de reprodução da ordem institucional e econômica
vigente. De certo modo, esse desdobramento remete ao diagnóstico das “duas
almas do socialismo” formulado por Hal Draper para análise do socialismo
democrático nos Estados Unidos nos anos 1960 e mobilizado por Gildo Marçal
Brandão nos anos 1990 para pensar a trajetória do Partido Comunista Brasileiro
desde os anos 1920, marcada por uma oscilação estrutural entre dois princípios
de legitimação: de um lado, a fidelidade a um projeto de transformação social
ancorado nas classes trabalhadoras; de outro, a necessidade de reconhecimento e
inserção no sistema político existente. O caminho é longo.
Não se
trata, em ambos os casos, de uma contradição conjuntural ou de um simples
“desvio de linha”, mas de trajetórias específicas de constituição política
prática que acompanham, informam e integram o Estado brasileiro. Nelas, o arco
histórico é desenhado pela tendência da mediação independente converter-se em
mediação dependente do Estado, e a estratégia de transformação em administração
de equilíbrios instáveis do sistema político. Os ritmos assumidos por essa
duplicidade – entre participação e governabilidade, entre conflito e acomodação
no Estado – definem tanto os limites quanto alcance das experiências.
A
questão, portanto, não é apenas reconhecer que todo partido popular possui essa
duplicidade, mas orientar suas proporções. O poder não se reduz à alternância
entre polos (e homens) fixos: ele se desloca, se recompõe e redefine seus
próprios termos. A questão decisiva é quem guia esse movimento – e a partir de
quais forças. Soprar a favor do vento não basta; é preciso, novamente, saber de
onde ele vem.
• PT – a quantas anda? Por Lucas Donhauser
Estamos
em 1982, ainda sob o regime militar. Em breve teremos a primeira eleição direta
para governadores dos estados. O Partido dos Trabalhadores foi recém-criado, e
um operário metalúrgico do ABC Paulista, conhecido como Lula, surge como um
grande representante político, uma espécie de “eleito da matilha”, capaz de
congregar, em seu nome próprio, as forças populares.
Nesse
mesmo ano, o psicanalista e militante francês Félix Guattari, muito atento às
mutações do desejo e dos regimes de subjetividade pelo mundo, e interessado nos
movimentos de luta minoritários, aportará no Brasil. Em sua vinda, fará uma
entrevista com Lula, publicada pela editora Brasiliense, ainda em 1982, com o
título Félix Guattari entrevista Lula. Esse opúsculo, menor e marginal em
relação a tantos outros textos e livros de Félix Guattari – e mesmo em relação
aos debates e discursos históricos de Lula – ainda guarda uma ressonância entre
o período inicial da abertura democrática nos anos 1980 e o presente.
Passados
mais de quatro décadas desse encontro realizado em São Paulo, resolvi pinçar
três passagens desse diálogo, em um momento oportuno por anteceder um evento
importante da cena pública brasileira: as eleições.
A
primeira passagem que gostaria de destacar aparece logo no início da
entrevista. Refere-se ao comentário de Félix Guattari sobre o enunciado que ele
percebeu em uma faixa, na apresentação pública dos candidatos do PT: “nós
sabemos trabalhar, nós sabemos governar”. Ao trazer à cena tal enunciado, o
psicanalista parece querer provocar o seu entrevistado a falar algo sobre a
possibilidade de rompimento com a suposta ideia de que as bases da sociedade
não seriam capazes de governar. Lula toma a palavra, sustentando que a questão
toda seria saber de que lado está o Estado: dos trabalhadores ou do poder
econômico.
A
segunda passagem acontece quando Félix Guattari retoma a convenção do PT que
ocorreu em julho de 1982, momento em que Lula reafirmou que o partido não faria
nenhum acordo com o PMDB (atual MDB) e nem pretenderia uma coalizão com a
esquerda tradicional. Essa posição seria mantida? Ao que Lula responde,
primeiro em relação à coalizão de esquerda, dizendo que não seria possível
conciliar interesses tão divergentes; depois, em relação à governabilidade em
aliança com o PMDB: “eu não acredito que o avanço de uma classe possa depender
simplesmente do fato de que alguns de seus membros ocupem cargos oficiais”.
A
entrevista segue até que, interpelado por Lula – esta é a terceira passagem –,
Félix Guattari assume a posição de entrevistado. Depois de uma extensa fala,
Lula diz, categórico: “a grande força, a melhor arma do PT é justamente isto –
o não dogmatismo”.
A
partir de então, Félix Guattari reassume a posição de entrevistador e pergunta
– após comentar sobre o seu contato com o partido e a militância em diferentes
lugares do país – se Lula não teria a impressão de que, no interior do próprio
partido, coexistiam muitos componentes tradicionais, dogmáticos. “Será que os
velhos grupelhos que também investiram no PT estão evoluindo do seu lado?”.
Lula
retruca, seguro e otimista. Resgata uma expressão que chegou a tomar a cena
pública alguns anos antes: “a tendência é, antes de tudo, à sua “diluição” no
interior do PT, sem que haja, no entanto, “patrulhas ideológicas”.
Em
1982, no mesmo período em que a entrevista com Lula foi realizada, a convite de
Suely Rolnik, Félix Guattari aceita fazer uma viagem por algumas regiões do
Brasil, que naquele momento estavam sendo tomadas pelo clima das eleições.
Embora o regime militar ainda estivesse de pé, alguma abertura já se iniciava,
o que despertava um intenso sentimento de revitalização, especialmente do
inconsciente, como dirá Suely Rolnik. Essa era a atmosfera que atraía Félix
Guattari.
A
viagem acontece, assim como uma série de conferências, debates e entrevistas. A
escolha dos temas e dos lugares se deu privilegiando o encontro com grupos e
sujeitos que se constituíam como “subjetividades dissidentes”.
Mais
tarde, o material registrado comporá o livro Micropolítica: cartografias do
desejo, assinado por Suely Rolnik e Félix Guattari. Trata-se de um livro
estranhamente singular – e estranhamente singular porque nele os autores
decidiram manter alguns elementos que geralmente ficam de fora do processo,
pelo menos para o leitor. Uma das belezas de Micropolítica é justamente a de
ter preservado o fora do texto no texto; ter mantido a inclusão do fora, isto
é, o “forincluído”.
Essa
forinclusão no texto refere-se às preocupações em relação ao que seria
relevante entrar como registro histórico, como “impressões de viagem”. Ao
acompanharmos o texto, vemos que ele vai expondo dúvidas: talvez não fosse tão
interessante apresentar ao leitor o lado “campanha eleitoral” (Suely Rolnik
referia-se aos encontros que, entre outros assuntos, tiveram a pauta eleitoral
como tema), uma vez que naquele momento essa pauta teria perdido a sua
atualidade.
Por
outro lado, também era interessante mostrar o que para Félix Guattari era
central: visar não o PT como entidade sacralizada, “mas a mídia que o PT estava
sendo naquele momento. Mídia para as questões relativas às formações do desejo
no campo social; mídia, sobretudo, para a articulação desse plano de realidade
com o [plano] das lutas que requerem grandes aglutinações”.
Na
dúvida, Suely Rolnik endereçará carta a Félix Guattari, que lhe responde: é
importante esconder o menos possível a problemática da organização, da
constituição de uma máquina de luta de um novo tipo. Mesmo que nada pudesse
garantir que o PT continuasse sendo, futuramente, um grande aglutinador de
forças minoritárias, e nem mais estivesse a ocupar, no plano político, a
posição de articulador – juntamente com os movimentos sociais – das
reivindicações e lutas populares.
O que
contaria mesmo não seria tanto o resultado, mas a problemática e como ela
emergiria naquele momento. Antes o processo, a deriva desse foco revolucionário
em potencial arrastado por Lula e pelo PT, e que colocava a nu os problemas
enfrentados pela população brasileira. Os desdobramentos dessa problemática
poderiam ser muitos, e efetivamente não haveria garantias.
Se tudo
for para o brejo, escreve o psicanalista, se o PT se transformar em PMDB e Lula
não mais se colocar como um representante desse processo que o escolheu a
partir das bases populares, “isso apenas vai querer dizer que a consistência do
processo não pegou nesse tipo de agenciamento. E que as lutas de revolução
molecular vão seguir por outras linhas, por outras vias. Com otimismo ou
pessimismo, o problema se recolocará de qualquer maneira”.
Posteriormente,
em outra correspondência, em carta datada de 24 de maio de 1983 – que poderia
ser 2026 –, Félix Guattari pergunta a sua amiga: e o PT, a quantas anda? Dá
para esperar algo ainda? As perguntas ficarão em aberto, sem que Suely Rolnik
as responda – pelo menos não chegaram até o leitor. Elas continuam a ecoar,
juntamente com muitas outras, e nos convidam à retomada desses registros
menores de nossa história.
Se em
1982 Lula conseguia afirmar categoricamente que o Estado deveria estar do lado
dos trabalhadores e não do lado da burguesia (do poder econômico), hoje o mesmo
Lula e o PT, apesar de ainda partilharem dessa perspectiva no plano discursivo,
ainda a mantêm no plano efetivamente político das lutas sociais?
Se em
1982 Lula poderia afirmar com muita segurança que os componentes dogmáticos e
fisiológicos no interior do próprio partido seriam diluídos, pois eram menores,
insignificantes, o mesmo Lula e o PT podem responder, hoje, de maneira tão
segura e otimista?
Estamos
em 2026. Não é mais o regime militar. Em breve teremos eleições para presidente
da República, Senado, Câmara e governadores. O processo que as antecede é
importante para sentirmos e avaliarmos a atmosfera, as forças em jogo. E temos
visto exatamente isso. Como bem disse Félix Guattari – e não se trata aqui de
resignação –, as lutas de revolução molecular sempre seguirão, mesmo que por
outras linhas, por outras vias. Com otimismo ou pessimismo, o problema será
recolocado de qualquer maneira.
Seria
então o caso de nos perguntarmos se essa via, hoje, não é a do fascismo.
Caberia nos perguntarmos se a via de base popular não teria sofrido importante
– e não menos catastrófica – mutação, tornando-se uma espécie de
“contrarrevolução molecular”, para usar a expressão acertada de Vladimir
Safatle em livro recente, inclusive com a ajuda da esquerda e de muitos
partidos que se dizem de esquerda.
De todo
modo, todas essas questões permanecem ainda em aberto e atuais, sobretudo para
Lula e para o PT.
Afinal,
e o PT, a quantas anda? Ainda podemos esperar algo?
Fonte:
Blog da Boitempo/Terra é Redonda

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