terça-feira, 31 de março de 2026

Insider trading? Os negócios suspeitos pré-anúncios de Trump

Cerca de 15 minutos antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar a suspensão dos ataques à infraestrutura energética do Irã, na última segunda‑feira (23/03), os mercados registraram uma movimentação abrupta nos contratos de petróleo. Nesse intervalo, investidores negociaram centenas de milhões de dólares da commodity, antecipando-se à publicação do republicano e evitando perdas com a posterior queda nos preços.

O episódio reacendeu o escrutínio no país por repetir um padrão observado durante sua presidência, em que investidores adotam comportamentos atípicos pouco antes de anúncios oficiais sobre temas como operações militares e tarifas.

Além dos contratos futuros de petróleo, atividades cronometradas deste tipo também surgiram em outros segmentos financeiros nos últimos meses, incluindo índices de ações (S&P 500 e Nasdaq), mercados de apostas, operações de câmbio e até criptomoedas.

Os casos levantaram suspeitas nos Estados Unidos sobre possíveis vazamentos de informação do governo ao mercado, inclusive o brasileiro. A prática irregular, associada ao insider trading, ocorre quando investidores operam com base em informações privilegiadas que deveriam ser confidenciais, negociando de forma a lucrar com a antecipação de um anúncio oficial.

Não há evidências concretas de que a Casa Branca esteja repassando informações confidenciais para beneficiar investidores ou suavizar impactos. Especialistas apontam que o comportamento súbito e as frequentes mudanças de direção de política de Trump acabam fornecendo sinais ao mercado, que interpreta esses padrões e tenta antecipar decisões políticas.

No caso do presidente americano, que anuncia decisões oficiais diretamente nas redes sociais e sem aviso prévio, os mercados passaram a monitorar diretamente sua comunicação online – fenômeno apelidado nos EUA de "Volfefe Index". Na prática, suas postagens têm potencial para mover mercados globais e estimular comportamentos preditivos, inclusive em bolsas europeias.

Além disso, grandes fundos operam constantemente com base em sinais macroeconômicos, o que pode gerar a percepção de movimentos "perfeitos" antes de anúncios.

Por outro lado, a repetição recente dessas "coincidências" vem aumentando as críticas sobre a gestão Trump. A Casa Branca afirma reiteradamente que não tolera qualquer autoridade que se "beneficie ilegalmente de informações privilegiadas".

"O que chama atenção aqui não é apenas o tamanho das operações, mas o timing", disse Stephen Innes, analista da SPI Asset Management, à agência de notícias AFP, ao ser questionado sobre a movimentação mais recente.

"Traders não são clarividentes. Quando as posições mudam minutos antes de um anúncio capaz de mexer com o mercado, isso geralmente significa que alguém está agindo com [...] informações antes de a notícia vir a público", acrescentou.

Relembre os movimentos do mercado que aconteceram minutos antes de anúncios de Trump.

<><> Negociações de petróleo minutos antes de queda dos preços

No último sábado (21/03), Trump havia prometido destruir a infraestrutura energética do Irã se o país não permitisse o tráfego de navios no Estreito de Ormuz em 48 horas. O bloqueio da navegação no Golfo tem gerado forte pressão sobre o governo americano, devido à disparada de preços do petróleo e sua reação em cadeia em outros setores.

Teerã, porém, não cedeu à ameaça, o que levou o preço da commodity a subir mais uma vez nas primeiras horas de segunda-feira (23/03), com a abertura das bolsas na Ásia.

Às 7:04 daquele dia (horário local), Trump subiu seus primeiros posts indicando que recuaria dos ataques. Segundo ele, houve "conversas produtivas" com Teerã que o levaram a postergar a ofensiva contra as bases energéticas do Irã por cinco dias. Os preços do petróleo bruto Brent caíram de 114 dólares por barril para 97 dólares em poucas horas.

No entanto, minutos antes, entre 6:49 e 6:51 do mesmo dia, mais de 760 milhões de dólares (R$ 4 bilhões) em contratos futuros de petróleo foram negociados, incluindo o Brent e o West Texas Intermediate. O jornal americano Wall Street Journal também indica que um movimento similar ocorreu no índice de ações americano S&P 500, o que levou investidores a contornarem perdas.

Na comparação com semanas anteriores, o movimento pode ser considerado atípico para uma segunda-feira, indicam observadores.

Além disso, não havia sinais claros de que uma negociação entre Washington e Teerã poderia sair do papel. O Irã chegou a rebater Trump horas depois e afirmar que nenhuma conversa sobre o estreito havia ocorrido durante o final de semana.

<><> Apostadores lucram com timing dos ataques no Irã

A especulação sobre uso de informação privilegiada também se espalhou para os mercados de previsão, que permitem aos usuários apostar na probabilidade de milhares de eventos globais.

A empresa de análise Bubblemaps afirmou que seis contas lucraram cerca de 1,2 milhão de dólares (R$ 6 milhões) com dezenas de apostas feitas na plataforma Polymarket, prevendo corretamente ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. As apostas foram registradas horas antes de os ataques começarem.

Segundo a Bubblemaps, um único apostador apresenta um padrão recorrente de apostas certeiras. Ele também lucrou em outubro de 2024, quando acertou a data dos ataques israelenses contra o Irã, com aposta realizada novamente poucas horas antes de seu início.

Uma revisão do site da Polymarket feita pela agência de notícias Reuters identificou que, ao todo, um total 529 milhões de dólares foram apostados em contratos ligados ao timing de ataques (R$ 2,7 bilhões), enquanto 150 milhões de dólares (R$ 790) foram direcionados a contratos sobre a possível remoção do antigo líder supremo aiatolá Ali Khamenei de seu cargo.

<><> Remoção de Nicolás Maduro remunera apostadores

Senadores democratas também manifestaram preocupação, em 23 de fevereiro, de que os mercados de previsão estariam violando regras ao criar incentivos para fomentar conflitos ou divulgar informações sigilosas, depois que um trader obteve cerca de 410 mil dólares (R$ 2,1 milhões) apostando na queda do líder venezuelano Nicolás Maduro.

Em 2 de janeiro, Trump autorizou a ação que levou à captura de Maduro, em Caracas. Embora a notícia da operação só tenha sido divulgada posteriormente, uma série de apostas na queda do venezuelano foram feitas na Polymarket entre dezembro e janeiro.

O que gerou suspeita foi a identificação de que a última aposta fora registrada menos de uma hora antes de os militares serem autorizados pela Casa Branca a prosseguir com a intervenção na Venezuela.

<><> Recuo tarifário dispara índices de mercado

guerra comercial lançada por Trump contra diversos países também gerou especulações de insider trading e manipulação de mercado.

Entre os dias 9 e 14 de abril de 2025, Trump anunciou diversos recuos ao seu tarifaço global, reduzindo restrições à importação de produtos eletrônicos ou mesmo pausando o tarifaço horas após sua entrada em vigor.

As decisões reverteram temporariamente quedas históricas nas bolsas de valores ao redor do mundo disparadas por sua decisão anterior de sobretaxar parceiros comerciais com tarifas que chegavam a 50%.

Em 9 de abril de 2025, a sobretaxa a países e blocos como China, Japão e União Europeia entrou em vigor, levando a um choque nos mercados. Trump procurou amenizar o impacto, afirmando nas redes sociais que era uma "ótima hora para comprar". Horas depois, interrompeu as tarifas globais por 90 dias, o que levou o índice americano S&P 500 ao seu maior ganho diário desde 2008 e o Nasdaq ao segundo melhor desempenho em quase duas décadas.

Em meio às movimentações, observadores identificaram negociações na bolsa americana que envolviam opções de compra que só dariam retorno se o índice encerrasse em alta no mesmo dia, algo não esperado em meio às tarifas recém-impostas. Foi o suficiente para democratas no Congresso pedirem repetidas investigações sobre possível manipulação de mercado e insider trading.

<><> Bilhões em criptomoedas minutos antes de anúncio

Em 10 de outubro de 2025, foi a vez de movimentações atípicas no mercado de criptomoedas levarem a especulações sobre informações privilegiadas.

Na ocasião, Trump anunciou tarifas adicionais de 100% aos produtos chineses, levando a uma liquidação generalizada no mercado de criptomoedas, como o bitcoin, que chegou a cair 19 bilhões de dólares (R$ 100 bilhões).

Segundo análise do Wall Street Journal, porém, duas contas haviam apostado contra o mercado minutos antes da publicação do presidente, lucrando cerca de 160 milhões de dólares (R$ 842 milhões).

As apostas foram alavancadas para lucrar com um possível derretimento no preço das criptomoedas e foram executadas na plataforma Hyperliquid.

Apesar de o investimento ter sido realizado minutos antes do anúncio, naquele momento Pequim já havia restringido sua exportação de terras raras, o que levou à contramedida de Trump.

<><> Aposta cambial bilionária no Brasil

No Brasil, anúncios de Trump também geraram suspeitas de que informações privilegiadas chegaram ao mercado.

A Advocacia‑Geral da União identificou movimentações cambiais atípicas em 9 de julho de 2025, quando o americano afirmou que aplicaria uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

Uma reportagem do G1 mostrou que menos de 3 horas antes de Trump publicar uma carta em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sobretaxar o Brasil, operadores compraram entre 3 e 4 bilhões de dólares (entre R$ 15 e R$ 21 bilhões) ao custo de R$ 5,46 o dólar. Após a publicação da Casa Branca, o câmbio subiu a R$ 5,60. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, determinou a abertura de uma investigação sobre o caso.

¨      Com EUA em guerra, China se pinta como parceiro mais estável

Semanas de combates entre os EUA, Israel e o Irã prejudicaram gravemente o fluxo de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz, deixando os governos do Sudeste Asiático em apuros para garantir combustível suficiente para sua indústria, companhias aéreas e consumo doméstico.

Ao mesmo tempo, a China tenta tirar vantagem dessa ansiedade e já comunicou que está disposta a fortalecer a coordenação e a cooperação com os países do Sudeste Asiático para enfrentar conjuntamente questões de segurança energética.

<><> Choque nos combustíveis se espalha pela Ásia

As nações do Sudeste Asiático já adotaram uma combinação de medidas para economizar combustível e de subsídios, juntando-se a uma corrida global frenética para encontrar fornecedores e rotas comerciais alternativas.

Mesmo países como Malásia e Brunei, que são produtores e exportadores de petróleo e gás, continuam vulneráveis ao impacto inflacionário e às disrupções na cadeia de fornecimento que se espalham pela região.

Nesta terça-feira (24/03), as Filipinas declararam um estado de emergência energética nacional, válido por um ano, alertando para um "perigo iminente” ao abastecimento do país. Manila já havia reduzido a jornada de trabalho dos escritórios públicos para quatro dias por semana e ordenado que agências cortassem o consumo de energia.

As Filipinas também ofereceram ajuda financeira para trabalhadores do transporte, ao mesmo tempo em que alertaram que uma escassez de combustível de aviação poderia, eventualmente, deixar parte da frota do país no solo.

O Vietnã já recorreu ao seu fundo de estabilização de preços de combustíveis e avisou companhias aéreas para se prepararem para cortes, com importadores afirmando que o suprimento de querosene de aviação só poderia ser garantido até março.

A Indonésia prometeu absorver parte do impacto por meio do orçamento estatal e de subsídios ampliados. A Tailândia avalia novos auxílios diante do disparo do preço do diesel, que afeta setores como a pesca, no qual muitos barcos podem ser forçados a permanecer no porto. A Malásia, por sua vez, aumentou gastos com subsídios para manter os preços nas bombas estáveis.

Os governos também estão buscando fornecedores provisórios fora do Golfo Pérsico. A agência de notícias Reuters informou na semana passada que a Ásia estava prestes a importar um volume recorde de combustível russo em março, com o Sudeste Asiático sendo o maior destino.

<><> China se mantém próxima ao consenso

A China tem usado a crise para "se projetar como um ator responsável e estabilizador, defendendo a redução das tensões no Oriente Médio e prometendo trabalhar com os países do Sudeste Asiático para aliviar a escassez de energia”, avalia o especialista Li Mingjiang, da S. Rajaratnam School of International Studies.

O governo em Pequim tem se mantido próximo ao consenso do Sudeste Asiático sobre o Irã, defendendo a diplomacia. Assim como os países da região, o governo chinês deseja que o Estreito de Ormuz seja reaberto o quanto antes, mas permanece cauteloso para não ser arrastado diretamente para o conflito.

"Quando faz alguma declaração pública, é para pedir moderação, cessar-fogo e diálogo. Esses pontos são consensuais entre a maioria dos governos do Sudeste Asiático”, comenta o especialista Chin-Hao Huang, da Lee Kuan Yew School of Public Policy.

<><> Ações dos EUA são impopulares na região

A crise também alimenta a narrativa de Pequim de que a China seria agora a única superpotência defendendo a paz, o livre comércio e o multilateralismo e permite à China se apresentar como heroína diante dos EUA, vistos como agressivos e egoístas.

"A intervenção militar EUA–Israel no Irã é muito impopular em vários países do Sudeste Asiático. A China não precisa fazer nada para que a opinião sobre os EUA piore ainda mais na região”, diz o especialista Enze Han, da Universidade de Hong Kong.

Da mesma forma, o aumento do preço do gás em muitos países da região também piora a imagem dos Estados Unidos. "Novamente, Pequim não precisa fazer nada para que a culpa recaia sobre os EUA”, acrescenta Han.

Mas se aproximar mais da China não é garantia de estabilidade energética. Pequim, afinal, proibiu exportações de combustível para proteger seu próprio suprimento interno. Em 18 de março, o Camboja afirmou que as restrições de exportação chinesas e vietnamitas já o obrigavam a buscar fornecedores alternativos e se preparar para escassez interna.

<><> Atratividade das energias renováveis

No longo prazo, porém, a crise pode fortalecer a influência chinesa no Sudeste Asiático. O choque energético reforça preocupações regionais sobre a dependência excessiva do petróleo do Oriente Médio, o que, por sua vez, aumenta a atratividade das energias renováveis, uma área em que empresas chinesas são altamente competitivas.

A China está profundamente integrada na transição verde do Sudeste Asiático. Suas empresas estão entre as maiores investidoras nos setores de veículos elétricos e baterias, que passam por forte expansão. Pequim também tem sido o principal financiador de hidrelétricas e grandes usinas solares no Sudeste Asiático continental, transformando a região tanto num mercado para exportação de tecnologias limpas chinesas quanto em base de produção de painéis, baterias e veículos elétricos.

No Fórum de Boao, na China, o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, disse que a China poderia "desempenhar um papel crítico” na definição dos rumos globais e "um papel ainda maior no apoio à prosperidade e estabilidade regionais”, ao mesmo tempo em que pediu a Pequim que continue sendo um forte defensor do comércio livre e baseado em regras.

Wong também afirmou que a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), uma organização regional de 11 países, deveria trabalhar com a China em energias renováveis para avançar na integração da rede elétrica regional.

Se a guerra no Irã fortalecer a determinação do Sudeste Asiático de diversificar suas fontes de energia para além do petróleo, a China poderá sair ganhando – e não apenas com a crise em si, mas também com a resposta estratégica da região.

 

Fonte: DW Brasil

 

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