Insider
trading? Os negócios suspeitos pré-anúncios de Trump
Cerca
de 15 minutos antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar a suspensão dos ataques à
infraestrutura energética do Irã, na última segunda‑feira (23/03), os mercados
registraram uma movimentação abrupta nos contratos de petróleo. Nesse intervalo,
investidores negociaram centenas de milhões de dólares da commodity,
antecipando-se à publicação do republicano e evitando perdas com a posterior
queda nos preços.
O
episódio reacendeu o escrutínio no país por repetir um padrão observado durante
sua presidência, em que investidores adotam comportamentos atípicos pouco
antes de anúncios oficiais sobre temas como operações militares e tarifas.
Além
dos contratos futuros de petróleo, atividades cronometradas deste tipo também
surgiram em outros segmentos financeiros nos últimos meses, incluindo índices
de ações (S&P 500 e Nasdaq), mercados de apostas, operações de câmbio e
até criptomoedas.
Os
casos levantaram suspeitas nos Estados Unidos sobre possíveis vazamentos de
informação do governo ao mercado, inclusive o brasileiro. A prática irregular,
associada ao insider trading, ocorre quando investidores operam com
base em informações privilegiadas que deveriam ser confidenciais, negociando de
forma a lucrar com a antecipação de um anúncio oficial.
Não há
evidências concretas de que a Casa Branca esteja repassando informações
confidenciais para beneficiar investidores ou suavizar impactos. Especialistas
apontam que o comportamento súbito e as frequentes mudanças de direção de
política de Trump acabam fornecendo sinais ao mercado, que interpreta esses
padrões e tenta antecipar decisões políticas.
No caso
do presidente americano, que anuncia decisões oficiais diretamente nas redes
sociais e sem aviso prévio, os mercados passaram a monitorar diretamente sua
comunicação online – fenômeno apelidado nos EUA de "Volfefe Index".
Na prática, suas postagens têm potencial para mover mercados globais e
estimular comportamentos preditivos, inclusive em bolsas europeias.
Além
disso, grandes fundos operam constantemente com base em sinais macroeconômicos,
o que pode gerar a percepção de movimentos "perfeitos" antes de
anúncios.
Por
outro lado, a repetição recente dessas "coincidências" vem aumentando
as críticas sobre a gestão Trump. A Casa Branca afirma reiteradamente que não
tolera qualquer autoridade que se "beneficie ilegalmente de informações
privilegiadas".
"O
que chama atenção aqui não é apenas o tamanho das operações, mas o
timing", disse Stephen Innes, analista da SPI Asset Management, à agência
de notícias AFP, ao ser questionado sobre a movimentação mais recente.
"Traders
não são clarividentes. Quando as posições mudam minutos antes de um anúncio
capaz de mexer com o mercado, isso geralmente significa que alguém está agindo
com [...] informações antes de a notícia vir a público", acrescentou.
Relembre
os movimentos do mercado que aconteceram minutos antes de anúncios de Trump.
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Negociações de petróleo minutos antes de queda dos preços
No
último sábado (21/03), Trump havia prometido destruir a infraestrutura
energética do Irã se o país não permitisse o tráfego de navios no Estreito de Ormuz em 48 horas. O
bloqueio da navegação no Golfo tem gerado forte pressão sobre o governo
americano, devido à disparada de preços do petróleo e sua reação em cadeia em
outros setores.
Teerã,
porém, não cedeu à ameaça, o que levou o preço da commodity a subir mais uma
vez nas primeiras horas de segunda-feira (23/03), com a abertura das bolsas na
Ásia.
Às 7:04
daquele dia (horário local), Trump subiu seus primeiros posts indicando que
recuaria dos ataques. Segundo ele, houve "conversas produtivas" com
Teerã que o levaram a postergar a ofensiva contra as bases energéticas do Irã
por cinco dias. Os preços do petróleo bruto Brent caíram de 114
dólares por barril para 97 dólares em poucas horas.
No
entanto, minutos antes, entre 6:49 e 6:51 do mesmo dia, mais de 760 milhões de
dólares (R$ 4 bilhões) em contratos futuros de petróleo foram negociados,
incluindo o Brent e o West Texas Intermediate. O jornal americano Wall
Street Journal também indica que um movimento similar ocorreu no
índice de ações americano S&P 500, o que levou investidores a contornarem
perdas.
Na
comparação com semanas anteriores, o movimento pode ser considerado atípico
para uma segunda-feira, indicam observadores.
Além
disso, não havia sinais claros de que uma negociação entre Washington e Teerã
poderia sair do papel. O Irã chegou a rebater Trump horas depois e afirmar
que nenhuma conversa sobre o
estreito havia ocorrido durante o final de semana.
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Apostadores lucram com timing dos ataques no Irã
A
especulação sobre uso de informação privilegiada também se espalhou para os
mercados de previsão, que permitem aos usuários apostar na probabilidade de
milhares de eventos globais.
A
empresa de análise Bubblemaps afirmou que seis contas lucraram cerca de 1,2
milhão de dólares (R$ 6 milhões) com dezenas de apostas feitas na
plataforma Polymarket, prevendo corretamente ações militares dos Estados Unidos e de Israel
contra o Irã em 28 de fevereiro. As apostas foram registradas horas antes de os
ataques começarem.
Segundo
a Bubblemaps, um único apostador apresenta um padrão recorrente de apostas
certeiras. Ele também lucrou em outubro de 2024, quando acertou a data dos
ataques israelenses contra o Irã, com aposta realizada novamente poucas horas
antes de seu início.
Uma
revisão do site da Polymarket feita pela agência de notícias Reuters
identificou que, ao todo, um total 529 milhões de dólares foram apostados em
contratos ligados ao timing de ataques (R$ 2,7 bilhões), enquanto 150 milhões
de dólares (R$ 790) foram direcionados a contratos sobre a possível remoção do
antigo líder supremo aiatolá Ali Khamenei de seu cargo.
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Remoção de Nicolás Maduro remunera apostadores
Senadores
democratas também manifestaram preocupação, em 23 de fevereiro, de que os
mercados de previsão estariam violando regras ao criar incentivos para fomentar
conflitos ou divulgar informações sigilosas, depois que um trader obteve cerca
de 410 mil dólares (R$ 2,1 milhões) apostando na queda do líder venezuelano Nicolás Maduro.
Em 2 de
janeiro, Trump autorizou a ação que levou à captura de Maduro, em Caracas.
Embora a notícia da operação só tenha sido divulgada posteriormente, uma série
de apostas na queda do venezuelano foram feitas na Polymarket entre
dezembro e janeiro.
O que
gerou suspeita foi a identificação de que a última aposta fora registrada
menos de uma hora antes de os militares serem autorizados pela Casa Branca a
prosseguir com a intervenção na Venezuela.
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Recuo tarifário dispara índices de mercado
A guerra comercial lançada por Trump contra diversos
países também gerou especulações de insider trading e manipulação de mercado.
Entre
os dias 9 e 14 de abril de 2025, Trump anunciou diversos recuos ao seu tarifaço
global,
reduzindo restrições à importação de produtos eletrônicos ou mesmo pausando o
tarifaço horas após sua entrada em vigor.
As
decisões reverteram temporariamente quedas
históricas nas
bolsas de valores ao redor do mundo disparadas por sua decisão anterior de
sobretaxar parceiros comerciais com tarifas que chegavam a 50%.
Em 9 de
abril de 2025, a sobretaxa a países e blocos como China, Japão e União Europeia
entrou em vigor, levando a um choque nos mercados. Trump procurou amenizar o
impacto, afirmando nas redes sociais que era uma "ótima hora para
comprar". Horas depois, interrompeu as tarifas globais por 90 dias, o que
levou o índice americano S&P 500 ao seu maior ganho diário desde 2008 e o Nasdaq ao
segundo melhor desempenho em quase duas décadas.
Em meio
às movimentações, observadores identificaram negociações na bolsa americana que
envolviam opções de compra que só dariam retorno se o índice encerrasse em alta
no mesmo dia, algo não esperado em meio às tarifas recém-impostas. Foi o
suficiente para democratas no Congresso pedirem repetidas investigações sobre
possível manipulação de mercado e insider trading.
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Bilhões em criptomoedas minutos antes de anúncio
Em 10
de outubro de 2025, foi a vez de movimentações atípicas no mercado de
criptomoedas levarem a especulações sobre informações privilegiadas.
Na
ocasião, Trump anunciou tarifas adicionais de 100% aos produtos
chineses, levando a uma liquidação generalizada no mercado de criptomoedas,
como o bitcoin, que chegou a cair 19 bilhões de dólares (R$ 100 bilhões).
Segundo
análise do Wall Street Journal, porém, duas contas haviam apostado
contra o mercado minutos antes da publicação do presidente, lucrando cerca de
160 milhões de dólares (R$ 842 milhões).
As
apostas foram alavancadas para lucrar com um possível derretimento no preço das
criptomoedas e foram executadas na plataforma Hyperliquid.
Apesar
de o investimento ter sido realizado minutos antes do anúncio, naquele momento
Pequim já havia restringido sua exportação de terras
raras,
o que levou à contramedida de Trump.
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Aposta cambial bilionária no Brasil
No
Brasil, anúncios de Trump também geraram suspeitas de que informações
privilegiadas chegaram ao mercado.
A
Advocacia‑Geral da União identificou movimentações cambiais atípicas em 9 de
julho de 2025, quando o americano afirmou que aplicaria uma tarifa de 50% sobre produtos
brasileiros.
Uma
reportagem do G1 mostrou que menos de 3 horas antes de Trump publicar uma carta
em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sobretaxar o Brasil, operadores
compraram entre 3 e 4 bilhões de dólares (entre R$ 15 e R$ 21 bilhões) ao custo
de R$ 5,46 o dólar. Após a publicação da Casa Branca, o câmbio subiu a R$ 5,60.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, determinou a
abertura de uma investigação sobre o caso.
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Com EUA em guerra, China se pinta como parceiro mais
estável
Semanas
de combates entre os EUA, Israel e o Irã prejudicaram
gravemente o fluxo de petróleo e gás pelo Estreito
de Ormuz, deixando os governos do Sudeste Asiático em apuros para garantir
combustível suficiente para sua indústria, companhias aéreas e consumo
doméstico.
Ao
mesmo tempo, a China tenta tirar vantagem dessa ansiedade e já comunicou que
está disposta a fortalecer a coordenação e a cooperação com os países do
Sudeste Asiático para enfrentar conjuntamente questões de segurança energética.
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Choque nos combustíveis se espalha pela Ásia
As
nações do Sudeste Asiático já adotaram uma combinação de medidas para
economizar combustível e de subsídios, juntando-se a uma corrida global
frenética para encontrar fornecedores e rotas comerciais alternativas.
Mesmo
países como Malásia e Brunei, que são produtores e exportadores de petróleo e
gás, continuam vulneráveis ao impacto inflacionário e às disrupções na cadeia
de fornecimento que se espalham pela região.
Nesta
terça-feira (24/03), as Filipinas declararam um estado de emergência energética
nacional, válido por um ano, alertando para um "perigo iminente” ao
abastecimento do país. Manila já havia reduzido a jornada de trabalho dos
escritórios públicos para quatro dias por semana e ordenado que agências
cortassem o consumo de energia.
As
Filipinas também ofereceram ajuda financeira para trabalhadores do transporte,
ao mesmo tempo em que alertaram que uma escassez de combustível de aviação
poderia, eventualmente, deixar parte da frota do país no solo.
O
Vietnã já recorreu ao seu fundo de estabilização de preços de combustíveis e
avisou companhias aéreas para se prepararem para cortes, com importadores
afirmando que o suprimento de querosene de aviação só poderia ser garantido até
março.
A
Indonésia prometeu absorver parte do impacto por meio do orçamento estatal e de
subsídios ampliados. A Tailândia avalia novos auxílios diante do disparo do
preço do diesel, que afeta setores como a pesca, no qual muitos barcos podem
ser forçados a permanecer no porto. A Malásia, por sua vez, aumentou gastos com
subsídios para manter os preços nas bombas estáveis.
Os
governos também estão buscando fornecedores provisórios fora do Golfo Pérsico.
A agência de notícias Reuters informou na semana passada que a Ásia estava
prestes a importar um volume recorde de combustível russo em março, com o
Sudeste Asiático sendo o maior destino.
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China se mantém próxima ao consenso
A China
tem usado a crise para "se projetar como um ator responsável e
estabilizador, defendendo a redução das tensões no Oriente Médio e prometendo
trabalhar com os países do Sudeste Asiático para aliviar a escassez de
energia”, avalia o especialista Li Mingjiang, da S. Rajaratnam School of
International Studies.
O
governo em Pequim tem se mantido próximo ao consenso do Sudeste Asiático sobre
o Irã, defendendo a diplomacia. Assim como os países da região, o governo
chinês deseja que o Estreito de Ormuz seja reaberto o quanto antes, mas
permanece cauteloso para não ser arrastado diretamente para o conflito.
"Quando
faz alguma declaração pública, é para pedir moderação, cessar-fogo e diálogo.
Esses pontos são consensuais entre a maioria dos governos do Sudeste Asiático”,
comenta o especialista Chin-Hao Huang, da Lee Kuan Yew School of Public Policy.
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Ações dos EUA são impopulares na região
A crise
também alimenta a narrativa de Pequim de que a China
seria agora a única superpotência defendendo a paz, o livre comércio e o
multilateralismo e permite à China se apresentar como heroína diante dos EUA,
vistos como agressivos e egoístas.
"A
intervenção militar EUA–Israel no Irã é muito impopular em vários países do
Sudeste Asiático. A China não precisa fazer nada para que a opinião sobre os
EUA piore ainda mais na região”, diz o especialista Enze Han, da Universidade
de Hong Kong.
Da
mesma forma, o aumento do preço do gás em muitos países da região também piora
a imagem dos Estados Unidos. "Novamente, Pequim não precisa fazer nada
para que a culpa recaia sobre os EUA”, acrescenta Han.
Mas se
aproximar mais da China não é garantia de estabilidade energética. Pequim,
afinal, proibiu exportações de combustível para proteger seu próprio suprimento
interno. Em 18 de março, o Camboja afirmou que as restrições de exportação
chinesas e vietnamitas já o obrigavam a buscar fornecedores alternativos e se
preparar para escassez interna.
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Atratividade das energias renováveis
No
longo prazo, porém, a crise pode fortalecer a influência chinesa no Sudeste
Asiático. O choque energético reforça preocupações regionais sobre a
dependência excessiva do petróleo do Oriente Médio, o que, por sua vez, aumenta
a atratividade das energias renováveis, uma área em que empresas chinesas são
altamente competitivas.
A China
está profundamente integrada na transição verde do Sudeste Asiático. Suas
empresas estão entre as maiores investidoras nos setores de veículos elétricos
e baterias, que passam por forte expansão. Pequim também tem sido o principal
financiador de hidrelétricas e grandes usinas solares no Sudeste Asiático
continental, transformando a região tanto num mercado para exportação de
tecnologias limpas chinesas quanto em base de produção de painéis, baterias e
veículos elétricos.
No
Fórum de Boao, na China, o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, disse
que a China poderia "desempenhar um papel crítico” na definição dos rumos
globais e "um papel ainda maior no apoio à prosperidade e estabilidade
regionais”, ao mesmo tempo em que pediu a Pequim que continue sendo um forte
defensor do comércio livre e baseado em regras.
Wong
também afirmou que a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), uma
organização regional de 11 países, deveria trabalhar com a China em energias
renováveis para avançar na integração da rede elétrica regional.
Se a
guerra no Irã fortalecer a determinação do Sudeste Asiático de diversificar
suas fontes de energia para além do petróleo, a China poderá sair ganhando – e
não apenas com a crise em si, mas também com a resposta estratégica da região.
Fonte:
DW Brasil

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