James
Görgen: IA - Como a China está vencendo
A China
construiu uma vantagem estrutural no campo da inteligência artificial que vai
muito além da corrida por modelos de fronteira e os bilionários investimentos
em infraestrutura. Um trabalho encomendado pela Comissão de Análise
Econômica e de Segurança EUA-China do Congresso dos Estados Unidos
conseguiu mapear esta estratégia de forma pormenorizada. Para obter avanços na
corrida, as empresas e o governo chinês operam em sintonia por meio de dois
circuitos de retroalimentação que se reforçam mutuamente — um digital e um
físico. Juntos, ambos geram uma dinâmica de acumulação de vantagens que
independem do acesso a semicondutores avançados. É precisamente essa estrutura
de dois laços que os controles de exportação americanos não conseguem
interceptar. O que temos a aprender com isso?
O documento, intitulado Two
Loops: How China’s Open AI Strategy Reinforces Its Industrial Dominance e
assinado pela analista sênior Ngor Luong, foi publicado nesta semana. Em suas
trinta páginas, o texto da comissão — um órgão independente do Congresso
americano criado para monitorar as implicações econômicas e de segurança da
relação entre os dois países — chega a conclusões que desafiam a narrativa
dominante sobre a corrida de IA. Ele nos mostra que o debate sobre vencedores e
perdedores não se resume a quem tem o maior modelo ou o chip mais avançado. Mas
quem souber implantar inteligência artificial em maior escala na economia real,
gerar mais dados proprietários com isso, e transformar esses dados em vantagem
competitiva duradoura. Nessa corrida, a China saiu na frente de uma forma que
Washington ainda não sabe como responder.
<><>
O primeiro laço: código aberto como arma estratégica
A
aposta chinesa no código aberto não foi uma concessão à necessidade nem um
sinal de fraqueza tecnológica. Foi uma escolha estratégica deliberada, com
raízes na política industrial do país desde pelo menos o Plano Nacional de Desenvolvimento de
IA de 2017,
e que foi sendo reforçada pelo 14º Plano Quinquenal e, mais
recentemente, pela iniciativa “AI+” do Conselho de Estado, formalizada
em agosto do ano passado. A lógica é elegante: se você não pode vencer na
corrida pelo chip mais poderoso — devido às restrições de exportação americanas
— , vencerá tornando seus modelos tão acessíveis, tão baratos e tão adaptáveis
que o mundo inteiro passe a usá-los, melhorá-los e redistribuí-los. E cada
ciclo de uso gera mais iterações, mais derivações, mais melhorias.
O
resultado é visível em números. Conforme análise da comissão, os modelos Qwen,
da Alibaba, já acumulam mais de cem mil derivados na plataforma
Hugging Face — o maior ecossistema de modelos abertos do mundo — , superando o
Llama da Meta. Em agosto de 2025, os modelos chineses ultrapassaram os
americanos em
total de downloads na mesma plataforma. Entre novembro e dezembro daquele ano,
sete dos dez modelos mais baixados eram chineses. E os desenvolvedores de todo
o mundo fazem o upload de derivados de modelos chineses de
volta à plataforma quase duas vezes mais rápido do que fazem com modelos
americanos. A China não está apenas participando do ecossistema global de IA
aberta. Está, cada vez mais, definindo sua direção.
O
diferencial de preços explica boa parte desse sucesso. O Kimi K2.5, da startup
Moonshot AI, custa quatro vezes menos que o GPT-5.2
da OpenAI para desempenho equivalente — ambos com índice de inteligência 47 na
escala dinâmica da plataforma Artificial Analysis. O DeepSeek, o modelo que no
início de 2025 surpreendeu o mundo ao atingir desempenho próximo ao dos gigantes
americanos com fração do custo computacional, foi eleito pela revista Time como uma das
melhores invenções de 2025. A Minimax, outra startup chinesa, abriu capital na Bolsa de Hong Kong
em janeiro com
o preço das ações dobrando no primeiro dia de negociação. Não são sinais de um
setor em dificuldades. São sinais de um ecossistema em plena aceleração.
O
governo chinês não apenas tolera essa dinâmica — ele a financia ativamente.
Pelo lado da oferta, províncias como Gansu, Guizhou e Mongólia Interior oferecem cortes de até 50% nas contas
de eletricidade para data centers. Pelo lado da demanda, Pequim subsidia o
acesso a modelos já baratos por meio de vouchers de API e compra direta
de licenças de modelos pré-treinados para pequenas e médias empresas. O
objetivo declarado é simples: maximizar a adoção, gerar dados, minimizar as
barreiras de entrada e usar a abertura como instrumento para estabelecer
padrões técnicos que o mundo inteiro precisará seguir.
<><>
O segundo laço: fábricas como máquinas de produzir dados
Se o
primeiro laço é digital, o segundo é físico — e é aí que a vantagem chinesa se
torna mais difícil de replicar ou de abalar. A premissa é que à medida que os
dados disponíveis publicamente na internet se tornam um recurso finito, o
próximo diferencial competitivo no desenvolvimento de IA será a capacidade de
gerar dados proprietários de alta qualidade a partir do uso real em contextos
específicos. O Epoch AI, instituto de pesquisa independente, estima que os dados de alta qualidade disponíveis
publicamente para treinamento de modelos de linguagem podem se esgotar entre
2026 e 2032. Quando isso acontecer, quem tiver mais dados industriais
proprietários levará vantagem decisiva.
E a
China tem, nesse quesito, uma combinação de ativos que nenhum outro país
consegue replicar na mesma escala. São mais de 30 mil fábricas inteligentes conectadas
criando uma uma infraestrutura massiva de internet das coisas (IoT) e
redes 5G que gera milhões de pontos simultâneos de coleta de dados. Isso é
garantido por empresas de robótica como a AgiBot e
a Fourier, que liberam datasets abertos
de treinamento para IA incorporada ao mundo físico. Câmeras HD em linhas de produção permitem que
sistemas de visão computacional detectem defeitos em tempo real, reduzindo
taxas de falha em equipamentos e economizando centenas de milhares de dólares
anualmente em uma única fábrica a partir de manutenção preditiva.
A
implementação de IA na base industrial não apenas resolve problemas
operacionais imediatos. Ele gera dados que alimentam modelos melhores, que por
sua vez viabilizam aplicações ainda mais sofisticadas, que geram dados ainda
mais ricos. Cada ciclo é mais rápido e mais barato que o anterior — e,
crucialmente, nenhum deles depende de acesso aos chips mais avançados do mundo.
Um modelo de inspeção de qualidade numa fábrica em Guangdong não precisa da
escala computacional de um GPT-5. Precisa de um pequeno modelo de visão
computacional ajustado com dados de linha de produção, rodando em hardware de
borda. Isso a China tem de sobra.
Pequim
entende o valor estratégico desses dados há anos. Isso é possível constatar ao
listarmos as principais medidas cronologicamente:
- 2017: O presidente Xi Jinping descreveu
os dados como
“um novo fator de produção”.
- 2020: O Comitê Central do Partido
Comunista formalizou o dado como o quinto fator de produção —
ao lado de terra, trabalho, capital e tecnologia.
- 2022: “20 Medidas sobre Dados”.
- 2023: criação
da Administração Nacional de Dados e a
popularização das bolsas de negociação de produtos de dados.
- 2023: China é o
único país do mundo a ter padrões contábeis nacionais para
ativos de dados —
permitindo que empresas reconheçam seus dados como ativos intangíveis ou
estoque nos balanços patrimoniais.
- 2025: lançamento
da plataforma nacional para registrar e compartilhar Recursos de Dados Públicos.
Olhando
tudo isso em perspectiva fica clara a construção metódica de uma infraestrutura
institucional para transformar vantagem de implementação em ativo estratégico
duradouro. Nenhum outro país chegou perto de fazer isso de forma sistemática. O
Brasil tem dados. A Índia tem dados. A Indonésia tem dados. Mas nenhum deles
construiu ainda o aparato para transformar esses dados em ativo contábil, em
política industrial e em vantagem competitiva de IA ao mesmo tempo. A China não
descobriu uma fórmula mágica — ela simplesmente levou a sério uma pergunta que
os outros ainda estão adiando.
<><>
O elo entre os dois laços: os pequenos modelos
A
conexão entre os dois laços não é óbvia, mas é o ponto mais original e
revelador da análise de Luong. O mecanismo que os une é a emergente
predominância dos pequenos modelos de linguagem — os SLMs, na sigla em inglês —
sobre os grandes modelos de fronteira nas aplicações industriais e comerciais
do mundo real.
A
narrativa dominante na IA americana continua centrada na escala a partir de
modelos cada vez maiores, treinados em quantidades crescentes de dados e
computação, produzindo capacidades cada vez mais impressionantes em casos cada
vez mais complexos. Essa lógica das “leis de escalonamento” orientou anos de
investimentos bilionários. Mas pesquisadores da Nvidia publicaram um paper em 2025
argumentando que pequenos modelos “lidam com a maior parte das subtarefas
operacionais” em sistemas de IA agêntica, com custos de dez a trinta vezes
menores que as alternativas de fronteira. O futuro, dizem eles, é
“heterogêneo”: grandes modelos para raciocínio complexo ocasional, pequenos
modelos especializados para a maioria das aplicações implantadas. SLMs
favorecem ecossistemas abertos como o chinês, democratizando adaptações
industriais rápidas e baratas a partir de bases pré-treinadas, dando vantagem
estrutural à China.
O modelo mais baixado do Hugging Face
no final de 2025 não
era um grande modelo de fronteira. Era o Tarsier2-Recap-7b, um pequeno modelo
especializado em legendagem de vídeo, desenvolvido pela ByteDance — a empresa
por trás do TikTok — a partir de um ajuste fino do Qwen2-VL-7B da Alibaba. Um
ecossistema que funciona assim — modelo-base aberto, especialização guiada pela
comunidade, iteração rápida — está otimizado para produzir exatamente o tipo de
IA que a próxima fase da competição vai exigir.
<><>
O ponto cego de Washington
O que
acontece quando a política industrial de um país é calibrada para combater uma
ameaça que já passou? O autor do estudo é direto ao apontar o que considera uma
falha estratégica no desenho da resposta dos EUA. Os controles de exportação
americanos foram calibrados para atingir o primeiro laço: restringindo o acesso
a chips avançados, a intenção é limitar a capacidade chinesa de treinar grandes
modelos de fronteira. É uma política que faz sentido dentro de sua própria
lógica. Mas é uma lógica que pode estar errada ou, no mínimo, incompleta.
O
segundo laço — geração de dados industriais por implementação em escala — opera
com computação menos avançada, modelos abertos disponíveis globalmente e
vantagem acumulada por aplicação, não por pré-treinamento. Nada disso é
estancado por restrições a exportações de chips. E é exatamente nesse segundo
laço que a vantagem chinesa é mais sólida e mais difícil de replicar.
A
resposta americana tem sido fragmentada. A OpenAI lançou seus primeiros modelos de peso aberto
desde o GPT-2 em agosto de 2025, depois que seu CEO Sam Altman admitiu que a empresa
esteve “no lado errado da história” em relação ao código aberto. A Nvidia lançou o Nemotron 3 agora em março.
O Plano de Ação de IA de 2025 do governo Trump reconhece a importância dos modelos
abertos. O projeto ATOM, iniciativa do
setor, tenta fomentar um ecossistema americano competitivo. Mas o principal
campeão do ecossistema aberto americano — a Meta — está em retirada: seu
próximo modelo de grande escala, codinome “Avocado”, deverá adotar
abordagem fechada de API, abandonando os downloads de pesos que definiram a
família Llama. A ironia não escapa ao relatório: a Meta está fechando seus
modelos em parte porque empresas chinesas, especialmente a DeepSeek, usaram a
arquitetura aberta do Llama para acelerar suas próprias capacidades. O
ecossistema aberto americano está sendo corroído pelo sucesso da estratégia que
tentava combater.
Há
outros gaps identificados pelo relatório. Não existe equivalente americano ao
esforço sistemático da China de converter implementação industrial em ativo de
dados. Os investimentos americanos — desde os incentivos do CHIPS Act até os
financiamentos da Fundação Nacional de Ciências — foram direcionados
majoritariamente ao desenvolvimento de modelos de fronteira, não à aceleração
da aplicação no mundo real. Não há métricas padronizadas para medir como
modelos estão sendo usados em soluções industriais. E a possibilidade de que a
IA incorporada ao mundo físico represente um caminho alternativo válido para
inteligência artificial geral — uma via que a China está ativamente explorando
em laboratórios, fábricas e centros de pesquisa — recebe atenção política mínima
em Washington.
<><>
O que está em jogo para o resto do mundo
O
relatório de Luong foi escrito de uma perspectiva de segurança nacional
americana. Mas suas implicações para os demais países — especialmente para o
Sul Global — são igualmente significativas, mesmo que o texto não as desenvolva
diretamente. O que seu trabalho não consegue responder é se a vantagem
estrutural vai de fato se materializar, ou se vai esbarrar nos mesmos gargalos
que frearam outras apostas chinesas de longo prazo — a rigidez burocrática, a
autocensura que contamina os dados, a desconfiança internacional que encarece a
adoção fora da órbita chinesa. O relatório é convincente no diagnóstico. Nas
projeções é mais otimista sobre a China do que a evidência disponível talvez
justifique.
O que o
pesquisador sustenta são os riscos de segurança para os EUA. Segundo ele, a
dominância chinesa no ecossistema global de IA aberta significa que países em
desenvolvimento que adotam modelos abertos — e o farão, dada a relação
custo-desempenho imbatível — estão construindo sua infraestrutura de IA sobre
fundações definidas em Pequim. Luong sustenta que arquiteturas, formatos de
dados, características de segurança e outras funcionalidades estão sendo
moldadas por escolhas técnicas e políticas baseadas na estratégia chinesa. O
NIST americano já identificou que os modelos DeepSeek são mais
vulneráveis a riscos cibernéticos que equivalentes americanos. Pesquisadores
documentaram mecanismos de autocensura em chatbots
chineses sobre
temas politicamente sensíveis.
A
assimetria de dados apontada no relatório é estruturalmente análoga às
dependências de plataforma que o Sul Global já conhece. Modelos chineses
melhoram com dados globais — cada desenvolvedor no Brasil, na Indonésia ou na
Nigéria que usa o Qwen como base contribui, direta ou indiretamente, para o
ecossistema. Mas os dados industriais e institucionais chineses permanecem
fechados, protegidos por uma lei de segurança
de dados que
restringe o compartilhamento além-fronteiras. É uma abertura assimétrica: o
mundo contribui para a infraestrutura de IA da China, mas a China não devolve o
equivalente segundo o estudo.
Mas
como tudo isso envolve mais software e menos hardware esta parece ser uma
fórmula mais alcançável por outros países. Investir em dados gerados por
pessoas e empresas e usar capacidade de processamento mais básica para o
desenvolvimento de SLMs, focando em aplicações específicas, não é algo que
exija investimentos comparados aos que as big techs estão fazendo. Envolve
muito mais um esforço de coordenação e articulação institucional entre atores
de diversos segmentos do que milhares de chips funcionando em um data center
gigante devorador de energia.
Para
países como o Brasil, que buscam construir ativamente suas estratégias de
soberania digital e governança de IA, a leitura do relatório da comissão do
Congresso oferece um mapa do terreno que vai muito além da rivalidade
sino-americana. A pergunta que se impõe não é apenas “de quem serão os chips?”
ou “quem regulará as plataformas?”. É uma pergunta mais fundamental provoca a
reflexão sobre quem controlará a infraestrutura fundacional sobre a qual toda a
IA do século XXI será construída? Os dois laços concebidos no texto de Luong
sugerem que essa pergunta pode já estar sendo respondida — em fábricas de
Guangdong, em datasets de robótica de Xangai, e em centenas de
milhares de modelos derivados circulando livremente pelo Hugging Face.
O
relatório da comissão do Congresso americano foi escrito para Washington. Mas
quem deveria lê-lo com mais atenção talvez sejam os países que vão adotar esses
modelos sem ter participado da decisão de como eles foram construídos, com
quais dados, com quais valores embutidos e com quais ausências deliberadas. Se
não corrermos atrás do prejuízo, a próxima rodada da soberania digital não vai
ser decidida em Brasília, em Jacarta ou em Lagos. Vai ser decidida antes — no
momento em que cada país escolhe, ou deixa de escolher, sobre qual fundação vai
construir sua IA. E a China é uma candidata cada vez mais forte a tornar isso
uma opção palpável.
¨
Elias Jabbour: “o poder político é tudo na China”
O
geógrafo e pesquisador Elias Jabbour afirmou que a análise sobre a China
precisa partir do controle do poder político e não apenas de indicadores
ligados ao mercado, à propriedade privada ou à presença de bilionários. Ao
comentar as posições do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o especialista
sustentou que o país asiático não pode ser enquadrado nos moldes clássicos do
capitalismo.
A
declaração foi dada em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, em
edição especial dedicada a discutir as observações feitas por Haddad sobre a
China em conversa anterior com o jornalista Breno Altman, no Opera Mundi. Ao
longo da entrevista, Jabbour contestou a leitura do ministro e apresentou sua
interpretação sobre o sistema econômico e político chinês.
Segundo
Jabbour, o ponto decisivo do debate está na estrutura de comando do Estado. “O
poder político é tudo, meu amigo”, afirmou. Para ele, essa é a chave para
distinguir a experiência chinesa de uma economia capitalista convencional, já
que, em sua avaliação, a burguesia não exerce o poder político na China.
O
pesquisador argumentou que, no país, o setor privado não atua com a mesma
autonomia observada nas economias ocidentais. De acordo com ele, o Estado
ampliou sua influência sobre esse segmento e o Partido Comunista Chinês mantém
presença direta nas empresas. “Todas as decisões de investimento privado na
China hoje, elas devem ser respaldadas ou não pelo secretário do Partido
Comunista que trabalha naquela empresa”, disse.
Na
entrevista, Jabbour também rebateu a ideia de que a presença expressiva da
propriedade privada seria suficiente para caracterizar a China como
capitalista. Em sua avaliação, a propriedade pública dos meios de produção
continua sendo o elemento estruturante da economia chinesa e é dela que partem
os principais ciclos de acumulação.
Ele
afirmou ainda que a propriedade privada no país não tem o mesmo estatuto
histórico e jurídico observado no Ocidente. Segundo o pesquisador, na China ela
funciona como uma concessão estatal, e não como uma forma sacralizada de
organização econômica e social.
Outro
ponto abordado foi a desigualdade. Jabbour rejeitou a interpretação de que esse
fator, isoladamente, comprovaria o caráter capitalista da China. “A China tem
desigualdades sociais caindo de forma brusca desde 2005”, declarou. Na
avaliação dele, o quadro precisa ser analisado em conjunto com as diferenças de
produtividade entre regiões e com a relação entre campo e cidade.
Ao
defender sua leitura, o pesquisador disse que o socialismo não pode ser
definido por um modelo abstrato e fixo. “O socialismo se manifesta no movimento
real, não é um movimento apriorístico. Não existe um checklist para o que é
socialismo ou não”, afirmou.
Jabbour
também citou resultados concretos da experiência chinesa para sustentar sua
posição. Ele lembrou que a China saiu de uma condição de profunda pobreza para
se tornar a maior potência industrial do mundo, elevou a expectativa de vida da
população, construiu uma ampla malha de trens de alta velocidade e eliminou a
pobreza extrema.
“Qual o
capitalismo do mundo aplicado àquela realidade seria capaz de entregar esses
resultados?”, questionou. Para ele, a trajetória recente do país indica a
existência de uma formação econômica específica, que não se confunde com o
capitalismo liberal nem pode ser analisada apenas por categorias formuladas
fora da realidade chinesa.
Ao
longo da entrevista, Jabbour também criticou o que chamou de visão eurocêntrica
presente em parte das análises ocidentais sobre a China. Segundo ele, muitos
intérpretes deixam de considerar a história do país, a centralidade da luta
anti-imperialista e a produção intelectual chinesa sobre sua própria
experiência.
Mesmo
com as divergências, o tom adotado pelo pesquisador foi de respeito em relação
ao ministro da Fazenda. Jabbour ressaltou sua admiração pessoal e intelectual
por Haddad, mas afirmou que ambos estão em campos diferentes nesse debate
específico sobre a China.
A
entrevista expôs uma divergência de fundo sobre como interpretar o
desenvolvimento chinês. De um lado, a leitura de que o país opera dentro de uma
lógica capitalista; de outro, a defesa de que a experiência chinesa constitui
uma forma própria de construção do socialismo, ancorada no comando político do
Partido Comunista e na centralidade do Estado sobre os rumos da economia.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário