A
grande transição demográfica no século XXI
O
primeiro quartil do século XXI revelou uma mudança acelerada no quadro
demográfico global. Além do envelhecimento populacional, houve mudanças
significativas nos padrões de fecundidade, urbanização e migração que
acarretaram uma reconfiguração demográfica que terá impacto nos padrões de
consumo, nas estruturas sociais e econômicas e na capacidade militar das nações
nas próximas décadas.
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Queda na fecundidade
Segundo
o relatório World Population Prospects 2024, das Nações Unidas, a população
mundial deve atingir um pico de aproximadamente 10,3 bilhões de pessoas em
meados da década de 2080, antes de iniciar um declínio gradual — marcando uma
ruptura histórica após 250 anos de crescimento contínuo. A taxa global de
fecundidade caiu de 5 nascimentos por mulher nos anos 1960 para 2,3 em 2024,
próxima do nível de reposição de 2,1. Mais da metade dos países já apresenta
fecundidade abaixo desse limiar. Casos extremos, como a Coreia do Sul registra 0,7;
a China, 1,01; Itália e Espanha, 1,2; Brasil, 1,6. Em 63 países que abrigam 28%
da população mundial, a população já está em declínio absoluto. As causas são
múltiplas: urbanização acelerada, maior participação feminina no mercado de
trabalho sem políticas adequadas de conciliação família-carreira, custos
proibitivos de moradia e mudanças nos valores relativos à família.
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Urbanização e seus impactos
Quase
metade (45%) da população global já vive em cidades. O número de megacidades
quadruplicou de 8 em 1975 para 33 em 2025. As cidades respondem por 80% do PIB
mundial, mas mais de 1 bilhão de pessoas vivem em assentamentos informais sem
acesso adequado a serviços básicos. As cidades consomem dois terços da energia
global e produzem mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa. Com 1,8
bilhão de pessoas em zonas de alto risco climático, a vulnerabilidade urbana a
desastres naturais intensifica- se dramaticamente.
No
emprego, a urbanização marca a transição de economias agrícolas para
industriais, e depois para serviços. Ao esvaziar o campo de trabalhadores
jovens, a urbanização alimenta uma crise crescente na agricultura global: os
Estados Unidos registraram em 2024 seu maior déficit comercial agrícola da
história, com 2,4 milhões de vagas não preenchidas e idade média dos
agricultores próxima de 60 anos. A tendência é de esgotamento acelerado dessa
força de trabalho.
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A reconfiguração da manufatura global
A
transformação demográfica está redesenhando a geografia da manufatura. Com
custos salariais chineses alcançando cerca de 5,6 dólares por hora, a China
perde competitividade em produção intensiva em trabalho e migra deliberadamente
para a manufatura de maior valor agregado, abrindo espaço para países de menor
renda. Com custos salariais crescentes, a China migra deliberadamente para
manufatura de maior valor agregado, abrindo espaço para economias de menor
renda. O Vietnã capitalizou essa janela com mais de 10 mil empresas
estrangeiras instaladas e exportações eletrônicas de 72,6 bilhões de dólares em
2024. A África Subsaariana representa a fronteira final, países como Etiópia já
atraem investimentos chineses em têxteis, mas enfrenta barreiras de infraestrutura
e capital. A janela para industrializar é limitada: a automação reduz
progressivamente a vantagem dos baixos salários, e países que não se
industrializarem nos próximos 10 a 15 anos podem perder permanentemente essa
oportunidade.
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Migrações: o terceiro elemento
Os
fluxos migratórios internacionais totalizaram 304 milhões de pessoas em 2024,
quase o dobro de 1990. Paradoxalmente, as economias que mais precisam de
trabalhadores jovens adotam políticas cada vez mais restritivas. Nos Estados
Unidos, a migração líquida despencou de 2,7 milhões em 2024 para projeções de
321 mil em 2026, possivelmente o primeiro saldo migratório negativo em 50 anos.
O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega norte-americano) prendeu mais de 100
mil imigrantes desde janeiro de 2025. Na Europa, o Pacto de Migração da União
Europeia dificulta pedidos de asilo e a ascensão de partidos de extrema-direita
normalizou retóricas anti-imigração. A migração estudantil internacional caiu
13% em 2024, com perdas expressivas nos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália. A
ascensão de partidos de extrema-direita normalizou retóricas anti-imigração
antes consideradas inadmissíveis.
A
migração estudantil internacional – crucial para a inovação tecnológica – caiu
13% em 2024: Estados Unidos perderam 12% dos estudantes internacionais; Reino
Unido, 14%; Canadá, 39%; e Austrália, 22%.
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Implicações geopolíticas e militares
A
guerra na Ucrânia demonstrou que conflitos contemporâneos ainda exigem
contingentes humanos maciços e resiliência demográfica para absorver baixas
prolongadas. A China verá sua razão de dependência de idosos dobrar até 2050,
criando imensas pressões fiscais e dificuldades de recrutamento militar. A
Rússia sofre a crise mais severa entre as grandes potências: estimativas
ocidentais apontam entre 1 e 1,35 milhões de baixas desde fevereiro de 2022. A
Europa enfrenta um triplo golpe de baixa natalidade, envelhecimento e emigração
de jovens qualificados; menos de 20% dos alemães e 14% dos italianos declaram
disposição para lutar por seus países. Os EUA dependem criticamente de
imigração qualificada para manter liderança em inteligência artificial e
biotecnologia, mas as políticas anti-imigração implementadas desde 2025 ameaçam
destruir essa vantagem estratégica.
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Uma contradição demográfica central no século XXI
A
contradição aparentemente insolúvel é que as sociedades que mais necessitam de
renovação demográfica via migração são precisamente as que mais a têm rejeitado
politicamente. Economias desenvolvidas enfrentam uma escolha inevitável:
abrir-se substancialmente à migração laboral, automatizar radicalmente
aceitando os custos sociais correspondentes, ou aceitar declínio relativo e
progressiva dependência externa em setores vitais como agricultura, manufatura,
serviços e defesa. A tecnologia, por mais avançada, não substitui pessoas.
Exércitos precisam de soldados,fábricas precisam de operários, fazendas
precisam de trabalhadores,países precisam de jovens. A demografia, a par dos
avanços tecnológicos, desempenhará papel relevante no cenário geopolítico atual
e futuro.
Fonte:
Por José Carvalho de Noronha, em Outras Palavras

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