Berenice
Bento: O corpo como sentença - a fogueira contra Erika Hilton
Desconheço
um momento em nossa história em que uma pessoa trans tenha sido vítima de
tamanha violência simbólica como a deputada federal Erika Hilton. O jornalista,
com ares de dono da verdade, diz: “Ela não é uma mulher. Não tem útero. Não tem
vagina. Não procria.” O apresentador falastrão repete. O cientista político,
usando seu título de doutor, reitera. A deputada estadual teatraliza e
potencializa a violência. Do doutor ao apresentador sem formação acadêmica,
todos atearam fogo na imensa fogueira pública contra a deputada. Quando nos
movemos em debates morais, esqueçam da formação acadêmica, da classe social e
outros marcadores sociais. As questões morais atravessam transversalmente as
relações sociais e borram fronteiras entre direita e esquerda.
Em que
momento da história passou-se a acreditar (isso mesmo, acreditar) que
estruturas biológicas definem identidades? Como se estabelece essa estranha
aliança entre biologia e o lugar do sujeito no mundo? Se a aberração a que
estamos assistindo, em relação aos insultos contra a deputada federal Érika
Hilton, pode surpreender e produzir indignação, é necessário reconhecer, no
entanto, que este evento está em linha de continuidade com um longo processo
histórico que tentou fazer coincidir identidade com marcadores corpóreos. Ou
será que o cientista, o jornalista, o apresentador e a deputada estadual já se
esqueceram de que, por quase 400 anos, a definição de ser humano esteve
assentada em um dado biológico: a raça?
As
mulheres negras escravizadas tinham os mesmos atributos biológicos das mulheres
brancas livres: útero, vagina, seios. Sua pele, seu cabelo e outros fenótipos,
no entanto, as interditavam de pertencer ao mundo dos seres humanos. As
mulheres brancas tinham filhos que eram
membros da população; as mulheres negras pariam “peças”. A luta das mulheres
negras nos dá sinais claros de que o pleno reconhecimento da identidade de
gênero ainda não está finalizado. A articulação entre biologia e identidade
sempre foi um recurso acionado pelo poder para manter determinados corpos fora
do que é humanamente reconhecido.
A
articulação entre biologia e identidade nunca foi neutra. Sempre foi política.
Um dispositivo de poder voltado para excluir, hierarquizar, desumanizar. Foi
assim com a raça. Foi assim com a sexualidade, quando tudo que escapava à
heterossexualidade reprodutiva era classificado como desvio e doença. E é
assim, hoje, com as pessoas trans.
Há
algum tempo, fiz diversos exames clínicos. Vários indicadores, principalmente
hormonais, foram considerados como pertencentes ao “universo masculino”.
Surpresa: não saí com esses exames e fui ao cartório demandar a alteração da
minha identidade de gênero. Os corpos são instáveis, mudam. Os cabelos caem. Os
hormônios se alteram. As unhas crescem. A menstruação cessa. Que lugar infame
foi escolhido para estacionar a identidade de gênero, infame porque é vazio de
significado identitário.
Quando
nascemos, não temos nenhuma possibilidade de dizer o que queremos. Já está tudo
previamente definido. Ao longo de nossas vidas, somos confrontados com as
mentiras em que nos fizeram acreditar. A biologia não é destino. Ter vagina não
diz nada sobre quem eu sou, diz das expectativas sociais sobre as assignações
de gênero. Há uma multiplicidade considerável de possibilidades de viver o
gênero entre pessoas cis e pessoas trans.
Acredito,
no entanto, que a diferença entre esses dois campos de experiência é a
revelação, posta em cena pelas existências trans, de que somos muito mais do
que uma vagina ou um pênis. Os discursos e as vidas trans produzem
deslocamentos importantes à medida que incidem sobre uma das maiores mentiras
que nos contam e nos produzem: a de que o gênero está ancorado no dimorfismo
sexual. Essa verdade desestabilizadora aciona fantasmas, desperta ódio e desejo
de eliminação física e simbólica.
Não há
uma única molécula envolvida nos processos de definição das identidades de
gênero. Deixem a biologia fora dessa discussão. A própria suposição de que o
dimorfismo sexual é um “desde sempre” já é efeito do discurso de gênero. O
dimorfismo é filho da modernidade: nasce na Europa, após uma longa disputa com
o modelo isomórfico. Não foi a ciência biológica que definiu que mulheres são
radicalmente diferentes dos homens, mas interesses políticos que antecedem a
abertura dos corpos e o mapeamento dos hormônios. E as mulheres, como eu, que
não menstruam? E as mulheres que não podem ou não querem ser mães? Que lugar
ocupam nesse esquema binário (vagina = mulher; pênis = homem)? Estamos nos
movendo no âmbito das relações de poder.
Então,
eu não sou uma mulher? Sou uma vagina? Ao agredir a parlamentar pela suposta
ausência de um órgão definidor do seu ser, se reiterou um dos elementos
estruturantes da misoginia: definir a mulher pela vagina. Aqui, machismo e
transfobia, mais uma vez, caminham juntos.
“Ela
não é mulher: tem pênis!” E se essa suposição transfóbica estiver equivocada? E
se a deputada não tiver pênis? Ela teria que fazer uma checagem de sua anatomia
antes de demandar reconhecimento de sua identidade de gênero? Decretaram: é um
homem, tem pênis. Em que transformaram a deputada? Em uma fraude. Se a
parlamentar é uma fraude, onde ela deveria estar? Talvez na prisão ou em um
manicômio. Esse é o desejo oculto nas falas. Fazer as pessoas trans
desaparecerem, desejo condensado no ódio à parlamentar.
• Quando a política se transforma em
espetáculo. Por Andrés Zarankin
Nos
últimos dias, muitos de nós assistimos, entre perplexos e indignados, a um
suposto “experimento social” protagonizado pela deputada Fabiana Bolsonaro. Ao
pintar o rosto, o pescoço e os braços de marrom, a parlamentar buscou sustentar
a ideia de que identidade não pode ser dissociada de características biológicas
fixas – argumento mobilizado para deslegitimar identidades trans. O problema,
porém, não está apenas na fragilidade dessa premissa política, mas na forma
como foi apresentada: simplificadora, caricatural e intelectualmente
inconsistente.
A
tentativa de reduzir identidades complexas a uma leitura estritamente biológica
que ignora não apenas décadas de produção científica nas áreas da genética, da
psicologia e das ciências sociais, como também desconsidera a experiência
vivida de milhões de pessoas. Ao recorrer a uma encenação, o debate público é
deslocado do campo argumentativo para o terreno da provocação, no qual o
impacto imediato tende a se sobrepor à consistência.
Há,
ainda, uma contradição reveladora. A mesma parlamentar que defende uma
concepção rígida e essencialista da identidade adota, na esfera pública, um
nome que não corresponde ao seu de nascimento (Barroso), vinculando-se
simbolicamente a um projeto político e a uma figura masculina específica. Isso
não configura uma equivalência com as identidades de gênero – e é importante
não confundir os planos –, mas evidencia que identidades sociais e públicas
também são, em alguma medida, construídas, negociadas e performadas, em outras
palavras “trans”. A seletividade com que essa flexibilidade é reconhecida expõe
os limites do argumento apresentado. Soma-se a isso o fato de que, em 2022, a
própria parlamentar se autodeclarou “parda” à Justiça Eleitoral – categoria
que, no Brasil, refere-se a pessoas de origem racial mista –, condição que lhe
permitiu acessar recursos específicos de financiamento de campanha. A mudança
posterior, na forma de se identificar – “mulher Cis branca” – reforça o caráter
estratégico e situacional dessas classificações.
O
episódio tampouco é isolado; já vimos isso acontecer há pouco tempo na Câmara
dos Deputados, em Brasília. À luz das reflexões do filósofo francês Guy Debord,
pode-se compreender esse caso como parte de uma tendência mais ampla, na qual a
política se aproxima perigosamente do espetáculo. Nesse cenário, performances
calculadas, gestos provocativos e declarações de alto impacto passam a operar
como estratégias de mobilização, frequentemente em detrimento de um debate
público qualificado. Temas complexos são reduzidos a slogans, e questões
sensíveis são instrumentalizadas como peças de disputa simbólica.
Diante
desse quadro, impõe-se uma reflexão sobre os rumos do debate público no país.
Quando instituições falham em estabelecer limites claros para práticas que
banalizam questões fundamentais, recai sobre a sociedade – e, em última
instância, sobre o eleitorado – a responsabilidade de exigir maior rigor,
seriedade e compromisso com a realidade. Afinal, quando a política se
transforma em espetáculo, não é apenas o debate que se empobrece: é a própria
ideia de vida pública que se degrada.
• Misoginia digital: o ataque às mulheres
como tática política. Por Thais Klein
Estamos
em ano de eleição, abrimos as redes sociais e somos invadidas por inúmeras
notícias de feminicídios e outras violências generificadas – isto é, violências
cuja motivação atravessa a questão de gênero. Não é mera coincidência: o
discurso de ódio, sobretudo contra mulheres (cis e trans), caminha lado a lado
com formas contemporâneas de autoritarismo e com a própria lógica de
funcionamento da internet. A internet, tal como a vivemos hoje, é um
espaço-tempo visceral: o tempo se condensa em um “tempo real” contínuo, e o
espaço perde atrito – de um afeto ao outro, o deslocamento é imediato. A parada
se dá quando uma imagem é eleita como um alvo sobre o qual pode-se
descarregar.
Há,
contudo, uma história mais longa que atravessa essa cena. O ódio de gênero que
hoje circula com velocidade inédita nas redes não nasce nelas. Ele guarda
continuidade com uma divisão binária moderna que organizou o mundo a partir de
uma oposição rígida entre masculino e feminino – atribuindo ao primeiro a
razão, a força, a autonomia e, ao segundo a vulnerabilidade, as emoções, a
dependência e a fragilidade. A violência não é um acidente desta estrutura: ela
é seu pilar.
Não se
trata de estabelecer uma relação direta entre o deslocamento dessa divisão e o
aumento da violência. O que se intensifica, sobretudo, é a imposição de um
ideal de autonomia e performance que atravessa o discurso neoliberal e
encontra, nos modos de funcionamento da internet, uma espécie de mimetização:
sem corpo, sem atrito, atravessando o mundo na promessa de uma potência
imediata. Sob a exigência de sujeitos autossuficientes, sempre à altura, a
experiência da impotência – estrutural, compartilhada – se expande e se torna
cada vez menos suportável. É nesse terreno que se abrem respostas reativas que
tentam, pela via conservadora, restabelecer uma ordem perdida.
Diante
dessa impossibilidade, uma saída recorrente tem sido a recuperação defensiva de
ideais de masculinidade que só se sustentam na lógica binária que os constitui.
Não se trata apenas de uma divisão entre masculino e feminino, mas de uma
hierarquização: a experiência de potência, nesses termos, depende da produção
de um contraponto considerado inferior. Nesse movimento, a impotência não pode
ser reconhecida como condição comum e é expulsa para fora de si. E essa
expulsão encontra, com frequência, um alvo privilegiado: as mulheres. Não por
acaso, a violência misógina se intensifica em momentos de crise e de disputa,
funcionando como tentativa de restaurar uma ordem abalada. O bode expiatório,
aqui, não é apenas uma figura retórica – ele é um operador político.
Em ano
eleitoral, isso ganha contornos ainda mais evidentes. O histórico recente do
país mostra como falas misóginas, que já circulavam de forma difusa, foram
progressivamente legitimadas e convertidas em bandeiras políticas –
especialmente após o impeachment da única mulher que ocupou a presidência da
República. Desde então, a desqualificação do feminino passou a operar não
apenas como opinião, mas como estratégia de mobilização.
Vale
lembrar que as mulheres são maioria do eleitorado. Isso significa que o ataque
às mulheres não é apenas expressão de ódio, mas também tentativa de incidir
sobre um campo político concreto, de desestabilizar, intimidar, silenciar. A
violência de gênero, nesse contexto, não é exterior à democracia – ela a
atravessa e a ameaça.
Nas
redes, onde os afetos circulam sem atrito e parecem não encontrar limites,
esquecemos facilmente que eles sempre acabam por atingir corpos – corpos
singulares, situados, marcados por histórias e por posições sociais. A
violência que ali se propaga não se dissipa no virtual: ela encontra alvos
concretos e produz efeitos reais. O sofrimento não é abstrato. Ele incide sobre
mulheres que, muitas vezes, ocupam espaços conquistados com enorme esforço –
como as universidades públicas – e que, sob ataque, são levadas a duvidar de
si, de sua legitimidade, de seu direito de estar ali. A promessa de uma
circulação ilimitada de afetos encobre, assim, a realidade de que seus impactos
são desigualmente distribuídos.
Se os
efeitos dessa violência são concretos e incidem sobre a própria sobrevivência
das mulheres, tanto em sua dimensão mais imediata quanto na possibilidade de
sustentar um lugar de sujeito no mundo e nas instituições, seu enfrentamento
não pode senão ocupar lugar central no debate público. Iniciativas como o
Projeto de Lei 896/2023, em tramitação no Senado, que propõe criminalizar a
misoginia ao incluí-la na Lei do Racismo, são passos importantes ao reconhecer
a gravidade dessa forma de violência, especialmente no ambiente digital. Mas a
questão não se esgota na tipificação penal.
Estamos
diante de uma reconfiguração das formas de violência, impulsionada por
infraestruturas tecnológicas e atravessada por disputas políticas centrais: o
combate à misoginia precisa ocupar lugar estratégico na formulação de políticas
públicas para os próximos anos. Não apenas como proteção a um grupo específico,
mas como condição para a própria sustentação de uma vida democrática.
Porque,
em um espaço onde os afetos deslizam sem atrito e são conduzidos por
infraestruturas digitais, as eleições passam a incidir diretamente sobre as
vidas das mulheres.
Fonte:
Outras Palavras/Blog da Boitempo

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