Política
da não violência
Na
concepção do fundador da politologia moderna Nicolau Maquiavel, a política se
situa na luta pelo poder através da violência para criar uma nova ordem social;
ou retardá-la. Não à toa, em O príncipe, os animais símbolos do homem político
são o leão (força) e a raposa (astúcia). Para o chanceler florentino, a “ética
laica” retira a política dos dez mandamentos bíblicos.
Para
suavizar o rosto demoníaco do poder, uma “ética especial” toma aparência de
eticidade única sob a excepcionalidade dos decretos-leis que cancelam
requisitos legais. Circunstância que confere autonomia completa à política. Em
consequência, o “imperativo categórico” (dever absoluto) vira um “imperativo
hipotético” (dever condicional). Assim, os princípios morais cedem às
providências impactantes que incidem direto na governança. “Às favas os
escrúpulos”, diz o membro da Junta Militar, no Brasil, na edição do AI-5 nos
anos de chumbo.
Já a
“ética cristã” observa os costumes para salvar ou excomungar as almas. As
causas da coletividade, os arranjos da representação e o consenso sobre
questões que afetam a população – nada disso conduz ao reino dos céus. O
altruísmo republicano em nome dos interesses gerais não leva à remissão de
faltas no privado. As indulgências foram extintas no Concílio de Trento (1563).
Se a
Teologia da Libertação impõe limites à dinâmica do mercado na redemocratização
do país, a Teologia do Domínio na atualidade apoia os ajustes fiscais que
produzem legiões de excluídos; na sequência, capturados pelo
neopentecostalismo. A lavagem cerebral converte desesperados em massa de
manobra dos mercadores da fé. Em vez da solidariedade, a meritocracia
calvinista é esgrimida para justificar as desigualdades sociais.
A
antipolítica é o subterfúgio pelo qual a religião e o capital reagem à perda de
autoridade no aparato estatal. A antipolítica sufoca a crítica enquanto
desmonta a legislação trabalhista e os órgãos de fiscalização. A improvável
aliança dos crentes com políticos de extrema direita abre a Porta do Inferno.
Não a da magnífica escultura de Auguste Rodin iniciada em 1880 e finalizada em
1917; e sim a da necropolítica do Consenso de Washington (1989) implementada a
partir de então a rodo.
A
ideologia da desregulamentação permite ao deus-mercado afrouxar o controle
ambiental, ao custo inclusive da extinção dos principais biomas na Terra
brasilis: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. O
imediatismo do lucro em áreas de preservação (desmatamento, monocultura,
garimpo) prenuncia o apocalipse. O lobo (voracidade / homo homini lupus) também
ajuda na compreensão da formação da “razão de Estado” sem as obrigações que,
com ditames universais, regem e julgam as ações dos comuns. O cinismo espalha
uma falsa consciência.
A mídia
corporativa acoberta o antropoceno com a comunicação tóxica. São longos os
tentáculos do negacionismo da crise climática para desviar a responsabilidade
ecológica dos países desenvolvidos e do agronegócio. Em paralelo, as boas novas
do governo do presidente Lula saem com a inflexão adversativa “mas” nos
noticiários. Os donos da opinião pública praticam o jornalismo venal, avesso à
natureza, à sociedade e à verdade.
A
intenção é esfriar a empatia interpessoal e interespécies. O pleno emprego é
abjurado; induz trabalhadores a reivindicarem a ocupação de vagas com melhores
salários. O fim da escala 6 x 1 é refutado pelas entidades empresariais. Por
elas, não existiriam os sindicatos e a jornada de trabalho ainda seria de 14 a
16 horas diárias como era praxe no século XIX. Eppur se muove a luta pelo
direito a ter direitos, apesar dos muitos discursos terroristas.
A
retórica das liberdades individuais tem um caráter instrumental. Potencializa a
acumulação, fantasia a uberização do trabalho e o extrativismo de commodities.
O axioma de que, para salvar a pátria não se deve tecer qualquer consideração a
respeito do que é justo ou injusto, promove uma derrogação das leis. “Para
passar a boiada”, expõe um dos ministros trapaceiros em reunião do desgoverno
bolsonarista no show de bizarrices e cafajestadas.
A
relação da ética com a política é agravada na experiência histórica desde o
contraste que opõe Antígona a Creonte, na peça de Sófocles. A ideia de que os
fins justificam os meios é adotada pelo imperialismo, que trata ilícitos morais
como lícitos em política. Vide a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos para
sequestrar Nicolás Maduro / Cília Flores e abocanhar o petróleo caribenho. Sob
o poder trumpista até a sandice é normalizada.
Em A
força da não violência: um vínculo ético-político, Judith Butler rejeita a
visão de que a política obedece a um código normativo incompatível com a
conduta moral, como pretende o imperialismo estadunidense com uma ética
exclusiva para si. Para a teórica feminista da Universidade da Califórnia é
fundamental a defesa da não violência – não estritamente pacífica – em prol de
um compromisso para dignificar a vida e o enlutamento.
Lembremos
a operação policial do morticínio que, a mando do desgovernador do Rio de
Janeiro, aterrorizou o Morro do Alemão e Penha. Os 121 corpos periféricos
mortos estendidos no asfalto não tiveram direito ao luto de amigos e
familiares. Favelados pretos não deixam saudades. Porém outro mundo é possível
sem barbárie – com programa, organização, mobilização nas ruas.
O termo
“não violência” vem do sânscrito Ahimsa, “ausência do desejo de ferir ou
matar”: acena a cooperação e a abertura à diversidade. Mahatma Gandhi na
Independência da Índia e Martin Luther King Jr nos direitos civis dos EUA
ilustram os pleitos – sem passividade – diante das injustiças e preconceitos
estruturais. Batalhas institucionais memoráveis mostram ser factível.
A
superação da violência implica uma práxis para a expansão das oportunidades e
dos resultados. Os movimentos Black Lives Matter e Ni Una Menos demonstram a
possibilidade da não violência ativa no combate ao racismo e ao feminicídio. Ao
método de luta somam-se o MST (rural) e o MTST (urbano) e a Parada de Orgulho
LGBTQUIA+ para que políticas públicas freiem agressões à civilidade, sem a
vingança de Talião.
A
democracia é o sistema que aproxima a ética da política, fomenta a soberania
nacional e popular, e garante eleições para propiciar as condições – não
obrigatoriedade – da alternância no poder. De um lado, estão os que desejam o
Estado para servir a cidadania e, na esteira de Rosa Luxemburgo no artigo
Utopias pacifistas, denunciar o conteúdo de classe do militarismo. De outro, a
plutocracia (as finanças, as big techs) para privatizar o Estado. Eis a
polarização, de fundo, no processo eleitoral. Temos a oportunidade de barrar a
marcha da “autocratização” mundial.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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