Nick
Turse: Trump mira na América Latina e os ataques estão só começando
Enquanto
o governo Trump continua a bombardear o Irã, um alto funcionário do
Pentágono revelou que as guerras dos EUA no hemisfério ocidental também estão
se expandindo, e revelou a existência de um projeto chamado “Operação Extermínio
Total“.
Os
ataques contra os cartéis de drogas latino-americanos
são “só o começo”, segundo afirmou à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos
EUA o subsecretário interino de guerra para defesa nacional e questões de
segurança das Américas, Joseph Humire.
Humire
sinalizou que estão em vista muitos outros ataques contra a América Latina. Os
comentários foram feitos no dia seguinte a mais uma insinuação do presidente
Donald Trump sobre a possível anexação de Cuba aos Estados Unidos. “Acredito
que serei a honra de – terei a honra de tomar Cuba”, disse Trump, na
semana passada. “Se eu libertá-la, ou tomá-la, acho que posso fazer o que
quiser com ela.”
Humire
anunciou que o Departamento de Guerra apoiou “ações cinéticas contra alvos de
cartéis ao longo da fronteira entre Colômbia e Equador” – o que é jargão do
Pentágono para se referir aos ataques de 3 de março contra “organizações
classificadas como terroristas”, que o Intercept dos EUA já noticiou. “O esforço
conjunto, denominado ‘Operação Extermínio Total’, é o início de uma ofensiva
militar do Equador contra organizações criminosas transnacionais com o apoio
dos EUA”, ele afirmou.
A
campanha dos EUA e do Equador já resvalou na Colômbia,
depois que uma plantação foi atingida por “efeito ricochete” em 3 de março, o
que deixou uma bomba não detonada
de 230kg na
região da fronteira colombiana. Em resposta a um pedido de comentários, o
Comando Sul (SOUTHCOM), das forças armadas dos EUA, encaminhou ao Intercept um
comunicado do Ministério da Defesa do Equador na rede X, confirmando que a
bomba caiu na Colômbia.
Humire
se referiu aos ataques como “ataques terrestres conjuntos”, e afirmou que os
EUA estavam fornecendo ao Equador “recursos que eles não teriam de outra
forma”. Desde então, os EUA já realizaram pelo menos mais um ataque em parceria
com o Equador. “Sim – como o @POTUS [presidente dos EUA] afirmou – também
estamos bombardeando Narco Terroristas (sic) em terra”, escreveu na rede X em 6
de março o autodenominado secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciando o novo
ataque. Dias depois, em um relatório dos
poderes de guerra que
anunciou a entrada das forças armadas dos EUA em “hostilidades” naquele país, a
Casa Branca informou ao Congresso sobre “ação militar praticada em 6 de março
de 2026 contra instalações de narcoterroristas afiliados com uma organização
classificada como terrorista”.
Os
ataques no Equador também integram e ampliam a Operação Lança do Sul: a campanha ilegal de ataques das forças
armadas dos EUA contra barcos no Mar do Caribe no no leste do
Oceano Pacífico. Os EUA realizaram 46 ataques desde setembro de 2025, destruindo 48
embarcações e matando quase 160 civis. O ataque mais
recente, em 19 de março, no Pacífico, matou mais duas pessoas e deixou um
sobrevivente. O governo Trump afirma que suas vítimas são integrantes de pelo
menos um dos 24 ou mais cartéis e facções criminosas com as quais afirma estar
em guerra, mas que se recusa a nomear.
“Esse
governo mal fala do direito constitucional ou internacional que rege o uso da
força. Mas essas regras existem por um motivo”, diz Rebecca Ingber, ex-advogada
do Departamento de Estado dos EUA, atualmente professora na faculdade de
direito Cardozo Law School, em Nova York. “Nos precipitarmos na guerra pelos
caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.”
O
general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, disse aos parlamentares na
semana passada que “os ataques aos barcos não são a solução”, mas sinalizou a
possibilidade de uma campanha ainda maior. “O que estamos buscando agora pode
ser uma extensão da Lança do Sul, mas realmente um processo de campanha contra
os cartéis, que coloque total atrito sistêmico em toda essa rede”, disse ele aos
integrantes da
Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA. “Acho que esses ataques
cinéticos [aos barcos] são apenas uma pequena parte disso.”
Humire
não soube dizer quantos ataques terrestres estavam sendo realizados em quase 20
países da América Latina e do Caribe. “Não tenho o número exato”, ele
respondeu, quando perguntado. Mas quando o deputado Adam Smith, do Partido
Democrata de Washington, líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da
Câmara, perguntou se o Departamento de Guerra “estaria se mobilizando para
muito mais ataques terrestres”, Humire respondeu: “sim, deputado”.
O
gabinete do secretário da Guerra não respondeu a um pedido para esclarecer o
tamanho provável desse aumento.
Humire
afirmou que a campanha dos EUA e do Equador está “ditando o ritmo para as
operações regionais com foco em dissuasão contra a infraestrutura dos cartéis
em toda a América Latina e no Caribe”. A palavra “dissuasão” se tornou um
eufemismo popular no Pentágono para o uso de ataques letais, em contraste com
as iniciativas anteriores do governo dos EUA para mobilizar meios econômicos,
diplomáticos e militares para convencer os adversários a abandonar um
curso de ação específico. “A dissuasão tem um efeito de sinalização sobre os narcoterroristas, e aumenta os ricos
de seus movimentos”, alegou Humire.
Em
janeiro, os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente do país, Nicolás Maduro.
Eles agora controlam o país por meio de um governo fantoche. Os procuradores
federais teriam elaborado uma denúncia criminal contra a
presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ameaçando acusá-la de
corrupção e lavagem de dinheiro caso se recuse a cumprir os desmandos do
governo Trump. Trump também insinuou recentemente a
possibilidade de transformar a Venezuela no 51º estado dos EUA.
O
governo Trump estaria supostamente realizando uma operação de mudança de regime
em Cuba, tentando derrubar o
presidente Miguel Díaz-Canel como requisito para as negociações
entre os EUA e o país insular. Dizem que as autoridades dos EUA preferem Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, de 94
anos, ex-presidente cubano e irmão de Fidel, que governou Cuba de 1959 a 2008.
Na semana passada, no X, Díaz-Canel
mencionou os planos dos Estados Unidos para “tomar o país”, e disse que seriam
recebidos com “resistência inexpugnável”.
“Estou
segurando Cuba”, disse Trump recentemente, comentando que
sua dispendiosa guerra de
mudança de regime no Oriente Médio é a prioridade no momento. “Vamos resolver o
Irã antes de Cuba.” Trump impôs um bloqueio de petróleo a Cuba em
janeiro, mergulhando o país em uma crise humanitária. A rede elétrica da ilha
já entrou em colapso três vezes este mês, e um
dos apagões durou mais de 29 horas. Especialistas em
direitos humanos da ONU repudiam o bloqueio
imposto por Trump a Cuba como “uma violação grave ao direito internacional e
uma séria ameaça a uma ordem internacional democrática e igualitária”.
Trump,
que vem falando
reiteradamente em
“tomar” Cuba, é o mais
recente de uma longa série de presidentes dos EUA que tentaram derrubar o
governo cubano. Durante a Guerra Fria, a CIA lançou a desastrosa invasão da
Baía dos Porcos, em 1961. A agência também tentou assassinar Fidel Castro pelo
menos oito vezes. Os EUA também
realizaram uma campanha secreta para
bombardear usinas de açúcar e incendiar canaviais em Cuba, entre
outros atos de sabotagem.
Após o
desastre da Baía dos Porcos, o Pentágono preparou planos ultrassecretos para
abrir terreno para um ataque contra a ilha. No final de 1962, o Estado-Maior
Conjunto fez circular um memorando ultrassecreto intitulado “Justificativa para
a intervenção militar dos EUA em Cuba”. Ele descrevia operações de bandeira
falsa que poderiam ser usadas para justificar uma invasão dos EUA, como um
plano para “afundar um barco cheio de refugiados
cubanos (reais ou simulados)” e até encenar um incidente semelhante ao
que desencadeou a guerra
hispano-americana –
afundar um navio próprio em águas cubanas e atribuir a culpa a Cuba.
Outros planos de ações
secretas dos EUA na
ilha priorizavam especificamente os ataques contra a rede elétrica de Cuba.
Em
resposta a uma pergunta sobre o possível envolvimento do Estado-Maior Conjunto
em ações semelhantes atualmente, a porta-voz, major Annabel Monroe, encaminhou
o Intercept ao Comando Sul, que por sua vez encaminhou ao Departamento de
Estado, que não quis se manifestar.
Humire
disse que o Departamento de Guerra “atualmente está focado em operações de
dissuasão conduzidas por parceiros”, mas não descartaria ataques unilaterais
dos EUA na América Latina. Segundo ele, além do Equador, os EUA firmaram
acordos com outros 17 países parceiros no hemisfério ocidental, como parte da
chamada Aliança das Américas
contra os Cartéis.
Esse órgão internacional, formalmente anunciado por Trump em sua cúpula
do Escudo das Américas, no início do mês,
terá como foco “operações bilaterais e multilaterais contra cartéis e
organizações terroristas”.
Perguntaram
a Humire se algum dos 18 países estava preocupado com questões de soberania em
relação à possibilidade de que os EUA realizem ataques em seu território. “Os
integrantes da aliança assinaram especificamente uma declaração conjunta de
segurança, mencionando que querem esse apoio e a maioria deles está procurando
por isso”, ele respondeu. Mas a declaração enxuta que eles
assinaram é espantosamente vaga, e oferece poucos elementos substanciais sobre
o tema.
Humire
indicou que os EUA haviam se valido da diplomacia das canhoneiras na Venezuela
para ameaçar Cuba e ajudar a “obter conformidade na Nicarágua”, além de
“conduzir o Caribe a uma direção favorável aos interesses estadunidenses”.
Vazamentos oficiais
recentes sobre a possível apresentação de denúncia pelos EUA contra o
presidente da Colômbia, Gustavo Petro, por tráfico de drogas – a justificativa
oficial para o sequestro de Maduro, e supostamente o meio usado para manter na
linha sua sucessora, Rodríguez – dão a entender que os Estados Unidos podem
empregar essa tática para serem favorecidos, ou como pretexto para uma ação
militar. (Petro nega qualquer vínculo com o tráfico de drogas.)
“Parece
que a cabeça de Petro está a prêmio”, disse ao Intercept um ex-funcionário de
alto escalão da defesa, que falou sob condição de anonimato em razão de seu
atual emprego. A fonte diz que vazamentos sobre a possível denúncia de Petro,
somados ao ataque conjunto entre EUA e Equador, que causou tensões na fronteira
entre os países, parecem indicar cada vez mais uma campanha coordenada para
semar “discórdia”, e talvez, conflito. Em janeiro, questionado sobre a
possibilidade de atacar a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.
Os
ataques dos EUA na fronteira entre Colômbia e Equador aconteceram logo na
sequência da criação de uma presença permanente
do FBI no Equador,
unindo-se a agentes da Agência Antidrogas e ao Departamento de Segurança
Nacional. Logo antes dos ataques, Donovan viajou para Quito, capital do Equador,
para se reunir com o presidente, Daniel Noboa, e oficiais equatorianos de
defesa de alto escalão.
Em
agosto do ano passado, o tenente-coronel
Phillip Vaughn –
comandante de uma Força-Tarefa Expedicionária que supervisionava Operações
Especiais da Força Aérea no Caribe e na América do Sul – coordenou encontros
para aumentar a “interoperabilidade entre as forças dos EUA e do Equador” para
“combater agentes ilícitos atuando na fronteira norte do Equador” com a
Colômbia, incluindo “planejamento de cenários operacionais, execução de
procedimentos de apoio aéreo aproximado” e “tópicos diversos sobre o apoio ao
Controle Aéreo da Linha de Frente”, o que se relaciona com a definição de alvos
e os ataques aéreos.
A
mobilização dos Estados Unidos no hemisfério ocidental faz parte do que Trump e
outros vêm chamando de “Doutrina Donroe“, uma corruptela da
Doutrina Monroe, de 1823. Enquanto a política do presidente estadunidense James
Monroe tentava supostamente impedir que a Europa colonizasse e interferisse no
hemisfério ocidental, Trump vem usando sua variante como uma licença para que os Estados Unidos façam
exatamente isso.
A
Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no final do ano passado, decreta o
“Corolário Trump” à Doutrina Monroe, uma “potente restauração do poder e das
prioridades americanas”, fundado no “reajuste de nossa presença militar global
para enfrentar ameaças urgentes em nosso hemisfério”. Humire definiu o
“perímetro de segurança imediato dos Estados Unidos” como “do Alasca à
Groenlândia no Ártico ao Golfo da América e Canal do Panamá e países
vizinhos”. Trump também já ameaçou anexar a Groenlândia (e
possivelmente a Islândia), transformar
o Canadá em um estado, e
realizar ataques militares no México. Humire detalhou
ainda os esforços para pressionar o Panamá a cortar os laços com a China para
garantir acesso ao canal, de propriedade do Panamá, mas que mesmo
assim ele chamou de “ativo nacional” dos EUA.
Durante
o segundo mandato, além de suas guerras no hemisfério ocidental, Trump também
lançou ataques contra o Irã, o Iraque, a Nigéria, a Somália, a Síria e o Iêmen – na maioria,
locais de conflito dos EUA durante a guerra ao terror.
Smith,
o líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse a Humire
que as guerras de Trump nas Américas também pareciam estar se transformando em
um novo “conflito eterno”, sem objetivo claro, nem “ponto de
chegada”. Questionado sobre o “nível de realização” que seria necessário
para “interromper a ação cinética”, Humire respondeu com um jorro de palavras
sobre segurança de fronteira, terrorismo e cartéis. Quando Smith interrompeu
para esclarecer se os ataques aos barcos continuariam intocados, Humire
respondeu, confusamente: “não, correto”.
¨ Algoritmo de guerra:
Como IA e big techs inauguram uma nova era em conflito no Oriente Médio. Por
Andressa Michelotti
Com as
atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a
mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência
artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se
desenrola no Oriente Médio, a guerra não tem fronteiras quando se trata
das infraestruturas de inteligência artificial.
O
confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da
violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados,
informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra
contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também
empresas de inteligência artificial — fornecendo
tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de
eficiência, produtividade e acuracidade.
Por
muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel
das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital
não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na
disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.
Estados
e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando
interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a
Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa
Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados
Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos
investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da
precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria.
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Big techs e governos: relação de longa data
A
relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos
Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde
2004 com as big techs.
As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de
realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e
Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.
Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e
xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de
IA. Até
o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam
ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com
alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em
conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking
Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da
reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar
chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação.
Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um
simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre
governo e o setor privado de tecnologia.
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Protagonismo das big techs
No
ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha
algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto
antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a
identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar
imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera
sozinho.
Desde
2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma
iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de
IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra
Algorítmica [Algorithmic
Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês].
Nesse
contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado
pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites,
sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere
alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em
tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.
Com a
ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras
24 horas da guerra.
Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos
primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico.
Em
busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e
algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos
regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.
No dia 28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram
mortas quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados
Unidos nega participação nesse ataque, existem indícios de que Oficiais
do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir
as coordenadas do alvo.
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Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs
Se de
um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de
ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo
prioritário.
No dia
1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três
instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De
acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às
atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas
sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a
Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças.
Na lista de alvos estão centros
econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de
escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir,
IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.
Há
algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida
tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária
para alimentar data centers de inteligência
artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base
das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o
desenvolvimento dessas tecnologias.
Em maio
de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos
comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na
região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos
anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco
Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os
Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência
artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende
criar um polo de 5 gigawatts capaz de
fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até
o final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.
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Impacto global
Ataques
à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por
algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra.
Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata
que pode causar. Um ataque a esses sistemas pode rapidamente
desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto
global.
Não é
possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a
ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses
alvos. Objetos civis, como é o caso de
muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a
política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem
o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e
Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros
também seguirão.
O
desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto
aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato
elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar:
qual o efeito dominó que isso pode desencadear?
Primeiro,
há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região
vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza
uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais
são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas
infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se
torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.
Segundo,
no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país
é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo
estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas
infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição
relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na
soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa
expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também
conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as
tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos.
Fonte:
The Intercept

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