terça-feira, 31 de março de 2026

Nick Turse: Trump mira na América Latina e os ataques estão só começando

Enquanto o governo Trump continua a bombardear o Irã, um alto funcionário do Pentágono revelou que as guerras dos EUA no hemisfério ocidental também estão se expandindo, e revelou a existência de um projeto chamado “Operação Extermínio Total“.

Os ataques contra os cartéis de drogas latino-americanos são “só o começo”, segundo afirmou à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA o subsecretário interino de guerra para defesa nacional e questões de segurança das Américas, Joseph Humire.

Humire sinalizou que estão em vista muitos outros ataques contra a América Latina. Os comentários foram feitos no dia seguinte a mais uma insinuação do presidente Donald Trump sobre a possível anexação de Cuba aos Estados Unidos. “Acredito que serei a honra de – terei a honra de tomar Cuba”, disse Trump, na semana passada. “Se eu libertá-la, ou tomá-la, acho que posso fazer o que quiser com ela.”

Humire anunciou que o Departamento de Guerra apoiou “ações cinéticas contra alvos de cartéis ao longo da fronteira entre Colômbia e Equador” – o que é jargão do Pentágono para se referir aos ataques de 3 de março contra “organizações classificadas como terroristas”, que o Intercept dos EUA já noticiou. “O esforço conjunto, denominado ‘Operação Extermínio Total’, é o início de uma ofensiva militar do Equador contra organizações criminosas transnacionais com o apoio dos EUA”, ele afirmou.

A campanha dos EUA e do Equador já resvalou na Colômbia, depois que uma plantação foi atingida por “efeito ricochete” em 3 de março, o que deixou uma bomba não detonada de 230kg na região da fronteira colombiana. Em resposta a um pedido de comentários, o Comando Sul (SOUTHCOM), das forças armadas dos EUA, encaminhou ao Intercept um comunicado do Ministério da Defesa do Equador na rede X, confirmando que a bomba caiu na Colômbia.

Humire se referiu aos ataques como “ataques terrestres conjuntos”, e afirmou que os EUA estavam fornecendo ao Equador “recursos que eles não teriam de outra forma”. Desde então, os EUA já realizaram pelo menos mais um ataque em parceria com o Equador. “Sim – como o @POTUS [presidente dos EUA] afirmou – também estamos bombardeando Narco Terroristas (sic) em terra”, escreveu na rede X em 6 de março o autodenominado secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciando o novo ataque. Dias depois, em um relatório dos poderes de guerra que anunciou a entrada das forças armadas dos EUA em “hostilidades” naquele país, a Casa Branca informou ao Congresso sobre “ação militar praticada em 6 de março de 2026 contra instalações de narcoterroristas afiliados com uma organização classificada como terrorista”. 

Os ataques no Equador também integram e ampliam a Operação Lança do Sul: a campanha ilegal de ataques das forças armadas dos EUA contra barcos no Mar do Caribe no no leste do Oceano Pacífico. Os EUA realizaram 46 ataques desde setembro de 2025, destruindo 48 embarcações e matando quase 160 civis. O ataque mais recente, em 19 de março, no Pacífico, matou mais duas pessoas e deixou um sobrevivente. O governo Trump afirma que suas vítimas são integrantes de pelo menos um dos 24 ou mais cartéis e facções criminosas com as quais afirma estar em guerra, mas que se recusa a nomear.

“Esse governo mal fala do direito constitucional ou internacional que rege o uso da força. Mas essas regras existem por um motivo”, diz Rebecca Ingber, ex-advogada do Departamento de Estado dos EUA, atualmente professora na faculdade de direito Cardozo Law School, em Nova York. “Nos precipitarmos na guerra pelos caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.”

O general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, disse aos parlamentares na semana passada que “os ataques aos barcos não são a solução”, mas sinalizou a possibilidade de uma campanha ainda maior. “O que estamos buscando agora pode ser uma extensão da Lança do Sul, mas realmente um processo de campanha contra os cartéis, que coloque total atrito sistêmico em toda essa rede”, disse ele aos integrantes da Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA. “Acho que esses ataques cinéticos [aos barcos] são apenas uma pequena parte disso.”

Humire não soube dizer quantos ataques terrestres estavam sendo realizados em quase 20 países da América Latina e do Caribe. “Não tenho o número exato”, ele respondeu, quando perguntado. Mas quando o deputado Adam Smith, do Partido Democrata de Washington, líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, perguntou se o Departamento de Guerra “estaria se mobilizando para muito mais ataques terrestres”, Humire respondeu: “sim, deputado”.

O gabinete do secretário da Guerra não respondeu a um pedido para esclarecer o tamanho provável desse aumento.

Humire afirmou que a campanha dos EUA e do Equador está “ditando o ritmo para as operações regionais com foco em dissuasão contra a infraestrutura dos cartéis em toda a América Latina e no Caribe”. A palavra “dissuasão” se tornou um eufemismo popular no Pentágono para o uso de ataques letais, em contraste com as iniciativas anteriores do governo dos EUA para mobilizar meios econômicos, diplomáticos e militares para convencer os adversários a abandonar um curso de ação específico. “A dissuasão tem um efeito de sinalização sobre os narcoterroristas, e aumenta os ricos de seus movimentos”, alegou Humire.

Em janeiro, os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente do país, Nicolás Maduro. Eles agora controlam o país por meio de um governo fantoche. Os procuradores federais teriam elaborado uma denúncia criminal contra a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ameaçando acusá-la de corrupção e lavagem de dinheiro caso se recuse a cumprir os desmandos do governo Trump. Trump também insinuou recentemente a possibilidade de transformar a Venezuela no 51º estado dos EUA.

O governo Trump estaria supostamente realizando uma operação de mudança de regime em Cuba, tentando derrubar o presidente Miguel Díaz-Canel como requisito para as negociações entre os EUA e o país insular. Dizem que as autoridades dos EUA preferem Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, de 94 anos, ex-presidente cubano e irmão de Fidel, que governou Cuba de 1959 a 2008. Na semana passada, no X, Díaz-Canel mencionou os planos dos Estados Unidos para “tomar o país”, e disse que seriam recebidos com “resistência inexpugnável”.

“Estou segurando Cuba”, disse Trump recentemente, comentando que sua dispendiosa guerra de mudança de regime no Oriente Médio é a prioridade no momento. “Vamos resolver o Irã antes de Cuba.” Trump impôs um bloqueio de petróleo a Cuba em janeiro, mergulhando o país em uma crise humanitária. A rede elétrica da ilha já entrou em colapso três vezes este mês, e um dos apagões durou mais de 29 horas. Especialistas em direitos humanos da ONU repudiam o bloqueio imposto por Trump a Cuba como “uma violação grave ao direito internacional e uma séria ameaça a uma ordem internacional democrática e igualitária”.

Trump, que vem falando reiteradamente em “tomar” Cuba, é o mais recente de uma longa série de presidentes dos EUA que tentaram derrubar o governo cubano. Durante a Guerra Fria, a CIA lançou a desastrosa invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A agência também tentou assassinar Fidel Castro pelo menos oito vezes. Os EUA também realizaram uma campanha secreta para bombardear usinas de açúcar e incendiar canaviais em Cuba, entre outros atos de sabotagem.

Após o desastre da Baía dos Porcos, o Pentágono preparou planos ultrassecretos para abrir terreno para um ataque contra a ilha. No final de 1962, o Estado-Maior Conjunto fez circular um memorando ultrassecreto intitulado “Justificativa para a intervenção militar dos EUA em Cuba”. Ele descrevia operações de bandeira falsa que poderiam ser usadas para justificar uma invasão dos EUA, como um plano para “afundar um barco cheio de refugiados cubanos (reais ou simulados)” e até encenar um incidente semelhante ao que desencadeou a guerra hispano-americana – afundar um navio próprio em águas cubanas e atribuir a culpa a Cuba. Outros planos de ações secretas dos EUA na ilha priorizavam especificamente os ataques contra a rede elétrica de Cuba.

Em resposta a uma pergunta sobre o possível envolvimento do Estado-Maior Conjunto em ações semelhantes atualmente, a porta-voz, major Annabel Monroe, encaminhou o Intercept ao Comando Sul, que por sua vez encaminhou ao Departamento de Estado, que não quis se manifestar.

Humire disse que o Departamento de Guerra “atualmente está focado em operações de dissuasão conduzidas por parceiros”, mas não descartaria ataques unilaterais dos EUA na América Latina. Segundo ele, além do Equador, os EUA firmaram acordos com outros 17 países parceiros no hemisfério ocidental, como parte da chamada Aliança das Américas contra os Cartéis. Esse órgão internacional, formalmente anunciado por Trump em sua cúpula do Escudo das Américas, no início do mês, terá como foco “operações bilaterais e multilaterais contra cartéis e organizações terroristas”.

Perguntaram a Humire se algum dos 18 países estava preocupado com questões de soberania em relação à possibilidade de que os EUA realizem ataques em seu território. “Os integrantes da aliança assinaram especificamente uma declaração conjunta de segurança, mencionando que querem esse apoio e a maioria deles está procurando por isso”, ele respondeu. Mas a declaração enxuta que eles assinaram é espantosamente vaga, e oferece poucos elementos substanciais sobre o tema.

Humire indicou que os EUA haviam se valido da diplomacia das canhoneiras na Venezuela para ameaçar Cuba e ajudar a “obter conformidade na Nicarágua”, além de “conduzir o Caribe a uma direção favorável aos interesses estadunidenses”.

Vazamentos oficiais recentes sobre a possível apresentação de denúncia pelos EUA contra o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, por tráfico de drogas – a justificativa oficial para o sequestro de Maduro, e supostamente o meio usado para manter na linha sua sucessora, Rodríguez – dão a entender que os Estados Unidos podem empregar essa tática para serem favorecidos, ou como pretexto para uma ação militar. (Petro nega qualquer vínculo com o tráfico de drogas.)

“Parece que a cabeça de Petro está a prêmio”, disse ao Intercept um ex-funcionário de alto escalão da defesa, que falou sob condição de anonimato em razão de seu atual emprego. A fonte diz que vazamentos sobre a possível denúncia de Petro, somados ao ataque conjunto entre EUA e Equador, que causou tensões na fronteira entre os países, parecem indicar cada vez mais uma campanha coordenada para semar “discórdia”, e talvez, conflito. Em janeiro, questionado sobre a possibilidade de atacar a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.

Os ataques dos EUA na fronteira entre Colômbia e Equador aconteceram logo na sequência da criação de uma presença permanente do FBI no Equador, unindo-se a agentes da Agência Antidrogas e ao Departamento de Segurança Nacional. Logo antes dos ataques, Donovan viajou para Quito, capital do Equador, para se reunir com o presidente, Daniel Noboa, e oficiais equatorianos de defesa de alto escalão. 

Em agosto do ano passado, o tenente-coronel Phillip Vaughn – comandante de uma Força-Tarefa Expedicionária que supervisionava Operações Especiais da Força Aérea no Caribe e na América do Sul – coordenou encontros para aumentar a “interoperabilidade entre as forças dos EUA e do Equador” para “combater agentes ilícitos atuando na fronteira norte do Equador” com a Colômbia, incluindo “planejamento de cenários operacionais, execução de procedimentos de apoio aéreo aproximado” e “tópicos diversos sobre o apoio ao Controle Aéreo da Linha de Frente”, o que se relaciona com a definição de alvos e os ataques aéreos.

A mobilização dos Estados Unidos no hemisfério ocidental faz parte do que Trump e outros vêm chamando de “Doutrina Donroe“, uma corruptela da Doutrina Monroe, de 1823. Enquanto a política do presidente estadunidense James Monroe tentava supostamente impedir que a Europa colonizasse e interferisse no hemisfério ocidental, Trump vem usando sua variante como uma licença para que os Estados Unidos façam exatamente isso.

A Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no final do ano passado, decreta o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, uma “potente restauração do poder e das prioridades americanas”, fundado no “reajuste de nossa presença militar global para enfrentar ameaças urgentes em nosso hemisfério”. Humire definiu o “perímetro de segurança imediato dos Estados Unidos” como “do Alasca à Groenlândia no Ártico ao Golfo da América e Canal do Panamá e países vizinhos”. Trump também já ameaçou anexar a Groenlândia (e possivelmente a Islândia), transformar o Canadá em um estado, e realizar ataques militares no México. Humire detalhou ainda os esforços para pressionar o Panamá a cortar os laços com a China para garantir acesso ao canal, de propriedade do Panamá, mas que mesmo assim ele chamou de “ativo nacional” dos EUA.

Durante o segundo mandato, além de suas guerras no hemisfério ocidental, Trump também lançou ataques contra o Irã, o Iraque, a Nigéria, a Somália, a Síria e o Iêmen – na maioria, locais de conflito dos EUA durante a guerra ao terror.

Smith, o líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse a Humire que as guerras de Trump nas Américas também pareciam estar se transformando em um novo “conflito eterno”, sem objetivo claro, nem “ponto de chegada”. Questionado sobre o “nível de realização” que seria necessário para “interromper a ação cinética”, Humire respondeu com um jorro de palavras sobre segurança de fronteira, terrorismo e cartéis. Quando Smith interrompeu para esclarecer se os ataques aos barcos continuariam intocados, Humire respondeu, confusamente: “não, correto”.

¨      Algoritmo de guerra: Como IA e big techs inauguram uma nova era em conflito no Oriente Médio. Por Andressa Michelotti

Com as atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se desenrola no Oriente Médio,  a guerra não tem fronteiras quando se trata das infraestruturas de inteligência artificial.

O confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados, informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também empresas de inteligência artificial — fornecendo tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de eficiência, produtividade e acuracidade. 

Por muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.

Estados e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria. 

<><> Big techs e governos: relação de longa data

A relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde 2004 com as big techs. As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.

Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de IA. Até o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação. Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre governo e o setor privado de tecnologia. 

<><> Protagonismo das big techs

No ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera sozinho. 

Desde 2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra Algorítmica [Algorithmic Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês]. 

Nesse contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites, sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.

Com a ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras 24 horas da guerra. Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico. 

Em busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.
No dia 28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram mortas quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados Unidos nega participação nesse ataque, 
existem indícios de que Oficiais do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir as coordenadas do alvo. 

<><> Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs

Se de um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo prioritário. 

No dia 1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças. Na 
lista de alvos estão centros econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir, IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.

Há algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária para alimentar data centers de inteligência artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o desenvolvimento dessas tecnologias. 

Em maio de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende criar um polo de 5 gigawatts capaz de fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até o  final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.

<><> Impacto global

Ataques à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra. Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata que pode causar.  Um ataque a esses sistemas pode rapidamente desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto global.

Não é possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses alvos. Objetos civis, como é o caso de muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros também seguirão.

O desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar: qual o efeito dominó que isso pode desencadear? 

Primeiro, há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.

Segundo, no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos.

 

Fonte: The Intercept

 

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