segunda-feira, 30 de março de 2026

Kohei Saito: Sociedades não capitalistas

Como um marxista, eu tenho buscado considerar a potencialidade do comunismo, no qual qualquer um consiga viver liberto e feliz, superando o “capitalismo” que tem se empenhado na destruição exaustiva do meio ambiente e da sociedade.

<><> Será que o socialismo é realmente pior?

Me parece que realmente existem muitas pessoas que têm uma imagem negativa do Karl Marx ou do comunismo. Um exemplo disso é que eu deixei escrito no meu perfil do Twitter o termo “marxista” e aqueles que veem isso questionam: “será que ele é uma pessoa perigosa?”

Agora, ninguém sequer pensa sobre isso se estiver escrito no perfil algo como “empreendedor” ou “CEO”. Provavelmente pensaria “Ah, tá.” e fim de papo. Ainda assim, caso conste termos como “marxista” ou “de esquerda”, alguém pode acabar pensando: “esse aí não é um cara meio perigoso?”.

Contudo, não é como se eu não compreendesse os sentimentos daqueles que pensam assim. Isso porque há imagens ditatoriais atreladas a, por exemplo, o Stalin da União Soviética e o Partido Comunista Chinês e, ao considerar os movimentos de esquerda, realmente houve também incidentes como os massacres nos movimentos estudantis do passado.[1]

Na verdade, ao ponderar se a experiência socialista da União Soviética foi algo bom ou não, eu, particularmente, também acho que foi terrível. A da China e da Coreia do Norte também são ruins. A sociedade japonesa é, de longe, melhor.

Portanto, é claro que isso não significa que eu queira recriar a União Soviética na atualidade.

Ainda assim, existem duas razões para eu estar propositalmente chamando a atenção para a necessidade do socialismo ou do comunismo.

A primeira é que a União Soviética e a China, ao invés de socialistas, são exemplos de um capitalismo sob um modelo de liderança de Estado e por burocratas. Por isso que eu gostaria que compreendessem que, enxergá-los como socialistas é, por si só, um erro. Na realidade, o comunismo concebido por Marx retrata uma sociedade completamente distinta da URSS e da China.

A outra razão, que também se relaciona à imagem mencionada anteriormente, é que ao considerar a União Soviética ou a China como as únicas propostas de alternativa ao capitalismo, nós perdemos a habilidade de imaginar “sociedades não capitalistas”.

Em resumo, o que eu gostaria que considerassem é a possibilidade de que, em decorrência do estereótipo de que “o socialismo é pior”, estamos sendo levados a pensar que “o que nos resta, então, é o capitalismo”. Ao acreditar que “marxismo ou socialismo são perigosos”, é natural que acabemos desenvolvendo uma mentalidade que considere que “o Japão é o melhor!” ou ainda que “temos que ser como os Estados Unidos!”.

Mas será que o Japão é realmente melhor? Mesmo havendo tantas desigualdades e injustiças? No momento, até a democracia está sendo ameaçada. Sobretudo, seria bom pensarmos que embora haja tanto avanço tecnológico, há ainda a possibilidade de existir uma sociedade mais igualitária e livre. Marx é, então, justamente aquele que nos dá esta dica.

<><> Questões que estão surgindo por causa do capitalismo

Os problemas que estão surgindo atualmente por causa do capitalismo são divididos em duas grandes questões. A primeira é o fato de as desigualdades acabarem se expandindo massivamente.

É particularmente notável nos EUA, onde uma parcela de pessoas bem-sucedidas, como Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Elon Musk, possuem um patrimônio gigantesco. Isso porque eles circulam em jatos particulares e possuem mansões em várias partes do mundo. Eles estão inclusive tentando ir ao espaço, né? Mesmo com a pandemia do Coronavírus, a fortuna deles só vem aumentando cada vez mais.

Por outro lado, há muitas pessoas no Japão, nos Estados Unidos e em outros países que, devido à pandemia do Coronavírus, foram forçadas a viver na dificuldade, perdendo seus empregos ou levadas à condição de moradores de rua de uma hora para a outra.

Mesmo não estando em tal condição, ainda com nossos empregos e tendo a garantia do básico (alimentação, moradia e vestuário), não podemos dizer que possuímos grandes riquezas. Mês a mês, pagamos nosso aluguel, pagamos nossas contas de telefone, e se saímos algumas vezes para beber, nossa carteira fica às moscas. Não estaríamos apenas vivendo no sufoco? Somos forçados a encarar longas jornadas de trabalho, independente de estarmos trabalhando freneticamente com a insegurança de não saber quando seremos demitidos. A questão é se está tudo bem uma sociedade de merda assim.

A outra crise que temos é o problema do agravamento das mudanças climáticas. Caso as mudanças climáticas continuem avançando no ritmo que estão, as anomalias no clima que têm sucedido atualmente no mundo não serão somente os desastres naturais como incêndios florestais e enchentes, mas também causarão a escassez de água e crises no abastecimento de comida, além de impulsionar problemas migratórios.

Devem surgir grandes mudanças ambientais que se tornarão, literalmente, uma questão de vida ou morte para as gerações mais jovens e para aqueles que vivem em países emergentes. A questão das mudanças climáticas chegou a um ponto que nós realmente não temos mais tempo a perder.

Eis aqui também onde os problemas de disparidade econômica estão escondidos.

Os ricos têm utilizado uma grande quantidade de energia, recursos etc. para usufruir de uma vida de luxo e comodidade. Um exemplo disso é que para uma pessoa viajar sozinha em um jato particular, é usada em vão uma quantidade enorme de combustível para colocar um pedaço de ferro no ar. É natural que ocorra um grande desperdício de energia na busca pelo “conforto” por aqueles que “podem ter o que querem”. Entretanto, eles praticamente não são afetados pelos efeitos das mudanças climáticas. As vítimas são sempre os mais pobres.

Portanto, se não criarmos uma sociedade mais sustentável e mais igualitária, nossa vida acabará sendo ameaçada por causa dos mais ricos. A estrutura do capitalismo, que tem viabilizado que os ricos fiquem ainda mais ricos enquanto sacrificam o planeta, está chegando ao seu “limite”.

A questão da crise ambiental e a questão das desigualdades estão intimamente ligadas, e o fato delas estarem atreladas às falhas do capitalismo me fazem pensar que talvez todos já tenham certa consciência disso. Acredito que mesmo no Japão tem aumentado o sentimento de querer transicionar para uma nova sociedade.

<><> A União Soviética não é um modelo socialista

Reitero que não estou de modo algum querendo dizer que a União Soviética era melhor. Antes de mais nada, quais seriam então os problemas da URSS ou da China? A compreensão que ambas tinham de Marx era mais ou menos a seguinte:

Em primeiro lugar, para que coletivamente haja um crescimento econômico contínuo, promove-se uma renovação tecnológica e aumenta-se a força de produção. Todavia, sob o capitalismo, toda a riqueza produzida à grande esforço acaba monopolizada pelos capitalistas, com os trabalhadores permanecendo na pobreza. Então, se a classe capitalista fosse extinguida por meio de uma revolução, seria possível compartilhar a riqueza da sociedade entre todos, possibilitando que qualquer um tenha uma vida afortunada.

Bem, é justamente por essa razão que a União Soviética e a China tiveram a plena intenção de desenvolver tecnologias e elevar a força de produção. Entretanto, dizer que somente isso as tornam socialistas é uma ilusão.

Em prol de uma vida que restrinja problemas como a fome e as doenças, é natural ser necessário um certo nível de crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico.

Contudo, visar apenas o crescimento econômico faz com que a classe trabalhadora seja explorada e que o meio ambiente seja massivamente destruído. Sob o lema antiestadunidense “queda dos capitalistas”, tanto os humanos quanto a natureza se tornam vítimas. Na realidade, comparado aos Estados Unidos ou ao Japão, na União Soviética ocorriam questões mais acentuadas relacionadas aos direitos humanos, bem como à destruição ambiental.

Então, por que ocorreram tais questões? Isso se deve ao fato de que a União Soviética não era um modelo “socialista”. O que estava sendo feito e que resultou em uma armadilha ilusória de que “por hora, vamos crescer economicamente, aumentando a força de produção”, não era muito diferente do capitalismo. Mas, o que ocorreu foi somente uma alteração do controle dos capitalistas para o dos burocratas.

Isto é um modelo de sociedade completamente distinto do que eu tenho em vista. É justamente agora, com a queda da União Soviética e com o capitalismo destruindo o meio ambiente do planeta, que nós devemos retornar novamente aos estudos de Marx para resolvermos os problemas do capitalismo.

As soluções dos problemas causados pelo capitalismo têm sido observadas a partir da leitura dos Cadernos de pesquisas” de Karl Marx. O trabalho mais famoso de Marx é O capital; contudo, esta obra não está finalizada. Marx continuou a pesquisar até os últimos momentos de sua vida, mas seus estudos permaneceram inacabados. É por isso que, se quisermos conhecer os pensamentos de Marx nos seus últimos anos de vida, é imprescindível a leitura de seus cadernos de pesquisa, porque neles encontramos diversas menções acerca das ciências naturais.

Em meu primeiro livro, intitulado Antes do dilúvio: Marx e o metabolismo planetário, analisei esses cadernos e compreendi que Marx, em seus últimos anos de vida, se voltou em especial aos problemas ambientais. Ele claramente crítica que, focar somente no desenvolvimento tecnológico em prol do aumento de lucro sob uma “expansão capitalista”, faz com que a classe trabalhadora seja cada vez mais subjugada e que o meio ambiente seja devastado.

<><> Resolução conjunta das “desigualdades” e dos “problemas ambientais”

Vamos tentar realocar essas críticas para os dias atuais. Dizem que atualmente estamos na era do “Antropoceno”. Antropoceno é um conceito da geologia que aponta para o período em que as atividades econômicas da humanidade passaram a impactar o clima do planeta, seu ecossistema e afins.

Como resultado do capitalismo que visou sobretudo o crescimento econômico, a humanidade passou a alterar fundamentalmente as bases existenciais do planeta, e agora estamos pagando na mesma moeda através de mudanças climáticas, pandemias e demais adversidades.

O que Karl Marx pensava em seus últimos anos de vida era que a crise no capitalismo, que busca um crescimento econômico ilimitado sob um planeta de recursos limitados, não pode ser solucionada.

A respeito disso, Marx enfrentou esta questão da seguinte forma: em linhas gerais, é necessário buscar um caminho que resolva simultaneamente “desigualdades” e “problemas ambientais”.

Talvez seja possível resolver apenas uma dessas questões. Por exemplo, ao tentar liquidar o problema das desigualdades, pode haver a possibilidade de se buscar um crescimento econômico a partir do aumento da produção e do consumo em massa, certo? Contudo, o que aconteceria se isso fosse feito? A natureza não suportaria o ritmo acelerado de produção e consumo, e o meio ambiente acabaria sendo destruído.

Portanto, a menos que sejam resolvidos simultaneamente os problemas das “desigualdades” e do “meio ambiente”, não será possível superar a crise do colapso da civilização.

¨      Não tememos a noite sombria. Por Leonardo Boff

São muitos atualmente que perderam a esperança de que, no quadro atual sinistro, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto e vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.

Assistimos, estarrecidos, a uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas, com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.

Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois, oito pessoas, possuem individualmente, a riqueza equivalente ao que possuem 4,7 bilhões de pessoas. Nestes não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e considerados sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA vivem 30 milhões de pobres) e enchem, aos milhões, as metrópoles do Sul Global.

Abstenho-me de referir à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). Nem mesmo do crescente aquecimento global do planeta Terra que se até 2030-2035 não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900) causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.

Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram, depois de milhões de anos sobre a Terra.

Por isso sou pessimista porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida Terra como Christian de Duve (Poeira cósmica: a vida como imperativo cósmico, 1995) ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada.

Como dizia o poeta alemão Friedrich Hölderin “lá onde há perigo, cresce também o que salva” (wo aber Gefahr ist,wächst auch das Retende). O nosso perigo é inegável. Mas considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.

Sabidamente a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, Barack Obama, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à Presidência dos EUA. E chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff? E chegou.

Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história.

Far-se-ia a guardiã e a cuidadora da sagrada herança que herdou, a Terra e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.

Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente de cooperação e de sensibilidade face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que em nosso DNA está o amor, a força maior do universo (DNA: o segredo da vida,2005). Com todas estas positividades vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.

Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos que vai nos acrisolar, purificar e permitir dar um salto, habitando um mundo que juntos podemos fazê-lo existir sustentavelmente. Depende de nós impedirmos que as atuais crises virem tragédias.

Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo porque amamos as estrelas,nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.

<><> O sonho de um homem ridículo

Seguramente algum leitor ou leitora estranhará este título. Mas ele conserva atualidade exatamente pela verdade oculta que contém, expressa por ninguém outro que por Fiódor Dostoiévski. É o título de sua narrativa fantástica de 1877 O sonho de um homem ridículo. Qual é esse sonho? Ele responde: “Se todos quisessem, num instante, tudo mudaria na terra”.

É exatamente o que falta no nosso mundo: esse sonho de um homem nada ridículo que poderia nos salvar: se todos quisessem a mesma coisa. Mas a grande maioria não quer. Não obstante, um dia ele foi sonhado em 11 de dezembro de 2015 durante a COP21 em Paris. É o famosoAcordo de Paris, subscrito por praticamente por todos os países que compõem a ONU (195). Todos se comprometeram em reduzir os gases de efeito estufa e assim frear o aquecimento do planeta.

Todos quiseram. No entanto, quase ninguém tornou esse sonho realidade. Se todos de fato quisessem cumprir o sonho do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) teríamos mudado a Terra. Teríamos evitado as catastróficas enchentes, as severas estiagens, as tremendas nevascas, os furacões e os tornados que ocorreram nos anos após 2015.A meta era manter o aquecimento abaixo de 2ºC, se estabilizando em 1,5°C por volta de 2030.

Por que nem todos quiseram, a Terra não mudou. Em 2024/2025 superamos o limite de 1,5°C, chegando a 1,6°C. Ao continuar a emissão de gases de efeito estufa pelo fato de alguns grandes países como os EUA, a Índia e a China optaram pelo uso do carvão junto com o petróleo, produtores de efeito estufa, se frustrou o sonho do Acordo de Paris. Eles não quiseram. Fizeram-se negacionistas, como principal deles Donald Trump.

A seguir esta tendência, dizem especialistas, chegaremos nos anos 2030-2035 próximos a 2°C ou mais. Muitos seres humanos, idosos e crianças, terão dificuldade de se adaptar e não subsistirão. Pior ainda pode ocorrer com a natureza, afetando pesadamente a falta de água e da biodiversidade com a dizimação de milhares de espécies.

Conclusão: Se todos tivessem querido o Acordo de Paris, se cumpriria a profecia de Dostoiévski: tudo teria mudado, num momento, na Terra. Ao invés de melhorar, tudo piorou.

Por que não tomamos a sério o sonho do Acordo de Paris com 195 signatários? Porque não mostramos “boa vontade”, a única virtude que nos teria salvo e ainda poderá nos salvar. Não sou eu quem o afirma. É Immanuel Kant, o mais exigente pensador da ética no Ocidente moderno.

Em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes (1785), ele assevera: “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é irrestritamente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é. Para Kant a boa-vontade é a virtude suprema, sendo a única coisa no mundo boa por si mesma.

Todas as virtudes têm a sua falta ou o seu excesso: assim a coragem excessiva é ousadia, ter generosidade demais é a prodigalidade; a modéstia demasiada é inibição. Todas as virtudes, sem exceção, possuem seu contraponto, seja em excesso seja em carência.

Somente a boa vontade não tem defeito nenhum. Se tivesse alguma sombra ou restrição, não seria boa. No fundo, todas as virtudes (o viver corretamente) estão referidas à boa vontade, como aliás enfatizava Kant.

Há aqui uma verdade com consideráveis consequências práticas. Por exemplo, nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia ou entre Israel e a Palestina, ou entre EUA e Irã, se não houver boa-vontade de ambos os lados, jamais se chegará a um acordo de paz. Quer dizer, não posso maliciar tudo, colocar tudo sob suspeita e desconfiar de tudo. A boa vontade e a mútua confiança devem se constituir como base comum. Sem a boa vontade nada se construirá de sustentável, de sólido, aquilo que não se evapora no ar.

Encontramo-nos em momentos críticos e perigosos, como nunca em nossa história anterior. Podemos nos autodestruir. As potências militaristas disputam a hegemonia do mundo. E o fazem numa feroz competição sem qualquer laivo de cooperação e cuidado para com o planeta Terra e nosso futuro comum. Não é impossível “a mútua destruição assegurada”, levando junto a vida humana.

Em situações assim devemos desentranhar de dentro de nós o que pertence ao nosso ser humano: a capacidade de ativar a boa-vontade e pô-la em prática. Ou o fazemos ou arriscamos o futuro de nossa existência nesse pequeno e esplêndido planeta Terra, nossa única Casa Comum.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: