O
capitalismo mata as mulheres para “salvar as mulheres”
Com o
ataque ao Irã, a guerra voltou a apresentar-se embrulhada na linguagem da
salvação das mulheres. Numa operação já demasiadas vezes vista, a opressão real
sofrida pelas mulheres iranianas foi arrancada do campo da emancipação para ser
convertida em álibi moral de interesses econômicos geopolíticos e destruição
militar. Já tínhamos assistido ao mesmo dispositivo no Afeganistão, quando a
condição das mulheres afegãs foi mobilizada como justificação civilizatória
para a ocupação e a guerra, ao mesmo tempo que a sua “libertação” era
subordinada a objetivos imperiais e securitários. Mas o palco bélico não é o
único teatro dessa operação. Depois de ser experimentada nas guerras lideradas
pelos Estados Unidos, foi rearticulada também no interior da Europa, onde a
retórica da defesa das mulheres passou a servir de cobertura para políticas
racistas, islamofóbicas e anti-imigração.
Em
2024, na Itália, já se tornava visível nas ruas a encenação obscena dessa
operação propagandística. Cartazes da direita e da extrema-direita mobilizavam
a imagem da mulher muçulmana velada para vestir de defesa das mulheres uma
ofensiva que, na realidade, alimentava a disciplina “nacionalista” dos corpos.
Na França, a proibição do véu integral foi apresentada em nome da “dignidade” e
da “igualdade”, convertendo o corpo da mulher muçulmana em terreno de
demonstração da autoridade republicana. Nos Países Baixos, a restrição ao uso
de niqab (tipo de véu que deixa apenas os olhos visíveis) e burca em
transportes e edifícios públicos foi vendida como defesa da convivência e da
liberdade, ao mesmo tempo em que a extrema-direita de Geert Wilders consolidava
um discurso que associava Islã, misoginia e ameaça à nação. Na Áustria, tanto a
proibição do véu integral em 2017 quanto as medidas posteriores contra o lenço
islâmico para meninas foram justificadas como proteção contra a “opressão”,
embora produzam precisamente mais vigilância, estigma e exclusão. Em Portugal,
o projeto aprovado no parlamento em 17 de outubro de 2025, impulsionado pelo
Chega, repetiu o mesmo roteiro, apresentando-se como defesa da dignidade das
mulheres, quando na prática mirava um grupo ínfimo e transformava muçulmanas em
pretextos para endurecer fronteiras identitárias da nação. Assim, a defesa das
mulheres deixou de funcionar como horizonte de emancipação e passou a servir de
legitimação do Estado, da nação, da guerra e do controle de populações marcadas
como ameaça. É precisamente nessa torção que a questão das mulheres é capturada
e violências reais são
instrumentalizadas para autorizar outras.
Na
literatura crítica, esse mecanismo aparece em conceitos como “femonacionalismo”
e “feminismo imperial”. O primeiro, associado de forma decisiva ao trabalho de
Sara R. Farris, nomeia a apropriação da linguagem dos direitos das mulheres por
forças nacionalistas, anti-imigração e islamofóbicas. O segundo designa a
conversão do vocabulário feminista em recurso legitimador para projetos
imperiais, civilizatórios, coloniais. Em ambos os casos, constrói-se um “nós”
supostamente civilizado contra um “outro” apresentado como bárbaro, violento e
atrasado, quase sempre racializado e muçulmano. O que está em causa, portanto,
é o sequestro da causa das mulheres para fins de dominação e disciplinamento
global.
O que
se pode observar, nesses contextos, é um movimento de deslocamento, abstração e
racialização da questão das mulheres, onde a opressão é reconhecida, mas apenas
para ser politicamente redirecionada. Por exemplo, a discriminação real sofrida
pelas mulheres no Irã é amplamente documentada por organizações de direitos
humanos. No entanto, em contextos de guerra e escalada regional, as potências
ocidentais articularam essa denúncia com estratégias militares, regimes de
sanções e enquadramentos civilizatórios que não se orientam prioritariamente
pela autodeterminação das mulheres iranianas. A condição das mulheres deixa,
então, de ser tratada como relação social concreta, atravessada por Estado,
classe, família, religião, mercado de trabalho, repressão e história, para
passar a aparecer como atributo essencial de uma cultura definida como
“atrasada”. É precisamente esse o núcleo da crítica formulada por Lila
Abu-Lughod no artigo “Do Muslim Women Really Need Saving?” [“As mulheres
muçulmanas por acaso precisam ser salvas?”), depois desenvolvido no livro
homônimo, a linguagem de “salvar mulheres muçulmanas” converte problemas
históricos e políticos em uma perigosa e conveniente “prova moral de
inferioridade civilizacional”.
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Externalização do patriarcado e universalismo seletivo
Outro
ponto decisivo é a cisão entre emancipação e tutela. O discurso proclama a
defesa das mulheres, mas o sujeito da ação já não são as próprias mulheres
organizadas. Passam a ser o Estado, o exército, a polícia, a fronteira, o
tribunal, a república, a nação. Em vez de ampliar a “agência das mulheres”,
transfere-se autoridade para instâncias que se arrogam o direito de governar os
seus corpos em nome da libertação. É por isso que proibições do véu ou do niqab
podem ser apresentadas como defesa dos “direitos das mulheres”, quando na
realidade consistem em novas formas de coerção dirigidas a mulheres
específicas. O caso português, aprovado em outubro de 2025, é particularmente
revelador porque condensa essa lógica de forma exemplar: uma medida apresentada
como defesa da liberdade, mas dirigida a um grupo diminuto e mobilizada para
traçar, sobre corpos específicos, os limites do pertencimento à nação.
Ainda
neste movimento, podemos perceber um outro fenômeno que é a externalização do
patriarcado. O patriarcado é apresentado como problema deles, nunca nosso. A
misoginia aparece como atributo do Islã, do Oriente, do migrante, do homem
racializado. Com isso, o Ocidente liberal camufla a sua própria autoimagem para
mascarar a persistência de relações patriarcais no seu interior e, ao mesmo
tempo, barbariza o outro racializado para torná-lo governável, ocultando suas
próprias formas de violência: desigualdade salarial, austeridade, violência
doméstica, ataques a direitos reprodutivos, racismo institucional, feminização
precária do trabalho.
Aqui o
“femonacionalismo” aparece como uma articulação entre nacionalismo,
neoliberalismo e certas formas institucionais de feminismo que convergem na
construção do migrante muçulmano como figura de atraso. Ou seja, o
“femonacionalismo” é reorganização ideológica do próprio patriarcado, que deixa
de aparecer como uma estrutura social geral, com formas distintas em diferentes
contextos e passa a ser narrado como propriedade quase natural de um outro
civilizacional, “o muçulmano”, “o
oriental”, “o migrante”. No lugar de ser entendido como relação social,
histórica e material, ele é convertido em marcador cultural de alteridade. É
isso que permite ao Ocidente liberal falar como se estivesse fora do problema,
como se a dominação masculina fosse uma patologia externa e não uma dimensão
constitutiva também das suas próprias formações sociais.
O
primeiro efeito dessa externalização é a produção de uma suposta “inocência
ocidental”. Se a misoginia é deles, então nós aparecemos automaticamente como
espaço da igualdade já alcançada. É precisamente aí que reside a sua força.
Permite que sociedades atravessadas por violência contra as mulheres se
representem como maduras, emancipadas e civilizadas. O patriarcado, portanto, é
deslocado geograficamente. Sai do interior contraditório das sociedades
liberais e é projetado sobre corpos e culturas racializadas. O resultado é uma
operação dupla que absolve a ordem interna e constrói um inimigo externo ou
interno racializado. Pesquisas recentes, em particular o trabalho de Francesca
Scrinzi sobre França e Itália, mostram como a extrema-direita combina a racialização
do sexismo com ataques a feministas, pessoas LGBTQI+ e elites políticas
apresentadas como traidoras da comunidade nacional.
Outro
efeito é que essa operação transforma a questão das mulheres num instrumento de
fronteira de releitura colonial. A mulher “ocidental” vira emblema da
civilização e a mulher muçulmana vira prova viva da barbárie alheia; o homem
muçulmano vira figura condensada da ameaça misógina. Esse triângulo é
extremamente funcional porque organiza afetos políticos simples e poderosos,
como medo, repulsa, superioridade moral, desejo de proteção. Com isso, o
discurso sobre gênero deixa de apontar para emancipação e passa a legitimar
vigilância, assimilação forçada, políticas anti-imigração e exceção
securitária; já a “libertação das mulheres” é convertida em linguagem de gestão
diferencial da população.
Isso é
possível, pois o neoliberalismo precisa de formas específicas de reorganização
da reprodução social e do trabalho de cuidado. Simultaneamente, o nacionalismo
precisa de fronteiras morais nítidas e certos feminismos institucionais, quando
esvaziam a crítica de classe e de raça, tornam-se compatíveis com políticas
estatais de integração e disciplina. O resultado não é um simples “roubo”
externo da pauta feminista, mas uma articulação em que cada elemento ganha
algo. A direita ganha verniz moderno, o neoliberalismo ganha uma linguagem
moral para administrar trabalho migrante e integração subordinada e setores
feministas institucionais ganham reconhecimento estatal, ainda que ao preço de
se tornarem parte de um dispositivo excludente. A própria tese de Farris
insiste nesse ponto de convergência entre anti-Islamismo, nacionalismo e
neoliberalismo.
Do
ponto de vista analítico, isso permite dizer que a externalização do
patriarcado é também uma desmaterialização do patriarcado. Em vez de se
perguntar quem realiza o trabalho reprodutivo mal pago, quem sofre com a
austeridade, quem é mais exposta à violência doméstica, quem perde acesso a
creches, moradia, aborto, saúde ou renda, desloca-se a atenção para sinais
culturais visíveis: véu, niqab, costumes religiosos, figura do homem migrante.
O patriarcado deixa então de ser uma estrutura ligada à reprodução social e
passa a ser lido como problema de costumes, o que é politicamente útil porque
escamoteia o conflito social por conflito cultural. Em vez de atacar as bases
materiais da dominação, ataca-se um signo identitário.
O corpo
feminino como fronteira
No
entanto, a substituição da política social pela política securitária não
resolve a opressão, apenas a coloca noutro circuito de poder. A questão das
mulheres é deslocada do terreno da reprodução social para o terreno da razão de
Estado. O problema deixa de ser como transformar as condições materiais da vida
das mulheres e passa a ser como governar populações classificadas como ameaça.
O Estado afirma proteger mulheres, mas o que efetivamente fortalece são os seus
próprios aparelhos de vigilância e coerção. Em vez de reduzir a vulnerabilidade
material, ele produz novas formas de vulnerabilidade: estigma, criminalização,
exclusão, deportabilidade, exposição acrescida à violência institucional.
Assim, a instrumentalização da causa das mulheres consiste, além de usar uma
pauta justa para fins espúrios, em transformar uma demanda de emancipação num
instrumento de governo.
Um
outro aspecto a se notar nestes mecanismos é a produção diferencial de vítimas.
Nem toda mulher violentada se torna objeto de comoção política equivalente.
Certas mulheres só se tornam visíveis quando podem ser usadas contra um inimigo
geopolítico ou interno. Outras permanecem invisíveis quando sua situação
implicaria criticar aliados ocidentais, a austeridade doméstica, o
encarceramento, o colonialismo de fronteira ou a exploração do trabalho
migrante. Isso mostra que não estamos diante de um universalismo coerente, mas
de um universalismo seletivo. A violência é real, mas sua inteligibilidade
pública é organizada segundo a utilidade estratégica da vítima, pois existe um
regime de visibilidade em que algumas vítimas são tornadas legíveis, choráveis
e politicamente mobilizáveis, enquanto outras permanecem opacas, secundárias ou
estruturalmente inaudíveis. O centro do argumento é que a violência contra as
mulheres não entra no espaço público como simples fato moral, pois entra já
mediada por hierarquias geopolíticas, raciais e estatais. Algumas mulheres
tornam-se símbolo universal da barbárie alheia; outras permanecem fora de foco
porque sua dor exigiria uma crítica à violência produzida ou tolerada pelo
próprio Ocidente, por seus aliados ou por suas estruturas econômicas e
institucionais.
Não há,
portanto, um universalismo efetivo, mas uma distribuição desigual da comoção.
Então, vemos que na verdade a vítima não é apenas reconhecida, ela é
politicamente selecionada. Isso implica dizer que a extrema-direita só “defende
mulheres” sob condição de definir antes quais mulheres contam. Ela costuma
defender uma figura muito específica: a mulher nacional, heterossexual,
reprodutiva, ameaçada pelo exterior, integrada à moralidade majoritária. Já as
mulheres migrantes, muçulmanas, trans, pobres ou insubmissas raramente entram
nesse esquema como sujeitos plenos e aparecem como vítimas sem voz ou como
problema de ordem pública. Ou seja, a linguagem da “defesa feminina” é
profundamente seletiva e compatível com outras formas de patriarcado. O corpo
feminino torna-se uma espécie de mapa político condensado e é nele que o Estado
procura tornar visível a sua autoridade. O que está em jogo deixa então de ser
apenas uma peça de roupa ou uma prática cultural específica para uma disputa
sobre quem tem o poder de definir publicamente o significado da liberdade, da
integração e da pertença.
Essa
conversão do corpo feminino em fronteira implica uma hipervisibilidade
seletiva. O corpo da mulher muçulmana racializada torna-se objeto de leitura
permanente. O véu, o niqab ou a burca passam a operar como signos saturados,
quase sempre lidos de antemão como prova de submissão, atraso ou ameaça. O
corpo da mulher deixa de pertencer prioritariamente à própria mulher e passa a
ser tratado como texto público da nação. É sobre ele que a sociedade
majoritária projeta os seus medos, fantasias e imperativos civilizacionais.
Essa
fronteira é também uma fronteira interna. Não se trata só de separar “Ocidente”
e “Oriente” no plano geopolítico, mas também de inscrever essa separação no
interior da própria sociedade europeia. O corpo da mulher muçulmana torna-se o
lugar onde se dramatiza a pergunta: quem pertence plenamente à comunidade
nacional e sob que condições? O problema não é só se ela pode usar determinada
vestimenta, mas se ela pode aparecer no espaço público sem ser obrigada a
traduzir-se nos termos culturais definidos por outros. Nesse sentido, a lei não
regula apenas um objeto, produz um teste de assimilação e regula a própria
visibilidade da alteridade. O corpo feminino torna-se, assim, o ponto em que a
cidadania é submetida a exame e o Estado determina quais corpos podem circular
como normais, legíveis e aceitáveis no espaço nacional. O véu ou o niqab
adquirem então uma função desproporcional ao seu peso empírico, porque permitem
a esse mesmo Estado representar-se como guardião simultâneo da segurança, da
laicidade, da igualdade e da identidade nacional. O alvo jurídico pode ser
pequeno, mas o rendimento político é enorme.
Na
mesma linha de raciocínio, há outra dimensão decisiva que é quando o Estado se
arroga o direito de definir qual mulher conta como livre. A liberdade deixa de
ser entendida como capacidade material e política de autodeterminação e passa a
ser codificada em sinais visíveis de conformidade com a cultura nacional
majoritária. A mulher “livre” é aquela que se apresenta de forma reconhecível
para o olhar do Estado e da esfera pública dominante. Aqui, a liberdade
torna-se menos autonomia do sujeito do que “legibilidade para o poder”. Isso
permite mostrar a contradição interna desse dispositivo, pois se afirma
libertar mulheres por meio de novas formas de regulação dos seus corpos. Em vez
de retirar coerções, impõe outras e, no lugar de ampliar possibilidades, se
estreita o campo do que pode contar como presença legítima. Por isso, essas
políticas, além de hipócritas, produzem uma forma específica de dominação que
substituem uma suposta opressão pela administração estatal da conduta e da
visibilidade feminina. O véu não é perseguido porque seja socialmente central,
mas porque permite ao Estado encenar a sua autoridade sobre um corpo tornado
símbolo. Ao legislar sobre a aparência da mulher muçulmana, se define quem pode
ser vista como livre, integrada e civilizada.
Em
conclusão, sempre que a igualdade de gênero é separada da crítica ao
imperialismo, ao racismo e à exploração, ela pode ser reciclada como linguagem
da guerra e da fronteira. Um feminismo emancipatório não se mede pela
capacidade de justificar ocupações, sanções, deportações ou proibições, mas
pela capacidade de ampliar a autonomia material e política das mulheres
concretas. Quando a libertação serve para intensificar tutela, vigilância e
exclusão, não estamos diante de feminismo, mas da sua captura por projetos de
poder que falam em nome das mulheres para melhor punir e dominar.
Fonte:
Por Marcela Magalhães de Paula, em Jacobin Brasil

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