O
paradoxo no mercado de trabalho brasileiro
Os
indicadores de mercado de trabalho costumam ser apresentados sob uma linguagem
técnica que, ao traduzir vivencias humanas em percentuais e medias moveis,
acaba por ocultar a dimensão mais concreta da relação entre pessoas e trabalho.
A nona edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem de Mercado
de Trabalho do FGV IBRE, divulgada em 16 de marco de 2026, traz dados que
obrigam a uma leitura mais atenta. Segundo o levantamento, 53,6% dos
entrevistados afirmam que conseguir trabalho no pais esta difícil ou muito
difícil, ao passo que 34,3% projetam que a situação tenderá a piorar nos
próximos seis meses. Não se trata, portanto, de um exercício abstrato de
projeção macroeconômica, mas de uma percepção enraizada na experiência
cotidiana de quem busca emprego, negocia salários e convive com a incerteza.
Essa
percepção ganha relevo quando se considera que o trimestre móvel findo em
fevereiro de 2026 registrou o maior índice de pessimismo desde outubro de 2025.
A passagem de 2025 para 2026 marca uma inflexão na tendência de melhora que
vinha sendo observada: o aquecimento econômico do ano anterior, com níveis
recordes de ocupação, não se traduziu em confiança duradoura entre os
trabalhadores. A desconexão entre a realidade agregada dos indicadores e a
vivencia singular de quem depende do mercado de trabalho para sobreviver revela
um fenômeno que a mera análise quantitativa não alcança. É preciso compreender
as condições materiais e culturais que moldam o sentimento do trabalhador, a
economia moral que orienta suas expectativas e frustrações.
Rodolpho
Tobler, economista da FGV IBRE, afirmou que os primeiros resultados de 2026
indicam continuidade do aquecimento visto no ano passado, mas com uma tendência
maior de estabilidade. Tobler apontou ainda que, dado o cenário macroeconômico
desafiador e a desaceleração da economia, e esperado que o número de vagas
abertas seja inferior ao que foi observado ao longo de 2025. Essa leitura,
embora tecnicamente correta, não dá conta de um problema anterior: a qualidade
das vagas ofertadas e as condições efetivas de acesso a elas. O sociólogo
Ricardo Antunes, em O privilegio da servidão (2018), já demonstrava como a
expansão da ocupação no Brasil contemporâneo se acompanhada da multiplicação de
formas precárias, intermitentes e uberizadas de trabalho, que desproveem os
trabalhadores de estabilidade, proteção social e perspectiva de futuro.
Marcio
Pochmann, economista e pesquisador histórico do mercado de trabalho brasileiro,
argumentou em diversas obras que o desemprego no Brasil possui características
estruturais que não podem ser reduzidas a oscilações cíclicas. A
heterogeneidade do mercado de trabalho, com seu alto grau de informalidade e
desproteção, e um problema que antecede a conjuntura e que se agrava em
períodos de retração econômica. Ruy Braga (2017), por sua vez, ao analisar o
preparado brasileiro, demonstrou que a inserção subalterna de amplos segmentos
da população trabalhadora gera uma experiência compartilhada de insegurança que
não aparece nos indicadores convencionais de desemprego.
A nota
técnica do IPEA intitulada Crescimento sem formalização do trabalho: déficit de
capacidade fiscalizatória e necessidade de recomposição da burocracia
especializada (Pateo; Lobo, 2025) traz um dado revelador: enquanto o desemprego
atingiu mínimas históricas em 2024 (6,6%), a taxa de informalidade alcançou
31,77%, o maior percentual da série. Ou seja, a redução do desemprego não se
converteu em ampliação do emprego formal. O número de auditores fiscais do
trabalho caiu 34,1% entre 2012 e 2024, enquanto os trabalhadores assalariados
cresceram 11,4%. Esse descolamento entre ocupação e formalização exige que se
pergunte: emprego para quem, em quais condições, com quais direitos?
A
percepção de 32,7% dos entrevistados pelo FGV IBRE de que o mercado tende a
permanecer estável, e não a crescer, carrega consigo uma leitura prosaica, mas
profundamente significativa: a estabilidade, nesse contexto, não é sinônimo de
segurança, mas de acomodação a uma precariedade percebida como normal. Graziela
Ansiliero e Marcelo Abi-Ramia Caetano, pesquisadores do IPEA, já haviam
identificado essa naturalização da insegurança entre trabalhadores de baixa
renda, que ajustam suas expectativas para baixo diante de sinais
macroeconômicos adversos. A sazonalidade dos dados, ressaltada pelo próprio FGV
IBRE pela ausência de ajuste sazonal nas series, reforça a cautela na
interpretação, mas não invalida a tendência detectada.
O
Boletim Mercado de Trabalho n. 80 do IPEA (novembro de 2025) registrou que a
taxa de ocupação atingiu 58,8% no segundo trimestre de 2025, o maior nível da
série histórica, com a população ocupada alcançando cerca de 100,2 milhões de
pessoas. Esse patamar recorde coexiste com a percepção negativa captada pela
Sondagem da FGV IBRE, e a coexistência não é paradoxal: ela expressa o fato de
que a quantidade de ocupados não equivale a qualidade do trabalho. Uma parcela
significativa dessa ocupação e formada por trabalhadores por conta própria,
intermitentes, plataformizados e informais, cujas condições não lhes garantem
acesso a direitos trabalhistas, previdência social ou remuneração digna.
Marcelo
Perroni, em estudo publicado na revista Estudos Avançados, denominado
Precariedade ocupacional: uma questão de gênero e raça (2016), demonstrou que a
maioria das ocupações precárias no Brasil e exercida por negros e mulheres, e
que os efeitos de crises econômicas sobre o mercado de trabalho penalizam esses
segmentos de maneira desproporcional. A Sondagem do FGV IBRE não desagrega seus
dados por raça e gênero, o que constitui uma lacuna analítica que impede a
identificação de quem, concretamente, experimenta a dificuldade de acesso ao
trabalho como impossibilidade real.
Em
resumo, a transição do otimismo para a cautela entre 2025 e 2026 não e apenas
uma oscilação conjuntural. Ela reflete a experiência acumulada de trabalhadores
que, mesmo em períodos de aquecimento, enfrentam barreiras estruturais de
acesso, permanência e qualidade no emprego.
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A questão em perspectiva comparada: como outras economias periféricas enfrentam
o mesmo dilema
O
descompasso entre indicadores macroeconômicos favoráveis e a percepção negativa
dos trabalhadores não é uma exclusividade brasileira. Economias periféricas e
semiperiféricas com estruturas produtivas heterogêneas, mercados de trabalho
segmentados e histórias de industrialização tardia compartilham dilemas
semelhantes. A comparação com Colômbia, México, África do Sul e Turquia permite
identificar padrões comuns e especificidades nacionais que iluminam o caso
brasileiro.
Na
Colômbia, Ham, Maldonado e Guzman-Gutierrez (2021), em estudo publicado no IZA
Journal of Labor Policy, documentaram que os jovens colombianos enfrentam taxas
de desemprego sistematicamente superiores aos dos adultos, com forte
participação em ocupações informais e não assalariadas. As desigualdades de
gênero no mercado de trabalho colombiano são pronunciadas, com a taxa de
desemprego feminino juvenil entre as mais altas da América Latina. Os autores
observam que, apesar de melhorias recentes, a inserção produtiva dos jovens
permanece precária e lenta, com políticas ativas de mercado de trabalho ainda
incipientes.
O
México, por sua vez, apresenta uma taxa de informalidade que ultrapassa 55% da
população ocupada, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho
(OIT). A economia mexicana, apesar de taxas de desemprego relativamente baixas
(em torno de 2,5% a 3%), mascara uma realidade de subemprego, baixa remuneração
e ausência de proteção social para a maioria dos trabalhadores. O contraste
entre desemprego baixo e precariedade elevada reproduz, em escala ampliada, o
mesmo fenômeno identificado pela Sondagem do FGV IBRE no Brasil.
Na
África do Sul, o desemprego juvenil atingiu níveis críticos, ultrapassando 60%
entre jovens de 15 a 24 anos segundo o Statistics South África (2025). A
economia sul-africana combina crescimento lento, desigualdade racial
historicamente enraizada e exclusão territorial que impede o acesso ao mercado
formal de trabalho. A herança do apartheid continua moldando as oportunidades
de emprego, com trabalhadores negros concentrados em ocupações de menor
remuneração e proteção. Shin, Kalleberg e Hewison (2023), em artigo publicado
no Sociology Compass, analisaram como o trabalho precário assumiu formas
heterogêneas nos países do Sul Global, com impactos desproporcionais sobre
mulheres, jovens, minorias raciais e migrantes.
A
Turquia, economia emergente com histórico de industrialização acelerada e
posterior desindustrialização parcial, registra taxa de desemprego juvenil em
torno de 17% (TURKSTAT, 2025), com forte incidência de informalidade nas
regiões rurais e do sudeste do pais. A participação feminina no mercado de
trabalho turco permanece entre as mais baixas do grupo de economias de renda
média-alta, refletindo barreiras culturais e institucionais de acesso. O caso
turco reafirma a tese de que a mera contabilização de postos de trabalho não
revela a qualidade da inserção produtiva nem a experiência vivida dos
trabalhadores.
O que
esses cenários revelam e que a precariedade do trabalho nos países periféricos
não é um desvio, mas uma característica estrutural do modo como essas economias
se inserem na divisão internacional do trabalho. A desindustrialização, a
reprimarização e a financeirização, como apontou o dossiê Precarização do
trabalho, nova informalidade e território (Cadernos Metrópole, 2024),
combinam-se para produzir mercados de trabalho nos quais o crescimento da
ocupação convive com a ampliação da vulnerabilidade.
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Jovens, negros e mulheres: quem paga a conta da desaceleração
Os
dados desagregados por raça, gênero e faixa etária produzidos pelo DIEESE e
pelo IBGE conferem espessura social ao que a Sondagem do FGV IBRE apresenta de
forma agregada. De acordo com o Boletim Especial do DIEESE de novembro de 2024,
o rendimento médio dos trabalhadores negros e 40% inferior ao dos não negros.
Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial
alcança 32%. No segundo trimestre de 2024, a taxa de desemprego das mulheres
negras era de 10,1%, mais que o dobro da taxa dos homens não negros (4,6%).
Esses números não são anomalias estatísticas: são expressões de uma estrutura
de desigualdade que se reproduz no interior do mercado de trabalho,
independentemente dos ciclos econômicos. Segundo o levantamento do Ministério
do Trabalho e Emprego com base na RAIS, 66% dos trabalhadores resgatados em
condições análogas a escravidão entre 2002 e 2024 eram negros.
A
juventude brasileira e outro grupo que experimenta de forma aguda a
precariedade do mercado. O Boletim Emprego em Pauta n. 31 do DIEESE (outubro de
2025) registrou que, no segundo trimestre de 2025, cerca de 8,9 milhões de
jovens entre 14 e 29 anos estavam sem trabalho e fora da escola, o que
representava 17,9% da população nessa faixa etária. Embora o número tenha
recuado em relação a anos anteriores, permanece elevado e revela uma exclusão
que combina dimensões educacionais e laborais. O IPEA, no Boletim Mercado de
Trabalho n. 78 (outubro de 2024), apontou que 40% dos jovens ocupados se
encontram na informalidade, percentual muito superior à média geral. Mont’Alvao
e Ribeiro (2020), em artigo publicado nos Annals of the American Academy of
Political and Social Science, demonstraram que durante a recessão brasileira de
2014-2017, as diferenças de desemprego entre jovens brancos e negros se
ampliaram, assim como entre jovens com e sem escolaridade superior.
Quando
se sobrepõe a analise racial a analise geracional, o quadro se torna ainda mais
grave. A taxa de desemprego entre jovens negros e consistentemente superior à
dos jovens brancos, e a inserção das jovens negras no mercado de trabalho e
marcada pela concentração em ocupações domesticas, de alimentação e limpeza,
com remunerações inferiores e baixa perspectiva de mobilidade. Os dados
recentes do Ministério do Trabalho indicam que apenas 2,1% dos trabalhadores
negros, homens ou mulheres, ocupam cargos de direção ou gerencia, enquanto
entre homens não negros essa proporção e de 5,5%. Essa configuração não se
explica por diferenças individuais de qualificação, mas por mecanismos sociais
de triagem, discriminação e reprodução da desigualdade que operam de forma
silenciosa e continua no interior das relações de trabalho. A percepção
negativa captada pela Sondagem do FGV IBRE para fevereiro de 2026 não se
distribui uniformemente pela população: ela atinge com mais forca aqueles que
já ocupam as posições mais vulneráveis da estrutura ocupacional.
O que
os dados revelam, em conjunto, e que a transição do otimismo para a cautela
entre 2025 e 2026 não pode ser compreendida como uma mera reversão cíclica. Ela
traduz o acumulo de experiências de frustração, exclusão e instabilidade que
atravessam a vida de milhões de trabalhadores brasileiros. A melhora dos
indicadores agregados durante 2025, com recordes de ocupação e quedas nominais
de desemprego, não alterou a percepção de quem enfrenta diariamente um mercado
de trabalho fragmentado, racialmente estratificado. A estabilidade apontada por
32,7% dos entrevistados não reflete confiança, mas resignação. A projeção de
piora feita por 34,3% não é pessimismo infundado, mas leitura realista de quem
observa os sinais da desaceleração econômica a partir de um lugar social
especifico. O desafio colocado para 2026 não e apenas gerar vagas, mas
transformar as condições em que o trabalho e ofertado, remunerado e protegido.
Sem enfrentamento da informalidade crescente, sem recomposição da capacidade
fiscalizatória do Estado, sem políticas efetivas de combate à discriminação
racial e de gênero no emprego, a tendência e que a cautela se converta em
desalento. E o desalento, ao contrário da cautela, não aparece nas pesquisas de
expectativa: ele simplesmente retira as pessoas da condição de quem busca
trabalho, tornando-as invisíveis para os próprios indicadores que deveriam
medi-las.
Fonte:
Por Erik Chiconelli Gomes, em Outras Palavras

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