Raphael
Silva Fagundes: Como as Big Techs querem nos tornar dependentes da IA
Acreditar
que as máquinas podem superar e controlar os seres humanos pode ser uma
armadilha alienante. Isso porque é preciso entender que a ficção científica
(FC) se desenvolve com a Revolução Industrial, isto é, quando a burguesia passa
a ter o monopólio dos principais meios de produção da era contemporânea: as
máquinas.
As
máquinas – e o conhecimento científico para desenvolvê-las – são o centro de
diversas histórias de FC. Quando dissemos que as máquinas vão controlar os
seres humanos, como no filme Matrix, estamos escondendo, colocando um véu sobre
a classe que controla as máquinas: a burguesia.
A
burguesia nunca irá perder o controle sobre as máquinas. Isso é um engodo para
temermos o domínio das máquinas, e não à exploração burguesa, algo similar ao
subtítulo do Realismo Capitalista, de Mark Fisher, “é mais fácil imaginar o fim
do mundo do que o fim do capitalismo”.
O mesmo
se diz quando se apela para a ideia de que os robôs irão se revoltar contra os
seres humanos. Geralmente é um discurso contra a escravidão, como no conto O
homem bicentenário e no game Detroit: become human. Escravos já foram meios de
produção, sim. Mas máquinas não são pessoas. Na verdade, esse discurso esconde
a exploração atual dos trabalhadores livres, parecendo que não há motivos para
se rebelarem, mas as máquinas, por outro lado, sim, pois a exploração de
verdade é quando se é escravo, quando se tem a liberdade tolhida, e não quando
um trabalhador de plataforma que, supostamente, faz o seu próprio horário.
A
ficção cinetífica está fazendo 100 anos. Após a definição de Hugo Gernsback em
1926 (“um romance cativante entremeado de fatos científicos e visão
profética”), o gênero se consolidou. Essa data pode ser útil para discutirmos o
projeto de poder de quem controla os principais dispositivos tecnológicos da
atualidade.
Concordamos
com a posição do professor Adam Roberts de que “a FC é mais bem definida como
ficção tecnológica”. A tecnologia é o principal elemento na “retórica que evoca
para justificar seu elemento fantástico”. Por isso que David Allen define
ficção científica “pela presença de ‘engenhos’ produzidos pela tecnologia
resultante de ciências extrapoladas”.
Isaac
Asimov chamou o medo imaginário de que as máquinas possam superar os seres
humanos de “complexo de Frankenstein”. “O êxito de Frankenstein foi tão grande
que a ideia básica – ‘o homem cria o robô; o robô mata o homem’: – se repetiu
sem parar numa série inacabável de histórias de ficção científica”.
Asimov
acreditava que se entendermos inteligência como “a perspicácia, a intuição, a
criatividade, a capacidade de analisar um problema como um todo e adivinhar a
resposta pela ‘percepção’ da situação”, “os computadores são, decididamente,
muito ignorantes”. Contudo, já em sua época, o neoliberalismo estava
trabalhando para fundar uma nova episteme que iria impor um novo padrão de
inteligência.
A
professora Tatiana Roque mostra que, durante a Guerra Fria, “surgiu uma nova
visão sobre ‘racionalidade’, diferente da própria ideia de ‘razão’. Foi nesse
momento que se passou a conceber a racionalidade humana de modo similar aos
algoritmos”. Surge o Homo economicus, “que decide em função de perdas e
ganhos”.
Trata-se
do que os liberais chamaram de “paradigma da escolha racional” no qual “o homem
age por meio do cálculo entre custo e benefício”. Ser inteligente passou a ser
saber investir o mínimo possível para se conseguir o maior ganho. Isso é ser
lógico e racional. Ser inteligente é tomar decisões a partir dessa lógica,
semelhante ao modelo econômico.
Durante
a Guerra Fria, vivia-se a iminência de uma guerra que ninguém jamais havia
lutado: a guerra nuclear. Um pânico se instalou no mundo. Era, portanto,
“preciso desenvolver métodos sistemáticos para lidar com incertezas”. Assim, a
computação ganha espaço mediante as pesquisas operacionais que exploravam
“técnicas para simular decisões a partir de dados e prospecção de cenários”.
“Tarefas complexas, antes atribuídas a pessoas experientes e hábeis, com
virtudes para julgar e avaliar cenários de modo original, eram reduzidas a
sequências de passos automatizados”. A nova concepção de racionalidade jogava a
autoridade de tomar decisões nas mãos de uma máquina que poderia simular
comportamentos e, a partir daí, tomar decisões. “Com base nesses pressupostos, bastante
redutores, a racionalidade adquiria um aspecto algorítmico”.
Mas com
o fim da corrida armamentista entre EUA e URSS, há uma queda de investimento na
inteligência artificial. Alguns chamam de segundo inverno da IA. Mas a ideia de
reduzir a inteligência humana ao princípio da escolha racional permaneceu como
um projeto cultural do neoliberalismo, o que, ao longo dos anos, contribuirá
para a ascensão atual das máquinas e aplicativos inteligentes. Tanto que, já em
1997, o professor da Emory University, Rammath Chellapa, “indicava que o futuro
das tecnologias digitais estaria umbilicalmente ligado aos interesses da
lucratividade das corporações”.
As
classes dominantes perceberam que para implantar o neoliberalismo era
necessário promover uma reforma cultural. Para tanto se empenhou em
“estratégias culturais orientadas a reverter certa base de consenso e de
legitimidade acerca da consideração do espaço público como um cenário aberto à
negociação-luta por direitos individuais, coletivos e sociais”, substituindo
tais premissas por um novo consenso, no qual incorpore “os valores de empresa,
da competitividade, da mensurabilidade e do lucro”. O objetivo não é formar
cidadãos interessados em conquistar e expandir seus direitos, mas construir a
mentalidade de prosperidade individual por meio da competição e do investimento
em si. As noções de igualdade, cidadania e direitos sociais devem ser
substituídas por noções econômicas e tecnocráticas de eficácia, produtividade,
eficiência e êxito pessoal.
Assim,
o projeto cultural do neoliberalismo é a idiossubjetivação, “um processo de
formatação de sujeitos que tem por objetivo a construção de indivíduos
egoístas, incapazes de reconhecer a importância da coletividade e que negam a
possibilidade de uma esfera comum, isto é, que diga respeito a todos”.
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Com essa redução da inteligência humana à racionalidade instrumental, como não
pensar que a máquina irá, de fato, substituir os seres humanos?
Dora
Kaufman, partindo dos estudos de Roberto Lent, explica que tecnicamente estamos
a anos-luz da possibilidade das máquinas se equipararem ao cérebro humano. Isso
porque o ser humano possui 86 bilhões de neurônios, “considerando apenas os
neurônios, como em média ocorrem 100 mil sinapses por neurônio, temos um total
aproximado de 8,6 quatrilhões de circuitos que, ainda por cima, são plásticos,
ou seja, mutáveis continuamente”. Só para termos uma noção, “o tempo de
computação e análise utilizado por pesquisadores chineses para estudar as
conexões de 135 mil neurônios de uma mosca foi de 10 anos, estimando-se em 17
milhões de anos o tempo necessário para o mesmo procedimento no cérebro
humano”.
Outro
ponto é levantado pelo neurocientista Antônio Damásio. Para ele, a inteligência
humana não é fruto somente do cérebro, mas do corpo, das vísceras,
responsáveis, em grande parte, pelos sentimentos. Centenas de milhares de
decisões que tomamos ao longo da história tem como fonte os sentimentos. “Um
sistema nervoso não forma uma mente por conta própria, e sim em cooperação com
o resto de seu organismo”. Sendo assim um cérebro sem corpo é uma
“inteligência” muito aquém do potencial humano.
Mas, a
intenção dos donos dos meios de produção, hoje encastelados no Vale do Silício,
os mesmos que orquestram o capitalismo de dados, não é substituir o ser humano
pela máquina, mas nos tornar dependentes destas. A produção de idiotas é
fundamental para o projeto lucrativo da classe dominante. O conhecimento não
deve ser reflexivo, devemos admirar as respostas rápidas e objetivas, um
formato que uma IA pode produzir com facilidade. Para Rubens Casara esta é “uma
das mais importantes estratégias utilizadas no processo de idiossubjetivação”:
a “simplificação excessiva”. “No lugar da reflexão bem-informada, a decisão
rápida e acrítica passa a ser apresentada como algo positivo”. De modo que a
“valorização econômica da ignorância” se relaciona “à demonização da educação,
da cultura e do pensamento reflexivo” e “cada vez mais pessoas recorrem a uma
linguagem empobrecida, bem como slogans argumentativos, frases feitas, jargões,
análises superficiais”.
Não é
que a máquina ficou mais inteligente, a inteligência humana que foi sendo
reduzida a princípios que podem ser “algoritmizados”, por meio de um projeto
cultural neoliberal (agora coordenado pelas Big Techs), para que fosse possível
nos satisfazer com o que uma inteligência artificial é capaz de produzir.
Ou
seja, o complexo de Frankenstein ainda existe, principalmente nos filmes e
livros de ficção científica, mas, não faz parte dos planos das elites
econômicas substituir os seres humanos por máquinas. O objetivo é a
idiossubjetivação para a formação de seres dependentes das parafernálias
tecnológicas. Assim como a Igreja Católica proibia a expansão do conhecimento
em muitos aspectos para manter o seu domínio durante a Idade Média e Moderna,
as Big Techs (e nesse aspecto concordamos com uma espécie de tecnofeudalismo)
precarizam o saber, atacam a reflexão e a educação pública, para manter a sua
hegemonia. A Igreja dominava dentro de uma mentalidade que fazia sentido para
os membros de diversos grupos sociais, assim como o fazem as Big Techs
atualmente, no bojo da reforma cultural empreendida para a consolidação do
neoliberalismo.
A
relação entre o ideário neoliberal de individualização e a consolidação de uma
plataformização da sociedade, foi bem observada por André Luiz Pires
Pelliccione. O Estado deve ser mínimo, de modo que as ofertas de serviços e as
soluções devem vir do mercado. Essas são “as condições para que as grandes
plataformas da atualidade funcionem”, oferecendo serviços até mesmo de saúde,
autoajuda e trabalho.
Se nos
inspirarmos em Mark Fisher podemos chegar à conclusão de que tudo faz parte do
realismo capitalista. Aceitamos um imenso sistema de recomendação que nos diz
como perder peso, como decorar a casa, mas nenhum sugere que devemos
aprimorarmo-nos culturalmente, porque, convenientemente, “exigir qualquer tipo
de aperfeiçoamento cultural é ser opressivo e elitista”.
Nesse
mundo controlado pelas Big Techs, forjado com o auxílio das premissas
ideológicas neoliberais, os indivíduos não lutam por novas formas de contrato
social. A alucinação de uma liberdade sem limites, fornecida pela internet, deu
ao indivíduo a suposta capacidade de viver sem um Estado que lhe garanta
direitos. “A participação consensual nos valores nos quais a autoridade
legítima é derivada, justamente com o livre-arbítrio e os direitos e obrigações
recíprocos, é substituída pelo equivalente universal da tornozeleira eletrônica
do prisioneiro”. É o que Shoshana Zuboff chamou de Big Other, isto é, “o poder
soberano de um futuro próximo que aniquila a liberdade alcançada pelo Estado de
direito”.
E como
essa tornozeleira eletrônica funciona? Silveira e Avelino mostram que nos anos
2000 já se alertava “que a entrega de arquivos e dados para as corporações que
mantém os servidores de nuvem tornaria as pessoas mais dependentes das grandes
corporações”. Portanto, o projeto de dominação do capital no século XXI, não é
a substituição dos seres humanos pelas máquinas, mas a nossa dependência em
relação às corporações.
Lógico
que a IA pode ser usada para fins positivos. Mas há uma tarefa urgente,
alertada por Morozov: “a de imaginar um mundo altamente tecnológico […] livre
da influência perniciosa das Big Techs”. Isso só será possível com o domínio
popular dos meios de produção, seguido de uma mudança estrutural na concepção
de inteligência. Esta deve ser baseada no senso de solidariedade e de bem
comum. Somente assim poderemos usar a tecnologia para benefício humano, não
mais para ampliar a margem de lucro.
Fonte:
A Terra é Redonda

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