Noblat:
Mais uma CPI que despreza a busca da verdade e só produz barulho
Você
compraria um carro usado ao deputado federal alagoano Alfredo Gaspar? Há dois
dias, a convite do senador Flávio Bolsonaro, ele filiou-se ao PL, partido da
primeira família presidencial da história do Brasil. Ontem, na condição de
relator da CPMI do INSS, Gaspar pediu a prisão preventiva do empresário Fábio
Luís Lula da Silva, filho do atual presidente da República.
O nome
Bolsonaro aparece 5 vezes nas 4.340 páginas do relatório, fora menções em
reportagens reproduzidas no documento ou transcrições dos depoimentos à CPI.
Lula é citado 37 vezes, excluídas também as menções em depoimentos, matérias
jornalísticas ou as citações a seus dois filhos, irmão e ex-nora. Flávio
agradece a Gaspar por mais uma prestação de serviços.
Os
deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Soraya Thronicke (Podemos-MS)
protocolaram na Polícia Federal uma notícia de fato contra Gaspar. O documento
aponta indícios da prática de estupro de vulnerável pelo deputado, relatando
violência sexual contra uma menina de 13 anos, da qual teria resultado uma
gravidez e o nascimento de uma criança.
Gaspar
nega a denúncia. Afirma que um exame de DNA indica que seu primo é o pai da
criança. De acordo com os materiais apresentados, a mulher apontada como vítima
relatou que a relação teria ocorrido de forma consensual enquanto os envolvidos
eram adolescentes. “Não aceitarei que minha honra e minha história sejam
atingidas por mentiras”, disse ele.
E ao
senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS, você compraria
um carro usado? Viana repassou R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares à
Fundação Oásis, braço social da Igreja da Lagoinha. A Justiça cobra explicações
dele. A Igreja da Lagoinha é ligada ao empresário Fabiano Zettel, suposto
operador financeiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Em
2021, quando já era senador, Viana, se tornou apresentador do programa “Brasil
Notícias”, da Rede Super de Televisão. A emissora pertence à Igreja da
Lagoinha, cujo líder é o pastor André Valadão. Zettel e Valadão estão presos.
Viana comprou por R$ 1,5 milhão um avião Seneca que custou três anos antes RS
330 mil ao proprietário anterior. Deve ter feito um bom negócio.
O
relatório final da CPMI do INSS foi votado nesta madrugada. A bancada do
governo prometeu derrubá-lo e conseguiu, para aprovar depois seu próprio
relatório que indiciava Flávio e seu pai. Viana não deixou com medo de ser
também indiciado. Encerrou a sessão. Vai-se mais uma CPI que desprezou a busca
da verdade e só produziu barulho, espuma e falsas acusações.
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Deputados criticam Carlos Viana por encerrar CPMI do INSS
sem votar relatório da maioria
Após
cerca de 15 horas de sessão, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)
do INSS terminou de forma conturbada na madrugada deste sábado (28), marcada
pela rejeição do relatório final apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar
(PL-AL) e pela decisão do presidente do colegiado, senador Carlos Viana
(Podemos-MG), de encerrar os trabalhos sem submeter à votação o relatório da
maioria. As informações foram divulgadas pela própria assessoria de
parlamentares que integram a comissão.
O
parecer de Gaspar foi derrotado por ampla margem: 19 votos contrários e 12
favoráveis. Mesmo com a rejeição, o procedimento regimental que permitiria a
apresentação e votação de um novo relatório — representando a posição
majoritária da comissão — não foi adotado. A decisão de Viana gerou reação
imediata entre parlamentares da oposição.
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Críticas à condução da comissão
Em
coletiva no corredor do Senado, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), líder da
bancada na CPMI, criticou duramente a condução dos trabalhos e acusou o
presidente de agir por motivação política:
“Todas
as comissões, todas as decisões de CPIs ou CPMIs, sempre que o voto do relator
é minoritário, é designado pelo presidente outro relator para apresentar o voto
da maioria. Nós hoje fomos impedidos de fazer com que essa comissão concluísse
seus trabalhos como um relatório aprovado. Se esta comissão concluir seu
trabalho sem um relatório, foi uma decisão política do presidente, com apoio do
relator, porque não havia concordância com o voto da maioria. Isso é uma
afronta à democracia. Tínhamos a maioria na comissão, portanto tínhamos o
direito de aprovar o nosso relatório. O presidente decidiu que a comissão não
tivesse um relatório para impedir que fosse aprovado o indiciamento do
ex-presidente Jair Bolsonaro como chefe da organização criminosa que roubou os
aposentados”.
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Alegações de conflito de interesses
O
deputado Alencar Santana (PT-SP) também criticou a decisão e levantou suspeitas
sobre a motivação do presidente da CPMI: “O presidente da CPMI também impediu a
votação do relatório da Verdade, o relatório da maioria, porque queria blindar
o pastor Fabiano Zettel, que era pastor da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma
igreja do senador Carlos Viana.”
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Encaminhamentos fora da comissão
Mesmo
sem aprovação formal, o relatório da maioria deverá seguir para órgãos de
investigação. O deputado Rogério Correia (PT-MG) afirmou que o documento será
encaminhado às autoridades competentes: “O relatório da maioria será entregue à
Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República e ao Supremo Tribunal
Federal.”
Entre
os pontos do documento, está o pedido de indiciamento de diversas pessoas,
incluindo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Encerramento sem relatório aprovado
A
decisão de Carlos Viana de encerrar a CPMI sem a votação de um relatório final
aprovado rompe com a praxe legislativa e levanta questionamentos sobre a
legalidade do procedimento. O desfecho também amplia a disputa política em
torno das conclusões da comissão, que investigava irregularidades no Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS).
Sem um
documento oficialmente aprovado, o resultado da CPMI tende a ser contestado,
enquanto os desdobramentos jurídicos podem ocorrer paralelamente, a partir do
envio do relatório da maioria aos órgãos de controle e investigação.
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Ao enterrar a CPMI do INSS, o STF arreganha os dentes
para Mendonça. Por Mario Sabino
O que
se passou ontem no plenário do STF, na apreciação da liminar de André Mendonça
que determinou a prorrogação da CPMI do INSS, foi outra vergonha
protagonizada por ministros da mais alta corte do país.
Para
derrubar a liminar, Suas Excelências realizaram o contorcionismo interpretativo
segundo o qual o Supremo pode mandar abrir uma CPI desde que obtidos dos
parlamentares os votos mínimos necessários para a sua instauração, como ocorreu
com a CPI da Covid, em 2021, cuja abertura enfrentava a resistência da
presidência do Senado, mas não pode prorrogar uma comissão parlamentar de
inquérito cuja extensão, requerida por seus próprios integrantes, era boicotada pelo presidente do
Congresso.
A
jurisprudência de ocasião atingiu, assim, um dos seus ápices criativos ao
estabelecer que, em matéria de questões interna corporis de
outro poder e de direitos de uma minoria parlamentar, uma coisa é coisa; outra
coisa é outra coisa.
A
extensão seria de 30 a 60 dias, portanto dentro do prazo extra máximo de 120
dias, mas os ministros viram nisso uma eternidade inexistente.
Flávio
Dino disse que “o prazo certo (previsto na Constituição) não se compatibiliza
com essa ideia de prorrogação ad aeternum” e que havia o risco de a
CPMI se transformar em um “inquérito geral (típico) de regimes autoritários”.
Gilmar
Mendes, por sua vez, criticou os inquéritos infinitos e sem objeto definido, em
estocada ao fato de a CPMI do INSS ter adentrado também o terreno do escândalo
do Banco Master, com o qual tem intersecção.
Dino e
Gilmar foram tão enfáticos na sua arenga contra os inquéritos infinitos, que
muita gente pensou que se tratava de uma indireta bem direta a Alexandre de
Moraes, que há sete anos mantém, com o aval dos seus pares, um inquérito sem
data para acabar e sem objeto definido, no qual cabe tudo e um pouco mais.
Não,
não era uma indireta bem direta. Foi só outra prova de falta de princípio de
realidade, pelo menos da nossa.
Com a
sua verve curada pelo sol matogrossense, o decano lançou-se contra os
parlamentares que assistiam à sessão, indignado com os vazamentos das conversas
de Vorcaro que teriam sido propiciados por “pessoas adultas, muitos deles já
velhos, passaram dos 60 anos, entrando em sala de cofre da CPMI ou do Senado,
com óculos, para depois ficar contando coisas que nada têm a ver com a
investigação. Isto é indigno do parlamento. Não pediram desculpas por esse
episódio lamentável do vazamento de conversas íntimas”.
Não há
provas de nada disso, mas provas deixaram de ser problema para os ministros do
STF desde que eles lançaram mão de grampos ilegais e não periciados para anular
a condenação de Lula e dos demais condenados na Lava Jato.
Indignar-se
única e exclusivamente com o vazamento das conversas íntimas de Vorcaro (que
contêm, sim, elementos pertinentes à investigação) é tomar a parte pelo todo.
O todo
é o leque de investigações em andamento e o alcance esperado pela delação
premida do dono do finado Banco Master. Por rabo preso ou por corporativismo, a
maioria dos integrantes do STF está em pânico, e o que se viu ontem foi um
arreganho de dentes para a PF, para a oposição parlamentar e, principalmente,
para André Mendonça.
Ao
derrubarem a liminar de Mendonça, o recado ao colega foi claro: eles farão de
tudo para proteger os três implicados do Supremo no caso Master.
Em
relação à CPMI do INSS, a preocupação nunca foi com a separação das atribuições
dos poderes e muito menos com garantir a punição a quem roubou bilhões de
milhões de aposentados e pensionistas. O que importava era estancar a sangria
causada pelo acesso da CPMI às provas de Vorcaro.
Agora,
caberá a Nunes Marques encontrar uma forma de recusar a abertura compulsória da
CPI do Master pelo STF, na nova ação impetrada por parlamentares, contradizendo
o que foi estabelecido pelo próprio tribunal quando o Senado foi obrigado a
abrir a CPI da Covid.
Ao fim
e ao cabo, o espetáculo proporcionado ontem é o retrato de um país
subdesenvolvido, iníquo e violento, escravizado por uma elite patrimonialista,
despudorada e feroz, que, assenhorada do Estado, está sempre disposta a tudo
para defender os seus privilégios imorais.
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Mendonça enfrenta isolamento no STF em meio a
investigações
O
Supremo Tribunal Federal vive um momento de tensão com o isolamento do ministro
André Mendonça em investigações de grande impacto. Na última sessão, Mendonça
se viu sem apoio, diferentemente de Alexandre de Moraes em situações
anteriores.
Mendonça
é relator de duas investigações importantes: desvios no INSS e fraudes
financeiras no Banco Master. Na sessão de quinta-feira, ficou claro que, apesar
da gravidade dos casos, Mendonça não conseguiu apoio para suas decisões.
Somente
Luiz Fux apoiou Mendonça na tese de omissão do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, por não prorrogar a CPI do INSS. Os demais ministros, incluindo
Kassio Nunes Marques, optaram por autocontenção, enviando um recado ao
Congresso sobre abusos em CPIs.
A
posição de Mendonça no STF é frágil. Sem maioria no plenário, ele enfrenta
dificuldades em fazer prevalecer suas decisões. O isolamento prejudica sua
capacidade de negociação e construção de consensos, tornando-o vulnerável no
tribunal.
Apesar
de elogios de colegas como Moraes e Gilmar Mendes por evitar vazamentos de
material sigiloso, Mendonça não teve sucesso em prorrogar a CPI do INSS. Com a
liminar derrubada, a comissão encerrou seus trabalhos.
Mendonça
acredita que pode reverter o isolamento em julgamentos futuros. Ele aposta que
discordâncias de Kassio, Edson Fachin e Cármen Lúcia não são definitivas. As
posições institucionais de Fachin e Cármen, como presidentes do STF e do TSE,
pesaram em suas decisões, evitando confronto com Alcolumbre.
A
vitória de Mendonça na prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi significativa,
mas ocorreu na Segunda Turma, com apenas quatro ministros, e sob críticas de
Gilmar Mendes. O argumento de Mendonça de que suas decisões visam dar uma
resposta à sociedade ecoa o discurso da Operação Lava Jato, mas não é mais
aceito pela maioria do plenário.
A falta
de apoio a Mendonça também se deve à incerteza sobre sua reação se as
investigações do Banco Master envolverem colegas como Moraes e Dias Toffoli. A
proximidade de Mendonça com o ex-presidente Jair Bolsonaro levanta suspeitas de
que suas ações possam desestabilizar o STF.
O
desafio de Mendonça é equilibrar a busca por justiça com a necessidade de não
cair em armadilhas que possam minar a confiança pública no Judiciário. Ele deve
evitar supervalorizar informações que não apontam para crimes, preservando a
credibilidade do tribunal.
Em uma
palestra recente, Mendonça afirmou que o "papel do bom juiz não é ser
estrela". No entanto, o bolsonarismo o vê como um potencial herói capaz de
transformar o STF. O futuro de Mendonça no tribunal dependerá de sua habilidade
em navegar por esse terreno complexo, buscando apoio sem comprometer a
integridade das investigações.
O
isolamento de Mendonça no STF reflete as tensões internas e a influência de
fatores externos na política nacional. À medida que as investigações avançam, o
papel de Mendonça será crucial para definir o rumo do tribunal e sua relação
com o restante do sistema político brasileiro.
Fonte:
Metrópoles/Brasil 247/O Cafezinho

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