Gênero,
sexo e mulher
Como
tudo entre humanos, gênero e sexo se definem por práticas linguísticas. Quanto
ao gênero, é mais fácil aceitar essa afirmação. Já o sexo, para alguns ainda é
dado pela voz de Deus. Mas há novidade: Deus desistiu de falar de barro e
costela e agora resolveu adotar o jargão da moda. Após receber aulas de
biologia, destrambelhou.
Não
raro, quando se escuta a voz de Deus, e com ele falando segundo a biologia,
vê-se logo que ele não passou da quinta série. Deus tinha a eternidade para
fazer o mundo, mas sempre afoito, fez tudo em uma semana. Creio que seu estudo
na disciplina que um dia se chamou “história natural” também é fruto dessa
pressa sem sentido.
“Mulher”
é o nome dado à fêmea humana. Trata-se de uma palavra que tem a ver com
construção social e isso não é de difícil compreensão. Afinal de contas, cada
lugar e cada tempo histórico colocou a palavra mulher articulada a papeis tão
diferentes que teríamos dificuldade de reconhecer um fio condutor único, capaz
de nos deixar menos atônitos do que quando, hoje, andamos pela Avenida Paulista
em um domingo à tarde. Há uma diversidade de posturas, vestimentas, formas
corporais e falas que põem minhocas na cabeça dos menos cosmopolitas.
Essas
pessoas que ficam atônitas são, em geral, as que acabam questionando: mas e o
sexo, qual é sexo dessa criatura? Não é o sexo, afinal, o fio condutor que dá a
essência da mulher? Todas as revistas e a maior parte dos programas de mídia
que tratam de “assuntos da mulher” falam de aspectos sexuais. Ter orgasmo é o
principal. Depois a novidade: a mulher independente goza sem homem. E por aí
vai.
A fêmea
humana é um ser exclusivamente sexuado, já o homem, não precisa disso. Sendo
sexuada, presa à natureza, essa fêmea tem algo que foi ensinado a Deus,
recentemente: há o “sexo biológico”. Isto é, há algo corporal, “da biologia”,
que define a mulher-mulher. Deus aprendeu isso! Pois é, Deus também aprende
coisa errada! Aprende até a ser “materialista” e ficar procurando as coisas no
corpo! Ora, cá entre nós, esse Deus moderno nunca foi lá muito espiritualista
mesmo. Não é dele essa história de que vamos ressuscitar “de corpo e alma”?
Deus
pensa, reflete sobre o que tem de fazer. Sua narrativa é, por definição,
absoluta e por isso final. Ele é o responsável pela fala absoluta, mas como
andou perdendo prestígio resolveu então apelar para a tal biologia. Quem escuta
Deus, hoje em dia, aparece com essa conversa: é a “ciência”, a “biologia” que
deve dar a primeira e a última palavra.
Para
além de útero, vagina e outros critérios corporais mais visíveis, existe algo
que realmente é o que define a mulher-mulher, a “verdadeira mulher”, a fêmea
autêntica: hormônios. Deus não vai ficar falando em vulva, menstruação, falta
de pipi etc. Isso tudo é muito feio, ainda mais na boca de Deus. Além do mais,
são coisas que aparecem e desaparecem! Deus fala da perenidade.
O que
são hormônios? Quando ouvimos as pessoas que querem uma narrativa final,
aquelas que escutam a voz de Deus dissertando sobre biologia, descobrimos logo
que a palavra hormônio é bem útil para elas. Pois ninguém sabe do que se trata.
Alguns fazem referência aos esportes.
O
Comitê Olímpico é que vai, finalmente, definir senão o que é mulher, ao menos
dizer quem é que cai na categoria “feminino” para cada esporte. Haverá uma
quantidade de hormônios para uma determinada categoria segundo cada tipo de
esporte. Isso já soa estranho: uma mulher é mulher para o voleibol, mas para
arremesso de peso parece que ela terá que apresentar um número hormonal
diferente. A fêmea entra como fêmea num lugar para praticar algo, mas se mudar
de jogo, não é fêmea suficiente. Deus não se incomoda, afinal ele jamais foi
elogiado por coerência lógica.
A
filósofa americana Judith Butler se diverte com essa conversa de encontrar a
narrativa final sobre o que é a fêmea humana a partir de hormônios. Ela lembra
que quando o Comitê Olímpico começou com essa prática e fixou uma quantidade de
hormônios para as mulheres serem mulheres, iniciaram-se os exames gerais em
atletas e logo descobriram que muitos homens atletas tinham taxas hormonais bem
abaixo do exigido para as mulheres.
Pode-se
dizer: bastava então diminuir o critério para as mulheres. Não funcionou, pois
aquelas que são acusadas de levar vantagem no esporte são só as que vencem, as
inúmeras mulheres com taxa hormonal comparativamente alta que são perdedoras
ganham invisibilidade e são desconsideradas. Já está bem claro que o problema é
de classe social e de privilégios: hormônios precisam de interações sociais
favoráveis, ou seja, bolsas de estudos, clubes bons, treinadores com tecnologia
etc. O dinheiro e a preparação falam bem mais alto.
O mundo
do esporte, com toda a biologia mais avançada do mundo, errou feio, pois o
problema estava na premissa. Sexo definível por critérios biológicos mostra
apenas que a biologia é uma narrativa crivada por questões linguístico-sociais
tanto quanto qualquer outra narrativa. Em outras palavras: a voz de Deus é
“humana, demasiadamente humana”. Chega-se a uma conclusão anunciada pelo
filósofo grego Xenófanes (século IV a.C.): os deuses são demais parecidos com
os humanos, e se cavalos tiverem deuses, estes terão cara de cavalo.
Acrescento: relinchariam, seriam deuses que relincham. Deuses que falam jargões
de biologia da quinta série, zurram.
A
melhor prática nisso tudo é manter o sexo subsumido ao gênero. Notar as
narrativas de gênero nos proporciona ir direto para a questão que importa:
quais os direitos da mulher que são necessários? Diante do mundo dos homens, o
mundo das mulheres (e na comunidade LGBTQUIA+) coleciona desvantagens nas
práticas sociais.
São as
mulheres que têm dupla jornada, são as mulheres que têm salários menores, pesa
sobre as mulheres a ampliação da violência em casa e na rua, na escola e no
trabalho. Esta é a narrativa que importa. Cada pessoa que se diz mulher tem
suas razões para se dizer mulher, mas as desvantagens são tantas, e se
perpetuam, que muitas mulheres confessam que preferem ter filhos homens, “pois
sofrerão menos”.
Cada
pessoa que sabemos que está no campo dos vulneráveis deve também contar, por
parte do poder público, com um olhar mais atento. A injustiça tem sido a regra
contra a mulher e outros vulneráveis.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em Outras Palavras

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