segunda-feira, 30 de março de 2026

Religião na política conservadora: impactos dos movimentos antigênero sob a crescente expansão de uma nova direita

Atualmente, muitos movimentos religiosos têm se posicionado de forma política, atuando como instrumento de posicionamento ideológico e antigênero. É nesse cenário que a extrema-direita ganha força, domina espaços de fé, dialoga com pensamentos alimentados pelo conservadorismo, que vão contra políticas liberais e de inserção de direitos adquiridos por comunidades LGBTQIAP+ e até mesmo sobre a realização do aborto em casos de risco e violência.

Esses debates, intensificados a partir de frentes alimentadas pelo próprio bolsonarismo, mostram que certas manipulações político-partidárias podem trazer à tona certos discursos que influenciam massas a se posicionarem contra a igualdade de gênero, de modo a excluir ou invalidar pessoas, direitos constitucionais e crenças.

<><> Moralidade religiosa em nome dos “bons costumes” cristãos

Apesar de haver movimentos religiosos católicos a favor do aborto, grande parte segue rejeitando e negando o direito. O ativismo cristão conservador também segue o fluxo de protestos contra ideias feministas, mesmo com parte dos devotos não compactuando com a submissão da mulher.

É nessa linha de discussão que o episódio do “Ciclo de estudos: Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã”, se desenvolveu, trazendo uma palestra guiada pela antropóloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lilian Maria Pinto Sales, transmitida pelo Instituto Humanitas – IHU, no dia 24-03-2026, às 10h.

<><> Formulações teológicas e acadêmicas das categorias antigênero. Uma análise genealógica

Especialista em ciências sociais e renovação carismática católica, Lilian analisa os cenários e as movimentações cristãs mediante às realidades e ideologias em diferentes âmbitos da sociedade.

Durante a palestra, a antropóloga relaciona a reivindicação dos direitos das mulheres com a carta encíclica "O Evangelho da Vida" (Evangelium Vitae). O documento magisterial é considerado um “direcionamento do posicionamento do Vaticano sobre bioética, especialmente em temas relacionados ao início e ao fim da vida e à concepção de uma cultura de morte”. Nesse contexto, a autora esclarece que “a concepção da cultura de morte é cunhada nessa encíclica para defender a disposição católica contrária a qualquer intervenção ou interrupção não naturais da vida humana, abrangendo temas como aborto, a eutanásia e o uso de células embrionárias”. 

No artigo Religião, gênero e esfera pública, a pesquisadora comenta que “na América Latina, grupos religiosos organizaram reações preventivas à ampliação das pautas dos direitos das mulheres e LGBT, articulando redes que reafirmam uma compreensão tradicional da família”. No texto, ela discute a importância da secularização na política, trazendo exemplos contrários à ideologia, relatando sua retificação em meio às ciências sociais no poder público.

Em sua pesquisa "O ativismo católico antiaborto e antigênero: novos atores, novas (e velhas) práticas", a especialista estuda a questão a partir da análise dos protestos da Marcha em Defesa da Vida, realizada em 03-12-2018, em São Paulo.

A professora acompanha as disputas públicas em torno do início da vida no país desde 2012, identificando e mapeando atores, movimentos e instituições religiosas que se posicionaram publicamente contra o aborto nas controvérsias públicas nacionais, bem como as estratégias forjadas sobre o posicionamento “pró-vida” mediante às relações de poder.

Segundo Lilian, naquele momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro havia acabado de se eleger, em meio a estes movimentos, houve uma mudança de paradigma, tendo novos atores e mudanças nas estratégias de ação.

De acordo com sua avaliação no artigo, “o surgimento desses atores se faz em meio a um contexto de ascensão de populismos conservadores e de uma política de base antagonística, fortemente embasada na criação de 'inimigos' como forma de busca de ordem e segurança”.

É a partir dessa relação da fé com a “nova direita” que posicionamentos antigênero se intensificam em meio a discursos de ódio implantados diretamente na política, mediante a posicionamentos e estratégias de manipulação.

<><> Programação do ciclo

As próximas conferências confirmadas são as seguintes: 

22 de abril: A instrumentalização de afetos e emoções como metodologia nas políticas antigênero, com a Profa. Dra. Luisa Cruz Lobato, da PUC-Rio; 

12 de maio: Sexo e gênero nas disputas feministas e antifeministas contemporâneas, com a Profa. Dra. Mariela Solana;

02 de junho: Discurso antigênero nas Igrejas evangélicas e seus impactos sobre os direitos das mulheres, com a Profa. Dra. Monise Martinez;      

24 de junho: Agendas antigênero na direita cristã brasileira, com a Profa. MS Tabata Pastore Tesse

•        Extrema direita: religião, militarismo e neoliberalismo. Por Robson Sávio Reis Souza

A extrema-direita global desfruta de símbolos do cristianismo para formar uma "milícia religiosa", a reeditar a guerra do bem contra o mal. No caso, o bem seria tudo aquilo associado ao pensamento conservador (religião, família tradicional, propriedade privada, meritocracia, precedência do individual sobre o público). O mal, por sua vez, está associado à modernidade, ciência, feminismo, esquerdismo, luta de classe, estado social, etc...).

Montada, como numa CRUZADA RELIGIOSA, em tradições da "família conservadora", a extrema-direita une líderes como Bolsonaro; extremistas norte-americanos, incluindo grupos supremacistas (e lideranças religiosas evangélicas e católicas, até mesmo junto ao episcopado); Viktor Orban (Hungria); Vladimir Putin (que se aliou à Igreja Católica Ortodoxa Russa); Le Pen (França); extremistas da Espanha, Inglaterra e até neonazistas alemães.

No Brasil, além de lideranças evangélicas neopentecostais (principalmente das grandes igrejas midiáticas - muitas delas verdadeiras empresas religiosas), a extrema-direita goza de prestígio junto a membros do clero e do episcopado católicos, vários padres midiáticos, instituições religiosas (algumas midiáticas), youtubers famosos e uma bancada de ultraconservadores no Parlamento (de câmaras de vereadores ao Congresso Nacional).

Essa aliança une o conservadorismo RELIGIOSO, o poder político ancorado no MILITARISMO (no caso esse governo militarizado - que se vangloria na defesa de moralismos à la Olavo de Carvalho) e no poder econômico alicerçado no ULTRALIBERALISMO (à la Paulo Guedes e figuras esdrúxulas, do tipo o Véio das megalojas de produtos variados, Wizzard e outros negociantes que, segundo dizem, para alcançarem o sucesso INDIVIDUAL E PRIVADO vendem até a mãe).

Portanto, a base social que agrega essa massa difusa precisa de um discurso MORALISTA, CRISTÃO, CONSERVADOR para manter mobilizada uma legião religiosa que tem em líderes carismáticos radicais, como Bolsonaro, Putin e outros, e para defender radicalmente uma visão salvacionista e redentora do mundo. Uma recristianização global, que é a base da Teologia do Domínio presente nos discursos desses grupos religiosos (a crença segundo o qual a religião deve dominar o poder político, a cultura, a educação, as artes, os comportamentos...).

A RELIGIÃO é o principal elemento de constituição dessa base social da extrema-direita global. Mas, são o MILITARISMO e o ULTRALIBERISMO que caracterizam o domínio do poder estatal (da extrema-direita) em níveis nacionais, com intentos globais. Não por coincidência, governos teocráticos, militares e ultraliberais são formas distintas de autoritarismos.

Por isso, na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana.

Uma observação final: o Papa Francisco é a principal liderança global no enfrentamento à extrema-direita. Por isso, é tão perseguido, inclusive dentro da Igreja Católica. Estima-se, por exemplo, que dos 240 bispos norte-americanos, somente uns 40 apoiam explicitamente Francisco. Não ouso afirmar sobre a situação no Brasil. Mas, certamente o apoio do episcopado brasileiro ao papa Francisco é bem maior e mais explícito. Vide manifestações da CNBB nos últimos tempos.

•        Sóstenes formalizou venda de imóvel após PF apreender mais de R$ 400 mil em espécie

Líder do PL na Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ) somente formalizou a venda de um imóvel em Ituiutaba (MG) dias depois de a Polícia Federal apreender mais de R$ 400 mil em espécie com ele. A cronologia, reconstruída a partir de documentos de cartório, mostra que, no momento da apreensão, a transação ainda não havia sido formalizada por escritura pública.

A reportagem analisou a escritura e a matrícula atualizada do imóvel. Os registros permitem estabelecer a sequência dos fatos e apontam um descompasso entre o pagamento declarado e a formalização do negócio.

Segundo a escritura, o imóvel foi vendido por R$ 500 mil, com pagamento integral em dinheiro no dia 24 de novembro de 2025. Menos de um mês depois, em 19 de dezembro, a Polícia Federal apreendeu mais de R$ 400 mil em espécie com o deputado, que atribuiu a origem do valor à venda do imóvel.

No entanto, a formalização ocorreu posteriormente: a escritura foi lavrada em 30 de dezembro de 2025 e o registro — que efetiva a transferência da propriedade — foi concluído em 20 de janeiro de 2026. O ordenamento jurídico permite que o pagamento anteceda a escritura.

A sequência, conforme descrita nos documentos de cartório, é a seguinte:

• 24/11/2025: pagamento declarado na escritura.

• 19/12/2025: apreensão de dinheiro pela Polícia Federal.

• 30/12/2025: lavratura da escritura pública.

• 20/01/2026: registro da venda.

A matrícula do imóvel indica que o bem havia sido adquirido pelo deputado e sua esposa em março de 2023 por R$ 280 mil. A revenda por R$ 500 mil, menos de três anos depois, configura ganho de capital sujeito a tributação.

O advogado especialista em direito imobiliário Mario Castro afirma que, se o recebimento ocorreu na data indicada na escritura, a legislação do Imposto de Renda exige a apuração do ganho de capital até o final do mês seguinte.

“Se houve o recebimento em novembro, como consta na escritura, a apuração deve ser feita até o fim de dezembro. Não é algo que se deixe para a declaração anual”, diz.

Ele ressalta que eventual atraso não caracteriza automaticamente crime, mas pode gerar penalidades tributárias, a depender da verificação pela Receita Federal.

A forma de pagamento registrada — integralmente em dinheiro vivo — não é vedada, mas foge ao padrão das transações imobiliárias, normalmente realizadas por meios bancários.

“Não é ilegal pagar em dinheiro, mas isso dificulta a rastreabilidade dos recursos e a verificação da origem”, afirma Castro.

Do ponto de vista formal, a escritura foi lavrada por meio eletrônico, via e-Notariado. Nesse modelo, o ato exige identificação das partes, manifestação de vontade e validação por videoconferência.

Segundo Castro, esses elementos deveriam constar de forma expressa.

“Em uma escritura eletrônica, é essencial a menção à videoconferência e à aceitação inequívoca das partes”, afirma.

No documento analisado, esses registros não aparecem de forma explícita. Para o advogado, há duas hipóteses: ausência de menção por falha formal ou ausência do procedimento.

“Se a videoconferência não ocorreu, pode haver irregularidade mais relevante. Se ocorreu e não foi mencionada, é falha formal”, diz, observando que parte desses dados pode estar nos sistemas internos do cartório.

A escritura também indica que o ITBI (Imposto de Transmissão de Bens Imóveis) seria recolhido após a lavratura. A regularidade desse procedimento depende da legislação municipal aplicável.

A leitura conjunta da escritura e da matrícula concentra a atenção em pontos objetivos:

• Pagamento elevado em espécie.

• Formalização da venda após a apreensão do dinheiro.

• Diferença relevante entre valores de compra e venda.

Apesar dos questionamentos, os documentos indicam que a operação seguiu o rito registral: houve escritura pública e posterior registro no cartório de imóveis.

Para Castro, o ponto decisivo é a coerência entre os documentos e os dados fiscais.

“Os registros mostram a operação. O que precisa ser verificado é se a origem dos recursos e o cumprimento das obrigações tributárias são compatíveis com essa cronologia”, afirma.

A reportagem procurou o deputado para esclarecer a origem dos valores apreendidos, a data efetiva do pagamento e o cumprimento das obrigações tributárias, além de questionar o cartório responsável. Não houve resposta até a publicação.

 

Fonte: IHU

 

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