Religião
na política conservadora: impactos dos movimentos antigênero sob a crescente
expansão de uma nova direita
Atualmente,
muitos movimentos religiosos têm se posicionado de forma política, atuando como
instrumento de posicionamento ideológico e antigênero. É nesse cenário que a
extrema-direita ganha força, domina espaços de fé, dialoga com pensamentos
alimentados pelo conservadorismo, que vão contra políticas liberais e de
inserção de direitos adquiridos por comunidades LGBTQIAP+ e até mesmo sobre a
realização do aborto em casos de risco e violência.
Esses
debates, intensificados a partir de frentes alimentadas pelo próprio
bolsonarismo, mostram que certas manipulações político-partidárias podem trazer
à tona certos discursos que influenciam massas a se posicionarem contra a
igualdade de gênero, de modo a excluir ou invalidar pessoas, direitos
constitucionais e crenças.
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Moralidade religiosa em nome dos “bons costumes” cristãos
Apesar
de haver movimentos religiosos católicos a favor do aborto, grande parte segue
rejeitando e negando o direito. O ativismo cristão conservador também segue o
fluxo de protestos contra ideias feministas, mesmo com parte dos devotos não
compactuando com a submissão da mulher.
É nessa
linha de discussão que o episódio do “Ciclo de estudos: Gênero, Religião,
Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita
cristã”, se desenvolveu, trazendo uma palestra guiada pela antropóloga e
professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lilian Maria Pinto
Sales, transmitida pelo Instituto Humanitas – IHU, no dia 24-03-2026, às 10h.
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Formulações teológicas e acadêmicas das categorias antigênero. Uma análise
genealógica
Especialista
em ciências sociais e renovação carismática católica, Lilian analisa os
cenários e as movimentações cristãs mediante às realidades e ideologias em
diferentes âmbitos da sociedade.
Durante
a palestra, a antropóloga relaciona a reivindicação dos direitos das mulheres
com a carta encíclica "O Evangelho da Vida" (Evangelium Vitae). O
documento magisterial é considerado um “direcionamento do posicionamento do
Vaticano sobre bioética, especialmente em temas relacionados ao início e ao fim
da vida e à concepção de uma cultura de morte”. Nesse contexto, a autora
esclarece que “a concepção da cultura de morte é cunhada nessa encíclica para
defender a disposição católica contrária a qualquer intervenção ou interrupção
não naturais da vida humana, abrangendo temas como aborto, a eutanásia e o uso
de células embrionárias”.
No
artigo Religião, gênero e esfera pública, a pesquisadora comenta que “na
América Latina, grupos religiosos organizaram reações preventivas à ampliação
das pautas dos direitos das mulheres e LGBT, articulando redes que reafirmam
uma compreensão tradicional da família”. No texto, ela discute a importância da
secularização na política, trazendo exemplos contrários à ideologia, relatando
sua retificação em meio às ciências sociais no poder público.
Em sua
pesquisa "O ativismo católico antiaborto e antigênero: novos atores, novas
(e velhas) práticas", a especialista estuda a questão a partir da análise
dos protestos da Marcha em Defesa da Vida, realizada em 03-12-2018, em São
Paulo.
A
professora acompanha as disputas públicas em torno do início da vida no país
desde 2012, identificando e mapeando atores, movimentos e instituições
religiosas que se posicionaram publicamente contra o aborto nas controvérsias
públicas nacionais, bem como as estratégias forjadas sobre o posicionamento
“pró-vida” mediante às relações de poder.
Segundo
Lilian, naquele momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro havia acabado de
se eleger, em meio a estes movimentos, houve uma mudança de paradigma, tendo
novos atores e mudanças nas estratégias de ação.
De
acordo com sua avaliação no artigo, “o surgimento desses atores se faz em meio
a um contexto de ascensão de populismos conservadores e de uma política de base
antagonística, fortemente embasada na criação de 'inimigos' como forma de busca
de ordem e segurança”.
É a
partir dessa relação da fé com a “nova direita” que posicionamentos antigênero
se intensificam em meio a discursos de ódio implantados diretamente na
política, mediante a posicionamentos e estratégias de manipulação.
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Programação do ciclo
As
próximas conferências confirmadas são as seguintes:
22 de
abril: A instrumentalização de afetos e emoções como metodologia nas políticas
antigênero, com a Profa. Dra. Luisa Cruz Lobato, da PUC-Rio;
12 de
maio: Sexo e gênero nas disputas feministas e antifeministas contemporâneas,
com a Profa. Dra. Mariela Solana;
02 de
junho: Discurso antigênero nas Igrejas evangélicas e seus impactos sobre os
direitos das mulheres, com a Profa. Dra. Monise Martinez;
24 de
junho: Agendas antigênero na direita cristã brasileira, com a Profa. MS Tabata
Pastore Tesse
• Extrema direita: religião, militarismo e
neoliberalismo. Por Robson Sávio Reis Souza
A
extrema-direita global desfruta de símbolos do cristianismo para formar uma
"milícia religiosa", a reeditar a guerra do bem contra o mal. No
caso, o bem seria tudo aquilo associado ao pensamento conservador (religião,
família tradicional, propriedade privada, meritocracia, precedência do
individual sobre o público). O mal, por sua vez, está associado à modernidade,
ciência, feminismo, esquerdismo, luta de classe, estado social, etc...).
Montada,
como numa CRUZADA RELIGIOSA, em tradições da "família conservadora",
a extrema-direita une líderes como Bolsonaro; extremistas norte-americanos,
incluindo grupos supremacistas (e lideranças religiosas evangélicas e
católicas, até mesmo junto ao episcopado); Viktor Orban (Hungria); Vladimir
Putin (que se aliou à Igreja Católica Ortodoxa Russa); Le Pen (França);
extremistas da Espanha, Inglaterra e até neonazistas alemães.
No
Brasil, além de lideranças evangélicas neopentecostais (principalmente das
grandes igrejas midiáticas - muitas delas verdadeiras empresas religiosas), a
extrema-direita goza de prestígio junto a membros do clero e do episcopado
católicos, vários padres midiáticos, instituições religiosas (algumas
midiáticas), youtubers famosos e uma bancada de ultraconservadores no
Parlamento (de câmaras de vereadores ao Congresso Nacional).
Essa
aliança une o conservadorismo RELIGIOSO, o poder político ancorado no
MILITARISMO (no caso esse governo militarizado - que se vangloria na defesa de
moralismos à la Olavo de Carvalho) e no poder econômico alicerçado no
ULTRALIBERALISMO (à la Paulo Guedes e figuras esdrúxulas, do tipo o Véio das
megalojas de produtos variados, Wizzard e outros negociantes que, segundo
dizem, para alcançarem o sucesso INDIVIDUAL E PRIVADO vendem até a mãe).
Portanto,
a base social que agrega essa massa difusa precisa de um discurso MORALISTA,
CRISTÃO, CONSERVADOR para manter mobilizada uma legião religiosa que tem em
líderes carismáticos radicais, como Bolsonaro, Putin e outros, e para defender
radicalmente uma visão salvacionista e redentora do mundo. Uma recristianização
global, que é a base da Teologia do Domínio presente nos discursos desses
grupos religiosos (a crença segundo o qual a religião deve dominar o poder
político, a cultura, a educação, as artes, os comportamentos...).
A
RELIGIÃO é o principal elemento de constituição dessa base social da
extrema-direita global. Mas, são o MILITARISMO e o ULTRALIBERISMO que
caracterizam o domínio do poder estatal (da extrema-direita) em níveis
nacionais, com intentos globais. Não por coincidência, governos teocráticos,
militares e ultraliberais são formas distintas de autoritarismos.
Por
isso, na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à
liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma
liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana.
Uma
observação final: o Papa Francisco é a principal liderança global no
enfrentamento à extrema-direita. Por isso, é tão perseguido, inclusive dentro
da Igreja Católica. Estima-se, por exemplo, que dos 240 bispos
norte-americanos, somente uns 40 apoiam explicitamente Francisco. Não ouso
afirmar sobre a situação no Brasil. Mas, certamente o apoio do episcopado
brasileiro ao papa Francisco é bem maior e mais explícito. Vide manifestações
da CNBB nos últimos tempos.
• Sóstenes formalizou venda de imóvel após
PF apreender mais de R$ 400 mil em espécie
Líder
do PL na Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ) somente formalizou a venda
de um imóvel em Ituiutaba (MG) dias depois de a Polícia Federal apreender mais
de R$ 400 mil em espécie com ele. A cronologia, reconstruída a partir de
documentos de cartório, mostra que, no momento da apreensão, a transação ainda
não havia sido formalizada por escritura pública.
A
reportagem analisou a escritura e a matrícula atualizada do imóvel. Os
registros permitem estabelecer a sequência dos fatos e apontam um descompasso
entre o pagamento declarado e a formalização do negócio.
Segundo
a escritura, o imóvel foi vendido por R$ 500 mil, com pagamento integral em
dinheiro no dia 24 de novembro de 2025. Menos de um mês depois, em 19 de
dezembro, a Polícia Federal apreendeu mais de R$ 400 mil em espécie com o
deputado, que atribuiu a origem do valor à venda do imóvel.
No
entanto, a formalização ocorreu posteriormente: a escritura foi lavrada em 30
de dezembro de 2025 e o registro — que efetiva a transferência da propriedade —
foi concluído em 20 de janeiro de 2026. O ordenamento jurídico permite que o
pagamento anteceda a escritura.
A
sequência, conforme descrita nos documentos de cartório, é a seguinte:
•
24/11/2025: pagamento declarado na escritura.
•
19/12/2025: apreensão de dinheiro pela Polícia Federal.
•
30/12/2025: lavratura da escritura pública.
•
20/01/2026: registro da venda.
A
matrícula do imóvel indica que o bem havia sido adquirido pelo deputado e sua
esposa em março de 2023 por R$ 280 mil. A revenda por R$ 500 mil, menos de três
anos depois, configura ganho de capital sujeito a tributação.
O
advogado especialista em direito imobiliário Mario Castro afirma que, se o
recebimento ocorreu na data indicada na escritura, a legislação do Imposto de
Renda exige a apuração do ganho de capital até o final do mês seguinte.
“Se
houve o recebimento em novembro, como consta na escritura, a apuração deve ser
feita até o fim de dezembro. Não é algo que se deixe para a declaração anual”,
diz.
Ele
ressalta que eventual atraso não caracteriza automaticamente crime, mas pode
gerar penalidades tributárias, a depender da verificação pela Receita Federal.
A forma
de pagamento registrada — integralmente em dinheiro vivo — não é vedada, mas
foge ao padrão das transações imobiliárias, normalmente realizadas por meios
bancários.
“Não é
ilegal pagar em dinheiro, mas isso dificulta a rastreabilidade dos recursos e a
verificação da origem”, afirma Castro.
Do
ponto de vista formal, a escritura foi lavrada por meio eletrônico, via
e-Notariado. Nesse modelo, o ato exige identificação das partes, manifestação
de vontade e validação por videoconferência.
Segundo
Castro, esses elementos deveriam constar de forma expressa.
“Em uma
escritura eletrônica, é essencial a menção à videoconferência e à aceitação
inequívoca das partes”, afirma.
No
documento analisado, esses registros não aparecem de forma explícita. Para o
advogado, há duas hipóteses: ausência de menção por falha formal ou ausência do
procedimento.
“Se a
videoconferência não ocorreu, pode haver irregularidade mais relevante. Se
ocorreu e não foi mencionada, é falha formal”, diz, observando que parte desses
dados pode estar nos sistemas internos do cartório.
A
escritura também indica que o ITBI (Imposto de Transmissão de Bens Imóveis)
seria recolhido após a lavratura. A regularidade desse procedimento depende da
legislação municipal aplicável.
A
leitura conjunta da escritura e da matrícula concentra a atenção em pontos
objetivos:
•
Pagamento elevado em espécie.
•
Formalização da venda após a apreensão do dinheiro.
•
Diferença relevante entre valores de compra e venda.
Apesar
dos questionamentos, os documentos indicam que a operação seguiu o rito
registral: houve escritura pública e posterior registro no cartório de imóveis.
Para
Castro, o ponto decisivo é a coerência entre os documentos e os dados fiscais.
“Os
registros mostram a operação. O que precisa ser verificado é se a origem dos
recursos e o cumprimento das obrigações tributárias são compatíveis com essa
cronologia”, afirma.
A
reportagem procurou o deputado para esclarecer a origem dos valores
apreendidos, a data efetiva do pagamento e o cumprimento das obrigações
tributárias, além de questionar o cartório responsável. Não houve resposta até
a publicação.
Fonte:
IHU

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