César
Bolaño: Por um decolonialismo marxista
Temos
presenciado nas últimas semanas um vivo debate na imprensa chamada alternativa
em que as teorias conhecidas como decoloniais, pós-coloniais e assemelhadas se
apresentam como suposta oposição radical ao marxismo. O objetivo deste texto é
apresentar, da forma mais simples e esquemática possível, como convém, uma
visão do problema, não na perspectiva da filosofia, nem da crítica à
modernidade em geral, mas da crítica da economia política como a tenho
trabalhado no campo da comunicação, da informação e da cultura. É a partir daí
que passei, mais recentemente, a estudar parte do pensamento decolonial.
Não
pretendo reduzir ou mascarar as divergências, mas me parece necessário, para o
debate cumprir um papel construtivo na luta emancipatória, procurar possíveis
linhas de consenso, evitando a tendência, muito presente hoje, à
desqualificação dos adversários. Seguindo o teor do debate, começo com um breve
depoimento pessoal, a título de contextualização para, em seguida, fazer
algumas considerações com base na periodização e classificação feita por
Safatle no texto da revista Piauí que inaugurou uma das duas linhas do debate.
Em terceiro lugar, dedico-me à segunda linha, inaugurada com um texto de
Douglas Barros publicado no Blog da Boitempo, que coloca a questão na
perspectiva do pensamento negro. Por fim, trato de indicar algumas questões no
sentido indicado no título deste artigo.
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Contexto
Meu
primeiro contato com a literatura decolonial foi através de uma importante
coletânea lançada pela CLACSO, organizada por Edgardo Lander (2005). À época,
eu ainda me via às voltas com o pensamento pós-moderno, protegido no meu bunker
marxista, ou marxiano, eu dizia por vezes, seguindo um preciosismo necessário à
época da resistência contra o pensamento único dos anos noventa do século
passado. Inclusive, muitos marxistas se encantaram com a ideia pós-modernista,
entre eles alguns autores respeitados que a adotaram com todo cuidado, como
David Harvey ou Fredrik Jameson. O caso mais contundente foi certamente o de
Antonio Negri que, a partir de uma leitura discutível do famoso fragmento sobre
as máquinas de Marx, estabeleceu, ao lado de Michel Hardt e de seus colegas e
seguidores autonomistas, um revisionismo hoje ainda bastante influente, embora
declinante. Se já há poucos que defendem explicitamente aquela ideologia, que
não resistiu às evidências, suas ideias centrais, sua herança
pós-estruturalista, a deriva semiótica, tudo foi naturalizado e se encontra
disseminado em diferentes tendências intelectuais, inclusive no debate
decolonial.
Em todo
caso, a leitura da referida coletânea me colocou frente a um novo campo de
reflexão e de diálogo. Na verdade, muito do que lá encontrei reforçava posições
que eu defendera quando propus uma teoria marxista (ou marxiana) da comunicação
que, àquela altura já conhecida no campo. Fiquei especialmente impactado pelo
capítulo de Anibal Quijano e o seu esclarecimento a respeito da constituição da
modernidade como momento de reordenação do trabalho ao nível global, o que,
aliás, a economia política brasileira já sabia havia muito. Vide, por exemplo,
o influente trabalho de Fernando Novais (1979), fundamento histórico marxista
adotado pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, onde
recebi minha formação econômica. Conceito marxiano central nessa perspectiva é
o de acumulação primitiva de capital, que me inspirou na definição do que
chamei de acumulação primitiva de conhecimento (Bolaño, 2000), recorrendo
embora a outros capítulos do livro primeiro d’O Capital.
Se
tivesse lido antes a referida coletânea, poderia mesmo ter adotado a alcunha de
decolonial, pois é disso, no fundo, que se tratava. Mas havia algo que não se
encaixava, inclusive na análise de Quijano que eu adotaria em boa medida
(Bolaño, 2015): sua rejeição ao materialismo histórico. Por outro lado, a
coletânea se apresentava nitidamente como uma junção de perspectivas distintas
e muitas vezes contraditórias, como exemplifica a posição de cada autor em
relação ao conceito de pós-modernidade, variando da aceitação acrítica à
crítica contundente. E não obstante, havia um projeto comum que unia a todos e
com o qual eu estava de acordo: a crítica ao eurocentrismo das ciências
sociais, em defesa do pensamento latino-americano. Na minha recepção, incluí
aí, para ficar no mais relevante, Celso Furtado, fundador da economia política
brasileira, jamais citado no campo decolonial, cujo conceito de cultura eu
vinha trabalhando (Bolaño, 2013).
No que
se refere especificamente ao projeto decolonial, ao invés do confronto, preferi
adotar um autor-chave, decolonial não simplesmente marxista, mas fino estudioso
de toda a obra de maturidade de Marx, cujo projeto de vida incluía uma leitura
minuciosa e rigorosa da mesma, a partir da América Latina, para o século XXI:
Enrique Dussel, considerado fundador do pensamento decolonial e um dos seus
mais profícuos desenvolvedores. Mas o seu enfoque marxista, considerando a
maior parte da literatura decolonial, tem sido, no mínimo, amputado, pois o que
encontramos é muito pós-modernismo e muito pouco marxismo, ou antes, muito
contra o marxismo. Aliás, o suposto esquerdismo decolonial tem sido posto em
xeque no seu próprio terreno, como mostra a reação de Grossfogel contra muitos
daqueles que se dizem hoje decoloniais, que ele chegou a definir como
decoloniais colonialistas.
Trata-se,
na verdade, de um debate interno que expõe uma divisão profunda,
irreconciliável, entre dois grupos de autores decoloniais, ambos politicamente
muito ativos, separados justamente por suas posições frente aos processos
revolucionários na América Latina, como se pode verificar em várias lives do
autor encontráveis no YouTube, inclusive uma interessante entrevista a Katia
Colmenares, outra representante da escola dusseliana. Em nenhuma das
intervenções até aqui no debate brasileiro iniciado com o texto de Safatle
(2026a) essa divisão foi apontada. De um lado e de outro, o decolonialismo é
apresentado como teoria unitária alternativa ao marxismo. No entanto, a questão
é essencial e toca, por exemplo, no âmago da interpretação da revolução
bolivariana e do governo da Venezuela (esclareço que minha informação sobre o
tema é anterior à intervenção norte-americana de 3 de janeiro e o sequestro do
presidente Nicolás Maduro), mas não só. A posição da intelectualidade boliviana
frente ao golpe de Estado que destituiu o presidente Evo Morales ilustra também
essa clivagem entre duas perspectivas decoloniais irreconciliáveis. Para não
falar no gritante silêncio de grande parte dos intelectuais decoloniais e
pós-coloniais em relação a Gaza, como aponta também Safatle (2026b).
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Periodização
A
periodização de Safatle é interessante porque apresenta uma linha de
desenvolvimento das teorias sobre o problema colonial que reafirmam as
tendências mais gerais da evolução do pensamento de esquerda que tem um ponto
de corte fundamental no momento da chamada retomada da hegemonia
norte-americana (Conceição Tavares, 1992) nos idos do governo Reagan. É preciso
lembrar que, após a Segunda Guerra Mundial, à base dos tratados de Bretton
Woods, o capitalismo entrou numa fase expansiva sem precedentes que facilitaria,
nos países centrais, uma integração operária que já se apresentava como
problema nos anos sessenta, quando o eixo das lutas emancipatórias se desloca
em grande medida para os chamados novos movimentos sociais. Capitaneados pelos
filhos daquela classe trabalhadora que suportou os horrores da guerra, estes
apresentam uma pauta de reivindicações justa, mas diferente em geral daquela do
velho movimento operário que liderou as revoluções sociais desde o século XIX
em nível mundial. Parte dessas reivindicações, em sociedades afluentes, pôde
ser atendida, servindo à disputa ideológica com o bloco soviético, também
afluente naquele momento.
Nessas
condições, o elã revolucionário se desloca radicalmente para a periferia, onde
os sistemas de Welfare State não chegaram a implantar-se ou, quando o fizeram,
não passou de um arremedo do que ocorria no centro, e onde os povos se viam às
voltas com a nova onda de descolonização, na Ásia e na África desta vez. Não é
à toa que o pensamento crítico europeu foi, a partir de então, regredindo e o
marxismo deslocado de sua posição antes inquestionável junto aos movimentos
sociais e à classe trabalhadora, até a sua emblemática negação formal pelo
partido social-democrata alemão, fundado por Marx e Engels. Claro que a
decadência do socialismo real europeu jogou um papel crucial na derrota que
viria em seguida, mas aqui cabe ressaltar a vitória, na Europa, das posições
reformistas e dos diferentes tipos de revisionismo que se sucederam desde
então. A ideologia pós-modernista contra a qual nós nos debatemos ao longo dos
anos noventa teve um papel fundamental no combate ao marxismo.
É então
a periferia do sistema que se apropria daquela herança revolucionária. Por
isso, a crítica aos enfoques anticoloniais, quando se volta contra o marxismo,
definido singelamente como pensamento europeu, acabará por levar de roldão
todos os lutadores, do centro e da periferia, que devotaram a vida à causa dos
povos. Um problema muito grave é que grande parte da esquerda, inclusive
daquela que se autointitula extrema ou radical, acaba deixando-se levar, no
final das contas, pelo discurso e, com isso, pelas estratégias de legitimação
de um imperialismo autoproclamado democrático. Assim, a luta de classes se
tornará luta pela democracia, entendida, aos moldes do pensamento único, como
democracia formal burguesa, e inclusive os projetos de autogestão, como o da
antiga Iugoslávia, bombardeada pela OTAN, ou o da democracia participativa y
protagónica da Venezuela bolivariana hoje, cercada e agredida pelo
imperialismo, serão definidos pelo consenso neoliberal ao qual adere toda a
social-democracia europeia, como ditatoriais e sujeitos a boicotes e ataques
visando mudanças de regime. Nessas condições, todo silêncio é cúmplice.
Mas o
princípio fundador da crítica pós-colonial às esquerdas europeias era justo e
esclarecedor: a emancipação política alcançada no pós-guerra não elimina a
dominação ideológica entranhada nas novas estruturas estatais e nas relações
sociais reconstruídas em acordo com as próprias potências coloniais que
negociaram em condições de vantagem a sua suposta retirada. Nesse sentido,
dirão, se o colonialismo se foi, a colonialidade permanece e se entranha no
cotidiano e na consciência dos cidadãos. Essa perspectiva será adotada também
pelo pensamento decolonial latino-americano (terceira fase da periodização de
Safatle), que insistirá, da sua parte, sobre a questão epistemológica
envolvida.
Há uma
polêmica que não poderá ser retomada nos limites deste texto, referente à
generalização feita por Safatle aos autores decoloniais da crítica, válida em
geral para os pós-coloniais, segundo a qual não se trata de pensadores
propriamente periféricos na medida em que desenvolvem suas carreiras acadêmicas
em universidades europeias e especialmente norte-americanas. Sobre esse tema, o
próprio Safatle (2026b) apresenta uma resposta adequada na sua tréplica a
Barbosa. De qualquer forma, o deslocamento que o autor diagnostica do
pensamento crítico para a Universidade, instituição central na reprodução das
relações sociais em nível nacional e internacional, longe dos movimentos
revolucionários, é sem dúvida um ponto fundamental a ser considerado no debate,
pois aí está o âmago da luta epistemológica.
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Pensamento negro
Mais
importante neste ponto é incluir uma quarta perspectiva, além daquelas
propostas por Safatle, pois a grande contribuição, a meu ver, ao debate em
curso vem de outro canto, autodefinido como contracolonial, e começa com uma
crítica respeitosa, mas contundente, de Douglas Barros (2026 a) à obra de Nego
Bispo, um ícone desse campo. Outro texto que deve ser lido com atenção é a bela
defesa de Barros, disfarçada de crítica, feita por Heloisa Gusmão e Mateus
Paulo Filho (2026). Na verdade, o que se nota é tratar-se de outro debate e não
deixa de ser desconcertante a pouca integração que existe entre ambos. Tampouco
eu posso tentar uma aproximação nos limites deste texto, mas, seguindo a
metáfora em tom de ironia de Heloisa e Mateus, espero que a porta do quilombo
aberta por Douglas não se feche.
Na
verdade, o que ele defende significa, em última instância, redirecionar o
pensamento negro de volta, não a uma ancestralidade imaginária, ligada a
princípios identitários que ele acusa de românticos, mas ao veio do pensamento
e da práxis revolucionária de sujeitos como Fanon ou Amílcar Cabral, que ele
cita diretamente, mas que inclui uma série enorme de lideranças africanas que,
munidas das ferramentas fornecidas por Marx, comandaram os movimentos de
libertação nacional na segunda metade do século passado.
Se,
como afirmam Heloisa e Mateus, falando essencialmente ao seu público interno, o
perigo da reflexão de Douglas Barros reside em que “a crítica dele nos tira de
nossas fantasias”, pois a “estrutura afetiva e intelectual do romantismo – a
nostalgia de uma era de ouro, a busca por raízes puras, a construção de
comunidades homogêneas imaginárias – seria reconhecida como uma forma de ilusão
ideológica, um sintoma da incapacidade de enfrentar dialeticamente as
contradições do presente”, de modo que “seríamos forçados, pela vergonha, a
sair da posição confortável da denúncia moral e da celebração identitária para
assumir a complexidade desencantada da análise materialista” e assim “seríamos
impelidos, por fim, a lutar por uma revolução”, do lado oposto, o perigo reside
em que, sendo o povo negro e mestiço a parcela majoritária da classe
trabalhadora brasileira, faria então todo sentido a palavra de ordem “todo
poder ao povo negro”. Não o poder do general Michel Langley, então chefe do
Comando Militar dos Estados Unidos na África que, com empáfia imperialista,
ofendeu o comandante Ibrahim Traoré, chamando ditador ao líder da chamada
segunda independência africana, hoje em curso em Burkina Fasso e por toda a
região do Sahel, herdeiro do legado de Thomas Sankara, um jovem militar
realmente muito perigoso para o establishment. Não é a ancestralidade africana
o que opõe esses dois homens negros, mas a classe e os interesses que cada um
objetivamente representa.
Quando
Douglas Barros, tanto no texto até aqui referido quanto no prefácio que assina
ao livro de Olúfémi Táiwò, Contra a descolonização (Barros, 2026b), publicado
recentemente no Brasil e que já se encontra em minha lista de leituras para o
ano, afirma que “quando o colonialismo é absolutizado e tornado a-histórico (…)
os africanos passam a ser apresentados como meras vítimas impotentes, que
fracassaram por terem abraçado os ideais dos colonizadores” e que “a
modernidade não foi apenas o lugar da escravização de africanos e indígenas,
mas também o lugar da produção de sentidos e riquezas advindos do trabalho
fundamental de africanos e indígenas (…) executado não só manualmente, mas
intelectualmente”, lembro a lição de Marx, segundo a qual, o capital não cria
nada de novo, tudo vem do trabalho, essa exterioridade essencial, como diz
Dussel, que deve ser subsumida a cada rotação para que o movimento recorrente
de acumulação possa seguir, alimentando-se do mais-valor que o trabalho produz
sempre a partir do nada do capital.
Essa é
a perspectiva materialista consequente e não significa negar a existência e a
importância daqueles elementos de ordem cultural e epistemológica enfatizados
pela crítica decolonial. Antes pelo contrário, o conceito de acumulação
primitiva do conhecimento (Bolaño, 2000), que explica, em primeiro lugar, a
expropriação do conhecimento desenvolvido pela classe trabalhadora artesanal
medieval pelo capital ao longo do período manufatureiro, o que permitirá a sua
incorporação ao sistema das máquinas e a Revolução Industrial, é expandido em
seguida, no mesmo livro, para considerar o fato de que não apenas aquela
subsunção já era incorporação de saberes expropriados da classe trabalhadora,
mas que também a Indústria Cultural, em período posterior realiza um processo
semelhante de subsunção cultural que é o fundamento do seu poder institucional
enquanto instância de mediação social visando a dominação.
Celso
Furtado (1978), em outro registro, explica que a base da construção da
hegemonia burguesa no Brasil do século XX foi o movimento de absorção, por
parte da intelectualidade branca desenvolvimentista, da cultura popular que
crescera com relativa autonomia nas favelas e nos interiores ao longo do século
XIX, desprezada pelo bovarismo então reinante. A história da legitimação da
capoeira no governo Vargas é outro caso de colaboração entre elites negras e
brancas visando estabelecer as bases de uma cultura nacional popular a serviço,
em última instância, da hegemonia burguesa. O que ocorre a partir desse período
fundador é a subsunção da cultura popular pelo capital cultural, que garante as
condições de legitimidade do modo de apropriação capitalista, para usar mais
uma vez a categorização marxiana enfatizada por Dussel (1985). A formação da
base cultural para essa operação, que em Furtado (1984) definiu a civilização
brasileira prévia à industrialização, foi justamente o período da fundação da
modernidade, com a constituição do mercado mundial após a chegada dos europeus
à América, seguindo a datação de Quijano e Dussel.
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Conclusão e perspectivas
Nessa
linha de raciocínio, dois esclarecimentos importantes podem ser feitos em
relação ao debate decolonial. Primeiro, dado seu caráter complexo e
contraditório, a dominação não deve ser entendida meramente como processo de
apagamento, mas de subsunção, que envolve dois momentos: um de expropriação e
outro de imposição de conhecimento (Bolaño e Herrera-Jaramillo, 2019). Assim, o
conhecimento ancestral indígena nosso-americano em matéria de alimentação será
incorporado às mesas europeias e devolvido posteriormente, transformado, às
populações da periferia como produto legitimamente italiano, francês etc. Em
termos gerais, o movimento de expropriação e imposição de conhecimento, que
envolve o trabalho intelectual de indigenistas, antropólogos, padres jesuítas e
não apenas militares, é um processo de dominação cultural que revela a dupla
contradição – capital/trabalho, economia/cultura (Bolaño, 2000) – que preside a
expansão do capital ao longo de toda a modernidade.
E aqui
cabe o segundo esclarecimento. Note-se que não se trata, na minha leitura do
problema, de considerar, para ser marxista, o fator, ou o fundamento econômico
da coisa, mas de entender o capital como totalidade, uma totalidade, aliás,
construída pela subsunção da externalidade e, portanto, inerentemente
contraditória, já que incorpora o seu oposto sem apagar a identidade de origem
deste. Esse é o germe da revolução. Uribam Xavier (2026), outro interveniente
no debate, por exemplo, equivoca-se ao tentar questionar a crítica de Safatle
aos estudos decoloniais, afirmando que estes apresentam a modernidade de forma
monolítica. Sua resposta define, usando o jargão decolonial, a modernidade como
“projeto civilizador, composto por uma racionalidade particular com pretensões
universais, constituída pela colonialidade do poder, do saber e do ser, bem
como de um sistema econômico, o modo de produção capitalista, e de um sistema
político e de um ordenamento jurídico fundamentado no jusnaturalismo”.
Centremos a questão, dados nossos limites de tempo e espaço, apenas no referido
“sistema econômico”.
Ora,
definir o modo de produção capitalista nesses termos é anacrônico. A
modernidade se inaugura na virada do século XV para o XVI, enquanto o modo de
produção capitalista surge com a Revolução Industrial do final do século XVIII.
O que havia antes pode ser definido, seguindo a literatura braudeliana, como
parte do “capitalismo histórico”, quando, sob o comandado do grande capital
mercantil pré-capitalista, se realiza o processo de acumulação primitiva de
capital, em aliança com as monarquias absolutas e a igreja, mas o modo de
produção na Europa é ainda feudal, de transição. O colonialismo, nesse momento
é, portanto, absolutista e o modo de produção capitalista, no sentido restrito
do termo, existirá sob a forma de manufatura nas cidades medievais, sob o jugo
ainda do feudalismo. Esse colonialismo, em todo caso, é o que constitui o
mercado mundial e implanta o sistema atlântico de exploração do trabalho
escravo, reduzindo a América a colônia e a África a reservatório de caça humana
para uso na agroempresa escravista americana.
Esse
sistema será superado justamente com o surgimento do modo de produção
capitalista, a começar pelo fim do escravismo, não sem lutas, de modo que o
colonialismo, no século XX em especial, o neocolonialismo, melhor dito, focado
no controle militar da África e da Ásia pelas potências europeias, é outro,
mero instrumento do imperialismo, fase superior do capitalismo, dirá Lênin
(2016). Mas esse próprio colonialismo desaparecerá após a Segunda Grande
Guerra, atacado pela União Soviética, pelos Estados Unidos, a nova potência
hegemônica imperialista, mas fundamentalmente pela luta revolucionária dos
povos da África e da Ásia. Na América Latina ocorre, por certo, movimento
semelhante, mas a independência lá já tinha então um século, o colonialismo
desaparecera, mas permanecera a colonialidade, como bem define a literatura
decolonial, e a dominação capitalista-imperialista, comandada internamente por
burguesias nacionais subalternas.
É certo
que, nessas condições, começa a se formar uma consciência mundial na periferia,
que se apresenta com força, por exemplo, no congresso de Bandung. Mas as formas
de inserção no sistema mundial capitalista e os métodos de dominação no plano
local são diferentes no caso da América Latina e dos países da Ásia e da
África, e daí decorrem as diferenças também nas condições de luta dos povos e
na relação com os poderes locais e com o imperialismo. A unificação se dará
então por duas vias: a do mercado, com tudo o que ele implica, de um lado, e a
da revolução que o marxismo propõe como alternativa ao sistema de exploração do
capital e à necropolítica imperial, o que passa hoje pela reconstrução da
utopia socialista. O trabalho antológico de Álvaro Garcia Linera (2010) oferece
o sentido: o caminho em direção ao ayllu universal a partir das comunidades; a
forma comunidade contra a forma valor. Uma universalidade concreta, a união de
todos os quilombos. Mas essa é questão para uma próxima ocasião.
Fonte:
Outras Palavras

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