“Nós
somos guardiões da cobra grande e quem mexe com a cobra grande leva bote”
No dia
23 de fevereiro deste ano, depois de 33 dias de intensa mobilização no oeste do
Pará e de articulações que chegaram até Brasília, a pressão dos povos indígenas
levou à derrubada do decreto federal que abria caminho para a privatização dos
rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O presidente Lula anulou a medida e a
decisão foi comunicada pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e
pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme
Boulos, após esse ciclo de mobilizações do movimento indígena. O governo
reconheceu o erro de ter tomado uma decisão de grande impacto socioambiental
sem promover debate público e, sobretudo, sem consultar as populações
diretamente afetadas, como estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional
do Trabalho (OIT), um tratado que o Brasil aderiu.
Essa
foi a segunda vitória expressiva conquistada pelo movimento indígena da região
em um intervalo de um ano. Em 12 de fevereiro de 2025, uma lei do Estado do
Pará que ampliava a precarização da educação para povos indígenas, quilombolas
e ribeirinhos foi anulada após uma mobilização que ocupou por 30 dias a
Secretaria Estadual de Educação, em Belém, e também trechos da BR-316, em
Santarém. Diante da pressão crescente, o governador do Pará, Helder Barbalho,
recuou e articulou a anulação da lei. A mobilização deixou nítidas as intenções
políticas do governo ao propor uma medida que prejudicava diretamente a vida
desses povos. O recuo também ocorreu em um momento de forte exposição
internacional do estado, que se preparava para sediar a COP30, a Conferência
das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o que tornou ainda mais visível a
contradição entre o discurso público e as medidas adotadas na prática.
As duas
conquistas mostram que a mobilização popular segue sendo um caminho central
para pressionar governos e produzir mudanças políticas. As ações realizadas
entre janeiro e fevereiro de 2025 e 2026 também reforçam uma memória mais
antiga da região. Para muitas lideranças indígenas, a resistência que hoje se
expressa nas ruas e nos territórios carrega a continuidade da Cabanagem,
revolta popular amazônica iniciada em 1835 que marcou a história política da
região e do Brasil.
Nesse
processo de vitórias e luta política, as mulheres indígenas tiveram papel
decisivo. Lideranças mulheres estiveram na linha de frente da organização das
mobilizações e da articulação de alianças. Elas ajudaram a reunir uma
diversidade de povos, organizações indígenas e aliadas, movimentos sociais e
sindicais, parlamentares, coletivos, pesquisadores, estudantes e agentes de
instituições públicas, como o Ministério Público Federal. Com essa capacidade
de articulação, contribuíram para construir a pressão popular que levou às
vitórias políticas.
Uma das
frases que circulou entre as mensagens compartilhadas durante a mobilização
resume o espírito da luta. “Nós somos guardiões da cobra grande e quem mexe com
a cobra grande leva bote”, disse a liderança Auricélia Arapiuns, do Baixo
Tapajós, poucos dias antes da revogação do decreto federal. Auricélia esteve na
linha de frente das duas mobilizações e atua como liderança do movimento
indígena há mais de 30 anos. Para ela, a vitória não pertence apenas aos povos
indígenas, mas ao povo brasileiro e à própria humanidade, que vive o desafio de
enfrentar a crise climática. Nesse cenário, a existência dos rios da Amazônia e
das pessoas que cuidam deles tem papel central. A fala sobre a Cobra Grande faz
referência ao próprio território e ao rio, entendido como uma força viva
protegida há gerações pelos povos indígenas.
Para
pressionar pela revogação do decreto federal número 12.600, indígenas e aliados
ocuparam por mais de um mês o terminal portuário da multinacional do
agronegócio Cargill, em Santarém. A empresa estadunidense é uma das principais
interessadas na ampliação do transporte de grãos pela região, sobretudo soja.
Organizações indígenas e movimentos sociais denunciam as violações cometidas
pela companhia que há décadas fomenta conflitos territoriais. Segundo o
Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), a empresa invadiu a área da aldeia
Vera Paz, em Santarém, onde foi construído seu primeiro terminal portuário, em
2003, transformando um território tradicional em estrutura privada voltada ao
escoamento de grãos.
A
Cargill é a maior empresa de capital fechado dos Estados Unidos, segundo dados
divulgados pela revista Forbes de 2025. Parte de seus lucros está ligada à
invasão e exploração de territórios na Amazônia. A empresa também foi alvo de
denúncia por exploração de trabalho escravo e infantil na cadeia de
fornecedores de cacau, na Bahia. Em 2023, a Justiça do Trabalho condenou a
companhia nesse caso, conforme matéria da Repórter Brasil.
Durante
o período da ocupação da Cargill, no início do ano, também ocorreram outras
ações. Houve ocupação do aeroporto de Santarém, bloqueio de balsas de grãos da
Cargill, marchas pelas ruas de Santarém e manifestações em oito cidades de seis
estados. Paralelamente, lideranças mantiveram agendas de articulação com órgãos
do governo federal e com o sistema de justiça para fortalecer as pressões para
anulação do decreto.
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Atos na COP30
Um
ponto importante dessa mobilização foram as ações realizadas antes da ocupação
da Cargill, sobretudo as manifestações e articulações feitas durante a COP30,
em Belém. O movimento indígena do Baixo Tapajós ocupou a ‘Zona Azul’, uma área
restrita da conferência, para chamar a atenção da comunidade internacional
sobre a proposta de privatização dos rios amazônicos. Em um espaço onde se
discutia o futuro da humanidade diante da crise climática, as lideranças
aproveitaram o momento para denunciar a ameaça sobre o Tapajós.
Naquele
contexto, o governo respondeu por meio do secretário-geral da Presidência da
República, Guilherme Boulos, afirmando que nenhuma medida relacionada à
hidrovia no Tapajós seria tomada sem consulta às populações afetadas. Menos de
dois meses do final da COP30, o governo abriu no início de janeiro de 2026
edital para iniciar a dragagem do rio, novamente uma ação feita sem consulta às
comunidades. A decisão provocou reação imediata do movimento indígena, que
organizou a ocupação do terminal da Cargill em Santarém e uma série de
mobilizações e articulações políticas. A pressão levou primeiro ao cancelamento
do edital de dragagem e, posteriormente, à derrubada definitiva do decreto.
Segundo
organização da mobilização, cerca de 1.200 indígenas participaram diretamente
das mobilizações de 2026, que ocuparam o terminal portuário da Cargill. Estavam
presentes representantes dos povos Arapiun, Apiaká, Arara Vermelha, Borari,
Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Sateré Mawé,
Tapuia, Tapajó, Tupaiú, Kaiapó, Panará e Tupinambá.
Segundo
organização da mobilização, cerca de 1.200 indígenas participaram diretamente
das mobilizações de 2026. Estavam presentes representantes dos povos Arapiun,
Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku,
Munduruku Cara Preta, Sateré Mawé, Tapuia, Tapajó, Tupaiú, Kaiapó, Panará e
Tupinambá.
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Flecha de informação
Um
fator central na estratégia das duas mobilizações que aconteceram no Pará foi a
comunicação popular indígena, que ampliou o alcance da mobilização e ajudou a
pressionar e sensibilizar a sociedade sobre as bandeiras de luta do movimento.
Vídeos, áudios, textos e fotografias produzidos por comunicadores que
participavam das mobilizações circularam pelas redes digitais e levaram o
debate para além da região amazônica. Esses materiais também eram utilizados
dentro das ocupações e durante os atos nas ruas, alimentando outras formas de
circulação da informação, que não se limitavam ao ambiente digital, e ajudavam
a explicar para o país o que estava em disputa.
Essa
forma de comunicação aproximou pessoas que nunca tinham ouvido falar do decreto
federal, da lei estadual ou da situação dos rios amazônicos e da precariedade
da educação escolar dos povos indígenas. Ao mesmo tempo, fortaleceu a
identidade coletiva do movimento e ajudou a enfrentar narrativas falsas que
circularam tanto em grandes empresas de comunicação do Brasil quanto em sites
de notícias ligados a interesses políticos e empresariais no estado do Pará,
como apontado no artigo do professor Marcos Colón, no Diplomatique Brasil e na
matéria do Brasil de Fato sobre a desinformação na mobilização de 2025.
Os
comunicadores indígenas Walter Kumaruara, Jander Arapiun e João Vitor Tupinambá
responsabilidade de mobilizar os esforços de comunicação durante a mobilização
de 2026, conectados com as organizações indígenas como CITA, Conselho Indígenna
Tupinambá, entre outras. As ações de comunicação tanto em 2025 e neste ano
foram realizadas de forma colaborativa com diversos comunicadores e grupos de
comunicação. Entre eles estão Thaigon Arapiun, Cristian Arapiuns, Nay Jinknss e
Elisa Munduruku, além de muitos outros comunicadores populares indígenas e não
indígenas que participaram diretamente dessas lutas no Pará.
Em uma
mensagem publicada após a mobilização de 2026, Walter explicou o sentido dessa
atuação. Segundo ele, a comunicação serviu para levar “informações reais,
diretas e transparentes sobre o que de fato acontecia dentro do território, os
encaminhamentos do movimento, as decisões coletivas, a presença de famílias,
mulheres e crianças e o verdadeiro sentido da nossa luta.” Walter também
relatou que seu nome chegou a ser citado em um procedimento jurídico da empresa
durante o conflito, em uma tentativa de intimidar sua atuação como comunicador
indígena. Mesmo assim, afirmou que a comunicação não recuou diante das
pressões. “Comunicação indígena não é favor e não é crime. É território em
palavra. É flecha de informação”, concluiu o comunicador.
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Trajetória de organização
A força
dessa mobilização está ligada a um processo mais longo de organização indígena
no Baixo Tapajós. Antes da colonização, a região onde hoje está Santarém era um
importante centro de povos indígenas da Amazônia. A chegada dos europeus no
Baixo Tapajós provocou a continuidade do genocídio indígena iniciado no Brasil
na região nordeste. Mesmo diante da violência muitos povos mantiveram vínculos
com seus territórios e suas histórias. Em Santarém um marco desse processo foi
o trabalho do pajé Laurelino Cruz, que ajudou a recuperar histórias antigas e
fortalecer a consciência coletiva entre diferentes aldeias.
De
acordo com registros do CITA, em 1999 foi realizado o primeiro encontro dos
povos indígenas do Baixo Tapajós, na aldeia Jauarituba. Esse encontro abriu
caminho para a criação do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns. O CITA foi
fundado em 23 de maio de 2000 com a participação de oito povos e 11 aldeias.
Hoje a organização reúne 14 povos distribuídos em mais de uma centena de
aldeias nos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro.
De
acordo com o coordenador do CITA, Lucas Tupinambá, a organização tem construído
ao longo dos anos uma atuação que se tornou referência na articulação política
dos povos indígenas da região. Esse trabalho contribuiu para a organização da
educação escolar indígena diferenciada nos territórios e também nas cidades,
com incentivo à entrada de pessoas indígenas nas universidades. A atuação do
CITA também fortaleceu o atendimento à saúde com atenção e respeito aos saberes
tradicionais dos povos do Baixo Tapajós, além de incentivar a valorização da
cultura indígena e ampliar a participação de indígenas nas decisões políticas
nos municípios onde estão localizadas as aldeias da região.
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Levantes indígenas
As
mobilizações que ocorreram em 2025 e 2026 mostram que essas vitórias fazem
parte de uma continuidade de lutas que seguem vivas na memória coletiva. O
movimento indígena do Tapajós permanece conectado a uma história de resistência
cabana que atravessa gerações. Auricélia Arapiuns, que também já foi
coordenadora do CITA, costuma resgatar essa memória em seus posicionamentos
públicos. Suas falas reforçam o orgulho do pertencimento e recordam que, mesmo
em um cenário de violência e de profundas desigualdades políticas e econômicas,
as conquistas surgem da organização e da luta coletiva dos povos, no Pará e por
todo o Brasil.
Além
das mobilizações apresentadas neste artigo, outros levantes indígenas também
marcam o mesmo período de luta pela vida no Brasil. Um dia antes de os povos do
Baixo Tapajós conquistarem a anulação do Decreto 12.600, no final de fevereiro
deste ano, mulheres indígenas do Xingu iniciaram uma mobilização no município
de Altamira, no Pará. Desde o dia 22 de fevereiro, elas ocupam a sede da
Fundação Nacional dos Povos Indígenas para denunciar os impactos do projeto de
mineração da empresa Belo Sun na Volta Grande do Xingu. As mulheres exigem a
cassação da licença de instalação da mineradora e também reivindicam a
desintrusão da Terra Indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, e da Terra
Indígena Trincheira Bacajá, do povo Mebêngôkre-Xikrin. A mobilização também
chama atenção para a necessidade de medidas políticas que respondam aos
impactos acumulados na região após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo
Monte.
Outra
importante mobilização também segue fora da Amazônia, há mais de 120 dias. No
Espírito Santo, povos indígenas Tupinikim e Guarani exigem justiça pelos crimes
ligados ao rompimento da barragem de Fundão, no município de Mariana, em Minas
Gerais, de responsabilidade das mineradoras Vale e Samarco. Mais de dez anos
depois desse crime que despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama
na bacia do Rio Doce, os povos Tupinikim e Guarani do norte capixaba seguem
enfrentando impactos profundos em seus modos de vida, sobretudo no impacto
econômico e cultural ligados a pesca e a saúde. Como forma de pressionar por
respostas, indígenas ocupam os trilhos da Vale que atravessam a Terra Indígena
Tupinikim Guarani, transformando o território em espaço de denúncia e
mobilização por justiça.
Fonte:
Por Caio Mota, para Le Monde

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