terça-feira, 31 de março de 2026

“Nós somos guardiões da cobra grande e quem mexe com a cobra grande leva bote”

No dia 23 de fevereiro deste ano, depois de 33 dias de intensa mobilização no oeste do Pará e de articulações que chegaram até Brasília, a pressão dos povos indígenas levou à derrubada do decreto federal que abria caminho para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O presidente Lula anulou a medida e a decisão foi comunicada pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, após esse ciclo de mobilizações do movimento indígena. O governo reconheceu o erro de ter tomado uma decisão de grande impacto socioambiental sem promover debate público e, sobretudo, sem consultar as populações diretamente afetadas, como estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), um tratado que o Brasil aderiu.

Essa foi a segunda vitória expressiva conquistada pelo movimento indígena da região em um intervalo de um ano. Em 12 de fevereiro de 2025, uma lei do Estado do Pará que ampliava a precarização da educação para povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos foi anulada após uma mobilização que ocupou por 30 dias a Secretaria Estadual de Educação, em Belém, e também trechos da BR-316, em Santarém. Diante da pressão crescente, o governador do Pará, Helder Barbalho, recuou e articulou a anulação da lei. A mobilização deixou nítidas as intenções políticas do governo ao propor uma medida que prejudicava diretamente a vida desses povos. O recuo também ocorreu em um momento de forte exposição internacional do estado, que se preparava para sediar a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o que tornou ainda mais visível a contradição entre o discurso público e as medidas adotadas na prática.

As duas conquistas mostram que a mobilização popular segue sendo um caminho central para pressionar governos e produzir mudanças políticas. As ações realizadas entre janeiro e fevereiro de 2025 e 2026 também reforçam uma memória mais antiga da região. Para muitas lideranças indígenas, a resistência que hoje se expressa nas ruas e nos territórios carrega a continuidade da Cabanagem, revolta popular amazônica iniciada em 1835 que marcou a história política da região e do Brasil.

Nesse processo de vitórias e luta política, as mulheres indígenas tiveram papel decisivo. Lideranças mulheres estiveram na linha de frente da organização das mobilizações e da articulação de alianças. Elas ajudaram a reunir uma diversidade de povos, organizações indígenas e aliadas, movimentos sociais e sindicais, parlamentares, coletivos, pesquisadores, estudantes e agentes de instituições públicas, como o Ministério Público Federal. Com essa capacidade de articulação, contribuíram para construir a pressão popular que levou às vitórias políticas.

Uma das frases que circulou entre as mensagens compartilhadas durante a mobilização resume o espírito da luta. “Nós somos guardiões da cobra grande e quem mexe com a cobra grande leva bote”, disse a liderança Auricélia Arapiuns, do Baixo Tapajós, poucos dias antes da revogação do decreto federal. Auricélia esteve na linha de frente das duas mobilizações e atua como liderança do movimento indígena há mais de 30 anos. Para ela, a vitória não pertence apenas aos povos indígenas, mas ao povo brasileiro e à própria humanidade, que vive o desafio de enfrentar a crise climática. Nesse cenário, a existência dos rios da Amazônia e das pessoas que cuidam deles tem papel central. A fala sobre a Cobra Grande faz referência ao próprio território e ao rio, entendido como uma força viva protegida há gerações pelos povos indígenas.

Para pressionar pela revogação do decreto federal número 12.600, indígenas e aliados ocuparam por mais de um mês o terminal portuário da multinacional do agronegócio Cargill, em Santarém. A empresa estadunidense é uma das principais interessadas na ampliação do transporte de grãos pela região, sobretudo soja. Organizações indígenas e movimentos sociais denunciam as violações cometidas pela companhia que há décadas fomenta conflitos territoriais. Segundo o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), a empresa invadiu a área da aldeia Vera Paz, em Santarém, onde foi construído seu primeiro terminal portuário, em 2003, transformando um território tradicional em estrutura privada voltada ao escoamento de grãos.

A Cargill é a maior empresa de capital fechado dos Estados Unidos, segundo dados divulgados pela revista Forbes de 2025. Parte de seus lucros está ligada à invasão e exploração de territórios na Amazônia. A empresa também foi alvo de denúncia por exploração de trabalho escravo e infantil na cadeia de fornecedores de cacau, na Bahia. Em 2023, a Justiça do Trabalho condenou a companhia nesse caso, conforme matéria da Repórter Brasil.

Durante o período da ocupação da Cargill, no início do ano, também ocorreram outras ações. Houve ocupação do aeroporto de Santarém, bloqueio de balsas de grãos da Cargill, marchas pelas ruas de Santarém e manifestações em oito cidades de seis estados. Paralelamente, lideranças mantiveram agendas de articulação com órgãos do governo federal e com o sistema de justiça para fortalecer as pressões para anulação do decreto.

<><> Atos na COP30

Um ponto importante dessa mobilização foram as ações realizadas antes da ocupação da Cargill, sobretudo as manifestações e articulações feitas durante a COP30, em Belém. O movimento indígena do Baixo Tapajós ocupou a ‘Zona Azul’, uma área restrita da conferência, para chamar a atenção da comunidade internacional sobre a proposta de privatização dos rios amazônicos. Em um espaço onde se discutia o futuro da humanidade diante da crise climática, as lideranças aproveitaram o momento para denunciar a ameaça sobre o Tapajós.

Naquele contexto, o governo respondeu por meio do secretário-geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, afirmando que nenhuma medida relacionada à hidrovia no Tapajós seria tomada sem consulta às populações afetadas. Menos de dois meses do final da COP30, o governo abriu no início de janeiro de 2026 edital para iniciar a dragagem do rio, novamente uma ação feita sem consulta às comunidades. A decisão provocou reação imediata do movimento indígena, que organizou a ocupação do terminal da Cargill em Santarém e uma série de mobilizações e articulações políticas. A pressão levou primeiro ao cancelamento do edital de dragagem e, posteriormente, à derrubada definitiva do decreto.

Segundo organização da mobilização, cerca de 1.200 indígenas participaram diretamente das mobilizações de 2026, que ocuparam o terminal portuário da Cargill. Estavam presentes representantes dos povos Arapiun, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Sateré Mawé, Tapuia, Tapajó, Tupaiú, Kaiapó, Panará e Tupinambá.

Segundo organização da mobilização, cerca de 1.200 indígenas participaram diretamente das mobilizações de 2026. Estavam presentes representantes dos povos Arapiun, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Sateré Mawé, Tapuia, Tapajó, Tupaiú, Kaiapó, Panará e Tupinambá.

<><> Flecha de informação

Um fator central na estratégia das duas mobilizações que aconteceram no Pará foi a comunicação popular indígena, que ampliou o alcance da mobilização e ajudou a pressionar e sensibilizar a sociedade sobre as bandeiras de luta do movimento. Vídeos, áudios, textos e fotografias produzidos por comunicadores que participavam das mobilizações circularam pelas redes digitais e levaram o debate para além da região amazônica. Esses materiais também eram utilizados dentro das ocupações e durante os atos nas ruas, alimentando outras formas de circulação da informação, que não se limitavam ao ambiente digital, e ajudavam a explicar para o país o que estava em disputa.

Essa forma de comunicação aproximou pessoas que nunca tinham ouvido falar do decreto federal, da lei estadual ou da situação dos rios amazônicos e da precariedade da educação escolar dos povos indígenas. Ao mesmo tempo, fortaleceu a identidade coletiva do movimento e ajudou a enfrentar narrativas falsas que circularam tanto em grandes empresas de comunicação do Brasil quanto em sites de notícias ligados a interesses políticos e empresariais no estado do Pará, como apontado no artigo do professor Marcos Colón, no Diplomatique Brasil e na matéria do Brasil de Fato sobre a desinformação na mobilização de 2025.

Os comunicadores indígenas Walter Kumaruara, Jander Arapiun e João Vitor Tupinambá responsabilidade de mobilizar os esforços de comunicação durante a mobilização de 2026, conectados com as organizações indígenas como CITA, Conselho Indígenna Tupinambá, entre outras. As ações de comunicação tanto em 2025 e neste ano foram realizadas de forma colaborativa com diversos comunicadores e grupos de comunicação. Entre eles estão Thaigon Arapiun, Cristian Arapiuns, Nay Jinknss e Elisa Munduruku, além de muitos outros comunicadores populares indígenas e não indígenas que participaram diretamente dessas lutas no Pará.

Em uma mensagem publicada após a mobilização de 2026, Walter explicou o sentido dessa atuação. Segundo ele, a comunicação serviu para levar “informações reais, diretas e transparentes sobre o que de fato acontecia dentro do território, os encaminhamentos do movimento, as decisões coletivas, a presença de famílias, mulheres e crianças e o verdadeiro sentido da nossa luta.” Walter também relatou que seu nome chegou a ser citado em um procedimento jurídico da empresa durante o conflito, em uma tentativa de intimidar sua atuação como comunicador indígena. Mesmo assim, afirmou que a comunicação não recuou diante das pressões. “Comunicação indígena não é favor e não é crime. É território em palavra. É flecha de informação”, concluiu o comunicador.

<><> Trajetória de organização

A força dessa mobilização está ligada a um processo mais longo de organização indígena no Baixo Tapajós. Antes da colonização, a região onde hoje está Santarém era um importante centro de povos indígenas da Amazônia. A chegada dos europeus no Baixo Tapajós provocou a continuidade do genocídio indígena iniciado no Brasil na região nordeste. Mesmo diante da violência muitos povos mantiveram vínculos com seus territórios e suas histórias. Em Santarém um marco desse processo foi o trabalho do pajé Laurelino Cruz, que ajudou a recuperar histórias antigas e fortalecer a consciência coletiva entre diferentes aldeias.

De acordo com registros do CITA, em 1999 foi realizado o primeiro encontro dos povos indígenas do Baixo Tapajós, na aldeia Jauarituba. Esse encontro abriu caminho para a criação do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns. O CITA foi fundado em 23 de maio de 2000 com a participação de oito povos e 11 aldeias. Hoje a organização reúne 14 povos distribuídos em mais de uma centena de aldeias nos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro.

De acordo com o coordenador do CITA, Lucas Tupinambá, a organização tem construído ao longo dos anos uma atuação que se tornou referência na articulação política dos povos indígenas da região. Esse trabalho contribuiu para a organização da educação escolar indígena diferenciada nos territórios e também nas cidades, com incentivo à entrada de pessoas indígenas nas universidades. A atuação do CITA também fortaleceu o atendimento à saúde com atenção e respeito aos saberes tradicionais dos povos do Baixo Tapajós, além de incentivar a valorização da cultura indígena e ampliar a participação de indígenas nas decisões políticas nos municípios onde estão localizadas as aldeias da região.

<><> Levantes indígenas

As mobilizações que ocorreram em 2025 e 2026 mostram que essas vitórias fazem parte de uma continuidade de lutas que seguem vivas na memória coletiva. O movimento indígena do Tapajós permanece conectado a uma história de resistência cabana que atravessa gerações. Auricélia Arapiuns, que também já foi coordenadora do CITA, costuma resgatar essa memória em seus posicionamentos públicos. Suas falas reforçam o orgulho do pertencimento e recordam que, mesmo em um cenário de violência e de profundas desigualdades políticas e econômicas, as conquistas surgem da organização e da luta coletiva dos povos, no Pará e por todo o Brasil.

Além das mobilizações apresentadas neste artigo, outros levantes indígenas também marcam o mesmo período de luta pela vida no Brasil. Um dia antes de os povos do Baixo Tapajós conquistarem a anulação do Decreto 12.600, no final de fevereiro deste ano, mulheres indígenas do Xingu iniciaram uma mobilização no município de Altamira, no Pará. Desde o dia 22 de fevereiro, elas ocupam a sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas para denunciar os impactos do projeto de mineração da empresa Belo Sun na Volta Grande do Xingu. As mulheres exigem a cassação da licença de instalação da mineradora e também reivindicam a desintrusão da Terra Indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, e da Terra Indígena Trincheira Bacajá, do povo Mebêngôkre-Xikrin. A mobilização também chama atenção para a necessidade de medidas políticas que respondam aos impactos acumulados na região após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Outra importante mobilização também segue fora da Amazônia, há mais de 120 dias. No Espírito Santo, povos indígenas Tupinikim e Guarani exigem justiça pelos crimes ligados ao rompimento da barragem de Fundão, no município de Mariana, em Minas Gerais, de responsabilidade das mineradoras Vale e Samarco. Mais de dez anos depois desse crime que despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama na bacia do Rio Doce, os povos Tupinikim e Guarani do norte capixaba seguem enfrentando impactos profundos em seus modos de vida, sobretudo no impacto econômico e cultural ligados a pesca e a saúde. Como forma de pressionar por respostas, indígenas ocupam os trilhos da Vale que atravessam a Terra Indígena Tupinikim Guarani, transformando o território em espaço de denúncia e mobilização por justiça.

 

Fonte: Por Caio Mota, para Le Monde 

 

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