Como
a "misandria" vem sendo instrumentalizada na machosfera
Enquanto
avança no Congresso Nacional, o projeto de lei (PL) que criminaliza a misoginia
– o ódio ou aversão às mulheres – angaria a revolta de influenciadores e
políticos da extrema direita. Expoentes do ultraconservadorismo trabalham para
deslegitimar a proposta, aprovada na terça-feira (24/03) pelo Senado, alegando
uma suposta defesa dos homens contra abusos no combate à violência de gênero.
O texto
inseriu a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na
Lei do Racismo. Preveem-se penas de 2 a 5 anos de prisão para quem for
condenado por conduta violenta baseada na crença da supremacia do gênero
masculino.
Estratégia
central dos obstrucionistas é apontar para uma suposta "misandria",
entendida como ódio e abusos sistemáticos contra os homens. Pela teoria, os
homens seriam vítimas negligenciadas de um padrão de violências pelas mulheres.
O conceito é desacreditado por especialistas.
"A
mulher pode te bater, te humilhar, fazer uma falsa acusação que não dá em nada.
Você, apenas por existir ao lado dela, pode ser preso. Entenda uma coisa, o
jogo está totalmente sabotado contra você", disse nas redes sociais, em
reação ao PL, um influenciador conservador que fala sobretudo ao público
masculino.
A ideia
de "misandria" não é de hoje. Despontou há pelo menos quatro décadas
e ganhou proeminência onde havia insatisfação com um feminismo em evolução. No
Brasil, se enraizou nas profundezas da machosfera, circula por ambientes
virtuais de desinformação e já tentou até se esgueirar para dentro do
Legislativo, com propostas para penalizar ou encarcerar mulheres.
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Falsa equiparação
O
argumento número um contra a "misandria" é que não existe movimento
nem ideologia que pregue ou execute atos de violência ou ódio contra os homens.
O mesmo não se pode dizer da violência contra as mulheres, que encontra amparo
numa longeva tradição machista. E, hoje, é incentivada pelos grupos
hipermasculinistas da internet, que nutrem diferentes graus de radicalismo.
A imaginação de uma sociedade
"misândrica" é mais tradicionalmente empregada nestes espaços para
legitimar a violência contra as mulheres – como se fossem elas os algozes de
que eles precisam se proteger –, segundo estudiosos de gênero. Ou, ainda, para
obscurecer o reconhecimento da misoginia, que coloca sob risco direitos
femininos conquistados ao redor do mundo, apontam as Nações Unidas.
"A
misoginia existe porque, cotidianamente, vemos homens matando mulheres por não
aceitarem as vidas delas ou o 'não' delas. A gente não vê mulheres matando
homens porque elas querem dominar os corpos masculinos," afirma Bruna
Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia. "Claro que existem
crimes passionais por mulheres contra homens, só que não na lógica da
misoginia. A 'misandria' não é fio condutor de uma organização."
No ano
passado, o país registrou o maior número de assassinatos de mulheres
tipificados como feminicídios pelas Polícias Civis, segundo o Fórum Brasileiro
de Segurança Pública, que alerta para uma provável subnotificação. Foram 1.568
casos em 2025, em comparação a 449 em 2015, quando foi criada a Lei do
Feminicídio, que elevou o assassinato por razões de gênero a homicídio
qualificado, inserindo-o na lista de crimes hediondos.
Tampouco
são comparáveis as estatísticas de violência domésticaentre os gêneros. As
mulheres foram vítimas em 91,5% das notificações de violência por parceiro
íntimo no Brasil em 2018, por exemplo, segundo boletim do Ministério da Saúde
de 2020. Isto é, foram 71.766 casos contra elas e 6.607 contra homens.
Forçando
as portas do Legislativo
Pelo
menos três iniciativas tiveram por objetivo equiparar, a nível legislativo, a
"misandria" à misoginia desde 2022. Nenhuma foi para frente.
Uma
delas foi um PL apresentado pelo deputado Messias Donato (Republicanos-ES),
bolsonarista que se apresenta como defensor de valores cristãos e
conservadores.
Em
2025, o texto definiu a "misandria" como "ato contra o homem
motivado pelo comportamento de uma mulher" e "comportamentos
discriminatórios direcionados ao homem por conta de sua condição
masculina". Tanto ela quanto a misoginia estariam passíveis de pena de
reclusão de até três anos.
O
projeto seria retirado pelo próprio autor em menos de dois meses. O deputado já
assinou também um PL para cravar pena de reclusão de até 30 anos para mulheres
que realizem aborto.
Outras
duas Ideias Legislativas – sugestões enviadas ao Senado por cidadãos, se
obtiverem 20 mil expressões de apoio no portal e-Cidadania – defenderam a
criminalização exclusiva da "manifestação e propagação de ódio (misandria)
contra homens em nosso país".
Propostas
em 2022 e 2023, elas tinham títulos idênticos, mas autores diferentes. A
primeira falhou em obter adesão suficiente, com pouco mais de 5 mil apoios.
Já a
segunda foi bem-sucedida e, portanto, encaminhada ao Senado, ao qual cabe
decidir pela criação ou não de um PL. Parou na gaveta do senador Magno Malta,
titular na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.
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Laços com a machosfera
O texto
que ultrapassou as fronteiras até o Senado descreve, sem fundamentação, um
suposto fenômeno amplo de violência doméstica contra homens e acusa mulheres de
nutrirem a intenção de violentá-los e abusá-los.
Não por
coincidência. O autor da proposta e o seu correio eletrônico são os mesmos
atribuídos ao dono de um canal no Youtube que propaga ideias no mesmo espectro,
tradicionalmente associadas à machosfera.
"Todos
esses fatores criaram um ambiente social em que a vida do homem vale pouco, em
que está tudo bem querer a morte dos homens ou fazer diversas piadas sobre uma
suposta inutilidade masculina," escreveu.
Influenciadores
obscurantistas que aliciam e doutrinam homens neste submundo afirmam,
inclusive, que eles devem tomar uma "pílula vermelha" (red pill), a
fim de "despertar" para sua suposta condição esquecida,
desprivilegiada e abusada numa sociedade "misândrica".
"Ironicamente,
em vez de incentivar a autoexploração necessária para enfrentar os verdadeiros
desafios masculinos, eles sugerem que os homens são vítimas de uma misandria –
ou seja, preconceito contra os homens," diagnosticou a ONU Mulheres no ano
passado.
Já
Bruna Camilo nota que, com a expansão da bolha hipermasculinista nos
subterfúgios virtuais, a ideia de "misandria" cresce em potencial
violento. "Como a internet potencializa tudo que é disputável, os grupos
misóginos tentam cotidianamente dar vida à 'misandria'."
Em
2021, uma ativista feminista causou barulho na França ao flertar com o tema.
Ela publicou um ensaio em favor de uma espécie alternativa de
"misandria", que unisse mulheres na liberdade de expressar que
"detestam homens". Um funcionário do governo ameaçou processar a
editora responsável por ode ao ódio, enquanto a autora afirmava que mulheres
detestarem homens não traz perigo concreto a eles. O imbróglio multiplicou a
visibilidade do escrito.
Fonte:
DW Brasil

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