Petróleo
a US$ 150 desencadeará recessão global, diz CEO da BlackRock
Se o
preço do petróleo atingir US$ 150 por
barril, isso desencadeará uma recessão global, afirmou à BBC o
CEO da gigante financeira americana BlackRock.
Larry
Fink, que lidera a maior gestora de ativos do mundo, disse que, se o Irã "continuar sendo
uma ameaça" e os preços do petróleo permanecerem altos, isso terá
"implicações profundas" para a economia global.
Em uma
entrevista exclusiva, ele também negou a existência de uma bolha em torno
da inteligência artificial, embora tenha
afirmado que a nova tecnologia está levando muitas pessoas a buscar diplomas
universitários — enquanto há poucos interessados em formação técnica.
A
BlackRock é uma gigante do setor financeiro, com cerca de US$ 14 trilhões
(aproximadamente R$ 73 trilhões) sob gestão, e está entre os maiores
investidores em muitas das maiores empresas do mundo.
O
tamanho e a presença da BlackRock dão a Fink — um dos oito cofundadores da
empresa, fundada em 1988 — uma visão privilegiada da saúde da economia global.
O
conflito no Oriente Médio provocou oscilações bruscas nos mercados financeiros,
à medida que as pessoas tentam avaliar o que acontecerá com os custos de
energia.
Para
Fink, ainda é cedo para determinar a escala e o desfecho final do conflito, mas
ele acredita que será um de dois cenários extremos.
No
primeiro cenário, se o conflito for resolvido e o Irã voltar a ser um país
aceito pela comunidade internacional, o preço do petróleo poderia cair para
níveis inferiores aos registrados antes da guerra.
Caso
contrário, ele afirma que pode haver "anos com o petróleo acima de US$
100, próximo de US$ 150", o que teria "implicações profundas para a
economia" e poderia resultar em "uma recessão provavelmente drástica
e acentuada".
O
aumento nos custos de energia levou alguns setores no Reino Unido a defender
que o país deveria priorizar a produção doméstica de petróleo e gás.
Na
terça-feira (24/3), a associação Offshore Energies UK afirmou que, sem maior
produção interna, o país corre o risco de se tornar dependente de importações
"em um momento de crescente instabilidade global".
Fink
afirma que os países precisam ser pragmáticos em relação à sua matriz
energética, utilizando todas as fontes disponíveis, mas que o fornecimento de
energia barata é fundamental para impulsionar o crescimento econômico e elevar
o padrão de vida.
"Aumentar
os preços da energia é um imposto muito regressivo. Afeta mais os pobres do que
os ricos."
Embora
o Reino Unido já conte com fontes como energia solar, eólica e hidrocarbonetos,
Fink afirma que, se o preço do petróleo subir para US$ 150 por três ou quatro
anos, "muitos países passariam a migrar rapidamente para a energia solar
e, possivelmente, também para a eólica".
Os
países não devem depender de apenas uma fonte, afirma ele.
"Use
o que você tem, sem dúvida, mas também avance de forma agressiva para fontes
alternativas."
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'Nenhuma semelhança com 2007-2008'
Alguns
analistas têm apontado semelhanças entre o momento atual dos mercados e o
período que antecedeu a crise financeira de 2007-2008.
Os
preços da energia estão em alta, e há quem identifique sinais de fragilidade no
sistema financeiro. A própria BlackRock está entre as empresas que limitaram
saques de investidores preocupados em fundos de crédito privado.
Mas
Larry Fink descarta qualquer possibilidade de repetição da crise financeira de
2007-2008, quando diversos bancos ao redor do mundo quebraram ou precisaram ser
resgatados. Segundo ele, as instituições financeiras hoje estão mais seguras.
"Não
vejo nenhuma semelhança", afirmou. "Zero."
Fink
acrescenta que os problemas que afetam alguns fundos representam apenas uma
pequena parcela do mercado, e que o investimento de instituições permanece
forte.
Fink
também rejeita a ideia de que o aumento nos investimentos em inteligência
artificial — que já somam bilhões de dólares — tenha sido exagerado.
"Não
acredito que tenhamos uma bolha", afirma.
"Poderíamos
ter um ou dois fracassos na IA? Claro, isso não é um problema."
No ano
passado, a BlackRock integrou um consórcio que adquiriu uma das maiores
operadoras de data centers do mundo, a Aligned Data Centres, em um negócio
avaliado em US$ 40 bilhões.
"Eu
acredito que há uma corrida pela liderança tecnológica. Se não investirmos
mais, a China vencerá", disse.
"É
fundamental que desenvolvamos agressivamente nossas capacidades em IA."
Segundo
Fink, o principal obstáculo para a expansão da inteligência artificial nos
Estados Unidos e na Europa é o custo da energia.
Enquanto
a China investe massivamente em energia solar e nuclear, na Europa "só
vejo muita conversa e nenhuma ação", diz ele, enquanto nos EUA "por
mais que sejamos independentes em termos energéticos, é melhor começarmos a
focar na energia solar... porque precisamos de energia barata e acessível para
avançar na IA".
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'IA vai criar empregos para encanadores e eletricistas'
No
início desta semana, em sua carta anual aos acionistas, Fink afirmou que o
avanço da inteligência artificial corre o risco de ampliar a desigualdade, com
apenas um pequeno número de empresas e investidores se beneficiando.
No
entanto, em entrevista à BBC, ele enfatizou que a IA deve criar uma
"quantidade enorme de empregos".
Fink
disse que, em sua carta, ele escreveu sobre quantos empregos seriam criados
"relacionados a eletricistas, soldadores e encanadores".
Em
contrapartida, a demanda por alguns empregos de escritório pode diminuir à
medida que a inteligência artificial evolui, o que pode levar a uma reavaliação
dos tipos de funções necessárias, já que "a sociedade está mudando e
evoluindo".
"Colocamos
muito peso sobre muitos empregos e muitas pessoas que provavelmente não
deveriam ter seguido carreiras em áreas como bancos, mídia ou direito, e que
talvez tivessem se destacado em trabalhos manuais. Precisamos agora
reequilibrar essa abordagem", afirma.
Segundo
ele, nos EUA, depois da Segunda Guerra Mundial, "construímos a base da
educação e dissemos a todos os jovens: vão para a faculdade, vão para a
faculdade, vão para a faculdade. E provavelmente exageramos".
"Precisamos
equilibrar isso, nos orgulhar de que uma carreira pode ser sólida nessas áreas
de encanamento e eletricidade."
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Irã reitera que bloqueio de Ormuz se limita a ‘países
hostis’
A
missão permanente do Irã nas Nações Unidas (ONU) lançou um comunicado na
terça-feira (24/03) reiterando que países “não hostis”, ou seja, que não apoiam
a agressão conjunta dos Estados
Unidos e de Israel contra
a nação persa, podem cruzar o Estreito de Ormuz. A rota marítima,
responsável pela passagem de cerca de 20% do petróleo mundial, permanece
parcialmente bloqueada desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, em
represália aos ataques de Washington e Tel Aviv.
“Embarcações
não hostis, incluindo aquelas pertencentes ou ligadas a outros Estados, poderão
– desde que não apoiem ou participem de atos de agressão contra o Irã e cumpram
plenamente os padrões declarados de segurança e proteção – beneficiar-se de
passagem segura pelo Estreito de Ormuz em coordenação com as autoridades
iranianas competentes”, diz a nota.
O
comunicado foi enviado aos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU e ao
secretário-geral do órgão, António Guterres, no fim de semana. Em seguida, foi
distribuída entre os 176 membros da agência de navegação da ONU, com sede em
Londres, responsável por regular a segurança e a proteção da navegação mundial.
O
governo iraniano já vinha declarando que o fechamento do Estreito de Ormuz se
limitava apenas “para o inimigo e para trânsitos prejudiciais”. Contudo,
alertou que a continuidade das agressões conduzidas pelo presidente
norte-americano Donald Trump poderia ameaçar a um bloqueio completo da
hidrovia, e que não seria reaberta até que as usinas iranianas destruídas
fossem reconstruídas.
Vale
lembrar que no domingo (22/03), o secretário-geral da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, anunciou que 22 países, incluindo membros
do tratado, estavam preparando uma iniciativa para reabrir “o
mais rápido possível” a navegação pelo Estreito de Ormuz.
¨
Pequena janela se abre para negociações entre EUA e Irã,
mas final rápido para guerra é improvável
Nos
últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter
tido "boas" e
"produtivas" conversas com o Irã, sugerindo que a porta para a
diplomacia havia sido aberta.
Segundo
ele, as tratativas poderiam levar a "uma resolução completa e total de
nossas hostilidades no Oriente Médio".
Mas o
Irã negou quase imediatamente que as negociações tivessem começado — e até
agora, há apenas sinais de pequenas janelas para um diálogo sendo abertas.
Uma
dessas janelas é a mesma que foi quebrada durante as rodadas anteriores de
diplomacia, em fevereiro e junho do ano passado, pelos ataques israelenses apoiados pelos
EUA contra o Irã,
que destruíram a pouca confiança que existia entre os dois lados.
Há
relatos de diálogo entre os dois principais negociadores em discussões
anteriores — o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, e o
enviado dos EUA, Steve Witkoff. Mas essas conversas são descritas como muito
preliminares.
E Teerã
agora vê o caminho de Witkoff como um mero subterfúgio de Washington.
"As
declarações do presidente dos EUA fazem parte dos esforços para reduzir os
preços da energia e ganhar tempo para a implementação de seus planos
militares", foi a resposta do Ministério das Relações Exteriores do Irã.
É um
sentimento compartilhado também por outros observadores, que veem Trump sob
crescente pressão para baixar os preços do petróleo, impulsionar as ações e
projetar progresso no fim desse perigoso confronto que causa choque econômico
em todo o mundo, inclusive nos EUA.
O
presidente americano busca o tipo de oportunidade que se abriu na Venezuela,
com uma versão iraniana da nova presidente interina Delcy
Rodríguez –
uma líder poderosa, porém pragmática, que ele pode tentar dobrar à sua vontade.
Nos
primeiros dias desta guerra, ele descreveu a Venezuela como "o cenário
perfeito" para o Irã.
Isso
revelou uma incompreensão das diferenças fundamentais entre a Venezuela e o
sistema multifacetado do Irã, aprimorado e consolidado ao longo de quase cinco
décadas para garantir sua sobrevivência, marginalizando reformistas e
reprimindo a dissidência.
Mas
Trump agora diz que os EUA estão lidando com uma "pessoa importante"
na República Islâmica.
O
indivíduo não identificado que vem sendo amplamente citado, após as primeiras
reportagens na mídia israelense, seria Mohammad-Bagher Ghalibaf.
Ele
desempenhou papéis de liderança na máquina política do Irã, incluindo como
chefe de polícia, comandante da força aérea da Guarda Revolucionária Islâmica
(IRGC), bem como presidente do Parlamento.
Ele
fracassou quatro vezes em suas candidaturas presidenciais e descreveu os
iranianos que foram às ruas em todo o país em
fevereiro,
pedindo mudanças, como "inimigos e terroristas".
Mas no
mundo de Trump, Ghalibaf é um homem forte que possivelmente poderia unir as
divisões entre os setores de segurança e político do Irã.
Fontes
dizem que houve esforços indiretos para tentar abrir um diálogo com Ghalibaf,
mas ainda não há nenhum sinal oficial ou público de que tenham obtido sucesso.
Para o
Irã, esse caminho ainda é extremamente arriscado, já que Israel vem
assassinando um alto funcionário após o outro, incluindo Ali Larijani, o chefe de
segurança linha-dura que conhecia o sistema por dentro e por fora. Ele era
visto como um possível intermediário caso negociações sérias fossem iniciadas.
Ghalibaf
também está entrincheirado entre os elementos mais radicais, que agora dominam
a tomada de decisões. Desde o assassinato de Larijani, ele passou a ser
observado com interesse como alguém que poderia um dia fechar um acordo.
"Ele
é o último homem de pé que é visto como mais flexível ideologicamente",
disse uma fonte com conhecimento dos vários esforços de mediação.
Mas não
está claro se houve algum progresso nesse sentido.
"Nenhum
dos lados se reuniria nesse nível até que os EUA e o Irã estejam perto de um
avanço político, e muitas negociações são necessárias antes mesmo de chegarem a
esse estágio", diz Ellie Geranmayeh, pesquisadora do Conselho Europeu de
Relações Exteriores.
Até
agora, Ghalibaf se tornou um "agressor-chefe", atacando as
declarações de Trump nas redes sociais.
"Nosso
povo exige a punição completa e humilhante dos agressores", disparou
Ghalibaf em uma postagem no X na segunda-feira (23/3). "Nenhuma negociação
com os EUA ocorreu."
Com os
dois lados distantes e em guerra, e com autoridades importantes como Ghalibaf
focadas em sua própria sobrevivência, bem como na do sistema, uma reunião seria
um passo ousado.
Por
enquanto, a maior parte da diplomacia se resume a conversas telefônicas.
Propostas, com vários pontos, estão sendo debatidas por mediadores que correm
para encontrar uma saída para esse atoleiro cada vez mais profundo.
Novos
países estão se envolvendo nessa crise secular, incluindo Paquistão, Egito e
Turquia, que não estiveram na linha de frente da guerra. Seus líderes
cultivaram laços pessoais estreitos com Trump e participaram ativamente de um
fórum ampliado de nações árabes-islâmicas.
Nesta
quarta-feira (25/3), oficiais paquistaneses afirmaram à agência de notícias
Associated Press que o Irã recebeu um plano de 15 pontos dos
EUA para um cessar-fogo.
Segundo
os oficiais, a proposta abrange, de forma geral, pontos como alívio das
sanções, cooperação nuclear civil, reversão do programa nuclear iraniano,
monitoramento pela Agência Internacional de Energia Atômica, limites para
mísseis e acesso para navegação pelo Estreito de Ormuz
Mas o
ministro da Economia de Israel, Nir Barkat, declarou à BBC que é improvável que
o Irã concorde com o plano de 15 pontos, descrevendo-o como "bonito no
papel", mas que precisava de garantias para ser implementado.
O
regime iraniano "não vai mudar", afirmou Barkat, dizendo os
principais objetivos de Israel para a guerra eram deixar o Irã "sem armas
nucleares, sem mísseis e sem aliados".
Omã, o
mediador tradicional mais confiável para Teerã, também afirma estar envolvido
nos esforços para reduzir a tensão e reabrir o vital Estreito de Ormuz.
Mas a
maioria dos líderes árabes do Golfo, furiosos com o que descreveram como
ataques "imprudentes" do Irã à infraestrutura de seus países, está
mais focada em reavaliar esse relacionamento. "Levará décadas para reparar
essa ruptura", me disse um funcionário de alto escalão de um dos países do
Golfo.
O
Paquistão, cujos líderes militares e políticos se aproximaram de Trump,
ofereceu uma maneira de recuar da perigosa situação após a ameaça de atacar a
infraestrutura energética do Irã, oferecendo-se para sediar conversas de alto
nível já neste fim de semana.
Um
detalhe interessante foi a recente declaração do novo Líder Supremo do Irã,
Mojtaba Khamenei, na qual ele destacou o Paquistão como um país amado por seu
pai, o antigo líder assassinado nas primeiras horas desta guerra.
Mas
ainda não há confirmação de nenhum tipo de reunião.
"Não
há conversas neste momento", disse Ali Vaez, da organização
não-governamental International Crisis Group, referindo-se às mensagens
trocadas entre Washington e Teerã como esforços "para impulsionar as
negociações de cessar-fogo".
"Mas
duvido que estejam perto de criar um terreno comum suficiente para uma reunião
séria ou negociações substanciais", alertou ele.
E, à
medida que esta guerra se arrasta, o Irã deixa claro que quer cobrar um preço
alto. O país publicou uma lista de exigências impossíveis de serem aceitas por
Washington, que vão desde o fechamento das bases americanas na região até
reparações e garantias firmes contra qualquer agressão futura.
As
exigências também se tornaram mais rígidas do outro lado. Os Estados árabes do
Golfo agora insistem que os mísseis balísticos do Irã precisam entrar na
discussão, assim como o controle sobre o Estreito de Ormuz, que foi
transformado em arma pelo Irã nesta guerra.
E há
ainda o profundo abismo de entendimento e confiança que leva muitos a serem
céticos.
"Trump
provavelmente acredita que esta guerra lhe deu maior poder de barganha para
fazer o Irã aceitar suas condições, e o Irã sente que não apenas fortaleceu sua
posição, mas também possui mais cartas na manga para negociar no Estreito de
Ormuz", diz Mohammad Ali Shabani, editor do site Amwaj.media, focado em
notícias sobre Irã, Iraque e os países da Península Arábica.
Em sua
postagem anunciando as negociações, Trump disse que estava adiando sua
ameaça de atacar as usinas de energia do Irã por cinco dias - o que
significa que todos os olhos estão voltados para seu novo prazo - sexta-feira
(27/03), quando os mercados fecham.
Fonte:
BBC News/Opera Mundi

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