Como
Flávio Bolsonaro quer trazer guerra de Trump ao Brasil
À
medida em que as eleições gerais brasileiras se aproximam, algumas dúvidas vão
se consolidando como certezas. Se há algum tempo já era fato que a disputa se
daria entre Lula e algum nome que substituísse o encarcerado Jair Bolsonaro
representando a extrema-direita, hoje, já se pode dar quase como certo que este
nome será o de seu filho Flávio.
Com as
duas chapas presidenciais prestes a serem fechadas, volta-se às discussões
sobre quais estratégias de campanha serão adotadas por cada um dos polos e como
se comportará a mídia diante delas.
De um
lado, a ampla frente democrática que sustenta Lula parece ter um objetivo
claro: focar nos avanços sociais que o atual governo conquistou e nas próximas
lutas sociais que pretende travar. Com isso, tudo indica que a campanha
governista deve explorar feitos como a isenção do imposto de renda, a retomada
e a expansão do Minha Casa Minha Vida, o programa Pé-de-Meia, a saída do mapa
da fome, o pleno emprego, entre outros. Além disso, deve apostar na pressão e
na promessa por novos avanços sociais, como o fim da escala 6×1 e os direitos
de trabalhadores de aplicativos.
Já na
extrema-direita, há indicativos de que a estratégia seja levar o debate para o
campo da segurança pública e da corrupção. Neste segundo ponto, a CPI do INSS e
a cobertura do caso do Banco Master dão parte do tom do que deve ser a campanha
bolsonarista. Os esforços do mainstream do jornalismo em fazer um dos
escândalos colar na imagem de Lula mostram que, nesse tema, Flávio contará com
ajuda incondicional da mídia, repetindo-se o método político lavajatista.
No
campo da segurança pública, as disputas que se intensificaram do fim de 2025
para cá é que indicam a tônica eleitoral. A chacina da Penha, em outubro do ano
passado, escancarou a centralidade que o tema tem no projeto de retomada de
poder pela extrema-direita brasileira, colocando na mesa o debate sobre a
classificação das facções como grupos terroristas.
Voltarei
neste ponto específico do terrorismo mais à frente, mas é nítido como a
exploração midiática da chacina serviu de freio à reação que o Governo Lula
vinha experimentando frente à opinião popular com o enfrentamento ao tarifaço e
ao intervencionismo dos EUA e as mobilizações contra a “PEC da Blindagem”, que
atingiram a imagem do Congresso Nacional.
O
sentimento generalizado de insegurança no país é, claramente, um ativo político
da extrema-direita brasileira que a favorece em duas frentes de ação. Primeiro,
na de fomentar aquilo que os criminólogos chamam de “pânico moral”, pintando a
imagem de um país onde o crime cresce sem controle porque o governo seria
leniente. Segundo, a partir desse pânico, apresentando figuras policialescas
como solução para esta crise que, uma vez no poder, insuflam ainda mais o
movimento de politização das fileiras policiais e de autonomização das forças
de segurança em relação ao poder civil. Favorece-se, portanto, a ideia de um
Estado Policial como solução para a atual crise política.
Já me
aprofundei mais acerca desta movimentação em artigos anteriores, mas, apenas
para ilustrar, é importante apontar que, só neste último ciclo legislativo
(2023 a 2026), 61 policiais e militares já ocuparam uma cadeira no Congresso
Nacional entre deputados e senadores. A atuação dessa bancada no desmonte do PL
Antifacção e da PEC da Segurança Pública foi didática para entender o embate
que vem por aí.
Estes
dois discursos narrativos antagônicos, portanto, provavelmente protagonizariam
os próximos meses de disputa eleitoral. Ou, pelo menos, esta é a vontade de boa
parte dos agentes políticos do país. Mas as vontades não necessariamente
resistirão à uma realidade que pisa cada vez mais forte e mais próxima do
Brasil.
O ano
de 2026 começou com a esperada ofensiva de Trump sobre a América do Sul. Mas o
sequestro de Maduro e o bombardeio na Venezuela não aconteceram da noite para o
dia. Eles foram orquestrados por meses em uma insistente narrativa midiática
que relacionava falsamente o governo venezuelano a um cartel narcotraficante
classificado como grupo terrorista pelo governo dos EUA.
A mesma
metodologia de intervenção agora já caminha a passos largos na direção da
Colômbia com as notícias de que os EUA abriram investigação contra o presidente
Gustavo Petro sob a alegação de que sua campanha teve ligações com grupos de
narcotraficantes. Assim como o Brasil, a Colômbia se aproxima de novas eleições
presidenciais e tem a esquerda como favorita para a vitória.
Infelizmente,
as coincidências entre Colômbia e Brasil não param por aí. No último dia 10 de
março, após notícias de que Trump estuda a classificação de facções brasileiras
como grupos terroristas, o Departamento de Estado dos EUA emitiu nota citando
PCC e CV como “ameaças significativas à segurança regional em função do seu
envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional”, abrindo
espaço para que nosso país sofra interferências estadunidenses como as vistas
na Venezuela e que agora também ameaçam colombianos.
Muitos
fatos dos últimos meses dão conta de que esta ação externa tem seus cúmplices
em terras brasileiras. O próprio Flávio Bolsonaro, em outubro passado, após
notícias de embarcações bombardeadas no Pacífico, sugeriu nas redes sociais que
os EUA também afundassem barcos na costa do Brasil. Muito antes, em maio, o
agora candidato entregou um dossiê a uma comitiva de Trump com a qual se
reuniu. O documento elaborado pelas Secretarias de Segurança de São Paulo e do
Rio de Janeiro, de seus aliados Tarcísio e Claudio Castro, associava o CV e o
PCC a atividades terroristas.
É cada
vez mais claro, portanto, como a extrema-direita enxerga, nessas movimentações,
um verdadeiro projeto de poder, falseando-o como um suposto debate de segurança
pública. Diante disso, seria intuitivo dizer que a direita está mais próxima de
impor a sua narrativa estratégica para as eleições, certo?
Pois é
nesse exato momento que a vontade pode se desencontrar da realidade. Quando o
debate sobre a classificação das facções criminosas como terroristas ganhou
holofotes pela primeira vez, no desmanche do PL Antifacção na Câmara dos
Deputados liderado por Derrite logo após a chacina da Penha, o tema não foi tão
facilmente digerido pela sociedade civil como acreditava a extrema-direita.
Mesmo
jornalões que justificavam a chacina e apoiavam o endurecimento das leis penais
publicaram as suas ressalvas quanto à proposta, reconhecendo que ela servia aos
interesses intervencionistas dos EUA mais do que aos debates internos de nosso
país. Estadão, Folha, Globo, entre outros grandes grupos midiáticos mostraram,
de forma editorial, serem contrários à manobra, e Derrite teve de recuar em seu
atrapalhado episódio de relatoria do PL Antifacção.
Essas
confrontações, porém, não se deram em um vácuo. Desde a fuga de Eduardo
Bolsonaro para os EUA e seu lobby pelo tarifaço para prejudicar o próprio país,
o tema da soberania nacional se consolidou como eixo central do cenário
político brasileiro. Enquanto tresloucados estendiam uma enorme bandeira
norte-americana na Avenida Paulista em pleno 7 de setembro, o que surgia mesmo
era uma forte reação da opinião pública e, pela primeira vez em muitos anos, o
sentimento patriótico no país passou a pender para a esquerda.
É muito
importante que se questione: não houvesse essa reviravolta iniciada com os
papelões de Eduardo Bolsonaro nos EUA, teriam Derrite e toda a direita recuado
da proposta sobre o terrorismo enquanto desmanchavam o PL Antifacção em
novembro do ano passado?
Fato é
que, após este recuo estratégico, o tema agora voltou à tona com ainda mais
força, empurrado por um cenário global que transcende as disputas internas
brasileiras, mas que também as influencia. Com a escalada bélica estadunidense
no Irã e o cerco a Cuba, já não se pergunta mais se Trump e Rubio avançarão
sobre a América do Sul, mas quando e como.
As
recentes tensões no continente também não ajudam. Na Colômbia, Petro sabe que
tem em suas costas o mesmo alvo colocado em Maduro, e o recente conflito em sua
fronteira com o Equador acende um alerta ainda maior. Por mais risível que
possa parecer o oferecimento de apoio militar argentino à guerra no Irã, este
também é outro passo que aponta para uma militarização das relações
sul-americanas.
Mais
preocupante é o caso do Paraguai, onde se aprovou uma presença praticamente
irrestrita das Forças Armadas norte-americanas. Frise-se que a fronteira do
Brasil com o Paraguai tem sido central na narrativa da extrema-direita
brasileira para defender a classificação das facções como terroristas, sendo
este o local em que autoridades apontam um vínculo entre o PCC e o Hezbollah.
De um
lado, todo este cenário demonstra que o projeto de poder da direita brasileira,
de utilizar o debate da segurança pública para abrir caminho a uma intervenção
estrangeira que a favoreça, avança materialmente. De outro, porém, essas
próprias movimentações que o possibilitam geram reações e aumentam também os
seus obstáculos: na medida em que o caráter intervencionista fica mais
evidente, a máscara da falsa preocupação com a segurança pública se desmancha.
Com
todas as ressalvas que se possa fazer a pesquisas de opinião, é simbólico, por
exemplo, o monitoramento que tem feito a Quaest acerca da opinião dos
brasileiros sobre os EUA neste cenário. Desde 2025, o povo brasileiro tem uma
visão cada vez mais desfavorável sobre o país norte-americano, crescendo o medo
de uma intervenção.
O que
se observa, portanto, é uma tendência que o avanço deste projeto bolsonarista
tem de fomentar o seu próprio antídoto. Por mais que a extrema-direita falseie
seu entreguismo com supostas preocupações com a segurança pública, à medida em
que os EUA avançam sobre o continente com o discurso do narcoterrorismo, a
defesa da soberania nacional cresce como ativo político para a frente lulista.
Eis aí,
portanto, a realidade que pode se sobrepor às vontades iniciais dos dois polos
que disputam estas eleições. Cabe ao governo Lula e a todos que apoiam a sua
reeleição reivindicar seu papel nesta curva histórica em que nos encontramos e
se negar a jogar o jogo proposto pelo bolsonarismo.
Em
outras palavras, mais especificamente, não podemos tratar o debate sobre o
narcoterrorismo como um debate sobre segurança pública. Devemos tratá-lo como o
que ele de fato é: um projeto de intervenção estrangeira em nosso país que
ameaça nossa soberania nacional.
Por
tantos anos vista como ultrapassada, a verdade é que 2025 nos mostrou que
pontos da velha gramática da esquerda seguem mais vivos do que nunca. A defesa
da soberania e a luta anti-imperialista, quem diria, são sentimentos com
potencial aglutinador muito maior do que os “coveiros da história” poderiam
imaginar. Colocá-las no centro do debate deve ser nosso papel nestas eleições,
sem dúvidas, as mais importantes da história do Brasil.
Fonte: Por
Almir Fellite, em Outras Palavras

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