"Por
que os aiatolás estão vencendo essa guerra", analisa professor Roy
Das
colinas de Fiesole, onde leciona no Instituto Universitário
Europeu, Olivier Roy observa de longe
a crise que abala o
Oriente Médio e
a região do Golfo. Mesmo à distância, poucos como ele possuem as
ferramentas e a capacidade de interpretá-la com precisão: islamista e cientista
político, o professor Roy trabalhou como consultor para o governo
francês e as Nações Unidas, percorreu a região de ponta a ponta durante
quarenta anos, partindo do Afeganistão e chegando ao Golfo, e
escreveu dezenas de textos que estudantes do mundo todo estudam para tentar
decifrar a região mais tensa do planeta.
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Eis a entrevista.
- Professor Roy,
que guerra é essa que estamos vivendo?
Uma guerra regional, pelo menos por
enquanto. Uma guerra em primeiro lugar entre Israel e Irã, que
começou depois de 7 de outubro de 2023, quando Israel decidiu lutar
até o fim para se livrar primeiro do Hezbollah e do Hamas, e depois
do Irã. Poderíamos nos iludir que, com o fim do Hezbollah e
do Hamas e a expulsão dos Assad
da Síria,
o recuo que o Irã fora forçado a dar na região teria sido suficiente.
Mas para Israel, não foi. E aqui estamos: o Irã nunca quis
chegar a um confronto com os Estados Unidos, queria negociar.
- Os Estados
Unidos, precisamente: o senhor diz que essa guerra é regional, mas os
Estados Unidos também estão envolvidos...
E esse
é o principal problema hoje: Trump decidiu intervir ao lado
de Israel em nada menos que duas vezes e agora não sabe onde quer
ir. Israel, ao contrário, sabe
onde quer chegar e está perfeitamente satisfeito com ambas as soluções que se
delinearam: a ascensão ao poder do filho do antigo Xá e, portanto,
a mudança de regime, ou o caos. Não por acaso Israel não está ajudando Al
Sharaa a estabilizar a Síria: não busca a calma; para Netanyahu é
melhor o caos.
Mas Trump não é Netanyahu e está
numa situação difícil:
não sabe para onde quer ir e, quanto mais o tempo passa, mais complexa a
situação se torna. Porque quanto mais líderes você mata, menos pessoas tem com
quem negociar: antes se podia conversar
com Khamenei ou Larijani, mas hoje isso já não é mais possível.
E esperar que o regime desmorone graças às bombas vindas do céu é inútil: o
exército não está pronto para trair, o Corpo da Guarda da Revolução
Islâmica tem uma base social importante (digamos, entre 10 e 20 por cento
da população), o aparato estatal é leal e a população está presa entre o regime
e os Estados Unidos, então não sairá às ruas para se rebelar.
- Na sua opinião,
qual é o objetivo do Irã?
Sobreviver,
resistir. O regime não precisa vencer; basta-lhe se manter de pé
pelos próximos seis meses. E pode fazer isso facilmente: tem excelentes
combatentes, navios suficientes e vem se preparando há vinte anos para
controlar o Golfo. A estratégia é clara: bloquear o fluxo de
petróleo.
Para isso, não é preciso destruir todos os navios que passam por Ormuz:
basta um por dia. E nenhuma empresa pedirá a seus marinheiros que se arrisquem.
- O que o xiismo
tem a ver com isso? A rígida organização política, a ideia vertical de
poder inerente a esse tipo de islamismo e que não existe nos países
sunitas...
Eu
diria nada. A ideologia xiita motiva a Guarda da Revolução, não a
sociedade iraniana, que é a mais secularizada da região. O que realmente
importa é a ideia de Estado-nação: o Irã sempre foi um Estado-nação,
ao contrário das monarquias do Golfo. E a revolução reforçou essa ideia,
proporcionando uma ascensão social, uma promoção para muitas pessoas das
camadas mais baixas da sociedade, que assim se viram integradas. Isso é muito
diferente da Síria, por exemplo, onde o poder começava e terminava no
círculo de uma família: bastava matar os Assad para derrubar o
regime. Não aqui. Não era difícil de entender, mas Israel não estava
interessado nisso: o que lhe importava era destruir a capacidade nuclear.
Para os
estadunidenses, não é isso: talvez pensaram que seria como na Venezuela,
que uma vez removida a primeira linha de poder, a segunda teria negociado...
Não é assim. E agora estamos a seis meses das eleições de meio de mandato, com
a economia em dificuldade e a base Maga em revolta. Definitivamente,
uma situação nada boa para Trump. No entanto, acredito que ainda não vimos
tudo, que as coisas podem piorar ainda mais: Netanyahu afirma ser
necessário enviar tropas terrestres, talvez apenas para o litoral, talvez apenas
para controlar os portos e os pontos de trânsito de petróleo. Mas enviar
soldados estadunidenses não resolverá o problema: pelo contrário, corre o risco
de agravá-lo, tornando-se uma armadilha. Imagine o que aconteceria em caso de
um atentado... A realidade é que, mais cedo ou mais tarde, os Estados
Unidos terão que negociar. O que me leva a dizer que o Irã está
vencendo.
- O outro
protagonista dessa história são os países do Golfo: como os situa nesse
triângulo?
Os países
do Golfo precisam de uma orientação, de uma proteção: durante 45 anos,
foram os Estados Unidos, mas agora não são mais. Trump não os
protegeu dos mísseis iranianos e, se eu fosse um morador do Catar ou
dos Emirados, me questionaria bastante: para sair da crise, negociarão com
o Irã. A Arábia Saudita poderia ser uma história diferente, mas
não muito: eles também precisam de proteção e, se Trump não a
garante, terão que conversar com Teerã. O Golfo voltará a ser um Golfo
Pérsico, porque, no fim das contas, ninguém poderá oferecer proteção, exceto
o Irã: não os Estados Unidos de Trump, não a Rússia, que tirou o
corpo fora dessa questão, não a China, que está demasiado distante. Dito
isso, também acredito que os Acordos de Abraão se manterão, que não
haverá nenhuma crise com Israel: o que significa que, de uma vez por
todas, é a causa
palestina que será sacrificada, que todos no Golfo já consideram
praticamente perdida e secundária em relação à importância de manter as
relações com Israel.
- O senhor leciona
no Instituto Universitário Europeu: onde está a Europa? Talvez consiga
enxergá-la melhor do que nós?
Eu
diria definitivamente que não. A Europa é retórica: dois povos para
dois Estados entre Israel e Palestina, estabilidade no Golfo...
Mas não é um ator nessa crise, exceto na proteção de suas fronteiras e,
portanto, de Chipre. Trump pediu que
interviesse em Ormuz:
mas por que a Europa deveria se mobilizar por um presidente que, um
dia depois de você o ajudar, está pronto a lhe insultar? Essa é uma lição que
os europeus aprenderam bem.
- Em sua carreira,
estudou a jihad profundamente: acredita que dessa guerra resultará uma
onda de atentados semelhantes à que vimos nos anos do ISIS?
Não.
Poderá haver atentados, sem dúvida, mas não haverá uma jihad em nome
do Irã. O movimento jihadista é antixiita, portanto não haverá
apoio popular a Teerã e seu povo. E, além disso, vejamos Gaza:
há um enorme apoio popular por Gaza, há manifestações e universidades
ocupadas na Europa, há milhares de jovens nas ruas, mas não há um chamado
ideológico às armas. E, portanto, não há uma revolta terrorista de massa
semelhante àquela do ISIS.
¨
Irã rejeita plano dos EUA para fim da guerra; Pentágono
confirma envio de tropas paraquedistas à região
O Irã
rejeitou uma proposta dos Estados Unidos para encerrar a guerra atual, segundo
anunciou a emissora estatal iraniana PressTV no início da tarde da quarta-feira
(25/3).
A
PressTV reproduziu as declarações de uma autoridade do país, sem identificá-la:
"O Irã encerrará a guerra quando decidir fazê-lo e quando suas próprias
condições forem atendidas".
Autoridades
iranianas têm repetido que desejam um fim completo da guerra, não apenas um
cessar-fogo.
Segundo
a Press TV, a autoridade apresentou cinco condições: uma interrupção total da
"agressão e das ações de assassinato" pelo inimigo; o estabelecimento
de mecanismos concretos para garantir que a guerra não seja novamente imposta à
República Islâmica; pagamento garantido e claramente definido de danos e
reparações de guerra; o fim da guerra em todas as frentes e para todos os
grupos de resistência envolvidos em toda a região e o reconhecimento e
garantias internacionais sobre o direito soberano do Irã de exercer autoridade
sobre o Estreito de Ormuz.
A Press
TV afirma que Washington vem buscando negociações por diversos canais
diplomáticos, mas Teerã considera as propostas "excessivas".
Um
porta-voz das Forças Armadas do Irã disse mais cedo que os EUA estão
"negociando consigo mesmos" e que "alguém como nós jamais chegará a um acordo com alguém
como vocês".
O
comentário foi feito por Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do Quartel-General
Central Khatam al-Anbiya do Irã, o principal comando militar do país. Sem
mencionar diretamente os EUA e o presidente americano, Donald Trump, ele disse:
"Não chamem sua derrota de acordo".
"O
nível do seu conflito interno chegou ao ponto em que vocês estão negociando
consigo mesmos?", disse Zolfaghari em uma mensagem de vídeo publicada por
veículos de comunicação iranianos.
"Vocês
não verão seus investimentos na região nem os preços anteriores da energia e do
petróleo novamente, até que entendam que a estabilidade na região é garantida
pela mão poderosa de nossas forças armadas. A estabilidade vem da força",
disse Zolfaghari.
"Alguém
como nós jamais fará um acordo com alguém como vocês. Nem agora, nem
nunca".
Os
comentários surgiram depois de Donald Trump insistir que o Irã
"quer muito" um acordo.
"Eles
nos deram um presente, e o presente chegou hoje, e era um presente muito
grande, que vale uma quantia enorme de dinheiro", disse Trump na
terça-feira em entrevista coletiva à imprensa na Casa Branca.
Trump
não disse o que seria esse presente — apenas afirmou que se trata de algo não
nuclear, mas sim "relacionado a petróleo e gás".
O
presidente americano disse que os EUA estão conversando com "as pessoas
certas" no Irã para chegar a um acordo. "Estamos em negociações
agora", disse ele, sem fornecer detalhes.
Depois
de dias de questionamentos, o Pentágono confirmou oficialmente o envio de
algumas tropas terrestres para a região.
Em um
comunicado à BBC, um porta-voz afirmou que alguns elementos do quartel-general
da 82ª Divisão Aerotransportada, alguns "apoios divisionais" e a 1ª
Brigada de Combate serão enviados ao Oriente Médio.
Por
razões de segurança, o porta-voz não forneceu mais detalhes.
A
composição dessas unidades revela muito sobre as capacidades que estão sendo
mobilizadas para possível uso no conflito.
Com
base na Carolina do Norte, a 82ª Divisão Aerotransportada é considerada uma das
principais unidades convencionais de combate das Forças Armadas dos EUA, com
alguns elementos sempre prontos para serem enviados a qualquer lugar do mundo
em até 18 horas.
Essas
tropas são treinadas para saltar de paraquedas ou chegar de helicóptero a uma
área-alvo e tomá-la. No caso do Irã, elas poderiam oferecer aos EUA a opção de
capturar a Ilha de Kharg ou outro território estratégico.
Especialistas
militares dizem que um possível envio provavelmente se concentraria em aumentar
a pressão sobre o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz. O Irã começou a atacar
petroleiros comerciais que utilizam o estreito depois que os EUA iniciaram a
guerra no mês passado.
Especula-se
também que as tropas americanas poderiam ser usadas para tomar a Ilha de Kharg. A ilha abriga
instalações de armazenamento e carregamento de petróleo e responde por cerca de
90% das exportações de petróleo do Irã.
Ex-funcionários
da defesa dos EUA e especialistas militares disseram à BBC que tropas
americanas provavelmente conseguiriam assumir o controle da pequena ilha com
facilidade.
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Plano de 15 pontos dos EUA
No fim
de semana, Trump havia ameaçado aniquilar as "diversas usinas de energia
do Irã, começando pela maior", dando ao país 48 horas para permitir a
retomada da navegação no Estreito de Ormuz.
Mas na
segunda-feira, pouco antes do final do prazo, Trump anunciou que o Irã havia
retornado à mesa de negociações, e adiou sua ameaça de bombardeio por cinco
dias. Mas o Irã negou que estivessem ocorrendo negociações.
No dia
seguinte, Trump disse ter enviado um plano de 15 pontos ao Irã para negociar um
cessar-fogo.
A
agência de notícias Associated Press noticiou nesta quarta-feira que o Irã
teria recebido o plano dos EUA, citando duas autoridades do Paquistão.
Segundo
os oficiais paquistaneses, a proposta americana abrange pontos como alívio das
sanções, cooperação nuclear civil, reversão do programa nuclear iraniano,
monitoramento pela Agência Internacional de Energia Atômica e limites para
mísseis e acesso para navegação pelo Estreito de Ormuz.
O
primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, já disse em outras ocasiões que
o seu país está "pronto" para sediar negociações para um acordo sobre
o conflito.
Em
Israel, o ministro da Economia do país, Nir Barkat, disse à BBC ser improvável
que o Irã concorde com o plano de 15 pontos supostamente apresentado pelo
governo americano. Segundo o ministro, o plano é "bonito no papel",
mas precisa de garantias para ser implementado.
O
regime iraniano "não vai mudar", disse ele, e os principais objetivos
de Israel para a guerra eram deixar o Irã "sem armas nucleares, sem
mísseis e sem aliados".
"Confio
que o presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyahu estejam alinhados nesses
objetivos e os alcançaremos de uma forma ou de outra", disse Barkat.
"Por um lado, talvez Trump esteja abrindo discussões, mas ele também está
enviando tropas para a região e, basicamente, dizendo ao povo iraniano que
estamos falando sério."
"Acredito
que, ao final desta rodada, alcançaremos os objetivos, com ou sem acordo."
Ele não
confirmou se Israel e EUA estão alinhados em relação ao plano de 15 pontos.
Nesta
quarta-feira, houve relatos de novos ataques em Irã, Israel, Líbano e países do
Golfo, como Arábia Saudita e Kuwait.
¨ Irã impõe cinco
condições para cessar-fogo
O
Irã rejeitou o plano de paz dos Estados
Unidos, alegando exigências
“excessivas” e reiterando que qualquer cessar-fogo ocorrerá exclusivamente nos
termos e no cronograma definidos por Teerã. A informação foi divulgada por um
funcionário do alto escalão político e de segurança à estatal iraniana Press TV, nesta quarta-feira
(25/03).
Segundo
o oficial, “o Irã irá encerrar a guerra quando decidir fazê-lo e suas próprias
condições forem atendidas” e “não quando Trump prever sua conclusão”. A
proposta da Casa Branca foi encaminhada nesta terça-feira (24/03) a mediadores
no Paquistão.
A
autoridade iraniana afirmou que as exigências de Washington foram recusadas e
detalhou as cinco condições consideradas indispensáveis pelo Irã para o fim da
guerra. “Nenhuma negociação será realizada antes disso”, afirmou.
São
elas: a interrupção total da “agressão e assassinatos” pelos inimigos do país,
a criação de mecanismos concretos que impeçam a retomada do conflito, o
pagamento garantido de reparações de guerra, o encerramento das hostilidades em
todas as frentes, incluindo grupos aliados na região, e o reconhecimento
da soberania iraniana sobre o Estreito
de Ormuz.
¨ Presidente do
Parlamento do Irã nega negociação com Trump: ‘tentativa de escapar do atoleiro
em que estão presos’
Na
segunda-feira (23/03), Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento
iraniano, contradisse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou
que não há negociações em curso com os EUA.
Mais
cedo, Trump disse que decidiu adiar ataques militares
contra o Irã após
o que descreveu como conversas “muito boas e produtivas” entre os dois países.
O republicano declarou que ordenou ao Departamento de Guerra a suspensão de
ações contra usinas e infraestrutura de energia iranianas por cinco dias,
condicionada ao andamento das discussões.
“Tenho
o prazer de informar que os Estados Unidos da América e o Irã tiveram, nos
últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas a respeito de uma
resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio”, escreveu
em publicação na plataforma Truth Social. Segundo ele, a decisão
foi tomada “com base no teor e no tom dessas conversas aprofundadas”, que devem
continuar ao longo da semana.
Para
Bagher Ghalibaf, no entanto, a declaração de Trump é uma tentativa de “escapar
do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos”.
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Novas ações
Uma
fonte militar iraniana afirmou à agência Tasnim que o país
prepara novas ações para os próximos dias do conflito. “O Irã planejou novas
surpresas para os próximos dias da guerra em curso, cuja implementação poderá
produzir resultados muito significativos”, disse.
Segundo
a fonte, Trump enfrenta o fracasso de suas opções militares e tenta encontrar
uma saída para o impasse. “É por isso que ele levou a guerra de seus navios à
deriva para as redes sociais”, afirmou. “Trump sabe que seu arsenal militar,
tanto ofensivo quanto defensivo, está em péssimas condições.”
A fonte
disse ainda que, diante da escassez de munição, Trump passou a adotar um
discurso mais agressivo, ampliando o desgaste. “Ao contrário das promessas vazias de
Trump, o
Irã preparou surpresas para os próximos dias que tornarão o resultado da guerra
mais óbvio do que nunca.”
Por
fim, afirmou que o presidente estadunidense deveria focar nos desdobramentos do
conflito. “Trump deveria deixar de lado o celular e as redes sociais por um
tempo e concentrar seus olhos apenas no céu, na bolsa de valores e no preço do
petróleo”, concluiu.
A guerra dos EUA e de Israel no Irã começou
no dia 28 de fevereiro, quando o então líder supremo do país, Ali Khamenei, foi
morto junto a comandantes e civis. As ações incluíram bombardeios contra alvos
em diferentes regiões do país, com registros de mortos e danos à infraestrutura.
Em resposta, as Forças Armadas do Irã realizaram operações contra posições
dos Estados Unidos e de Israel em territórios ocupados e bases na região,
com uso de mísseis e drones.
Fonte: la
Repubblica/BBC News Mundo/Opera Mundi

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