sexta-feira, 27 de março de 2026

"Por que os aiatolás estão vencendo essa guerra",  analisa professor Roy

Das colinas de Fiesole, onde leciona no Instituto Universitário Europeu, Olivier Roy observa de longe a crise que abala o Oriente Médio e a região do Golfo. Mesmo à distância, poucos como ele possuem as ferramentas e a capacidade de interpretá-la com precisão: islamista e cientista político, o professor Roy trabalhou como consultor para o governo francês e as Nações Unidas, percorreu a região de ponta a ponta durante quarenta anos, partindo do Afeganistão e chegando ao Golfo, e escreveu dezenas de textos que estudantes do mundo todo estudam para tentar decifrar a região mais tensa do planeta.

>>>> Eis a entrevista.

  • Professor Roy, que guerra é essa que estamos vivendo?

Uma guerra regional, pelo menos por enquanto. Uma guerra em primeiro lugar entre Israel e Irã, que começou depois de 7 de outubro de 2023, quando Israel decidiu lutar até o fim para se livrar primeiro do Hezbollah e do Hamas, e depois do Irã. Poderíamos nos iludir que, com o fim do Hezbollah e do Hamas e a expulsão dos Assad da Síria, o recuo que o Irã fora forçado a dar na região teria sido suficiente. Mas para Israel, não foi. E aqui estamos: o Irã nunca quis chegar a um confronto com os Estados Unidos, queria negociar.

  • Os Estados Unidos, precisamente: o senhor diz que essa guerra é regional, mas os Estados Unidos também estão envolvidos...

E esse é o principal problema hoje: Trump decidiu intervir ao lado de Israel em nada menos que duas vezes e agora não sabe onde quer ir. Israel, ao contrário, sabe onde quer chegar e está perfeitamente satisfeito com ambas as soluções que se delinearam: a ascensão ao poder do filho do antigo Xá e, portanto, a mudança de regime, ou o caos. Não por acaso Israel não está ajudando Al Sharaa a estabilizar a Síria: não busca a calma; para Netanyahu é melhor o caos.

Mas Trump não é Netanyahu e está numa situação difícil: não sabe para onde quer ir e, quanto mais o tempo passa, mais complexa a situação se torna. Porque quanto mais líderes você mata, menos pessoas tem com quem negociar: antes se podia conversar com Khamenei ou Larijani, mas hoje isso já não é mais possível. E esperar que o regime desmorone graças às bombas vindas do céu é inútil: o exército não está pronto para trair, o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica tem uma base social importante (digamos, entre 10 e 20 por cento da população), o aparato estatal é leal e a população está presa entre o regime e os Estados Unidos, então não sairá às ruas para se rebelar.

  • Na sua opinião, qual é o objetivo do Irã?

Sobreviver, resistir. O regime não precisa vencer; basta-lhe se manter de pé pelos próximos seis meses. E pode fazer isso facilmente: tem excelentes combatentes, navios suficientes e vem se preparando há vinte anos para controlar o Golfo. A estratégia é clara: bloquear o fluxo de petróleo. Para isso, não é preciso destruir todos os navios que passam por Ormuz: basta um por dia. E nenhuma empresa pedirá a seus marinheiros que se arrisquem.

  • O que o xiismo tem a ver com isso? A rígida organização política, a ideia vertical de poder inerente a esse tipo de islamismo e que não existe nos países sunitas...

Eu diria nada. A ideologia xiita motiva a Guarda da Revolução, não a sociedade iraniana, que é a mais secularizada da região. O que realmente importa é a ideia de Estado-nação: o Irã sempre foi um Estado-nação, ao contrário das monarquias do Golfo. E a revolução reforçou essa ideia, proporcionando uma ascensão social, uma promoção para muitas pessoas das camadas mais baixas da sociedade, que assim se viram integradas. Isso é muito diferente da Síria, por exemplo, onde o poder começava e terminava no círculo de uma família: bastava matar os Assad para derrubar o regime. Não aqui. Não era difícil de entender, mas Israel não estava interessado nisso: o que lhe importava era destruir a capacidade nuclear.

Para os estadunidenses, não é isso: talvez pensaram que seria como na Venezuela, que uma vez removida a primeira linha de poder, a segunda teria negociado... Não é assim. E agora estamos a seis meses das eleições de meio de mandato, com a economia em dificuldade e a base Maga em revolta. Definitivamente, uma situação nada boa para Trump. No entanto, acredito que ainda não vimos tudo, que as coisas podem piorar ainda mais: Netanyahu afirma ser necessário enviar tropas terrestres, talvez apenas para o litoral, talvez apenas para controlar os portos e os pontos de trânsito de petróleo. Mas enviar soldados estadunidenses não resolverá o problema: pelo contrário, corre o risco de agravá-lo, tornando-se uma armadilha. Imagine o que aconteceria em caso de um atentado... A realidade é que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos terão que negociar. O que me leva a dizer que o Irã está vencendo.

  • O outro protagonista dessa história são os países do Golfo: como os situa nesse triângulo?

Os países do Golfo precisam de uma orientação, de uma proteção: durante 45 anos, foram os Estados Unidos, mas agora não são mais. Trump não os protegeu dos mísseis iranianos e, se eu fosse um morador do Catar ou dos Emirados, me questionaria bastante: para sair da crise, negociarão com o Irã. A Arábia Saudita poderia ser uma história diferente, mas não muito: eles também precisam de proteção e, se Trump não a garante, terão que conversar com Teerã. O Golfo voltará a ser um Golfo Pérsico, porque, no fim das contas, ninguém poderá oferecer proteção, exceto o Irã: não os Estados Unidos de Trump, não a Rússia, que tirou o corpo fora dessa questão, não a China, que está demasiado distante. Dito isso, também acredito que os Acordos de Abraão se manterão, que não haverá nenhuma crise com Israel: o que significa que, de uma vez por todas, é a causa palestina que será sacrificada, que todos no Golfo já consideram praticamente perdida e secundária em relação à importância de manter as relações com Israel.

  • O senhor leciona no Instituto Universitário Europeu: onde está a Europa? Talvez consiga enxergá-la melhor do que nós?

Eu diria definitivamente que não. A Europa é retórica: dois povos para dois Estados entre Israel e Palestina, estabilidade no Golfo... Mas não é um ator nessa crise, exceto na proteção de suas fronteiras e, portanto, de Chipre. Trump pediu que interviesse em Ormuz: mas por que a Europa deveria se mobilizar por um presidente que, um dia depois de você o ajudar, está pronto a lhe insultar? Essa é uma lição que os europeus aprenderam bem.

  • Em sua carreira, estudou a jihad profundamente: acredita que dessa guerra resultará uma onda de atentados semelhantes à que vimos nos anos do ISIS?

Não. Poderá haver atentados, sem dúvida, mas não haverá uma jihad em nome do Irã. O movimento jihadista é antixiita, portanto não haverá apoio popular a Teerã e seu povo. E, além disso, vejamos Gaza: há um enorme apoio popular por Gaza, há manifestações e universidades ocupadas na Europa, há milhares de jovens nas ruas, mas não há um chamado ideológico às armas. E, portanto, não há uma revolta terrorista de massa semelhante àquela do ISIS.

¨      Irã rejeita plano dos EUA para fim da guerra; Pentágono confirma envio de tropas paraquedistas à região

O Irã rejeitou uma proposta dos Estados Unidos para encerrar a guerra atual, segundo anunciou a emissora estatal iraniana PressTV no início da tarde da quarta-feira (25/3).

A PressTV reproduziu as declarações de uma autoridade do país, sem identificá-la: "O Irã encerrará a guerra quando decidir fazê-lo e quando suas próprias condições forem atendidas".

Autoridades iranianas têm repetido que desejam um fim completo da guerra, não apenas um cessar-fogo.

Segundo a Press TV, a autoridade apresentou cinco condições: uma interrupção total da "agressão e das ações de assassinato" pelo inimigo; o estabelecimento de mecanismos concretos para garantir que a guerra não seja novamente imposta à República Islâmica; pagamento garantido e claramente definido de danos e reparações de guerra; o fim da guerra em todas as frentes e para todos os grupos de resistência envolvidos em toda a região e o reconhecimento e garantias internacionais sobre o direito soberano do Irã de exercer autoridade sobre o Estreito de Ormuz.

A Press TV afirma que Washington vem buscando negociações por diversos canais diplomáticos, mas Teerã considera as propostas "excessivas".

Um porta-voz das Forças Armadas do Irã disse mais cedo que os EUA estão "negociando consigo mesmos" e que "alguém como nós jamais chegará a um acordo com alguém como vocês".

O comentário foi feito por Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya do Irã, o principal comando militar do país. Sem mencionar diretamente os EUA e o presidente americano, Donald Trump, ele disse: "Não chamem sua derrota de acordo".

"O nível do seu conflito interno chegou ao ponto em que vocês estão negociando consigo mesmos?", disse Zolfaghari em uma mensagem de vídeo publicada por veículos de comunicação iranianos.

"Vocês não verão seus investimentos na região nem os preços anteriores da energia e do petróleo novamente, até que entendam que a estabilidade na região é garantida pela mão poderosa de nossas forças armadas. A estabilidade vem da força", disse Zolfaghari.

"Alguém como nós jamais fará um acordo com alguém como vocês. Nem agora, nem nunca".

Os comentários surgiram depois de Donald Trump insistir que o Irã "quer muito" um acordo.

"Eles nos deram um presente, e o presente chegou hoje, e era um presente muito grande, que vale uma quantia enorme de dinheiro", disse Trump na terça-feira em entrevista coletiva à imprensa na Casa Branca.

Trump não disse o que seria esse presente — apenas afirmou que se trata de algo não nuclear, mas sim "relacionado a petróleo e gás".

O presidente americano disse que os EUA estão conversando com "as pessoas certas" no Irã para chegar a um acordo. "Estamos em negociações agora", disse ele, sem fornecer detalhes.

Depois de dias de questionamentos, o Pentágono confirmou oficialmente o envio de algumas tropas terrestres para a região.

Em um comunicado à BBC, um porta-voz afirmou que alguns elementos do quartel-general da 82ª Divisão Aerotransportada, alguns "apoios divisionais" e a 1ª Brigada de Combate serão enviados ao Oriente Médio.

Por razões de segurança, o porta-voz não forneceu mais detalhes.

A composição dessas unidades revela muito sobre as capacidades que estão sendo mobilizadas para possível uso no conflito.

Com base na Carolina do Norte, a 82ª Divisão Aerotransportada é considerada uma das principais unidades convencionais de combate das Forças Armadas dos EUA, com alguns elementos sempre prontos para serem enviados a qualquer lugar do mundo em até 18 horas.

Essas tropas são treinadas para saltar de paraquedas ou chegar de helicóptero a uma área-alvo e tomá-la. No caso do Irã, elas poderiam oferecer aos EUA a opção de capturar a Ilha de Kharg ou outro território estratégico.

Especialistas militares dizem que um possível envio provavelmente se concentraria em aumentar a pressão sobre o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz. O Irã começou a atacar petroleiros comerciais que utilizam o estreito depois que os EUA iniciaram a guerra no mês passado.

Especula-se também que as tropas americanas poderiam ser usadas para tomar a Ilha de Kharg. A ilha abriga instalações de armazenamento e carregamento de petróleo e responde por cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã.

Ex-funcionários da defesa dos EUA e especialistas militares disseram à BBC que tropas americanas provavelmente conseguiriam assumir o controle da pequena ilha com facilidade.

<><> Plano de 15 pontos dos EUA

No fim de semana, Trump havia ameaçado aniquilar as "diversas usinas de energia do Irã, começando pela maior", dando ao país 48 horas para permitir a retomada da navegação no Estreito de Ormuz.

Mas na segunda-feira, pouco antes do final do prazo, Trump anunciou que o Irã havia retornado à mesa de negociações, e adiou sua ameaça de bombardeio por cinco dias. Mas o Irã negou que estivessem ocorrendo negociações.

No dia seguinte, Trump disse ter enviado um plano de 15 pontos ao Irã para negociar um cessar-fogo.

A agência de notícias Associated Press noticiou nesta quarta-feira que o Irã teria recebido o plano dos EUA, citando duas autoridades do Paquistão.

Segundo os oficiais paquistaneses, a proposta americana abrange pontos como alívio das sanções, cooperação nuclear civil, reversão do programa nuclear iraniano, monitoramento pela Agência Internacional de Energia Atômica e limites para mísseis e acesso para navegação pelo Estreito de Ormuz.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, já disse em outras ocasiões que o seu país está "pronto" para sediar negociações para um acordo sobre o conflito.

Em Israel, o ministro da Economia do país, Nir Barkat, disse à BBC ser improvável que o Irã concorde com o plano de 15 pontos supostamente apresentado pelo governo americano. Segundo o ministro, o plano é "bonito no papel", mas precisa de garantias para ser implementado.

O regime iraniano "não vai mudar", disse ele, e os principais objetivos de Israel para a guerra eram deixar o Irã "sem armas nucleares, sem mísseis e sem aliados".

"Confio que o presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyahu estejam alinhados nesses objetivos e os alcançaremos de uma forma ou de outra", disse Barkat. "Por um lado, talvez Trump esteja abrindo discussões, mas ele também está enviando tropas para a região e, basicamente, dizendo ao povo iraniano que estamos falando sério."

"Acredito que, ao final desta rodada, alcançaremos os objetivos, com ou sem acordo."

Ele não confirmou se Israel e EUA estão alinhados em relação ao plano de 15 pontos.

Nesta quarta-feira, houve relatos de novos ataques em Irã, Israel, Líbano e países do Golfo, como Arábia Saudita e Kuwait.

¨      Irã impõe cinco condições para cessar-fogo

O Irã rejeitou o plano de paz dos Estados Unidos, alegando exigências “excessivas” e reiterando que qualquer cessar-fogo ocorrerá exclusivamente nos termos e no cronograma definidos por Teerã. A informação foi divulgada por um funcionário do alto escalão político e de segurança à estatal iraniana Press TV, nesta quarta-feira (25/03).

Segundo o oficial, “o Irã irá encerrar a guerra quando decidir fazê-lo e suas próprias condições forem atendidas” e “não quando Trump prever sua conclusão”. A proposta da Casa Branca foi encaminhada nesta terça-feira (24/03) a mediadores no Paquistão.

A autoridade iraniana afirmou que as exigências de Washington foram recusadas e detalhou as cinco condições consideradas indispensáveis pelo Irã para o fim da guerra. “Nenhuma negociação será realizada antes disso”, afirmou.

São elas: a interrupção total da “agressão e assassinatos” pelos inimigos do país, a criação de mecanismos concretos que impeçam a retomada do conflito, o pagamento garantido de reparações de guerra, o encerramento das hostilidades em todas as frentes, incluindo grupos aliados na região, e o reconhecimento da soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz.

¨      Presidente do Parlamento do Irã nega negociação com Trump: ‘tentativa de escapar do atoleiro em que estão presos’

Na segunda-feira (23/03), Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano, contradisse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que não há negociações em curso com os EUA.

Mais cedo, Trump disse que decidiu adiar ataques militares contra o Irã após o que descreveu como conversas “muito boas e produtivas” entre os dois países. O republicano declarou que ordenou ao Departamento de Guerra a suspensão de ações contra usinas e infraestrutura de energia iranianas por cinco dias, condicionada ao andamento das discussões.

“Tenho o prazer de informar que os Estados Unidos da América e o Irã tiveram, nos últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas a respeito de uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio”, escreveu em publicação na plataforma Truth Social. Segundo ele, a decisão foi tomada “com base no teor e no tom dessas conversas aprofundadas”, que devem continuar ao longo da semana.

Para Bagher Ghalibaf, no entanto, a declaração de Trump é uma tentativa de “escapar do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos”.

<><> Novas ações

Uma fonte militar iraniana afirmou à agência Tasnim que o país prepara novas ações para os próximos dias do conflito. “O Irã planejou novas surpresas para os próximos dias da guerra em curso, cuja implementação poderá produzir resultados muito significativos”, disse.

Segundo a fonte, Trump enfrenta o fracasso de suas opções militares e tenta encontrar uma saída para o impasse. “É por isso que ele levou a guerra de seus navios à deriva para as redes sociais”, afirmou. “Trump sabe que seu arsenal militar, tanto ofensivo quanto defensivo, está em péssimas condições.”

A fonte disse ainda que, diante da escassez de munição, Trump passou a adotar um discurso mais agressivo, ampliando o desgaste. “Ao contrário das promessas vazias de Trump, o Irã preparou surpresas para os próximos dias que tornarão o resultado da guerra mais óbvio do que nunca.”

Por fim, afirmou que o presidente estadunidense deveria focar nos desdobramentos do conflito. “Trump deveria deixar de lado o celular e as redes sociais por um tempo e concentrar seus olhos apenas no céu, na bolsa de valores e no preço do petróleo”, concluiu.

A guerra dos EUA e de Israel no Irã começou no dia 28 de fevereiro, quando o então líder supremo do país, Ali Khamenei, foi morto junto a comandantes e civis. As ações incluíram bombardeios contra alvos em diferentes regiões do país, com registros de mortos e danos à infraestrutura. Em resposta, as Forças Armadas do Irã realizaram operações contra posições dos Estados Unidos e de Israel em territórios ocupados e bases na região, com uso de mísseis e drones.

 

Fonte: la Repubblica/BBC News Mundo/Opera Mundi

 

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