Feliz
ano novo do cavalo
Quando
ainda potro, o cavalo é castrado. Mesmo depois de castrado, para permitir que
montem em seu lombo, ele ainda precisa ser domado. Depois de castrado e domado,
para conduzi-lo, deve-se meter um freio de ferro em sua boca, entre os dentes,
acionado com o auxílio de rédeas. Chicotes e esporas também podem ser
empregados. E, por fim, ele só vai se dignar a puxar alguma carroça se taparem
a sua visão com viseiras.
Aos 18
anos de idade, apanhei na prisão sem esboçar a mínima reação, para não
alimentar a ira dos meus algozes (apanhar é eufemismo porque, na verdade, fui
torturado). Quando voltei para casa, meu pai, para emendar, desfechou um soco
na minha cara, que só não me atingiu porque eu treinava karatê. Fugi de casa!
Minha
professora de ballet clássico dizia que as mulheres tinham que dançar igual
homem; e os homens igual cavalo. E, para distensões musculares, empregávamos a
pomada calminex de uso veterinário. É impossível adivinhar o esforço físico de
um bailarino por detrás de seu semblante enlevado.
Feliz
ano novo do cavalo de fogo chinês!
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Tristes limites mundanos
Feliz
ou infelizmente, não sabemos de onde viemos, para onde vamos e muito menos onde
estamos. Deste lado do paraíso, só nos resta nascer, crescer, procriar (ou não,
devemos hoje acrescentar), entrar em decadência e morrer. E, neste percurso,
podemos sentir prazer no conforto, alimentação, sexo e, principalmente, no
convívio social. Contudo não consigo entender o apego à vida, qual é a vantagem
de se ficar insistindo em eternizar a juventude e adiar a morte?
O apego
à vida e o medo da morte atravancam viver a vida em sua plenitude. Acho que só
quer eternizar a juventude e adiar a morte quem não viveu com desprendimento
cada uma das etapas de sua vida. Sartre costumava dizer que a saúde foi feita
para gastar. Certamente todos querem evitar o sofrimento, mas quanto mais
prolongamos a vida, mais expostos estaremos ao sofrimento – ninguém merece!
Quando
a realidade é muito frustrante, você pode se entreter com um livro, passar duas
horas no cinema ou também encher a cara de drogas. Entre nós, dinheiro compra
tudo, garante conforto, boa alimentação, realização de fantasias sexuais,
generosas doações filantrópicas e poder sobre outros corpos, inclusive de
funcionários públicos e juízes. Mas a distância entre o rei e o mendigo é muito
estreita, por mais que se reforce a pobreza da plebe, porque os prazeres
mundanos são muito limitados.
Não
faço voto de pobreza, não sei se um camelo consegue passar pelo fundo de uma
agulha, nem se os ricos vão entrar no reino de Deus – o que sei é que, deste
lado do paraíso, de forma geral, os pobres vivem alegres e os ricos vivem
entediados. O apego aos prazeres mundanos exige contínuas doses crescentes. A
pessoa pode ter muito dinheiro, mas quer mais, pode ter muito poder, mas quer
mais, muito prazer sexual, mas quer mais – afinal, ela é especial. Conta-se que
Nero provocava vômitos para continuar ingerindo alimentos e que Calígula vivia
em intermináveis orgias sexuais.
“E de
que me adianta todo esse dinheiro que acumulei com a minha esperteza e labuta,
que pode comprar mercados inteiros e fechar boates, se disponho de um só
estômago e um único órgão sexual? Então vou reunir os amigos num yacht e
enchê-lo de adolescentes, porque burro velho gosta mesmo é de capim novo…” O
que não é a vaidade? – nada mais lhe entretém. Pequenos e grandes déspotas,
tudo é vaidade, diria o Eclesiastes no Velho Testamento.
Os
arquivos do escandaloso caso Jeffrey Epstein citam políticos, empresários,
artistas, cientistas e até consagrados intelectuais como Noam Chomsky. É
provável que Donald Trump só não esteja formalmente mais comprometido no caso
Epstein por conta de blindagem (há também quem afirme que Benjamin Netanyahu
possui documentos de Jeffrey Epstein que incriminam Donald Trump diretamente).
Nos
anos 1980, levei minha filha e um bando de pré-adolescentes para um final de
semana na praia. As meninas reclamaram que os meninos as beijavam e, depois,
saíam contando a façanha por aí. Perguntei aos meninos se eles poderiam se ater
a beijar as meninas comprometendo-se a ser discretos. E o líder dos meninos
disse: “mas então, qual seria a graça!?”
O
prazer pode estar relacionado à repressão aos instintos. Todo impulso contido
ganha intensidade e densidade. Peço desculpas por entrar em um terreno um tanto
quanto escatológico, mas até defecar pode ser prazeroso. Como assim? É só
perguntar para alguém que sofre de constipação intestinal. O que eu quero dizer
com tudo isso, em bom português, é que o Jeffrey Epstein fez e Donald Trump
continua fazendo merda. Sexo é um tabu que envolve o prazer da carne, a
procriação e o poder.
O
ocidente levou a extremos a divisão entre o bem e o mal, o divino e o
pecaminoso – aspira-se pelo bem e sucumbe-se ao mal. Em Memórias, sonhos e
reflexões, Carl Gustav Jung, filho de pastor protestante, relata uma imagem a
seus olhos aos 12 anos de idade: “O mundo é belo, a igreja é bela, e Deus, que
criou tudo isso, está sentado lá no alto, no céu azul, em um trono de ouro…”
Mas Carl Jung não conseguiu completar a imagem e entrou em profundo sofrimento.
Após três dias de angústias, reprimindo o pensamento, conseguiu enfim dar
sequência à imagem e entrou em êxtase. “… Deus está sentado em seu trono de
ouro, muito alto acima do mundo – e, debaixo do trono, um enorme excremento cai
sobre o telhado novo e brilhante, que se estilhaça, e destrói as paredes da
catedral” (Desculpem mais uma vez, até parece obsessão).
O
cavalo de fogo já está dando os seus coices, neste momento em que o Irã está
sendo bombardeado pelos irresponsáveis Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
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Meta ou caminho? Fins ou meios?
Via de
regra, as pessoas se decidem por uma das duas opções que ofereço,
principalmente pelo caminho. Quando digo, inspirado na cultura chinesa, que o
mais importante é a companhia, elas geralmente reclamam “mas você não ofereceu
esta opção!” Aí eu digo que elas podem ser criativas, não precisam
necessariamente se ater às opções que os outros lhe oferecem.
Ernest
Hemingway, em Adeus às armas, a partir de sua experiência na Primeira Guerra
Mundial, preconiza que quem está ao seu lado na trincheira importa mais que a
própria guerra – “Palavras abstratas como glória, honra, coragem ou sagrado
soavam obscenas ao lado dos nomes concretos das aldeias, dos números das
estradas, dos nomes dos rios, dos números dos regimentos e das datas.”
George
Orwell começa sua Homenagem à Catalunha citando o encontro casual com um
miliciano italiano com quem teve uma afeição imediata – “eu esperava que ele
gostasse de mim tanto quanto eu gostava dele”. Este encontro ficou gravado em
sua memória como o símbolo da atmosfera de Barcelona em 1936.
Nestes
tempos tenebrosos pelos quais estamos passando, e dado o avançado da minha
idade, sinto o calor dos amigos que me acompanharam e que, vivos ou mortos,
continuam me acompanhando nesta minha jornada. Os companheiros que fui cruzando
na vida portavam símbolos manifestos, porém discretos, como, guardada a devida
distância, o esquadro e o compasso que os maçons portam ocultos no avesso da
gola do paletó.
Qualquer
que seja a meta ou o caminho que esteja seguindo, basta olhar para as pessoas
que você cruza em sua jornada para se certificar se está no lugar certo. Você
se reconhece no olhar do outro, na companhia que, de seu ponto de vista,
dignifica a nossa condição humana.
Me
empenho para me libertar do mal ancestral que carrego dentro de mim. Os amigos
compartilham os nossos sonhos e pesadelos, nos ajudam a amortecer as
vicissitudes, os altos e baixos com que nos deparamos em nosso caminho, fazem
crescer em nós o gosto de viver. No trem da vida, às vezes, também nos
deparamos com jovens desconhecidos que sabemos portarem, em seus corações, os
ideais que sempre nos acalentaram.
Fonte:
Por Samuel Kilsztajn, em A Terra é Redonda

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