Além
da fertilidade: espermograma pode sinalizar riscos à saúde
Durante
muitos anos, o espermograma foi visto apenas como um exame ligado à
fertilidade. Ele é solicitado quando o casal tem dificuldade para engravidar e
avalia concentração, motilidade e formato dos espermatozoides. No entanto,
pesquisas recentes têm sugerido algo maior: a qualidade do sêmen pode refletir
a saúde geral.
Estudos
populacionais na Europa mostraram que homens com piores parâmetros seminais
apresentaram maior risco de internações ao longo da vida e, em algumas
análises, menor expectativa de vida quando comparados àqueles com melhor
qualidade seminal. Outras pesquisas identificaram associação entre
infertilidade masculina e maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes e
até certos tipos de câncer, como o câncer de próstata agressivo.
Esses
dados levantaram uma hipótese interessante: será que o espermograma poderia
funcionar como um "termômetro" de saúde?
<><>
Quando o sêmen vira sinal de alerta
É
importante entender que associação não significa causa. Um exame alterado não
quer dizer que o homem terá uma doença cardíaca ou câncer. O que os estudos
sugerem é que a produção de espermatozoides é um processo altamente sensível ao
equilíbrio do organismo. Alterações metabólicas, inflamação crônica, obesidade,
tabagismo, distúrbios hormonais e até sedentarismo podem impactar tanto o
sistema reprodutor quanto outros órgãos.
Na
prática clínica, quando se encontra um espermograma alterado, especialmente em
jovens, isso pode ser uma oportunidade para ampliar a avaliação. Revisar
hábitos de vida, peso, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, qualidade
do sono e uso de medicamentos ou hormônios. O exame passa a ser um ponto de
partida para uma conversa mais ampla sobre saúde.
Mas
isso é diferente de defender que todos os homens devam fazer espermograma de
rotina como rastreamento geral.
<><>
Rastreamento universal? Ainda não
Para
que um exame seja recomendado como triagem populacional, ele precisa demonstrar
que sua utilização reduz doenças ou mortes de forma comprovada, com bom
custo-benefício e baixo risco de gerar exames desnecessários. No caso do
espermograma, ainda não temos evidências suficientes para sustentar essa
recomendação.
Existe
o risco de sobrediagnóstico, ansiedade excessiva e uma cascata de investigações
que nem sempre trazem benefício real. A medicina preventiva precisa ser baseada
em dados sólidos, não apenas em hipóteses promissoras.
<><>
O que faz sentido hoje?
O que
já sabemos com segurança é que a saúde reprodutiva está intimamente ligada ao
estilo de vida. Obesidade, sedentarismo, uso de anabolizantes, tabagismo e
consumo excessivo de álcool impactam tanto a fertilidade quanto o risco
cardiovascular.
Se um
homem apresenta infertilidade ou alterações no sêmen, isso merece avaliação
cuidadosa. Pode ser apenas uma condição localizada, mas também pode sinalizar
algo maior. Cada caso deve ser analisado individualmente.
Transformar
o espermograma em um "check-up obrigatório" ainda é prematuro. Porém,
enxergá-lo como um possível indicador de saúde sistêmica é um avanço
importante. Talvez o maior benefício dessa discussão seja outro: incentivar os
homens a procurarem acompanhamento médico regular, algo que historicamente
ainda fazem menos do que deveriam.
Cuidar
da fertilidade pode ser também uma forma de cuidar do coração, do metabolismo e
do futuro.
• Disfunção erétil pode ser sinal precoce
de problemas cardíacos
Quando
pacientes me procuram com disfunção erétil, ou DE, sua primeira preocupação
geralmente não é sobre sua saúde. "Doutor, minha (meu) parceira (o) vai me
deixar", frequentemente dizem com preocupação. Eu geralmente respondo:
"Relaxe, já ouvi isso mil vezes. Vamos começar com algumas
perguntas.".
Quando
um homem já tem pressão alta ou diabetes descontrolada, as prováveis causas da
DE são mais fáceis de identificar. Mas quando o homem é mais jovem ou
aparentemente saudável, também olho além e começo a pensar nos vasos sanguíneos
— e no coração.
Aquelas
batatas fritas gigantes da madrugada e outras escolhas que você faz hoje podem
não causar um ataque cardíaco amanhã, mas podem contribuir para mudanças nos
vasos sanguíneos que aparecem mais cedo como DE.
É por
isso que considero a disfunção erétil como um possível sinal de problemas de
saúde mais graves. Eis o motivo: a Associação Americana do Coração observa que
a disfunção sexual às vezes pode aparecer de um a três anos antes dos sintomas
mais clássicos de doença cardíaca, como angina ou dor no peito. As diretrizes
da Associação Americana de Urologia vão além: os homens devem ser informados
que a DE pode ser um marcador de risco para doença cardiovascular subjacente e
outras condições de saúde que podem merecer avaliação e tratamento.
O
raciocínio é que a maioria dos problemas cardíacos não começa no coração; eles
geralmente se originam nos vasos sanguíneos menores do corpo. Com o tempo, as
artérias podem perder flexibilidade, o revestimento interno se torna menos
responsivo e a placa pode se acumular devido ao colesterol e à inflamação.
Pressão arterial, açúcar alto no sangue, tabagismo, sono ruim e estresse afetam
a saúde dos vasos sanguíneos.
<><>
Como funcionam as ereções
Um
paciente dizendo "não está funcionando" pode ter causas diferentes de
outro paciente com os mesmos sintomas.
As
ereções exigem que o cérebro, nervos, vasos sanguíneos e músculos trabalhem em
perfeita harmonia. A estimulação sexual inicia o processo no cérebro,
desencadeando sinais que descem pela medula espinhal até os nervos pélvicos. A
partir daí, mensageiros químicos dizem às artérias que alimentam o pênis para
se abrirem para que o sangue possa correr para as câmaras esponjosas em seu
interior. Conforme elas se enchem, o pênis se expande e fica firme.
Enquanto
isso, essa expansão comprime as veias que normalmente drenam o sangue, ajudando
a prender o sangue por tempo suficiente para manter uma ereção rígida.
Após o
orgasmo ou quando a estimulação cessa, o músculo liso se contrai, o sangue é
drenado e a ereção desaparece. Se qualquer etapa nessa sequência for
interrompida — seja na sinalização, no fluxo sanguíneo ou em sua retenção — a
qualidade da ereção pode diminuir.
<><>
Detecção precoce de doença vascular
Se os
vasos sanguíneos começam a endurecer, estreitar ou perder sua capacidade de
dilatar como deveriam, alterações na ereção podem aparecer precocemente — às
vezes antes que alguém apresente os sinais clássicos de doença cardíaca. É por
isso que a DE às vezes é discutida como um sinal precoce de doença vascular —
ou seja, doença dos vasos sanguíneos que fornecem sangue por todo o corpo,
incluindo o pênis.
Nem
todo caso de disfunção erétil indica doença cardíaca, mas quando a DE é nova,
persistente ou está progressivamente piorando — especialmente naqueles que
dizem se sentir bem em outros aspectos — pode ser um sinal para levar o risco
cardiovascular a sério. Isso porque as mesmas alterações nos vasos sanguíneos
que afetam o coração podem afetar o pênis também.
<><>
O sexo é seguro para o coração?
Para a
maioria das pessoas com saúde cardíaca estável, o sexo é seguro para o coração.
O sexo
pode elevar brevemente a frequência cardíaca e a pressão arterial. Tipicamente
requer de três a cinco METs, ou equivalentes metabólicos. Um MET é a quantidade
de oxigênio usada enquanto se está sentado em repouso, e três METs é comparável
a uma caminhada rápida ou subir alguns lances de escada.
Se
alguém pode realizar esse nível de atividade sem dor no peito ou falta de ar
severa, o sexo é geralmente considerado de baixo risco do ponto de vista
cardíaco.
A maior
preocupação geralmente não é a relação sexual. São os fatores de risco
subjacentes — e se a DE é um sinal precoce de que a saúde dos vasos sanguíneos
precisa de atenção.
<><>
Uma solução rápida para ereção pode ignorar o problema maior
Não sou
contra o atendimento online para homens com problemas de ereção. Para muitos
homens, é a primeira vez que eles agem em relação a essa questão de saúde. O
atendimento online reduz barreiras, diminui o constrangimento e ajuda pessoas
que, de outra forma, permaneceriam em silêncio por anos.
Mas o
tratamento online é frequentemente construído para resolver um problema —
ereções — e seguir adiante. Medicamentos podem melhorar as ereções, mas não
podem corrigir o problema subjacente que causou a DE.
Se a DE
é um sinal precoce de alterações cardíacas ou vasculares, a questão mais
importante é o que mais pode estar acontecendo em segundo plano: pressão
arterial, colesterol, açúcar no sangue, sono, peso, tabagismo e atividade
física
O
tratamento deve ser uma porta de entrada para a prevenção, não um substituto.
Uma observação rápida sobre segurança: medicamentos para disfunção erétil podem
ter interações perigosas com certos medicamentos cardíacos, incluindo nitratos
(como nitroglicerina) usados para dor no peito, sendo este mais um motivo pelo
qual vale a pena informar seu médico de atenção primária sobre o que você está
tomando.
<><>
Preste atenção à sua saúde
Se suas
ereções estão mudando, não entre em pânico — preste atenção. Às vezes é
estresse, sono, saúde mental, dinâmica do relacionamento ou efeitos colaterais
de medicamentos, e resolver esses problemas pode fazer uma grande diferença.
(E, por favor, preste atenção se seu parceiro sugerir que você procure um
médico.) Mas às vezes é vascular, e é quando a conversa precisa ir além do
quarto.
Mencione
isso ao seu médico de atenção primária e certifique-se de que os aspectos
básicos sejam verificados: pressão arterial, colesterol e açúcar no sangue. Se
você ronca, acorda cansado ou se sente exausto, pergunte também sobre apneia do
sono. Às vezes a investigação é tranquilizadora. Às vezes detecta um fator de
risco precocemente — e isso é uma vitória.
Porque
as mesmas coisas que silenciosamente causam doenças cardíacas também podem se
manifestar como disfunção erétil. As escolhas que parecem pequenas hoje podem
se tornar grandes depois. O objetivo do tratamento não é apenas uma ereção
melhor — é uma vida mais longa e saudável, com uma vida sexual que você possa
aproveitar ao longo do caminho.
Fonte:
CNN Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário