Estudo
mapeia o impacto da agressão física e sexual sobre a saúde de mulheres e
crianças
A
violência doméstica contra a mulher e a violência sexual contra crianças
costumam ser encaradas apenas como questão de segurança pública. São bem mais
do que isso. São também uma questão de saúde pública, com danos imediatos e de
longo prazo para as vítimas. Um estudo publicado em janeiro na revista médica
The Lancet usou dados coletados entre 1990 e 2023 em 204 países e territórios
para calcular o total de pessoas que teriam sofrido uma das duas formas de
agressão e estimar o prejuízo imposto à saúde delas. Os números são
assustadores e assumem a dimensão de uma pandemia.
De
acordo com as estimativas, em 2023 haveria no mundo cerca de 608 milhões de
mulheres com mais de 15 anos, o correspondente a 20,2% do público feminino
global dessa faixa etária, que teriam sido vítimas de violência física ou
sexual cometida pelos seus parceiros em algum momento da vida – a violência
psicológica (ameaças, humilhações, isolamento, manipulação, entre outros) não
foi contabilizada. Apenas naquele ano, 145 mil teriam morrido por homicídio
(causa direta) ou em consequência de problemas de saúde decorrentes dessa forma
de violência (causas indiretas). No Brasil, a proporção de mulheres que tinham
mais de 15 anos em 2023 e foram atingidas por violência íntima ao longo da vida
somaria 10,5%, com 2.720 óbitos por causas diretas e indiretas ocorridos apenas
naquele ano.
De 1990
a 2023, a taxa de mortalidade no país em decorrência da agressão de parceiros
permaneceu estável em 3,2 casos por 100 mil mulheres, enquanto no mundo caiu de
7,6 por 100 mil para 4,8 por 100 mil, de acordo com o estudo, que foi
coordenado pela epidemiologista brasileira Luisa Sorio Flor, da Universidade de
Washington, nos Estados Unidos.
“Estima-se
que 35% dos homicídios de mulheres no Brasil tenham sido praticados por
parceiros íntimos, o que coloca nosso país na quinta posição no mundo em
números absolutos de mortes”, relata Flor. Ela afirma ainda: “Esses números
podem estar subestimados”.
Já o
contingente global de homens e mulheres com mais de 15 anos que teriam sofrido
violência sexual na infância somaria 1 bilhão de pessoas em 2023, ou 16,8% da
população mundial nessa faixa etária. O total de mortes ocorridas apenas
naquele ano em decorrência direta ou indireta dessa forma de agressão chegaria
a 290 mil. No Brasil, a proporção de pessoas com mais de 15 anos vítimas de
violência sexual na infância seria de 15,5%, com 5.880 óbitos. A taxa de
mortalidade por essa forma de agressão no país aumentou de 2,8 casos por 100
mil em 1990 para 3,4 por 100 mil em 2023. No restante do planeta, ela baixou de
5,3 por 100 mil para 4,7 por 100 mil no mesmo intervalo.
No
trabalho, os pesquisadores também calcularam o impacto que as duas formas de
agressão teriam produzido sobre a saúde das pessoas. Para isso, usaram uma
métrica da área da saúde chamada anos de vida perdidos ajustados por
incapacidade (DALYs), resultado da soma do tempo que um indivíduo deixou de
viver por ter morrido antes do esperado para a sua faixa etária com o total de
anos que viveu com alguma doença ou sequela decorrente da agressão.
No
mundo, a violência contra a mulher praticada pelo parceiro íntimo seria
responsável por 18,5 milhões de DALYs em 2023. Esses números colocam essa forma
de agressão como a quarta maior causa de perda de anos de vida saudável das
mulheres. No Brasil, ela salta para o segundo lugar, com 500 mil DALYs,
perdendo apenas para a obesidade. Já a violência sexual contra crianças teria
extraído das pessoas com mais de 15 anos 32,2 milhões de anos de vida que
poderiam ter sido vividos com saúde plena, tornando-a a quinta maior causa de
mortes e incapacitação no mundo. No Brasil, ela ocupa a terceira posição para
as mulheres (574 mil DALYs) e oitava para os homens (454 mil DALYs).
“Percentuais
que classificaríamos como pandemia são muito menores do que os da prevalência
de violência identificados nesse estudo”, destaca a advogada Fabiana Severi, da
Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FDRP-USP),
que investiga violência contra a mulher e não participou do trabalho publicado
na The Lancet.
Luisa
Flor, que integra o Instituto de Métrica em Saúde (IHME), da Universidade de
Washington, atribui a violência contra as mulheres no Brasil à estrutura de
poder que prevalece e é culturalmente aceita no país. “A relação de poder entre
gêneros é muito assimétrica no país, tanto no que diz respeito à interação
entre homens e mulheres quanto na relação entre adultos e crianças”, comenta a
epidemiologista. Na opinião de Severi, da USP, também há falhas na forma como o
sistema nacional de justiça e o de segurança pública lidam com a violência
contra a mulher e a criança. “Ainda enfrentamos desafios para que os relatos
das vítimas não sejam descredibilizados quando elas procuram esses serviços”,
destaca a advogada.
Em
termos de DALYs, o país ocupa a 50ª posição no ranking mundial de violência
sexual contra meninas e a 91ª posição de violência sexual contra meninos,
segundo os resultados publicados na The Lancet. Severi, no entanto, suspeita de
que a subnotificação seja muito maior nos casos cometidos contra meninos do que
contra meninas. “Houve um avanço importante na educação das meninas para que
identifiquem e respondam a uma situação de violência. Isso não necessariamente
aconteceu com os meninos”, afirma.
A
violência doméstica contra a mulher e a agressão sexual contra crianças geram
impactos duradouros tanto sobre a saúde física quanto sobre a saúde mental das
vítimas. O estudo mostrou que, no primeiro caso, a agressão de parceiros
aumenta o risco de as mulheres sofrerem ferimentos, aborto, infeção pelo vírus
HIV e até morrerem. Mas também eleva a probabilidade de desenvolver quadros de
ansiedade, depressão, automutilação e dependência de drogas. De modo
semelhante, a violência sexual contra crianças resulta em aumento da
probabilidade de apresentar depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno
bipolar, bulimia, alcoolismo e transtorno de conduta.
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10,5% das brasileiras com mais de 15 anos já sofreram agressão dos parceiros
“A
violência contribui de forma tão importante para o surgimento de transtornos
mentais entre as mulheres que se torna mandatório investigar a sua ocorrência
nos casos de depressão e ansiedade”, afirma o psiquiatra João Maurício
Castaldelli-Maia, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da
USP, coautor do trabalho da The Lancet.
Além do
efeito sobre a saúde, essas duas formas de violência impõem custos econômicos e
sociais relevantes, em especial por atingirem os jovens em sua idade mais
produtiva. “O risco elevado de suicídio e de desenvolver transtornos mentais
contribui para tirar essas pessoas da força de trabalho ou reduzir a capacidade
de colaboração econômica”, explica Flor.
Segundo
os especialistas entrevistados por Pesquisa FAPESP, o enfrentamento do problema
deve ser feito de maneira integrada, levando em consideração não apenas ações
de segurança, mas também de saúde, educação, trabalho, habitação, assistência
social.
“Precisamos
discutir como o nosso sistema de saúde tem de se estruturar para receber essas
pessoas e atender às demandas delas”, propõe Flor. “Os postos de saúde e os
hospitais são as portas de entrada para o acolhimento dessas mulheres e
crianças”, afirma a socióloga Bruna Camilo, assessora da Coordenação-geral de
Monitoramento e Avaliação da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na
Saúde, do Ministério da Saúde. “O investimento em políticas de proteção produz
um retorno lá na frente, com pessoas seguras e participantes do mercado de
trabalho.”
Fonte:
Por Sophia La Banca – Revista Pesquisa Fapesp

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