Capitalismo,
socialismo e burocracia: é possível romper a jaula de ferro sem o método da
luta de classes?
Não é
incomum que interpretações da realidade feitas a partir de perspectivas
teóricas distintas, cheguem a conclusões muito semelhantes, sobretudo quando
estamos diante de inteligências que se movem por caminhos dialéticos e pensam o
mundo e suas contradições cientes de que a produção de conceitos jamais pode
ser presidida pelo ideal positivista de reduplicação mecânica dos objetos,
sejam estes oriundos do mundo objetivo das coisas, do mundo subjetivo dos
indivíduos ou do mundo das relações sociais. Um desses casos é o problema que
levou as geniais inteligências de Karl Marx e Max Weber a entender a “gênese do
capitalismo”, isto é, a explicação e compreensão do modo pelo qual se
generalizaram as relações sociais de produção capitalistas e a ação social racional
com relação ao fim de lucrar, respectivamente.
Pretendemos,
aqui, chamar a atenção apenas para um aspecto das conclusões decorrentes da
complexa interpretação proposta por esses intelectuais, aquele atinente ao que
poderíamos qualificar como “extravio da ação consciente do indivíduo”, processo
através do qual a racionalidade de toda a ação se desvia de qualquer sentido
subjetivo e se converte em mera realização de um fim objetivo – a geração de
lucros – alheio aos interesses e às possibilidades reais de o indivíduo se
realizar nele. Hegel, guiado pela ideia de que a história é, em última
instância, conduzida pelo espírito absoluto, e que razão e revolução
inerentemente se implicam – o que concorreria para levar a humanidade ao
patamar de uma sociedade civil forjada pela eticidade do Estado – jamais imaginaria
que sob as relações sociais capitalistas é a contrarrevolução que passa a
definir a teleologia da razão. Por vias distintas, Marx e Weber mostram que o
espírito absoluto da racionalidade hegeliana foi devidamente enjaulado pela
ordem da razão instrumental e pela burocracia produzidas pelo sistema do
capital.
A
partir de diferentes modos de objetivação da produção capitalista Marx e Weber
jogam luzes, críticas e dialéticas, sobre a dominação (objetiva e subjetiva)
inaugurada pela racionalidade do valor de troca. Assim é que Marx falava da
alienação dos indivíduos como um processo de duplo sentido, material e
espiritual. Para ele, a exploração cujo resultado era a apropriação pelos
proprietários dos meios de produção da mais-valia produzida pelos
trabalhadores, tinha como contraponto uma falsa consciência dos explorados
sobre as causas de sua condição social. Privados dos meios para a reflexão
crítica e bombardeados pela ideologia da classe dominante, os trabalhadores não
podiam entender racionalmente as relações sociais que produziam o mundo em que
viviam e a particularidade de sua própria condição nele.
Isso
que para Marx aparece como alienação, em Weber é visto como racionalização,
como uma lógica de organização da vida social encerrada na métrica da
eficiência atrelada a um fim. Quando o sentido da ação social, isto é, da ação
de uns indivíduos em relação aos outros, se guia pelo fim da lucratividade, que
é o que predomina nas sociedades capitalistas, um mesmo "espírito"
guia todos, convertendo todos em capitalistas, ainda que poucos sejam os
proprietários dos meios de produção. Esse espírito se converte em uma jaula de
ferro! expressão do próprio Weber. Os indivíduos e grupos vivem e organizam
suas vidas de acordo com uma lógica formalmente adequada ao fim da economia
capitalista, de acordo com a dinâmica da oferta e da procura no mercado, mas
substantivamente desconectada dos outros fins norteadores de nossa ação.
Daí
que, das duas uma, modifica-se o fim econômico ou modificam-se os fins das
outras esferas da vida (afetiva, religiosa, acadêmica, artística etc.). A opção
B predomina... e se revela inadequada, como revelam todos, absolutamente todos
os indicadores que se queira considerar, para promover uma sociedade assentada
nos ideais burgueses da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Weber chamou
de burocracia ao tipo de dominação típico das relações sociais capitalistas.
Ocupados
de decifrar as vias pelas quais da revolução seria parida uma nova ordem, Lenin
e Trotsky tinham plena consciência de que a dominação burocrática não era um
fenômeno estritamente capitalista. Com suas hierarquias, formas de distribuição
de status e poder, portanto, a burocracia, juntamente com a propriedade feudal,
era um entrave a qualquer projeto de democratização e de socialismo
democrático.
Daí se
porem o problema de como organizar democraticamente uma sociedade
pós-revolucionária que herdara um Estado constituído em bases feudais. Passado
o período revolucionário, Stálin deu as cartas e burocratizou o partido por
dentro do Estado. Quando Orwell escreveu 1984, fez uma crítica à burocracia que
serve, até hoje, como referência para pensar o socialismo real e o capitalismo
real, quisesse ele ou não. Cabe perguntar: mantida a dominação burocrática é
possível vivermos numa sociedade democrática? É possível fazer com que a
burocracia aja com fins democráticos? Como? É possível haver democracia em
sociedades capitalistas? É possível haver democracia em sociedades socialistas,
tais quais as conhecemos?
Quando
autores dos séculos XVIII e XIX falavam de socialismo, faziam-no pensando em
mudar as formas de dominação e exploração do trabalho; uma mudança que incluía
a vida material e espiritual dos indivíduos, considerando as conquistas
passadas. Ou seja, como a nova sociedade, a síntese entre o passado e o
presente poderia ser traduzida num futuro que rompia com as travas à existência
de uma sociedade igualitária, livre e fraterna?
Esse
problema permanece, mas ainda não fomos capazes de, entendendo o passado e o
presente, semear o futuro. Continuamos a nos guiar por métodos anacrônicos. Mas
se temos clareza do problema, já temos meio caminho andado para a resposta. O
hábito, segundo Hegel, é um agir sem oposição. Presos à jaula de ferro da
crítica weberiana, submetidos à vida calculada e ao poder abrangente da
burocracia, os indivíduos tendem a naturalizar a dominação e sucumbir à ordem
do existente. Não haverá saída da jaula weberiana sem o método marxiano da luta
de classes. O risco de não dar materialidade à resposta que nos cabe pensar e
organizar é o de não haver mais tempo. Afinal, que futuro espreita pessoas
adoecidas, entorpecidas, cansadas ou mortas?
• "Karl Marx se mantém extremamente
atual" diz o sociólogo Martin Endress
O que
Karl Marx tem a ver com o marxismo, leninismo, stalinismo? Até que ponto ele é
responsável pela ascensão ou a queda da União Soviética? O nome do filósofo
alemão nascido em 1818 e sua obra têm sido repetidamente evocados por
revolucionários e ditadores, geralmente de forma muito seletiva.
Segundo
o sociólogo Martin Endress, o olhar sobre Marx foi, durante muito tempo,
limitado, e só recentemente é possível avaliar sua obra de forma mais objetiva.
E é praticamente impossível ignorar quanto suas análises dos sistemas de
exploração do trabalho na Europa do século 19 agora se aplicam em escala
global.
"O
trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo
que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito
global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx
analisou com precisão em relação ao Ocidente."
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Eis a entrevista.
• Há quase 30 anos a União Soviética não
existe mais. Seus líderes invocavam Karl Marx repetidamente. Com razão?
Depois
de 1989, a "era dos extremos" – como o século 20 foi denominado pelo
historiador Eric Hobsbawm – novamente liberou um pouco a nossa visão sobre
Marx. Desde então o exame do potencial analítico dessa obra deixou de ser
limitado pela até então dominante concorrência de sistemas. Com isso, não
estamos acima de toda instrumentalização política das análises de Marx, mas
pelo menos é possível evitar o pré-julgamento unidimensional de sua obra. Pois
este se baseia essencialmente no que o marxismo, leninismo, stalinismo. e
outros totalitarismos como o maoísmo. fizeram de sua obra.
• Então, um abuso completo de sua obra?
Claro
que há partes difíceis nos escritos de Marx, sem dúvida. No entanto precisamos
considerar que, em vida, apenas uma pequena parcela de sua obra foi publicada,
e que se lidou com ela de forma intencionalmente seletiva. Hoje sabemos que
Friedrich Engels teve uma participação significativa na reformulação dessa
obra, especialmente dos trabalhos mais tardios. Mas sobretudo foi aquela
primeira geração que – de Karl Kautsky, passando por Rosa Luxemburg, até Lênin
– gerou e construiu aquilo que mais tarde, sob o nome de marxismo, numa alusão
a posteriori a Marx, provocou distorções políticas do sistema.
• A obra de Karl Marx ainda serve para
analisar as circunstâncias atuais?
Há dois
aspectos que mantêm uma atualidade ininterrupta. Primeiro, a obra de Marx é
única na análise das condições de desigualdade social. Se a essa análise se
aplica uma terminologia de classes, é, a princípio, totalmente secundário. Marx
chamou a atenção, de forma inigualável, para a distribuição desigual das
oportunidades e condições de vida. Em segundo lugar, vivenciamos atualmente
formas bem específicas de uma "economização" de nossas relações
sociais; uma certa dinâmica do capitalismo que Marx não tinha em mente, mas que
pelo efeito penetrante em todas as esferas da vida, se pode analisar de modo
bem semelhante ao que Marx fez em sua época.
Uma das
frases mais famosas de Marx se encontra no Manifesto do Partido Comunista. Ele
descreve o processo da evolução capitalista, que na época provocou uma tremenda
dinamização das condições de vida. Marx escreveu a respeito: "Tudo o que
se referia às ordens sociais e era estável se volatiliza, tudo o que era
sagrado é dessacralizado, e os homens são finalmente (endlich) obrigados a
encarar com olhos sóbrios sua situação de vida e suas relações
recíprocas".
• O senhor vê na palavra
"finalmente" (endlich) uma alegria secreta em relação a esse
desdobramento?
Há um
problema na formulação da palavra "endlich". Eu a interpretaria no
sentido de "por fim". Marx percebe em torno de si, não tanto na
Alemanha, mas sobretudo na Inglaterra, um ritmo de mudança social que ele
considera fora do comum e sem precedentes. Por isso, vê que os percursos até
então calmos de uma ordem social baseada por condições de vida marcadas por
estratos sociais, privilégios de nascença, relações familiares bem definidas,
continuariam a se romper. Seus contemporâneos eram confrontados com uma
realidade que, por assim dizer, lhes tirava o chão de sob os pés. Talvez o
Manifesto Comunista possa ser interpretado como uma espécie de atestado da
globalização, ou pelo menos de uma confluência europeia. Ele descreve como a
tecnologia se desenvolvia, como, por exemplo, ferrovias e redes de navegação se
alastravam cada vez mais.
Certo.
No entanto o próprio Marx tinha uma consciência muito clara da limitação de
suas análises. Há cartas tardias, endereçadas a ativistas russos, onde ele
enfatiza que suas análises foram escritas tendo em vista a Europa Ocidental.
Marx era absolutamente consciente da complexidade do mundo e, por conseguinte,
das limitações de sua própria vivência. Mesmo na Europa, os desdobramentos que
ele descrevia eram altamente solitários. Manchester foi tomada como exemplo
para a Inglaterra, mas isso era naturalmente um completo exagero. Na época,
Manchester era, com sua produção têxtil, um cosmos relativamente solitário na
Inglaterra. A Alemanha, de todo modo, estava bem atrasada em relação a essas
condições.
• E no entanto parece que ele captou bem
cedo uma dinâmica que pode ser observada hoje no mundo inteiro.
O
trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo
que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito
global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx
analisou com precisão em relação ao Ocidente. Primeiro, a produção barata é
transferida. Depois se desenvolvem ali, como acontece agora na China, polos de
produção de maior qualidade, resultando num aumento do nível salarial.
A
produção barata então emigra novamente para outras regiões do mundo, ainda mais
pobres. Isto é, podemos perfeitamente observar a elevação relativa do padrão de
vida enquanto a exploração permanece constante – para usar os termos de Marx. E
isso já permite questionar se aquilo que Marx analisou para a Europa Ocidental
não pode também ser universalizado em aspectos marcantes, ou seja, se mostra
sua relevância numa perspectiva global.
Fonte:
Por Marcelo Seráfico e José Alcimar, para IHU/DW Brasil

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