segunda-feira, 30 de março de 2026

Capitalismo, socialismo e burocracia: é possível romper a jaula de ferro sem o método da luta de classes?

Não é incomum que interpretações da realidade feitas a partir de perspectivas teóricas distintas, cheguem a conclusões muito semelhantes, sobretudo quando estamos diante de inteligências que se movem por caminhos dialéticos e pensam o mundo e suas contradições cientes de que a produção de conceitos jamais pode ser presidida pelo ideal positivista de reduplicação mecânica dos objetos, sejam estes oriundos do mundo objetivo das coisas, do mundo subjetivo dos indivíduos ou do mundo das relações sociais. Um desses casos é o problema que levou as geniais inteligências de Karl Marx e Max Weber a entender a “gênese do capitalismo”, isto é, a explicação e compreensão do modo pelo qual se generalizaram as relações sociais de produção capitalistas e a ação social racional com relação ao fim de lucrar, respectivamente.

Pretendemos, aqui, chamar a atenção apenas para um aspecto das conclusões decorrentes da complexa interpretação proposta por esses intelectuais, aquele atinente ao que poderíamos qualificar como “extravio da ação consciente do indivíduo”, processo através do qual a racionalidade de toda a ação se desvia de qualquer sentido subjetivo e se converte em mera realização de um fim objetivo – a geração de lucros – alheio aos interesses e às possibilidades reais de o indivíduo se realizar nele. Hegel, guiado pela ideia de que a história é, em última instância, conduzida pelo espírito absoluto, e que razão e revolução inerentemente se implicam – o que concorreria para levar a humanidade ao patamar de uma sociedade civil forjada pela eticidade do Estado – jamais imaginaria que sob as relações sociais capitalistas é a contrarrevolução que passa a definir a teleologia da razão. Por vias distintas, Marx e Weber mostram que o espírito absoluto da racionalidade hegeliana foi devidamente enjaulado pela ordem da razão instrumental e pela burocracia produzidas pelo sistema do capital.

A partir de diferentes modos de objetivação da produção capitalista Marx e Weber jogam luzes, críticas e dialéticas, sobre a dominação (objetiva e subjetiva) inaugurada pela racionalidade do valor de troca. Assim é que Marx falava da alienação dos indivíduos como um processo de duplo sentido, material e espiritual. Para ele, a exploração cujo resultado era a apropriação pelos proprietários dos meios de produção da mais-valia produzida pelos trabalhadores, tinha como contraponto uma falsa consciência dos explorados sobre as causas de sua condição social. Privados dos meios para a reflexão crítica e bombardeados pela ideologia da classe dominante, os trabalhadores não podiam entender racionalmente as relações sociais que produziam o mundo em que viviam e a particularidade de sua própria condição nele.

Isso que para Marx aparece como alienação, em Weber é visto como racionalização, como uma lógica de organização da vida social encerrada na métrica da eficiência atrelada a um fim. Quando o sentido da ação social, isto é, da ação de uns indivíduos em relação aos outros, se guia pelo fim da lucratividade, que é o que predomina nas sociedades capitalistas, um mesmo "espírito" guia todos, convertendo todos em capitalistas, ainda que poucos sejam os proprietários dos meios de produção. Esse espírito se converte em uma jaula de ferro! expressão do próprio Weber. Os indivíduos e grupos vivem e organizam suas vidas de acordo com uma lógica formalmente adequada ao fim da economia capitalista, de acordo com a dinâmica da oferta e da procura no mercado, mas substantivamente desconectada dos outros fins norteadores de nossa ação.

Daí que, das duas uma, modifica-se o fim econômico ou modificam-se os fins das outras esferas da vida (afetiva, religiosa, acadêmica, artística etc.). A opção B predomina... e se revela inadequada, como revelam todos, absolutamente todos os indicadores que se queira considerar, para promover uma sociedade assentada nos ideais burgueses da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Weber chamou de burocracia ao tipo de dominação típico das relações sociais capitalistas.

Ocupados de decifrar as vias pelas quais da revolução seria parida uma nova ordem, Lenin e Trotsky tinham plena consciência de que a dominação burocrática não era um fenômeno estritamente capitalista. Com suas hierarquias, formas de distribuição de status e poder, portanto, a burocracia, juntamente com a propriedade feudal, era um entrave a qualquer projeto de democratização e de socialismo democrático.

Daí se porem o problema de como organizar democraticamente uma sociedade pós-revolucionária que herdara um Estado constituído em bases feudais. Passado o período revolucionário, Stálin deu as cartas e burocratizou o partido por dentro do Estado. Quando Orwell escreveu 1984, fez uma crítica à burocracia que serve, até hoje, como referência para pensar o socialismo real e o capitalismo real, quisesse ele ou não. Cabe perguntar: mantida a dominação burocrática é possível vivermos numa sociedade democrática? É possível fazer com que a burocracia aja com fins democráticos? Como? É possível haver democracia em sociedades capitalistas? É possível haver democracia em sociedades socialistas, tais quais as conhecemos?

Quando autores dos séculos XVIII e XIX falavam de socialismo, faziam-no pensando em mudar as formas de dominação e exploração do trabalho; uma mudança que incluía a vida material e espiritual dos indivíduos, considerando as conquistas passadas. Ou seja, como a nova sociedade, a síntese entre o passado e o presente poderia ser traduzida num futuro que rompia com as travas à existência de uma sociedade igualitária, livre e fraterna?

Esse problema permanece, mas ainda não fomos capazes de, entendendo o passado e o presente, semear o futuro. Continuamos a nos guiar por métodos anacrônicos. Mas se temos clareza do problema, já temos meio caminho andado para a resposta. O hábito, segundo Hegel, é um agir sem oposição. Presos à jaula de ferro da crítica weberiana, submetidos à vida calculada e ao poder abrangente da burocracia, os indivíduos tendem a naturalizar a dominação e sucumbir à ordem do existente. Não haverá saída da jaula weberiana sem o método marxiano da luta de classes. O risco de não dar materialidade à resposta que nos cabe pensar e organizar é o de não haver mais tempo. Afinal, que futuro espreita pessoas adoecidas, entorpecidas, cansadas ou mortas?

•        "Karl Marx se mantém extremamente atual" diz o sociólogo Martin Endress

O que Karl Marx tem a ver com o marxismo, leninismo, stalinismo? Até que ponto ele é responsável pela ascensão ou a queda da União Soviética? O nome do filósofo alemão nascido em 1818 e sua obra têm sido repetidamente evocados por revolucionários e ditadores, geralmente de forma muito seletiva.

Segundo o sociólogo Martin Endress, o olhar sobre Marx foi, durante muito tempo, limitado, e só recentemente é possível avaliar sua obra de forma mais objetiva. E é praticamente impossível ignorar quanto suas análises dos sistemas de exploração do trabalho na Europa do século 19 agora se aplicam em escala global.

"O trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx analisou com precisão em relação ao Ocidente."

<><> Eis a entrevista.

•        Há quase 30 anos a União Soviética não existe mais. Seus líderes invocavam Karl Marx repetidamente. Com razão?

Depois de 1989, a "era dos extremos" – como o século 20 foi denominado pelo historiador Eric Hobsbawm – novamente liberou um pouco a nossa visão sobre Marx. Desde então o exame do potencial analítico dessa obra deixou de ser limitado pela até então dominante concorrência de sistemas. Com isso, não estamos acima de toda instrumentalização política das análises de Marx, mas pelo menos é possível evitar o pré-julgamento unidimensional de sua obra. Pois este se baseia essencialmente no que o marxismo, leninismo, stalinismo. e outros totalitarismos como o maoísmo. fizeram de sua obra.

•        Então, um abuso completo de sua obra?

Claro que há partes difíceis nos escritos de Marx, sem dúvida. No entanto precisamos considerar que, em vida, apenas uma pequena parcela de sua obra foi publicada, e que se lidou com ela de forma intencionalmente seletiva. Hoje sabemos que Friedrich Engels teve uma participação significativa na reformulação dessa obra, especialmente dos trabalhos mais tardios. Mas sobretudo foi aquela primeira geração que – de Karl Kautsky, passando por Rosa Luxemburg, até Lênin – gerou e construiu aquilo que mais tarde, sob o nome de marxismo, numa alusão a posteriori a Marx, provocou distorções políticas do sistema.

•        A obra de Karl Marx ainda serve para analisar as circunstâncias atuais?

Há dois aspectos que mantêm uma atualidade ininterrupta. Primeiro, a obra de Marx é única na análise das condições de desigualdade social. Se a essa análise se aplica uma terminologia de classes, é, a princípio, totalmente secundário. Marx chamou a atenção, de forma inigualável, para a distribuição desigual das oportunidades e condições de vida. Em segundo lugar, vivenciamos atualmente formas bem específicas de uma "economização" de nossas relações sociais; uma certa dinâmica do capitalismo que Marx não tinha em mente, mas que pelo efeito penetrante em todas as esferas da vida, se pode analisar de modo bem semelhante ao que Marx fez em sua época.

Uma das frases mais famosas de Marx se encontra no Manifesto do Partido Comunista. Ele descreve o processo da evolução capitalista, que na época provocou uma tremenda dinamização das condições de vida. Marx escreveu a respeito: "Tudo o que se referia às ordens sociais e era estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessacralizado, e os homens são finalmente (endlich) obrigados a encarar com olhos sóbrios sua situação de vida e suas relações recíprocas".

•        O senhor vê na palavra "finalmente" (endlich) uma alegria secreta em relação a esse desdobramento?

Há um problema na formulação da palavra "endlich". Eu a interpretaria no sentido de "por fim". Marx percebe em torno de si, não tanto na Alemanha, mas sobretudo na Inglaterra, um ritmo de mudança social que ele considera fora do comum e sem precedentes. Por isso, vê que os percursos até então calmos de uma ordem social baseada por condições de vida marcadas por estratos sociais, privilégios de nascença, relações familiares bem definidas, continuariam a se romper. Seus contemporâneos eram confrontados com uma realidade que, por assim dizer, lhes tirava o chão de sob os pés. Talvez o Manifesto Comunista possa ser interpretado como uma espécie de atestado da globalização, ou pelo menos de uma confluência europeia. Ele descreve como a tecnologia se desenvolvia, como, por exemplo, ferrovias e redes de navegação se alastravam cada vez mais.

Certo. No entanto o próprio Marx tinha uma consciência muito clara da limitação de suas análises. Há cartas tardias, endereçadas a ativistas russos, onde ele enfatiza que suas análises foram escritas tendo em vista a Europa Ocidental. Marx era absolutamente consciente da complexidade do mundo e, por conseguinte, das limitações de sua própria vivência. Mesmo na Europa, os desdobramentos que ele descrevia eram altamente solitários. Manchester foi tomada como exemplo para a Inglaterra, mas isso era naturalmente um completo exagero. Na época, Manchester era, com sua produção têxtil, um cosmos relativamente solitário na Inglaterra. A Alemanha, de todo modo, estava bem atrasada em relação a essas condições.

•        E no entanto parece que ele captou bem cedo uma dinâmica que pode ser observada hoje no mundo inteiro.

O trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx analisou com precisão em relação ao Ocidente. Primeiro, a produção barata é transferida. Depois se desenvolvem ali, como acontece agora na China, polos de produção de maior qualidade, resultando num aumento do nível salarial.

A produção barata então emigra novamente para outras regiões do mundo, ainda mais pobres. Isto é, podemos perfeitamente observar a elevação relativa do padrão de vida enquanto a exploração permanece constante – para usar os termos de Marx. E isso já permite questionar se aquilo que Marx analisou para a Europa Ocidental não pode também ser universalizado em aspectos marcantes, ou seja, se mostra sua relevância numa perspectiva global.

 

Fonte: Por Marcelo Seráfico e José Alcimar, para IHU/DW Brasil

 

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