Soberania
restringida e desenvolvimento nacional
O
tratamento da soberania nacional e sua relação com o desenvolvimento, assim
como o grau de resiliencia de uma determinada nação as crises internacionais e
a própria capacidade de se impor autonomamente nas relações internacionais
capitalistas retomaram ao centro do debate a partir do atual momento de
irracionalidade sistêmica global.
O atual
ciclo de guerras faz parte da intensa crise do imperativo imperialista
estadunidense, como já tratado em outros textos neste site, porém demonstra que
o grau de confronto do poder estatal iraniano é muito superior aos Estados do
chamado “hemisfério sul”, inclusive, infelizmente a nação venezuelana, como
demonstrado no episódio recente de sequestro do presidente Maduro. O objetivo
deste artigo será tratar dois elementos: o sentido da soberania nacional e suas
formas e, por outro, as relações com o desenvolvimento nacional e os riscos com
a fragilidade geopolítica brasileira.
A
economia mundial capitalista tem o caráter de desenvolvimento desigual e
combinado, como já formulado por diversos autores clássicos, entre os quais
Trotsky e Gunder Frank, o que se materializa em um padrão internacional de
divisão do trabalho na qual a economia mundial se funcionalizou dividida em
grandes zonas de soberania e de arranjos alimentares, energéticos,
tecnológicos, geopolíticos (militares) e de controle financeiro: o centro, a
semiperiferia e a periferia, sendo que essa divisão aparece funcional para
garantir a transferência de riqueza e apropriação de mais-valor pelos centros e
novos-centros em detrimento da periferia e da semiperiferia, permitindo o
desenvolvimento do capitalismo nas regiões de liderança tecnológica, militar e
financeira e o subdesenvolvimento (em condições de dependência) nas regiões de
menor progresso tecnológico e subordinação geopolítica financeira.
A
economia mundial se estabelece, portanto enquanto diversos circuitos
reprodutivos de capital superpostos e integrados, sendo que essa relação é o
que constitui a lógica imperialista, por um lado, e de dependência por outro. O
que se denomina de soberania nacional deve ser entendido como o maior ou menor
grau de autonomia nacional em relação a cinco eixos centrais: tecnológico,
financeiro, geopolítico, energético e de reprodução social das populações. Como
demonstra o atual ciclo de disputa econômica e militar global, a América Latina
e, principalmente o Brasil, constituem uma zona frágil e de baixa capacidade de
resistência ao poder econômico e bélico estadunidense, vide o ocaso venezuelano
em contraposição ao poder de resistência militar iraniano frente ao mesmo
verdugo da geopolítica e da geoeconomia globais.
A
América Latina está na região espacial periférica de maior controle e
subordinação aos EUA, condicionada em grande medida pelo seu poder de
intervenção bélica, econômica e ideológica, sendo que em função disso a
soberania dos Estados nacionais latino-americanos se mostra extremamente frágil
nos cinco pontos centrais que constituem ou determinam a noção ampla de
soberania nacional enquanto ordem de poder na divisão internacional do
trabalho:
1 –
Quanto a capacidade de domínio tecnológico e de controle sobre os principais
segmentos da reprodução técnica do capital. Neste aspecto, tanto a dependência
de plantas industriais transplantadas, quanto pelo fato da não neutralidade da
tecnologia e de sua razão antropocêntrica, observa-se uma série de
consequências negativas as sociedades latino-americanas, inclusive os aspectos
de formação de uma gigantesca superpopulação relativa e as consequências de
bolsões de pobreza, desocupação e informalidade. O agravamento da perda de
capacidade tecnológica nas últimas duas décadas se torna mais expressivo na
medida em que a base de produção se torna cada vez vinculada ao controle das
informações e das bases de dados.
Como
observou Theotônio dos Santos em obra que comentamos neste site, o processo de
desenvolvimento de ciência e tecnologia autóctone constitui o centro para o
processo de inserção soberana de qualquer nação, sendo apoiada em três vetores
básicos: (1) a aceleração dos incrementos científicos e tecnológicos integrados
a capacidade produtiva e arranjos institucionais; (2) condução das pesquisas
cientificas através de maior planejamento estatal; (3) planejamento da RCT
(Revolução Científico Tecnológica) em conformidade a um projeto nacional de
envergadura social e ambiental inclusiva da população brasileira, o que se
vinculava na visão daquele autor a “planejar o seu destino histórico de
libertação”.
2 – A
maior autonomia nacional em relação ao circuito financeiro internacional,
inclusive em termos da manutenção de um arranjo institucional entre o Banco
Central (BC), o Tesouro Nacional (TN) e a Receita Federal (RF), estabelecendo
maiores condições de controle nacional sobre seu sistema de crédito e a base
monetária são componentes chaves da soberania financeira. Este fator implica a
capacidade, em termos de moeda nacional de conseguir fazer tanto as trocas
comerciais internacionais tendo como base sua moeda nacional, como também o
controle sobre os fluxos de capitais (Investimento Externo Direto) e as
consequentes transferências de rendas (lucros e juros) para os países centrais,
no caso da América Latina centralmente para os EUA.
Quatro
pontos devem ser rapidamente alinhavados como elos importantes da soberania
financeira: a) o controle sobre as remessas de lucros, dividendos e juros. Isso
subentende a necessidade de uma política econômica de controle sobre o sistema
de divida pública, tanto sobre o volume de juros pagos, quanto sua vinculação
principal ao financiamento para alavancagem do crescimento nacional; b) do
mesmo modo políticas soberanas sobre o pagamento de dividendos e remessa de
lucros devem ser recriados e adotadas, como aliás nós já tivemos; c) retomada
do controle nacional sobre o Banco Central, reestabelecendo sua vinculação ao
Estado nacional e desenvolvendo uma maior conectividade interna entre o regime
fiscal do Tesouro Nacional e o sistema de crédito nacional, o que implica uma
base de controle soberana sobre a taxa de juros; d) ampliar a estatização do sistema bancário,
tanto aumentando a capilaridade do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica
Federal (CEF), quanto pela maior intervenção dos investimentos subsidiados pelo
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
3 – O
controle geopolítico do território e a capacidade de intervenção
extraterritorial. Aqui dois elementos se integram, de um lado o poder militar
autônomo que apresenta maior ou menor capacidade de dissuasão de ofensivas de
outros Estados beligerantes, considerando o uso autônomo e soberano do
território em conformidade aos interesses de um projeto nacional e, por fim, a
capacidade de arbítrio e influência na ordem de decisão multilateral
internacional. A América Latina apresenta enorme dependência e subordinação
neste aspecto, seja pela incapacidade de se colocar nos acordos multilaterais
internacionais, seja pela própria gestão dos seus territórios, em grande medida
sujeitos a intervenção do poder imperial estadunidense.
Como
demonstrado pelos recentes episódios de intervenção beligerante e pela história
anterior, como mostramos em texto aqui publicado com base na obra de Moniz
Bandeira, a doutrina Monroe estadunidense considera que seu “espaço vital”
inclui o conjunto da América Latina, sendo que espaços econômicos e sociais
como o Brasil não têm soberania territorial, podendo a qualquer momento ser
ocupado e suas riquezas livremente utilizadas. Estabelecer um novo padrão
militar, com a capacidade de deter tecnologia defensiva e dissuasiva, inclusive
nuclear, são pontos chaves para construção da soberania geopolítica e
geoeconômica nacionais.
4 –
Central e de grande consequência, são os fatores de ordenamento social
considerando a qualidade econômica, educacional e de saúde da população, o
exercício da cidadania enquanto poder de organização e convívio coletivo, o
poder de exercício de interação democrática nas decisões do Estado. Nesse
aspecto temos que ressaltar que as diferentes condições nacionais de reprodução
do capitalismo na América Latina se baseiam em grande medida na superexploração
do trabalho. Uma das consequências diretas dessa forma de exploração em que a
reprodução dos trabalhadores se efetua a uma taxa de salário inferior ao valor
da força de trabalho é que a qualidade de vida população é muito precária,
submetendo os trabalhadores a uma enorme precarização.
A
exemplo das demais formas de soberania vale observar que o que estamos aqui
denominando de soberania social inclui a segurança alimentar como um dos seus
elos mais importantes, sendo que no Fórum Mundial sobre Soberania Alimentar,
realizado em Havana em 2001, se consagrou uma definição de garantia do “direito
dos povos definirem suas próprias políticas e estratégias sustentáveis de
produção, distribuição e consumo de alimentos que garantam o direito à
alimentação para toda a população, com base na pequena e média produção [a fim
de] (…) erradicar a fome e a desnutrição e garantir a segurança alimentar
duradoura e sustentável para todos os povos”.
5 – Por
fim, vale considerar de forma crescentemente relevante, o papel da soberania
energética. No caso brasileiro este aspecto sempre esteve no centro das
disputas nacionais e das diversas tentativas de organização de um projeto
nacional, podendo ser remetido a Vargas e ao surgimento da Petrobrás, mas mesmo
anteriormente o estabelecimento de uma base tecnológica fundada na
hidroeletricidade possibilitou uma matriz energética bastante diferenciada em
relação a diversas nações cuja presença dos hidrocarbonetos é central. Assim
temos uma participação de 60% da hidroletricidade e, aproximadamente, 20% da
termoeletricidade. Porém, no último período de perda de soberania tivemos a
privatização da Eletrobrás e a grande redução da capacidade de investimento da
Petrobrás. Retomar (reestatizar) e avançar nas condições de oferta de uma
matriz mais diversificada se torna urgente para pensarmos o desenvolvimento
soberano nacional.
Assim,
no caso brasileiro, temos magnificado o sentido da manutenção da dependência e
da restrição da soberania nacional nas últimas décadas: em termos tecnológicos
temos uma dependência estrutural aos EUA; no caso financeiro, o sistema de
crédito brasileiro constitui um biombo do sistema estadunidense. Visível no
chamado sistema de divida pública, que basicamente funciona como um meio de
transferência de riqueza nacional para os controladores externos ou
internacionais da divida, algo em torno de 5% do PIB anual; quanto aos aspectos
geopolíticos, plenamente vinculado as relações exteriores do império
norte-americano; por fim o aspecto da qualidade de vida, onde a lógica de
superexploração do trabalho impõe precárias condições de vida para a maior
parte da população brasileira. Estabelecer um projeto de soberania nacional, a
revelia da classe dominante brasileira, incapaz de sustentar uma lógica de
autonomia em relação ao poder imperialista estadunidense, somente será tarefa
de um projeto das classes de baixo que, como nos ensinou Florestan Fernandes:
“uma crescente mobilização dos que repudiam a política por outros meios (…)
[para] remover a autocracia e desencadear a revolução democrática”.
• Política da não violência. Por Luiz
Marques
Na
concepção do fundador da politologia moderna Nicolau Maquiavel, a política se
situa na luta pelo poder através da violência para criar uma nova ordem social;
ou retardá-la. Não à toa, em O príncipe, os animais símbolos do homem político
são o leão (força) e a raposa (astúcia). Para o chanceler florentino, a “ética
laica” retira a política dos dez mandamentos bíblicos.
Para
suavizar o rosto demoníaco do poder, uma “ética especial” toma aparência de
eticidade única sob a excepcionalidade dos decretos-leis que cancelam
requisitos legais. Circunstância que confere autonomia completa à política. Em
consequência, o “imperativo categórico” (dever absoluto) vira um “imperativo
hipotético” (dever condicional). Assim, os princípios morais cedem às
providências impactantes que incidem direto na governança. “Às favas os
escrúpulos”, diz o membro da Junta Militar, no Brasil, na edição do AI-5 nos
anos de chumbo.
Já a
“ética cristã” observa os costumes para salvar ou excomungar as almas. As
causas da coletividade, os arranjos da representação e o consenso sobre
questões que afetam a população – nada disso conduz ao reino dos céus. O
altruísmo republicano em nome dos interesses gerais não leva à remissão de
faltas no privado. As indulgências foram extintas no Concílio de Trento (1563).
Se a
Teologia da Libertação impõe limites à dinâmica do mercado na redemocratização
do país, a Teologia do Domínio na atualidade apoia os ajustes fiscais que
produzem legiões de excluídos; na sequência, capturados pelo
neopentecostalismo. A lavagem cerebral converte desesperados em massa de
manobra dos mercadores da fé. Em vez da solidariedade, a meritocracia
calvinista é esgrimida para justificar as desigualdades sociais.
A
antipolítica é o subterfúgio pelo qual a religião e o capital reagem à perda de
autoridade no aparato estatal. A antipolítica sufoca a crítica enquanto
desmonta a legislação trabalhista e os órgãos de fiscalização. A improvável
aliança dos crentes com políticos de extrema direita abre a Porta do Inferno.
Não a da magnífica escultura de Auguste Rodin iniciada em 1880 e finalizada em
1917; e sim a da necropolítica do Consenso de Washington (1989) implementada a
partir de então a rodo.
A
ideologia da desregulamentação permite ao deus-mercado afrouxar o controle
ambiental, ao custo inclusive da extinção dos principais biomas na Terra
brasilis: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. O
imediatismo do lucro em áreas de preservação (desmatamento, monocultura,
garimpo) prenuncia o apocalipse. O lobo (voracidade / homo homini lupus) também
ajuda na compreensão da formação da “razão de Estado” sem as obrigações que,
com ditames universais, regem e julgam as ações dos comuns. O cinismo espalha
uma falsa consciência.
A mídia
corporativa acoberta o antropoceno com a comunicação tóxica. São longos os
tentáculos do negacionismo da crise climática para desviar a responsabilidade
ecológica dos países desenvolvidos e do agronegócio. Em paralelo, as boas novas
do governo do presidente Lula saem com a inflexão adversativa “mas” nos
noticiários. Os donos da opinião pública praticam o jornalismo venal, avesso à
natureza, à sociedade e à verdade.
A
intenção é esfriar a empatia interpessoal e interespécies. O pleno emprego é
abjurado; induz trabalhadores a reivindicarem a ocupação de vagas com melhores
salários. O fim da escala 6 x 1 é refutado pelas entidades empresariais. Por
elas, não existiriam os sindicatos e a jornada de trabalho ainda seria de 14 a
16 horas diárias como era praxe no século XIX. Eppur se muove a luta pelo
direito a ter direitos, apesar dos muitos discursos terroristas.
A
retórica das liberdades individuais tem um caráter instrumental. Potencializa a
acumulação, fantasia a uberização do trabalho e o extrativismo de commodities.
O axioma de que, para salvar a pátria não se deve tecer qualquer consideração a
respeito do que é justo ou injusto, promove uma derrogação das leis. “Para
passar a boiada”, expõe um dos ministros trapaceiros em reunião do desgoverno
bolsonarista no show de bizarrices e cafajestadas.
A
relação da ética com a política é agravada na experiência histórica desde o
contraste que opõe Antígona a Creonte, na peça de Sófocles. A ideia de que os
fins justificam os meios é adotada pelo imperialismo, que trata ilícitos morais
como lícitos em política. Vide a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos para
sequestrar Nicolás Maduro / Cília Flores e abocanhar o petróleo caribenho. Sob
o poder trumpista até a sandice é normalizada.
Em A
força da não violência: um vínculo ético-político, Judith Butler rejeita a
visão de que a política obedece a um código normativo incompatível com a
conduta moral, como pretende o imperialismo estadunidense com uma ética
exclusiva para si. Para a teórica feminista da Universidade da Califórnia é
fundamental a defesa da não violência – não estritamente pacífica – em prol de
um compromisso para dignificar a vida e o enlutamento.
Lembremos
a operação policial do morticínio que, a mando do desgovernador do Rio de
Janeiro, aterrorizou o Morro do Alemão e Penha. Os 121 corpos periféricos
mortos estendidos no asfalto não tiveram direito ao luto de amigos e
familiares. Favelados pretos não deixam saudades. Porém outro mundo é possível
sem barbárie – com programa, organização, mobilização nas ruas.
O termo
“não violência” vem do sânscrito Ahimsa, “ausência do desejo de ferir ou
matar”: acena a cooperação e a abertura à diversidade. Mahatma Gandhi na
Independência da Índia e Martin Luther King Jr nos direitos civis dos EUA
ilustram os pleitos – sem passividade – diante das injustiças e preconceitos
estruturais. Batalhas institucionais memoráveis mostram ser factível.
A
superação da violência implica uma práxis para a expansão das oportunidades e
dos resultados. Os movimentos Black Lives Matter e Ni Una Menos demonstram a
possibilidade da não violência ativa no combate ao racismo e ao feminicídio. Ao
método de luta somam-se o MST (rural) e o MTST (urbano) e a Parada de Orgulho
LGBTQUIA+ para que políticas públicas freiem agressões à civilidade, sem a
vingança de Talião.
A
democracia é o sistema que aproxima a ética da política, fomenta a soberania
nacional e popular, e garante eleições para propiciar as condições – não
obrigatoriedade – da alternância no poder. De um lado, estão os que desejam o
Estado para servir a cidadania e, na esteira de Rosa Luxemburgo no artigo
Utopias pacifistas, denunciar o conteúdo de classe do militarismo. De outro, a
plutocracia (as finanças, as big techs) para privatizar o Estado. Eis a
polarização, de fundo, no processo eleitoral. Temos a oportunidade de barrar a
marcha da “autocratização” mundial.
Fonte:
Por José Raimundo Trindade, em A Terra é Redonda

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