Eduardo
Xavier Lemos: Banco Master e a engrenagem invisível - mídia, Direito e a
seletividade do poder
O
escândalo envolvendo o chamado “Banco Master” não é apenas mais um episódio de
irregularidade financeira a ser arquivado na memória curta do noticiário
nacional. Trata-se, na verdade, de um sintoma eloquente de algo mais profundo:
a relação estrutural entre poder econômico, sistema financeiro e a construção
seletiva das narrativas públicas — fenômeno que não pode ser compreendido fora
da lógica da instrumentalização do discurso jurídico-midiático.
A
primeira questão que se impõe é a assimetria no tratamento dos fatos. Quando
determinados agentes políticos ou grupos econômicos são alvos (diretos ou
indiretos), a cobertura midiática costuma assumir tons de escândalo permanente,
com espetacularização, juízos antecipados e um vocabulário cuidadosamente
orientado à condenação pública. Entretanto, quando recaem sobre lideranças
conservadoras, observa-se um tratamento, no mínimo, comedido — quando não
francamente evasivo. Trata-se de uma contenção narrativa que não decorre da
ausência de gravidade, mas da seletividade que organiza o sistema de
visibilidade.
Jamais
podemos esquecer que a estrutura do Lawfare não se limita ao uso estratégico do
sistema jurídico contra adversários políticos; ela pressupõe uma engrenagem
mais ampla, na qual a mídia atua como vetor de legitimação. Não há Lawfare sem
narrativa. E não há narrativa sem escolha: escolha do que mostrar, de como
mostrar e, sobretudo, do que silenciar. Nesse sentido, o escândalo do Banco
Master revela não apenas possíveis ilícitos financeiros, mas a própria
arquitetura de proteção simbólica de que certos atores desfrutam no espaço
público.
É
preciso reforçar que a mídia, no interior do sistema capitalista, não pode ser
compreendida como instância neutra de difusão de informações, mas como parte
integrante da superestrutura ideológica que sustenta e reproduz as relações de
dominação da base econômica. O Direito, quando capturado por essas dinâmicas,
afasta-se de sua função garantidora e passa a operar como ferramenta de poder.
Defendemos,
evidentemente, as investigações e o combate à criminalidade; no entanto, não se
pode olvidar que o sistema capitalista preserva seus pilares. Por isso, é
indispensável o acompanhamento atento e crítico do avanço das investigações e
da formação das narrativas.
Com
esse olhar criterioso, devem ser analisadas as negociações de colaboração
premiada relacionadas ao caso Master. Em que medida elas são tratadas como
instrumento legítimo de elucidação dos fatos? E em que medida podem estar sendo
utilizadas como peça estratégica dentro de um jogo mais amplo de disputa
narrativa?
A
colaboração premiada, como se sabe, é um mecanismo jurídico sensível que,
quando mal utilizado, pode ser convertido em instrumento de pressão, barganha e
até de construção seletiva da verdade — especialmente quando amplificado por
uma cobertura midiática que escolhe quais vozes legitimar e quais silenciar.
No caso
do Banco Master, observa-se uma curiosa ambiguidade. De um lado, há aparente
disposição de setores da mídia em conferir credibilidade à narrativa
apresentada pelo líder do esquema (um banqueiro). De outro, há quase ausência
de escrutínio crítico sobre as condições dessa colaboração: quais são os termos
negociados? Quais interesses estão em jogo? Que garantias existem de que não
estamos diante de uma versão construída sob incentivos que distorcem a busca
pela verdade?
Também
devemos rememorar a Operação Lava Jato, marcada pelas colaborações premiadas e
pelo discurso midiático, que teve início a partir de investigações envolvendo
um deputado federal de direita e suas relações com um conhecido doleiro, já
implicado no escândalo do Banestado. A partir desse ponto, consolidou-se uma
narrativa seletiva, na qual as responsabilidades passaram a recair sobre
empresas públicas e governos progressistas.
Cabe
recordar, ainda, que tanto a mídia quanto o Direito — enquanto expressões da
ordem burguesa — integram a superestrutura do capitalismo. Não são neutros, mas
instrumentos que refletem e sustentam os interesses da classe dominante. A
grande mídia atua na formação da opinião pública, difundindo valores que
naturalizam desigualdades; o Direito, por sua vez, opera na esfera normativa,
conferindo aparência de legitimidade às relações de exploração. Ambos, em
regra, contribuem para a manutenção da hegemonia burguesa.
Portanto,
o escândalo do Banco Master não deve ser analisado de modo desatento ou mesmo
por um olhar exclusivamente econômico ou jurídico, mas, sim, com uma leitura
crítica de como o poder se protege e de como a narrativa pública pode ser
moldada para suavizar, distorcer ou ocultar responsabilidades. Ignorar isso é
aceitar, passivamente, que a verdade continue sendo um produto seletivo a
serviço da manutenção do sistema capitalista. E, onde há seletividade
sistemática, não há justiça — há estratégia política para preservação do
sistema capitalista.
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CPIs, triste fim! Por Antônio Carlos de Almeida Castro
(Kakay)
A
Comissão Parlamentar de Inquérito é um braço do Poder Legislativo, um
instrumento do Poder Legislativo, que possui poderes de investigação próprios
das autoridades judiciais, como definido no artigo 58, § 3º, da Constituição. É
um poder enorme. Foi pensada para apurar um fato determinado, por um prazo
certo de duração. Mas, nestes tempos de transmissão ao vivo pela televisão,
infelizmente, a CPI virou um palco. Não direi um circo, em homenagem e respeito
ao Poder Legislativo e aos palhaços profissionais. O que temos assistido, de
abusos, chega a chocar. Com tantos abusos, o Judiciário, cada vez mais, vai
limitando os poderes da CPI.
Antes,
o comparecimento do convocado era obrigatório, ainda que pudesse, é óbvio,
exercer o direito constitucional ao silêncio para não se autoincriminar. Com a
humilhação a que foram submetidos os convocados por deputados e senadores, o
Supremo Tribunal passou simplesmente a autorizar a não obrigatoriedade de
comparecimento. Um tiro na efetividade das CPIs e, principalmente, na
espetacularização. No jogo baixo da exposição midiática.
Com
enorme desfaçatez, o relator da CPI do INSS, que teve sua prorrogação proibida
pelo Supremo Tribunal, simplesmente ousou pedir a prisão do Lulinha, filho do
presidente Lula. Claro que não foi aprovada a exdrúxula proposta, mas já foi
matéria em todo o noticiário. Conseguiu a extrema direita as manchetes que
queria para colocar nas redes. Quem ouve inadvertidamente acredita que a CPI
poderia prender o filho do Lula. Jogo baixo, rasteiro. Vulgar.
A CPI
trabalha com afinco para se inviabilizar. Não existe mais sentido em manter a
existência deste instrumento de achaque, que está desmoralizado. Outra vez o
Supremo Tribunal é chamado a conter os abusos. Outra vez abre um caminho para
críticas ao Poder Judiciário, acusado de excesso de poder e de ingerência no
Legislativo. Ora, o Poder Judiciário é um poder inerte, que só cumpre seu papel
constitucional quando batem às suas portas. É hora de pensar em limites a estes
abusos vulgares das CPIs. Ou, talvez, pensar que o acúmulo de tantos poderes —
Legislativo com poderes do Judiciário — não funcionou. Simples assim.
Remeto-me
a Pessoa, na pessoa de Caeiro, dada a perplexidade:
“Sei
ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera
deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo...”
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Haddad atribui a Campos Neto expansão do Banco Master e
denuncia armação contra Lula
O
ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando
Haddad, afirmou que a expansão do Banco Master — investigado por uma das
maiores fraudes financeiras da história do país — ocorreu durante a gestão de
Roberto Campos Neto no Banco Central. Em entrevista ao programa Boa Noite 247,
exibido na última terça-feira (24), Haddad também denunciou tentativas de uso
político do caso e classificou como “indefensável” o PowerPoint da Globonews
que tentou associar o presidente Lula e o atual presidente do Banco Central,
Gabriel Galípolo, ao escândalo.
Haddad
explicou que, após uma negativa inicial no início de 2019, o Banco Master
passou a receber autorizações que permitiram sua rápida expansão no mercado
financeiro ainda naquele ano, já sob a presidência de Roberto Campos Neto.
“Começa uma escalada do Banco Master a partir de uma série de autorizações para
atuar de forma mais ampla e adquirir instituições financeiras, o que fez o
banco dobrar de tamanho até atingir um passivo de R$ 80 bilhões”, declarou.
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Expansão ocorreu sob gestão anterior
Haddad
foi categórico ao delimitar o período de crescimento do banco. “Toda a
liberação de atuação do Banco Master aconteceu entre 2019 e 2024, ou seja, na
gestão do Roberto Campos Neto”, afirmou.
Ele
também destacou que diversos agentes do sistema financeiro alertaram o Banco
Central ao longo dos anos. “Todo mundo alertou o Banco Central durante anos de
que alguma coisa de muito errada estava acontecendo no Banco Master”, disse,
citando bancos, entidades do setor e o Fundo Garantidor de Crédito.
Para o
ex-ministro, houve uma falha grave de supervisão. “O pecado original que foi
cometido foi o de supervisão desta instituição financeira”, declarou.
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Governo Lula atuou para conter a crise
Haddad
afirmou que a situação começou a ser revertida com a mudança no comando do
Banco Central já no governo do presidente Lula. “Quando toma posse o presidente
do Banco Central indicado pelo presidente Lula, estanca a sangria do Banco
Master”, disse, em referência a Gabriel Galípolo.
Ele
relatou ainda que, ao assumir o Ministério da Fazenda, foi procurado por
representantes do sistema financeiro preocupados com o caso. “Já havia suspeita
de corrupção no seio do sistema financeiro, com pessoas dizendo que não era
possível que tudo aquilo estivesse acontecendo sem algum tipo de irregularidade
no Banco Central”, afirmou.
Haddad
também questionou a lógica financeira das operações do banco. “Não existe
negócio no mundo de R$ 80 bilhões que renda 140% do CDI”, disse.
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PowerPoint foi “indefensável”
O
ex-ministro criticou duramente o PowerPoint que tentou associar Lula, o PT e
Galípolo ao caso. “Aquilo é indefensável sob todos os aspectos”, afirmou.
Ele
questionou a presença de elementos políticos no material. “A bandeira do PT
está fazendo o quê ali? Por que um partido político aparece em uma apresentação
desse tipo?”, disse.
Haddad
defendeu que as investigações ocorram com responsabilidade e sem exploração
política. “Nós temos que pedir para a polícia e para o Ministério Público que
cheguem à verdade, e que cada um responda pela gravidade dos atos que
eventualmente tenha cometido”, afirmou.
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Defesa da verdade e responsabilização
O
ex-ministro também alertou para o risco de repetição de práticas de perseguição
política. “Nós não podemos cometer os erros que cometeram contra nós”, disse.
Ele
enfatizou que o foco deve ser a responsabilização individual. “O risco não deve
ser traçado entre partidos, mas entre pessoas honestas e pessoas desonestas”,
afirmou.
Haddad
concluiu defendendo confiança nas instituições. “O trabalho está sendo feito
com seriedade pelo Banco Central atual, pela Polícia Federal e pelo Ministério
Público. O que nós queremos é a verdade e a responsabilização de quem estiver
envolvido”, declarou.
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Advogado oferece 20 mil reais para quem perguntar a
Campos Neto sobre o Banco Máster
advogado
Roberto Bertholdo postou vídeo nas redes sociais oferecendo R$ 20 mil para o
primeiro profissional de comunicação ou estudante que fizer um questionamento
ao ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto que ele ainda não
precisou responder a respeito do caso do Banco Master.
“Você
quer ganhar 20 mil reais? Eu vou dar 20 mil reais para um estudante de
jornalismo ou para um jornalista que comprou uma missão. A missão é a seguinte,
você terá que entrevistar o Roberto Campos Neto. Uma pergunta, uma única
pergunta e ele tem que responder”, diz o advogado no vídeo. “A pergunta é a
seguinte, por que é que você, como presidente do Banco Central, permitiu a
abertura do Banco Master?”
Segundo
Bertholdo, trata-se de uma “pergunta simples”. “Então, aquilo que o jornalismo
oficial deveria estar fazendo e não faz, você, quem sabe, consiga fazer. Eu vou
dar 20 mil reais para qualquer jornalista ou estudante de jornalismo que
encontre o Roberto Campos Neto e que faça a pergunta que ninguém está fazendo e
deveria estar fazendo, ok?”, se compromete o advogado. “Então, está feito o
desafio, o incentivo, agora tem que ser feito com profissionalismo, com
educação, assim como deve ser o jornalismo.”
“O que
eu quero é apenas entender o porquê do Banco Central do Roberto Campos Neto ter
autorizado, de uma hora para outra, a abertura de um banco que cometeu a maior
fraude financeira da história desse país. É um desafio saudável, o prêmio é
bom, corram lá atrás. Na época que eu fiz estágio de jornalismo, lá em
Curitiba, há muito tempo atrás, eu ia atrás da notícia”, conta ele. “Vamos ver
se alguém consegue a resposta do Roberto Campos.”
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Campos Neto e o Banco Master
O
ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto tem recebido cobranças
públicas em relação ao que foi feito na sua gestão sobre o Banco Master.
No dia
14 de outubro de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro e da gestão do então
diretor do BC, o órgão autorizou a transferência do controle societário do
então Banco Máxima (depois renomeado como Banco Master) para Daniel
Vorcaro. Em 2021, a instituição financeira havia quase triplicado de tamanho,
saltando de R$ 3,5 bilhões para R$ 9,7 bilhões em passivos.
Na
terça-feira (24), a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi
Hoffmann (PT), pediu, em vídeo, explicações a Roberto Campos Neto sobre o caso.
“Roberto
Campos Neto, presidente do Banco Central nomeado por Bolsonaro, disse em uma
nota que não cabia a ele a responsabilidade de acompanhar o banco, que não
sabia dos problemas hoje escancarados. É muita desfaçatez”, disse Gleisi.
Fonte:
Brasil 247/Fórum

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