Nuno
Vasconcellos: A batalha que não houve
O tempo
avança e, embora ainda não tenha sido dado a largada oficial para a campanha
eleitoral deste ano, a cada dia parece mais evidente que a disputa, mais uma
vez, se dará entre a esquerda e a direita. Mais especificamente, entre o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). E
pelo que se viu e ouviu até agora, pelo tom das declarações dos apoiadores de
um e de outro e pelo ânimo que cerca as duas pré-candidaturas, ninguém deve
esperar um clima diferente do que dominou as campanhas anteriores. Nenhum dos
lados poupará o outro de críticas e acusações pesadas.
Pelo
rumo que a situação está tomando, tudo indica que, de agora até outubro, quando
acontecerá a eleição, o país afunde no mesmo atoleiro polarizado que tem
mantido o debate político restrito à troca de acusações. O que mais parece
interessar aos dois lados dessa briga não é apresentar ideias nem discutir o
que pretende fazer caso venha a ser eleito. O que interessa mesmo é explorar as
fraquezas e expor o que o adversário tem de pior.
Dias
atrás, Flávio comparou Lula a um Opala velho. “Se comparar o Lula a um carro, é
aquele Opala velho, que já foi bonito, mas agora não te leva a lugar nenhum e
ainda bebe para caramba”, disse o senador, numa frase que se equilibra entre a
troca e a ofensa. Na semana passada, num evento em Salvador, Lula devolveu a
ofensa no mesmo tom. “Ele fala porque o Opala dele é o pai, que está no
desmanche. Então ele fala. O Opala que ele conhece é o pai dele”, devolveu o
presidente.
Tem
sido assim nas últimas eleições e as esperanças de que, desta vez, a história
pudesse tomar um rumo diferente ficaram mais remotas na semana passada, com a
retirada da disputa do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD). Juninho,
como ele é chamado no círculo mais próximo, vinha despontando como o nome mais
provável para abrir a tão aguardada “terceira via” na corrida para a
presidência da República.
Na
segunda-feira passada, ele anunciou por meio de nota que pretende permanecer no
Palácio Iguaçu até o último dia do mandato — o que significa dizer que não
deixará o cargo que ocupa até o próximo sábado, dia 4 de abril. Essa é a data
limite, de acordo com o calendário eleitoral, para que os ocupantes de cargos
executivos renunciem a seus postos caso pretendam se candidatar.
CANDIDATURA
DE CENTRO
Ratinho
não disputará cargo algum e assumirá, depois das eleições, a presidência do
grupo de comunicação criado por seu pai, o apresentador Ratinho, que conta 77
estações de rádio e cinco emissoras de TV que retransmitem o sinal do SBT no
Paraná. A decisão do governador pode ter sido inesperada, mas nada tem de
surpreendente. No ambiente político brasileiro, é comum que pessoas mudem de
ideia repentinamente e sigam caminhos completamente diferentes do que vinham
anunciando. Ratinho é apenas mais um a seguir esse caminho.
A
desistência de Ratinho é apenas mais um desses mudanças que acontecem para
deixar tudo como exatamente estava antes. A decisão, porém, não deixa de ser
lamentável. Será difícil encontrar outro candidato que consiga, como tudo
indicava que Ratinho conseguiria, encarnar uma candidatura de centro capaz de
oferecer uma alternativa concreta às que têm sido apresentadas ao eleitor.
Ratinho
Júnior é um dos governadores mais bem avaliados do país. Embora não seja muito
conhecido fora do Paraná, o fato de ser filho de um comunicador de inegável
apelo popular poderia ajudar na divulgação de seu nome. De perfil moderado, ele
havia largado na frente e angariado mais simpatia do que os outros políticos
que, como ele, se apresentaram como alternativas para a disputa.
Um
desses políticos é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) — que não tem o
mesmo perfil moderado que ele. Se for escolhido, Caiado ajudará a reforçar o
discurso da direita e colocará mais lenha na fogueira de um debate que já anda
acalorado. Outro é o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (também do
PSD). O principal problema dele é a confiabilidade.
Leite
carrega a má fama de ter sido o principal responsável pela implosão da
pretensão de João Doria de disputar a presidência em 2022, quando antes eram
filiados ao PSDB. Doria havia sido escolhido pelos filiados do partido, mas
Leite não aceitou o resultado e fez o que pôde para solapar a candidatura. O
terceiro nome é Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais, nome forte para
ser o vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Como os outros dois, ele teria
dificuldades para ultrapassar as divisas de seu estado e se firmar como um nome
nacional.
De
acordo com as avaliações feitas no mundo da política, as credenciais de Ratinho
Júnior eram superiores às dos demais postulantes — tanto assim que era o
preferido dos caciques de seu partido, o PSD, para encabeçar a chapa do
partido. Ele, de fato, tem o que mostrar. Sob seu comando, o Paraná, por
exemplo, tornou-se o único estado brasileiro que pode atingir ainda este ano as
metas de universalização dos serviços de água e esgoto previstas para 2030.
No
estado, 100% das moradias são abastecidas com água potável. A coleta e
tratamento do esgoto alcança 81,7% dos domicílios e há 600 obras em andamento
para expandir esse percentual. Nenhuma outra unidade da federação tem números
melhores num quesito sensível como esse. O Paraná tem, também, desempenho
positivo na educação, no combate à criminalidade e em mais um punhado de
rubricas que, nas campanhas eleitorais brasileiras, têm perdido espaço para a
troca de farpas entre candidatos. Tratar desses assuntos na campanha ajudaria a
ampliar o debate e fazer com que a campanha não se limitasse à troca de
acusações. Só que isso, infelizmente, não acontecerá.
BATALHA
DE ITARARÉ
A
questão é: será que o eleitor está interessado em discutir programas de governo
ou, ao contrário disso, acha melhor ver o circo pegar fogo, como tem acontecido
com frequência nas campanhas no Brasil? Será que ele, o eleitor, quer ouvir
propostas antes de escolher seu candidato ou prefere participar da briga que
tem inviabilizado o diálogo na política brasileira? Ninguém tem as respostas
para essas perguntas e, na ausência de uma candidatura capaz de seguir esse
caminho, a dúvida persistirá pelo menos até 2030.
Seja
como for, a saída de Ratinho Júnior da disputa e a ausência, até segunda ordem,
de um nome capaz de desempenhar o mesmo papel que ele desempenharia na
campanha, transforma em especulação qualquer análise que se faça a respeito da
“terceira via” no processo eleitoral. Qualquer pergunta que se faça a respeito
da reação do eleitor a esse tipo de candidatura ficará sem resposta — assim
como ficaram sem resposta as perguntas sobre um evento histórico que também
envolveu o estado do Paraná, na Revolução de 1930: a batalha de Itararé, que
passou para a história como “a batalha que não houve”.
Para
quem não se recorda, o município paulista de Itararé é um entroncamento
ferroviário importante, localizado bem na divisa com o estado do Paraná. Em
1930, as tropas leais ao presidente Washington Luís, comandadas pelo coronel
Paes de Andrade, se concentraram ali para conter os exércitos leais a Getúlio
Vargas, que sairiam do Rio Grande do Sul e se uniriam aos destacamentos do
próprio Paraná, sob comando do general Miguel Costa. Dali, seguiram de trem em
direção ao Rio de Janeiro.
A
expectativa em torno da luta que aconteceria naquele campo de batalha dominou o
país inteiro. No final, houve um acerto entre os comandantes e Itararé entrou
para a história como “a grande batalha que não houve”. (O grosso das tropas
revolucionárias seguiu por outro caminho. No dia 3 de novembro de 1930, os
gaúchos entraram no Rio de Janeiro, amarraram seus cavalos no obelisco da Av.
Rio Branco e empossaram Getúlio Vargas na presidência).
Uma
dúvida, porém, sempre rondou as cabeça dos historiadores: o que teria
acontecido com o Brasil se os legalistas tivessem vencido a batalha e impedido
o avanço da revolução? Numa comparação rasteira, a pergunta em relação à
candidatura é: o que poderia acontecer caso Ratinho Júnior mantivesse sua
candidatura e tivesse um caminhão de votos no dia 4 de outubro?
MUNDO
IDEAL
Calma!
Ninguém está sugerindo, aqui, que Ratinho Júnior tinha um caminho desimpedido
pela frente e reunia condições de conquistar a preferência do eleitor a ponto
de tomar de Lula ou de Flávio uma vaga no segundo turno. Isso poderia até
acontecer, mas a probabilidade era mínima. O que está sendo dito é que ele
poderia ter um papel relevante na campanha e exercer uma influência decisiva no
segundo turno.
Há um
outro aspecto a ser observado. A importância de ter um candidato forte e
identificado com o centro na disputa pela presidência também está na influência
que ele pode exercer sobre o eleitor que, além do presidente, também escolherá
governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. É importante
que, no imperfeito sistema de representação da política brasileira, exista no
parlamento um grupo expressivo de parlamentares que não esteja previamente
alinhado com os dois lados que têm dominado à política brasileira.
São
eles que funcionam como o fiel da balança e permitem a aprovação das pautas
estruturantes que todo governo tem a apresentar — e que jamais seriam aprovados
se dependesse apenas do confronto ideológico. É lógico que, no mundo real, é
cada vez mais nítido que os deputados e senadores se movem mais pelos
interesses relacionados com as emendas parlamentares do que por qualquer outro
interesse. Mas, no mundo ideal, quanto mais equilíbrio existir no poder onde
são feitas as leis, melhor.
MISOGINIA
Seja
como for, a campanha já está nas ruas, embora oficialmente ainda não esteja. Os
pré-candidatos já pensam, falam e agem com os olhos concentrados nas urnas de
outubro. E, nesse esforço, têm deixado a coerência de lado para evitar debates
que, no final das contas, podem gerar desgastes a sua imagem. Foi o que
aconteceu, por exemplo, na terça-feira da semana, passada quando o senador
Flávio votou a favor de um projeto de lei que tem a imagem e semelhança do que
há de pior na esquerda lacradora.
O
projeto em questão dá à misoginia (ou seja, às manifestações explícitas de
preconceito contra as mulheres) o mesmo tratamento e as mesmas punições
previstas para o crime de racismo. O tema é importantíssimo e a discussão do
respeito às mulheres, mais do que oportuna. O problema é o tratamento que o
assunto recebeu no texto aprovado.
O texto
que foi votado e aprovado sem votos contrários é um substitutivo elaborado pela
senadora Soraya Thronicke (Podemos/MS) ao projeto original apresentado pela
senadora Ana Paula Lobato (PSB/MA) em 2023. Genérico em suas formulações, ele
define como misoginia “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”.
Ao fim
e ao cabo, o que foi aprovado nada mais é do que a transformação em lei das
bandeiras e clichês do movimento feminista mais ranheta; mas não avança um
único centímetro em medidas que realmente importam. Ali não há medidas
concretas de prevenção do feminicídio, do combate à violência sexual ou do
aumento das proteções às mulheres no ambiente de trabalho ou no transporte
público.
No
final, o texto atraiu a ira das facções da direita mais identificadas com a
resistência às políticas identitárias. Flávio e todos os outros senadores da
oposição preferiram não expressar sua opinião. Disseram sim ao projeto mesmo
sem concordar com ele e transferiram para a Câmara a responsabilidade de conter
os arroubos do texto. A intenção de Flávio, segundo os analistas de sua
campanha, seria a de fazer um aceno para as mulheres com o objetivo de reduzir
sua rejeição pelo eleitorado feminino. Será que conseguiu?
CANDIDATURA
PALATÁVEL
O
hábito discutível de, em nome do cálculo eleitoral, tomar decisões que
contrariam em gênero, número e grau tudo o que disseram ao longo de sua
trajetória não é um privilégio de Flávio. Exemplos dessa conduta estão por toda
parte.
Na
quarta-feira passada, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
sancionou com apenas dois vetos o projeto da lei que endurece o tratamento aos
integrantes das organizações criminosas relatado pelo ex-secretário da
Segurança Pública de São Paulo, deputado Guilherme Derrite. Quem dissesse,
meses atrás, que o mesmo Lula seria capaz de sancionar uma lei que amplia as
penas e endurece o tratamento aos integrantes das facções, seria acusado de
espalhar fake news.
Acontece,
porém, que o eleitor está atento a esse tema, apoia o projeto de Derrite e tem
dado sucessivas demonstrações de que negará seu voto a quem quiser continuar
oferecendo flores aos bandidos que mantém a sociedade sob ameaça. Lula fez
apenas dois vetos. Um deles não tem a ver diretamente com o endurecimento do
tratamento proposto aos criminosos, mas com a transferência para os estados e
para o Distrito Federal dos recursos e equipamentos apreendidos nas operações
contra as facções. O presidente quer que o dinheiro fique com a União.
O outro
veto alcança um artigo que, de acordo com as razões apresentadas pela
assessoria do Planalto, poderia dar aos integrantes de “movimentos sociais” o
mesmo tratamento mais duro previsto para os criminosos faccionados.
Ou
seja, assim como Flávio Bolsonaro parece não ter sido sincero com o eleitor ao
votar a favor do projeto da misoginia, que contraria tudo o que ele e seu
partido pensam a respeito desse assunto, Lula demonstra padecer do mesmo mal no
momento em que elogia o endurecimento do tratamento aos fora da lei — que o PT
sempre rejeitou. A questão é: será que o eleitor está disposto a se deixar
enganar por atitudes como essas? A resposta para isso terá que esperar até
outubro.
Fonte:
O Dia

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