Aids:
A história de um lucro mórbido
Primeiro
de dezembro é o Dia Mundial da Luta contra a AIDS. Todos os anos, pessoas ao
redor do mundo relembram o início da epidemia como uma tragédia médica e moral,
uma época de muitos funerais e poucos avanços médicos. Mas a história econômica
— de como o abandono governamental levou à mercantilização da sobrevivência —
permanece em grande parte desconhecida. Essa história omitida é importante,
especialmente porque sua lógica ressurge agora.
Nos
primeiros anos da crise da AIDS, quando milhares de pessoas perdiam seus
empregos, moradias e planos de saúde, o governo estadunidense não interveio
para estancar a sangria. Em vez disso, surgiu um novo instrumento financeiro
pouco compreendido: pessoas com AIDS começaram a vender suas apólices de seguro
de vida para investidores em busca de dinheiro rápido, muitas vezes apenas para
pagar o aluguel, os medicamentos ou obter um mínimo de conforto em seus últimos
meses de vida. Um investidor pagava ao paciente uma parte do “benefício por
morte” do seguro de vida — talvez 80% do valor da apólice, talvez 30%,
dependendo de quanto tempo se esperava que o paciente morresse. Após a morte do
paciente, o investidor recebia o valor total do seguro.
Essas
transações, chamadas de liquidações de apólices de seguro de vida, eram
frequentemente retratadas como uma curiosidade macabra da epidemia — um choque
entre vendedores “falidos” e compradores “moralmente falidos”. Âncoras curiosos
em programas de notícias corporativas encontraram uma nova palavra favorita:
macabro. Mas o mercado de apólices de seguro de vida não era uma aberração. Era
um resultado previsível da austeridade e do abandono, um exemplo clássico do
que acontece quando a rede de proteção social é deliberadamente desmantelada e
o capital privado invade o setor.
Recentemente,
dirigi um documentário sobre esse setor, Cashing Out [Lucrando], que também
explora minha própria conexão inesperada com ele: meu pai foi um dos primeiros
investidores a comprar apólices de seguro de vida de pessoas com AIDS. Ele
lucrou quando elas morreram; sem que eu soubesse, esses lucros ajudaram a
financiar meus anos de adolescência — quando, aliás, eu estava descobrindo que
era gay.
As
pessoas tendem a se fixar no drama pessoal dessa história, mas essa reação
obscurece o que as transações de apólices de vida realmente revelam: os
investidores não eram a fonte da crueldade; o Estado era. Ele criou condições
em que pessoas com AIDS tinham que apostar na própria morte para sobreviver, e
em que pessoas comuns podiam ser facilmente recrutadas para lucrar com essa
precariedade.
O que
tornou essas transações possíveis foi a erosão deliberada da infraestrutura
pública sob Ronald Reagan e, posteriormente, Bill Clinton — o esvaziamento da
elegibilidade para o Medicaid, dos benefícios por invalidez e da habitação
pública — aliado à privatização da saúde e à decisão cultural de relegar
pessoas LGBTQIA+ e usuários de drogas à miséria e à morte. A epidemia criou
novas necessidades precisamente no momento em que o Estado se esquivava delas.
Os mercados só puderam preencher o vazio porque o Estado o havia deixado
completamente aberto.
Enquanto
entrevistava sobreviventes para o meu filme, conheci Dee Dee Chamblee, uma
ativista negra trans de Atlanta que, apesar de se sustentar como profissional
do sexo, não tinha um seguro de vida para vender. Ela me disse que via os
seguros de vida como o desfecho lógico de um sistema que abandona as pessoas e
depois as envergonha por sobreviverem como podem. O que impressionou Dee Dee no
envolvimento do meu pai, segundo ela, foi menos o seu caráter grotesco do que a
sua banalidade — a desigualdade se reproduz não por meio de vilões
excepcionais, mas por meio de transações rotineiras que parecem apolíticas ou
até benevolentes. Dee Dee me mostrou o que o capitalismo havia se esforçado
para esconder de mim, como um homem gay branco de família abastada: o projeto
estadunidense privatizou a sobrevivência e normalizou a exploração.
Nas
últimas duas décadas, as lições políticas da epidemia foram suavizadas e
reformuladas. Empresas farmacêuticas patrocinam as comemorações do Dia Mundial
da Luta Contra a AIDS. Corporações ostentam laços vermelhos. Uma rede de apoio
outrora militante e um amplo movimento político — nascido da ajuda mútua, da
organização de inquilinos e da luta antirracista — foi profissionalizado em um
complexo industrial filantrópico-sem fins lucrativos. A principal ideia do ACT
UP — de que a AIDS foi uma crise política criada pela austeridade, pelo racismo
e pela homofobia — foi substituída por narrativas de resiliência individual,
heroísmo médico ou conscientização despolitizada (“Que triste o que
aconteceu…”).
O
problema é que essa lembrança higienizada torna mais difícil reconhecer os ecos
da história da AIDS quando os ouvimos no presente. Os programas de HIV agora
enfrentam cortes profundos sob um segundo mandato de Trump. Os créditos fiscais
do Obamacare estão prestes a expirar, ameaçando a única cobertura acessível que
milhões de pessoas possuem. O desmantelamento do Medicaid deixou milhões de
pessoas sem assistência. Pacientes com COVID longa estão tendo seus benefícios
por invalidez negados em taxas alarmantes. Startups de dívidas médicas, salas
de emergência apoiadas por capital privado e redes de cuidados paliativos com
fins lucrativos repetem a lógica das transações com apólices em uma forma
atualizada: quando o Estado abandona as pessoas, o mercado monetiza as
consequências.
Com a
infraestrutura pública sendo mais uma vez desmantelada, novos mercados
continuarão a se formar em torno das necessidades que o Estado se recusa a
atender. Nossa questão mais premente não é se os indivíduos se comportarão bem
dentro desses mercados. É por que permitimos que nossa política transformasse
os mercados nos árbitros de quem tem o direito de viver com dignidade — e de
quem tem o direito de viver.
Neste
Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, devemos resistir à nostalgia sentimental que
nos leva a relembrar a epidemia. Enquanto mergulhamos em mais um período de
austeridade, em mais uma tentativa de desmantelar as mínimas proteções
conquistadas após décadas de luta, precisamos recordar com precisão. A lição
política que os ativistas da AIDS lutaram para nos ensinar foi simples: o
mercado sozinho não pode manter as pessoas vivas, abrigadas e cuidadas. Essa é
uma responsabilidade coletiva — e uma escolha política. Para honrar os milhões
perdidos para a epidemia, precisamos confrontar as condições que tornaram
possível a lógica das transações com apólices, tanto naquela época quanto
agora.
Fonte:
Por Matt Nadel - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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