sexta-feira, 27 de março de 2026

Aids: A história de um lucro mórbido

Primeiro de dezembro é o Dia Mundial da Luta contra a AIDS. Todos os anos, pessoas ao redor do mundo relembram o início da epidemia como uma tragédia médica e moral, uma época de muitos funerais e poucos avanços médicos. Mas a história econômica — de como o abandono governamental levou à mercantilização da sobrevivência — permanece em grande parte desconhecida. Essa história omitida é importante, especialmente porque sua lógica ressurge agora.

Nos primeiros anos da crise da AIDS, quando milhares de pessoas perdiam seus empregos, moradias e planos de saúde, o governo estadunidense não interveio para estancar a sangria. Em vez disso, surgiu um novo instrumento financeiro pouco compreendido: pessoas com AIDS começaram a vender suas apólices de seguro de vida para investidores em busca de dinheiro rápido, muitas vezes apenas para pagar o aluguel, os medicamentos ou obter um mínimo de conforto em seus últimos meses de vida. Um investidor pagava ao paciente uma parte do “benefício por morte” do seguro de vida — talvez 80% do valor da apólice, talvez 30%, dependendo de quanto tempo se esperava que o paciente morresse. Após a morte do paciente, o investidor recebia o valor total do seguro.

Essas transações, chamadas de liquidações de apólices de seguro de vida, eram frequentemente retratadas como uma curiosidade macabra da epidemia — um choque entre vendedores “falidos” e compradores “moralmente falidos”. Âncoras curiosos em programas de notícias corporativas encontraram uma nova palavra favorita: macabro. Mas o mercado de apólices de seguro de vida não era uma aberração. Era um resultado previsível da austeridade e do abandono, um exemplo clássico do que acontece quando a rede de proteção social é deliberadamente desmantelada e o capital privado invade o setor.

Recentemente, dirigi um documentário sobre esse setor, Cashing Out [Lucrando], que também explora minha própria conexão inesperada com ele: meu pai foi um dos primeiros investidores a comprar apólices de seguro de vida de pessoas com AIDS. Ele lucrou quando elas morreram; sem que eu soubesse, esses lucros ajudaram a financiar meus anos de adolescência — quando, aliás, eu estava descobrindo que era gay.

As pessoas tendem a se fixar no drama pessoal dessa história, mas essa reação obscurece o que as transações de apólices de vida realmente revelam: os investidores não eram a fonte da crueldade; o Estado era. Ele criou condições em que pessoas com AIDS tinham que apostar na própria morte para sobreviver, e em que pessoas comuns podiam ser facilmente recrutadas para lucrar com essa precariedade.

O que tornou essas transações possíveis foi a erosão deliberada da infraestrutura pública sob Ronald Reagan e, posteriormente, Bill Clinton — o esvaziamento da elegibilidade para o Medicaid, dos benefícios por invalidez e da habitação pública — aliado à privatização da saúde e à decisão cultural de relegar pessoas LGBTQIA+ e usuários de drogas à miséria e à morte. A epidemia criou novas necessidades precisamente no momento em que o Estado se esquivava delas. Os mercados só puderam preencher o vazio porque o Estado o havia deixado completamente aberto.

Enquanto entrevistava sobreviventes para o meu filme, conheci Dee Dee Chamblee, uma ativista negra trans de Atlanta que, apesar de se sustentar como profissional do sexo, não tinha um seguro de vida para vender. Ela me disse que via os seguros de vida como o desfecho lógico de um sistema que abandona as pessoas e depois as envergonha por sobreviverem como podem. O que impressionou Dee Dee no envolvimento do meu pai, segundo ela, foi menos o seu caráter grotesco do que a sua banalidade — a desigualdade se reproduz não por meio de vilões excepcionais, mas por meio de transações rotineiras que parecem apolíticas ou até benevolentes. Dee Dee me mostrou o que o capitalismo havia se esforçado para esconder de mim, como um homem gay branco de família abastada: o projeto estadunidense privatizou a sobrevivência e normalizou a exploração.

Nas últimas duas décadas, as lições políticas da epidemia foram suavizadas e reformuladas. Empresas farmacêuticas patrocinam as comemorações do Dia Mundial da Luta Contra a AIDS. Corporações ostentam laços vermelhos. Uma rede de apoio outrora militante e um amplo movimento político — nascido da ajuda mútua, da organização de inquilinos e da luta antirracista — foi profissionalizado em um complexo industrial filantrópico-sem fins lucrativos. A principal ideia do ACT UP — de que a AIDS foi uma crise política criada pela austeridade, pelo racismo e pela homofobia — foi substituída por narrativas de resiliência individual, heroísmo médico ou conscientização despolitizada (“Que triste o que aconteceu…”).

O problema é que essa lembrança higienizada torna mais difícil reconhecer os ecos da história da AIDS quando os ouvimos no presente. Os programas de HIV agora enfrentam cortes profundos sob um segundo mandato de Trump. Os créditos fiscais do Obamacare estão prestes a expirar, ameaçando a única cobertura acessível que milhões de pessoas possuem. O desmantelamento do Medicaid deixou milhões de pessoas sem assistência. Pacientes com COVID longa estão tendo seus benefícios por invalidez negados em taxas alarmantes. Startups de dívidas médicas, salas de emergência apoiadas por capital privado e redes de cuidados paliativos com fins lucrativos repetem a lógica das transações com apólices em uma forma atualizada: quando o Estado abandona as pessoas, o mercado monetiza as consequências.

Com a infraestrutura pública sendo mais uma vez desmantelada, novos mercados continuarão a se formar em torno das necessidades que o Estado se recusa a atender. Nossa questão mais premente não é se os indivíduos se comportarão bem dentro desses mercados. É por que permitimos que nossa política transformasse os mercados nos árbitros de quem tem o direito de viver com dignidade — e de quem tem o direito de viver.

Neste Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, devemos resistir à nostalgia sentimental que nos leva a relembrar a epidemia. Enquanto mergulhamos em mais um período de austeridade, em mais uma tentativa de desmantelar as mínimas proteções conquistadas após décadas de luta, precisamos recordar com precisão. A lição política que os ativistas da AIDS lutaram para nos ensinar foi simples: o mercado sozinho não pode manter as pessoas vivas, abrigadas e cuidadas. Essa é uma responsabilidade coletiva — e uma escolha política. Para honrar os milhões perdidos para a epidemia, precisamos confrontar as condições que tornaram possível a lógica das transações com apólices, tanto naquela época quanto agora.

 

Fonte: Por Matt Nadel - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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