Paulo
Kliass: Selic - Afinal, o Copom sabota Lula?
Durante
os dois primeiros anos de seu terceiro mandato, o Presidente passou o tempo
todo criticando a política monetária do Presidente do Banco Central (BC),
Roberto Campos Neto (RCN). Ele afirmava – dia sim, outro também – que se
tratava de um infiltrado do bolsonarismo no interior de seu governo. Essa
complexa convivência era devida a uma mudança na legislação proposta pelo
Ministro da Economia Paulo Guedes, conferindo uma quase independência ao BC. Os
dispositivos da Lei Complementar nº 179/2021 conferiam mandato fixo aos
diretores do órgão. Assim, Lula iniciou sua gestão em 1º de janeiro de 2023
convivendo com todos os 9 diretores do BC (e, por consequência, todos os
membros do COPOM) indicados pelo candidato que ele havia derrotado nas urnas
alguns meses antes.
Durante
os 4 anos em que RCN ficou à frente do órgão regulador e fiscalizador do
sistema bancário e financeiro, ele também presidiu o Comitê de Política
Monetária (COPOM). Durante seu mandato, o Brasil conviveu com um quadro
relevante de redução do nível das atividades econômicas em função das
necessidades impostas pelo combate à epidemia da COVID. Desta forma, pode-se
compreender o nível relativamente baixo da taxa referencial de juros durante o
primeiro triênio (2019-2021). Mas a partir de 2022, o COPOM retoma uma
trajetória de alta da SELIC.
A
expectativa que se criou no conjunto da sociedade com o fim do mandato de RCN e
a substituição por alguém nomeado por Lula era de que tivesse início então,
finalmente, um processo de redução substancial da taxa oficial de juros. A
indicação do então diretor de Política Monetária do BC, Gabriel Galípolo, para
substituir a assim chamada herança bolsonarista, seria a oportunidade para Lula
deixar a sua marca na condução da política monetária. Assim, em 30 de dezembro
de 2024, o Chefe do Executivo assina um Decreto nomeando o novo Presidente do
BC. Galípolo já havia sido sabatinado pelo Senado Federal em outubro do mesmo
ano e teve seu nome aprovado por aquela Casa do legislativo.
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Galípolo depois de RCN: política monetária só piora
Alguns
dias antes da publicação do Decreto no Diário Oficial, Lula convoca o Ministro
da Casa Civil (Ruy Costa), o Ministro da Fazenda (Fernando Haddad) e a Ministra
do Planejamento (Simone Tebet) para participarem calados de um vídeo ao lado do
futuro dirigente máximo do BC. Tratava-se de um formato inédito de comunicação
oficial, onde Lula usa presença de seus colaboradores mais importantes para
assistirem aos seus elogios a Galípolo. Uma situação por si só constrangedora,
mas que se revelaria ainda mais inócua e embaraçosa em razão da sequência
histórica que viria depois da posse do elogiado no comando do BC.
À
época, a SELIC estava no patamar de 12,25% ao ano. E Lula não escondeu suas
expectativas otimistas com a mudança.
(…) “E
eu quero te dizer que você será, certamente, o mais importante presidente do
Banco Central que esse país já teve, porque você vai ser o presidente com mais
autonomia que o Banco Central já teve” (…)
(…) “Eu
quero que você saiba que você está aqui por uma relação de confiança minha e de
toda equipe do governo” (…)
(…)
“Porque eu tenho certeza que, pela tua qualidade profissional, pela tua
experiência de vida e pelo teu compromisso com o povo brasileiro, certamente
você vai dar uma lição de como é que se governa o Banco Central com a
verdadeira autonomia” (…)
Essa
vinha sendo a linha do próprio Partido dos Trabalhadores (PT), que se sentia
incomodado pela presença de um dirigente do BC que parecia trabalhar contra o
governo, como uma espécie de sabotador institucional, um verdadeiro infiltrado
do bolsonarismo no interior do terceiro mandato lulista. Assim, ainda em 2024,
quando a SELIC ainda estava no patamar de 10,5%, o partido do Presidente da
República assim se manifestava a respeito do tema:
(…)
“Cabe ao partido manter a pressão por juros mais baixos até a saída do Banco
Central do bolsonarista Roberto Campos Neto, que tem utilizado a autarquia como
uma espécie de ‘bunker para a sabotagem econômica’ do país e plataforma de
articulação político-partidária” (…)
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Lula se enganou a respeito de Galípolo?
Alguns
meses antes, Lula tornava pública sua dica de como deveria ser a linha de
ataque de sua base política contra a presença de um responsável pela política
monetária que estaria atrapalhando seus planos para o País. Em junho de 2024,
com a SELIC ainda na faixa de 10,5%, ele assim se manifestou:
(…) “Só
temos uma coisa desajustada neste país: é o comportamento do Banco Central.
Essa é uma coisa desajustada. Um presidente que não demonstra nenhuma
capacidade de autonomia, que tem lado político, e que, na minha opinião,
trabalha muito mais para prejudicar do que para ajudar o país. Não tem
explicação a taxa de juros estar como está” (…) [GN]
No
entanto, a partir da posse de Galípolo, a situação se deteriorou ainda mais. Ao
invés da redução esperada da SELIC, o que se verificou foi uma escalada da taxa
e do arrocho monetário. Ou seja, a “coisa” ficaria ainda mais “desajustada” e o
comando do BC estaria trabalhando ainda mais firmemente para “prejudicar o
País”. De uma maneira aparentemente incompreensível, com a nomeação do novo
Presidente do BC e da absoluta maioria dos membros de sua diretoria, Lula vê a
política monetária ficar ainda mais aguda e trágica do que ocorria
anteriormente.
O novo
responsável pelo BC comandou 10 reuniões do COPOM desde a sua indicação. De
janeiro de 2025 a março de 2026, houve um período inicial com 4 elevações da
SELIC (de 13,25% a 15%), seguidas de outros 5 encontros em que a taxa foi
mantida a 15%. Apenas na reunião mais recente o colegiado condescendeu em uma
redução tão simbólica quanto insignificante, quando a SELIC foi diminuída de
ridículos 0,25%. O gráfico abaixo exibe de forma cristalina aquilo que deve ser
um enorme desconforto de Lula com relação às promessas que fez a respeito de
Galípolo e da possibilidade de mudanças na política monetária.
De
acordo com levantamentos estatísticos rotineiros, o Brasil segue ocupando a
segunda posição de taxa real de juros do mundo. Só consegue ser ultrapassado
pela Turquia atualmente. Esse importante sinalizador do ambiente macroeconômico
define o favorecimento dos setores vinculados ao financismo parasitário em
detrimento da grande maioria da população. Juros nas alturas provocam estímulo
ao direcionamento de recursos para o circuito financeiro improdutivo e afastado
do investimento no chamado setor real da economia. A taxa neste nível
inviabiliza qualquer processo de retomada do desenvolvimento econômico, social
e ambiental. Além disso, mantém o nível das despesas financeiras do orçamento
federal em patamares nunca dantes alcançados. Ao longo de 12 meses, o Brasil
gastou mais de R$ 1 trilhão com o pagamento de juros da dívida pública.
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Afinal, COPOM sabota ou não sabota o governo?
Ora, ao
que tudo indica, o COPOM continuou trabalhando firmemente para sabotar o
governo. O “menino” apresentado por Lula ao País tornou ainda mais dramática a
situação do Brasil depois de sua posse no BC. O gráfico abaixo deixa clara a
evolução da SELIC desde 2019. Durante a gestão de RCN, a SELIC média foi de
8,3%. Já depois da posse do indicado por Lula, esta média subiu 14,7%.
Lula
não tem mais o fantasma do bolsonarismo para atacar e responsabilizar pela
gravidade da situação econômica vivida pela grande maioria das famílias. As
pesquisas de opinião têm refletido a desaprovação ao seu governo. No entanto,
ao contrário de apontar para as mudanças tão necessárias na essência da
política econômica, ele parece seguir pelo caminho do “mais do mesmo”. Com a
anunciada saída de Fernando Haddad para disputar o governo de São Paulo, ele
pretende nomear para o alto comando do Ministério da Fazenda os colaboradores
mais alinhados com o conservadorismo e o neoliberalismo. Talvez Lula não
considere, no fundo no fundo, que o trabalho de Galípolo à frente do BC não
seja mesmo uma sabotagem declarada ao seu governo. Talvez estejamos todos bem enganados
a respeito disso. Aguardemos, pois.
• Resultado primário fiscal deve ficar
próximo de zero no ano, mesmo com arrecadação recorde. Por Paulo Gala
Os
mercados iniciaram esta quarta-feira, 25 de março, com um tom ligeiramente mais
aliviado. O movimento reflete sinais, ainda que incipientes, de melhora nas
negociações relacionadas ao conflito no Oriente Médio. Não há qualquer
definição concreta até o momento, mas a percepção de redução de tensões no
curto prazo foi suficiente para moderar o humor dos investidores nas primeiras
horas do dia.
Apesar
desse alívio pontual, a incerteza permanece elevada. O conflito segue como um
risco relevante, especialmente pelos seus efeitos sobre o preço do petróleo e,
consequentemente, sobre a inflação global. Nesse contexto, o governo brasileiro
continua buscando alternativas para conter o repasse da alta dos combustíveis
para a economia doméstica.
A
estratégia mais recente envolve a criação de um subsídio direto aos
importadores de diesel, como forma de mitigar os impactos sobre os preços
internos. A ideia inicial de zerar o ICMS sobre combustíveis foi rapidamente
descartada, diante da forte dependência dos estados dessa fonte de arrecadação.
Sem espaço fiscal nos governos estaduais, a solução migrou para a esfera
federal.
A
proposta em discussão prevê um subsídio temporário, possivelmente até o início
de maio, com o objetivo de dividir o custo do choque de preços e evitar uma
transmissão mais intensa para a inflação. A preocupação é justificável:
combustíveis têm efeito disseminado sobre toda a cadeia produtiva,
influenciando custos de transporte, alimentos e serviços.
Esse
conjunto de medidas, no entanto, pressiona o cenário fiscal. A expectativa de
resultado primário para 2026, que já era desafiadora, passa agora a girar em
torno de um equilíbrio próximo de zero. Ainda que esse objetivo seja alcançado,
ele dependerá de uma combinação delicada entre controle de gastos e manutenção
do ritmo de arrecadação.
Nesse
ponto, os dados recentes oferecem algum alívio. A arrecadação federal atingiu
R$ 222 bilhões em fevereiro, o maior valor já registrado para o mês na série
histórica. Embora não seja apropriado anualizar diretamente esse número, a
comparação com fevereiro de 2021 — quando a arrecadação foi de R$ 170 bilhões —
ilustra a magnitude do avanço.
Em
termos reais, a receita cresceu 5,68% em relação a fevereiro de 2025. No
acumulado do ano, a arrecadação soma R$ 547 bilhões, com alta real de
aproximadamente 4,4%. Parte relevante desse desempenho está associada ao
aumento do consumo e à resiliência do mercado de trabalho.
Tributos
como PIS/Cofins, fortemente ligados à atividade econômica e ao consumo —
especialmente de combustíveis e serviços — apresentaram crescimento expressivo.
A arrecadação previdenciária também avançou, refletindo a expansão do emprego
formal e o aumento da massa salarial.
Por
outro lado, os impostos sobre o lucro das empresas, como o IRPJ e a CSLL,
registraram queda real de cerca de 5,4%. Esse movimento sugere uma deterioração
na rentabilidade corporativa, indicando que, apesar do bom desempenho da
arrecadação agregada, há sinais de fragilidade na atividade empresarial.
O
quadro geral, portanto, é de contrastes. De um lado, uma arrecadação robusta e
um mercado de trabalho ainda forte. De outro, pressões inflacionárias vindas do
petróleo, medidas fiscais emergenciais e sinais de desaceleração nos lucros das
empresas.
Ao
longo da semana, a atenção se volta para novos dados e comunicações
importantes. O Relatório de Política Monetária e a fala do presidente do Banco
Central, Gabriel Galípolo, devem oferecer pistas adicionais sobre o rumo da
política monetária. Além disso, a divulgação do IPCA-15 será um teste relevante
para avaliar a intensidade das pressões inflacionárias no curto prazo.
No fim
das contas, o alívio observado hoje parece mais uma pausa do que uma mudança de
tendência. O cenário segue frágil, dependente de fatores externos e de decisões
de política econômica que, como de costume, precisam equilibrar mais pratos do
que o razoável.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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