sexta-feira, 27 de março de 2026

Paulo Kliass: Selic - Afinal, o Copom sabota Lula?

Durante os dois primeiros anos de seu terceiro mandato, o Presidente passou o tempo todo criticando a política monetária do Presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto (RCN). Ele afirmava – dia sim, outro também – que se tratava de um infiltrado do bolsonarismo no interior de seu governo. Essa complexa convivência era devida a uma mudança na legislação proposta pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, conferindo uma quase independência ao BC. Os dispositivos da Lei Complementar nº 179/2021 conferiam mandato fixo aos diretores do órgão. Assim, Lula iniciou sua gestão em 1º de janeiro de 2023 convivendo com todos os 9 diretores do BC (e, por consequência, todos os membros do COPOM) indicados pelo candidato que ele havia derrotado nas urnas alguns meses antes.

Durante os 4 anos em que RCN ficou à frente do órgão regulador e fiscalizador do sistema bancário e financeiro, ele também presidiu o Comitê de Política Monetária (COPOM). Durante seu mandato, o Brasil conviveu com um quadro relevante de redução do nível das atividades econômicas em função das necessidades impostas pelo combate à epidemia da COVID. Desta forma, pode-se compreender o nível relativamente baixo da taxa referencial de juros durante o primeiro triênio (2019-2021). Mas a partir de 2022, o COPOM retoma uma trajetória de alta da SELIC.

A expectativa que se criou no conjunto da sociedade com o fim do mandato de RCN e a substituição por alguém nomeado por Lula era de que tivesse início então, finalmente, um processo de redução substancial da taxa oficial de juros. A indicação do então diretor de Política Monetária do BC, Gabriel Galípolo, para substituir a assim chamada herança bolsonarista, seria a oportunidade para Lula deixar a sua marca na condução da política monetária. Assim, em 30 de dezembro de 2024, o Chefe do Executivo assina um Decreto nomeando o novo Presidente do BC. Galípolo já havia sido sabatinado pelo Senado Federal em outubro do mesmo ano e teve seu nome aprovado por aquela Casa do legislativo.

<><> Galípolo depois de RCN: política monetária só piora

Alguns dias antes da publicação do Decreto no Diário Oficial, Lula convoca o Ministro da Casa Civil (Ruy Costa), o Ministro da Fazenda (Fernando Haddad) e a Ministra do Planejamento (Simone Tebet) para participarem calados de um vídeo ao lado do futuro dirigente máximo do BC. Tratava-se de um formato inédito de comunicação oficial, onde Lula usa presença de seus colaboradores mais importantes para assistirem aos seus elogios a Galípolo. Uma situação por si só constrangedora, mas que se revelaria ainda mais inócua e embaraçosa em razão da sequência histórica que viria depois da posse do elogiado no comando do BC.

À época, a SELIC estava no patamar de 12,25% ao ano. E Lula não escondeu suas expectativas otimistas com a mudança.

(…) “E eu quero te dizer que você será, certamente, o mais importante presidente do Banco Central que esse país já teve, porque você vai ser o presidente com mais autonomia que o Banco Central já teve” (…)

(…) “Eu quero que você saiba que você está aqui por uma relação de confiança minha e de toda equipe do governo” (…)

(…) “Porque eu tenho certeza que, pela tua qualidade profissional, pela tua experiência de vida e pelo teu compromisso com o povo brasileiro, certamente você vai dar uma lição de como é que se governa o Banco Central com a verdadeira autonomia” (…)                        

Essa vinha sendo a linha do próprio Partido dos Trabalhadores (PT), que se sentia incomodado pela presença de um dirigente do BC que parecia trabalhar contra o governo, como uma espécie de sabotador institucional, um verdadeiro infiltrado do bolsonarismo no interior do terceiro mandato lulista. Assim, ainda em 2024, quando a SELIC ainda estava no patamar de 10,5%, o partido do Presidente da República assim se manifestava a respeito do tema:

(…) “Cabe ao partido manter a pressão por juros mais baixos até a saída do Banco Central do bolsonarista Roberto Campos Neto, que tem utilizado a autarquia como uma espécie de ‘bunker para a sabotagem econômica’ do país e plataforma de articulação político-partidária” (…)

<><> Lula se enganou a respeito de Galípolo?

Alguns meses antes, Lula tornava pública sua dica de como deveria ser a linha de ataque de sua base política contra a presença de um responsável pela política monetária que estaria atrapalhando seus planos para o País. Em junho de 2024, com a SELIC ainda na faixa de 10,5%, ele assim se manifestou:

(…) “Só temos uma coisa desajustada neste país: é o comportamento do Banco Central. Essa é uma coisa desajustada. Um presidente que não demonstra nenhuma capacidade de autonomia, que tem lado político, e que, na minha opinião, trabalha muito mais para prejudicar do que para ajudar o país. Não tem explicação a taxa de juros estar como está” (…) [GN]

No entanto, a partir da posse de Galípolo, a situação se deteriorou ainda mais. Ao invés da redução esperada da SELIC, o que se verificou foi uma escalada da taxa e do arrocho monetário. Ou seja, a “coisa” ficaria ainda mais “desajustada” e o comando do BC estaria trabalhando ainda mais firmemente para “prejudicar o País”. De uma maneira aparentemente incompreensível, com a nomeação do novo Presidente do BC e da absoluta maioria dos membros de sua diretoria, Lula vê a política monetária ficar ainda mais aguda e trágica do que ocorria anteriormente.

O novo responsável pelo BC comandou 10 reuniões do COPOM desde a sua indicação. De janeiro de 2025 a março de 2026, houve um período inicial com 4 elevações da SELIC (de 13,25% a 15%), seguidas de outros 5 encontros em que a taxa foi mantida a 15%. Apenas na reunião mais recente o colegiado condescendeu em uma redução tão simbólica quanto insignificante, quando a SELIC foi diminuída de ridículos 0,25%. O gráfico abaixo exibe de forma cristalina aquilo que deve ser um enorme desconforto de Lula com relação às promessas que fez a respeito de Galípolo e da possibilidade de mudanças na política monetária.

De acordo com levantamentos estatísticos rotineiros, o Brasil segue ocupando a segunda posição de taxa real de juros do mundo. Só consegue ser ultrapassado pela Turquia atualmente. Esse importante sinalizador do ambiente macroeconômico define o favorecimento dos setores vinculados ao financismo parasitário em detrimento da grande maioria da população. Juros nas alturas provocam estímulo ao direcionamento de recursos para o circuito financeiro improdutivo e afastado do investimento no chamado setor real da economia. A taxa neste nível inviabiliza qualquer processo de retomada do desenvolvimento econômico, social e ambiental. Além disso, mantém o nível das despesas financeiras do orçamento federal em patamares nunca dantes alcançados. Ao longo de 12 meses, o Brasil gastou mais de R$ 1 trilhão com o pagamento de juros da dívida pública.

<><> Afinal, COPOM sabota ou não sabota o governo?

Ora, ao que tudo indica, o COPOM continuou trabalhando firmemente para sabotar o governo. O “menino” apresentado por Lula ao País tornou ainda mais dramática a situação do Brasil depois de sua posse no BC. O gráfico abaixo deixa clara a evolução da SELIC desde 2019. Durante a gestão de RCN, a SELIC média foi de 8,3%. Já depois da posse do indicado por Lula, esta média subiu 14,7%.

Lula não tem mais o fantasma do bolsonarismo para atacar e responsabilizar pela gravidade da situação econômica vivida pela grande maioria das famílias. As pesquisas de opinião têm refletido a desaprovação ao seu governo. No entanto, ao contrário de apontar para as mudanças tão necessárias na essência da política econômica, ele parece seguir pelo caminho do “mais do mesmo”. Com a anunciada saída de Fernando Haddad para disputar o governo de São Paulo, ele pretende nomear para o alto comando do Ministério da Fazenda os colaboradores mais alinhados com o conservadorismo e o neoliberalismo. Talvez Lula não considere, no fundo no fundo, que o trabalho de Galípolo à frente do BC não seja mesmo uma sabotagem declarada ao seu governo. Talvez estejamos todos bem enganados a respeito disso. Aguardemos, pois.

•        Resultado primário fiscal deve ficar próximo de zero no ano, mesmo com arrecadação recorde. Por Paulo Gala

Os mercados iniciaram esta quarta-feira, 25 de março, com um tom ligeiramente mais aliviado. O movimento reflete sinais, ainda que incipientes, de melhora nas negociações relacionadas ao conflito no Oriente Médio. Não há qualquer definição concreta até o momento, mas a percepção de redução de tensões no curto prazo foi suficiente para moderar o humor dos investidores nas primeiras horas do dia.

Apesar desse alívio pontual, a incerteza permanece elevada. O conflito segue como um risco relevante, especialmente pelos seus efeitos sobre o preço do petróleo e, consequentemente, sobre a inflação global. Nesse contexto, o governo brasileiro continua buscando alternativas para conter o repasse da alta dos combustíveis para a economia doméstica.

A estratégia mais recente envolve a criação de um subsídio direto aos importadores de diesel, como forma de mitigar os impactos sobre os preços internos. A ideia inicial de zerar o ICMS sobre combustíveis foi rapidamente descartada, diante da forte dependência dos estados dessa fonte de arrecadação. Sem espaço fiscal nos governos estaduais, a solução migrou para a esfera federal.

A proposta em discussão prevê um subsídio temporário, possivelmente até o início de maio, com o objetivo de dividir o custo do choque de preços e evitar uma transmissão mais intensa para a inflação. A preocupação é justificável: combustíveis têm efeito disseminado sobre toda a cadeia produtiva, influenciando custos de transporte, alimentos e serviços.

Esse conjunto de medidas, no entanto, pressiona o cenário fiscal. A expectativa de resultado primário para 2026, que já era desafiadora, passa agora a girar em torno de um equilíbrio próximo de zero. Ainda que esse objetivo seja alcançado, ele dependerá de uma combinação delicada entre controle de gastos e manutenção do ritmo de arrecadação.

Nesse ponto, os dados recentes oferecem algum alívio. A arrecadação federal atingiu R$ 222 bilhões em fevereiro, o maior valor já registrado para o mês na série histórica. Embora não seja apropriado anualizar diretamente esse número, a comparação com fevereiro de 2021 — quando a arrecadação foi de R$ 170 bilhões — ilustra a magnitude do avanço.

Em termos reais, a receita cresceu 5,68% em relação a fevereiro de 2025. No acumulado do ano, a arrecadação soma R$ 547 bilhões, com alta real de aproximadamente 4,4%. Parte relevante desse desempenho está associada ao aumento do consumo e à resiliência do mercado de trabalho.

Tributos como PIS/Cofins, fortemente ligados à atividade econômica e ao consumo — especialmente de combustíveis e serviços — apresentaram crescimento expressivo. A arrecadação previdenciária também avançou, refletindo a expansão do emprego formal e o aumento da massa salarial.

Por outro lado, os impostos sobre o lucro das empresas, como o IRPJ e a CSLL, registraram queda real de cerca de 5,4%. Esse movimento sugere uma deterioração na rentabilidade corporativa, indicando que, apesar do bom desempenho da arrecadação agregada, há sinais de fragilidade na atividade empresarial.

O quadro geral, portanto, é de contrastes. De um lado, uma arrecadação robusta e um mercado de trabalho ainda forte. De outro, pressões inflacionárias vindas do petróleo, medidas fiscais emergenciais e sinais de desaceleração nos lucros das empresas.

Ao longo da semana, a atenção se volta para novos dados e comunicações importantes. O Relatório de Política Monetária e a fala do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, devem oferecer pistas adicionais sobre o rumo da política monetária. Além disso, a divulgação do IPCA-15 será um teste relevante para avaliar a intensidade das pressões inflacionárias no curto prazo.

No fim das contas, o alívio observado hoje parece mais uma pausa do que uma mudança de tendência. O cenário segue frágil, dependente de fatores externos e de decisões de política econômica que, como de costume, precisam equilibrar mais pratos do que o razoável.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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