A
pressão sobre o Airbnb para tirar do ar todos os anúncios de moradia social em
São Paulo
O
Airbnb, maior empresa de locação temporária de residências do mundo, disse que
removerá de sua plataforma todos os anúncios de imóveis considerados moradias
populares na cidade de São Paulo.
A
companhia afirmou que fará a remoção dos anúncios assim que a Prefeitura de São
Paulo lhe enviar uma lista com os endereços destes imóveis, classificados como
Habitações de Interesse Social (HIS) e Habitações de Mercado Popular (HMP).
A
Prefeitura disse que divulgará a lista até esta quinta-feira (26/3).
O
anúncio do Airbnb ocorreu após uma reportagem da BBC News Brasil revelar que
muitos apartamentos em São Paulo classificados como HIS e HMP não estão
servindo como habitação e sim como hospedagem para turistas e visitantes, em
desacordo com decretos municipais que proíbem esses usos.
Esses
imóveis ficam em edifícios construídos com incentivos fiscais e urbanísticos
que a Prefeitura concede a construtoras desde 2014 com o objetivo declarado de
reduzir a falta de moradias para pessoas pobres em São Paulo.
Parte
destes imóveis pode ser financiada pelo programa Minha Casa Minha Vida, a maior
política de habitação do governo federal. Desta forma, compradores podem
adquirir esses imóveis com juros subsidiados pelo governo federal.
Por
outro lado, no caso das moradias sociais, a Prefeitura abre mão de centenas de
milhões de reais em arrecadação sem conseguir garantir que os imóveis atendam o
público-alvo desses programas, segundo especialistas.
A
locação temporária de apartamentos classificados como HIS e HMP foi proibida em
São Paulo por um decreto municipal de maio de 2025, após reportagens,
pesquisadores e o Ministério Público apontarem que muitos estavam sendo
adquiridos por pessoas de alta renda como um investimento.
Parte
do grupo comprava os imóveis com o objetivo de alugá-los por curtas temporadas,
lucrando com isso.
<><>
CPI das HIS
O
anúncio do Airbnb foi feito pela diretora de Relações Institucionais da
empresa, Carla Bueno Comarella, em depoimento na Câmara Municipal de São Paulo
em 10 de março.
Na
ocasião, Comarella foi interrogada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) que investiga desvios em programas de habitação em São Paulo.
Questionada
por que o Airbnb não remove anúncios de moradias populares, a representante da
empresa disse que a companhia não sabe quais unidades anunciadas na plataforma
são HIS ou HMP.
"Para
realizar essa fiscalização e a remoção das unidades, é preciso ter uma listagem
desses imóveis", disse a diretora do Airbnb.
"Se
a lista for feita e a Prefeitura comunicar a empresa sobre unidades que
potencialmente estejam irregulares na plataforma, o aplicativo fará a remoção
desses anúncios."
Segundo
Comarella, "se o imóvel estiver sendo anunciado de forma irregular, não é
do interesse da empresa que ele permaneça no Airbnb".
Até
então, o Airbnb vinha adotando uma postura diferente quanto à remoção de
anúncios.
Em nota
enviada à BBC News Brasil em dezembro de 2025, a empresa disse que a
"exclusão ou bloqueio de anúncios relativos a certos imóveis em sua
plataforma, por se tratar de conteúdo de terceiro, devem ser precedidos de
ordem judicial ou de ordem executiva amparada em lei".
A
manifestação da representante da empresa na CPI foi encarada por vereadores
como uma flexibilização dessa postura.
<><>
Lista de imóveis HIS e HMP
A CPI
tem cobrado a Prefeitura a elaborar a lista de unidades HIS e HMP no município
há vários meses.
Inicialmente,
a Prefeitura dizia que a responsabilidade de conferir se as unidades anunciadas
no Airbnb eram moradias populares era da própria plataforma.
Em
10/3, a Prefeitura enviou um ofício à empresa solicitando a criação de
mecanismos para impedir a divulgação de anúncios de moradias sociais na cidade.
Nas
últimas semanas, no entanto, a Prefeitura se comprometeu a elaborar uma lista
desses imóveis e repassá-la ao Airbnb.
Em 17
de março, a procuradora-geral de São Paulo, Luciana Nardi, disse à CPI que a
lista já está pronta e, agora, passa por uma revisão.
Em
paralelo, a vereadora Silvia Ferraro (PSOL), que participa da comissão,
elaborou outra lista com 165 mil unidades HIS e HMP a partir de documentos
enviados por construtoras que atuam na cidade.
Juliana
Leal, assessora parlamentar da vereadora, diz à BBC News Brasil que a lista
ainda é parcial, porque nem todas as empresas enviaram os dados e algumas
mandaram informações incompletas.
Ela
afirma que a lista foi enviada em 18 de março ao Airbnb e à Booking, as maiores
empresas de locações temporárias que atuam em São Paulo, com um pedido para que
elas informem à CPI quantas dessas unidades estão anunciadas nas plataformas.
A BBC
News Brasil questionou as empresas sobre quais providências pretendem tomar a
partir do recebimento dessa lista da CPI e se vão remover os anúncios de
imóveis que estejam na relação.
A
Booking afirmou que a lista "envolve um volume significativo de dados e
que demanda um processo de análise e cruzamento de informações, realizado de
forma criteriosa".
"A
empresa já iniciou esse trabalho internamente e está empenhada em atender à
solicitação da comissão", disse a empresa.
O
Airbnb afirmou, por sua vez, "que recebeu um ofício com pedido de
informações encaminhado pela Câmara Municipal de São Paulo e irá analisar o seu
conteúdo de forma técnica, à luz das normas aplicáveis".
A
vereadora Silvia Ferraro afirma ainda à reportagem que, quando encerrar os
trabalhos, em junho, a CPI deve apresentar à Câmara um projeto de lei com novas
regras para o setor.
Entre
os pontos em discussão, segundo Ferraro, está a proibição da compra de unidades
HIS e HMP por pessoas jurídicas, a proibição de aquisição de mais de uma
unidade por pessoa e também a proibição de compras por investidores.
São
considerados investidores os compradores que tenham renda acima das faixas
enquadradas nos programas de HIS (até três salários mínimos) e HMP (entre três
e seis salários mínimos).
Hoje a
aquisição por investidores é permitida desde que eles não morem nas residências
e se comprometam a alugá-las em contratos de longa duração para pessoas
enquadradas nas faixas de HIS e HMP.
Especialistas
afirmam, porém, que a fiscalização não tem conseguido assegurar que esse
público seja, de fato, o beneficiário dessas moradias.
O
debate sobre a destinação das HIS e HMP ocorre num momento em que urbanistas
questionam se essas políticas têm ajudado a reduzir o déficit de habitação no
município.
Segundo
a Fundação João Pinheiro, que realiza estudos sobre o tema, o número de pessoas
na Região Metropolitana de São Paulo sem moradia adequada passou de 570 mil, em
2016, para 605 mil em 2023, o último ano com dados disponíveis.
A
Prefeitura passou a conceder incentivos fiscais e urbanísticos para unidades
HIS e HMP em 2014.
<><>
Mudanças nas regras do Minha Casa, Minha Vida?
A
reportagem da BBC News Brasil publicada em fevereiro também revelou possíveis
caminhos para burlar o Minha Casa, Minha Vida.
Identificando-se
como um investidor, um repórter perguntou a uma corretora se seria possível
conseguir um financiamento pelo programa registrando-o no nome da esposa,
transferindo o título do imóvel para o nome dele após a quitação. A corretora
indicou que sim.
No
entanto, essa prática, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo,
pode configurar falsidade ideológica e estelionato.
Em
outra ocasião, um corretor disse que seria possível financiar um imóvel pelo
Minha Casa, Minha Vida mesmo que o comprador tivesse uma renda superior às
definidas pelo programa. O corretor não detalhou como.
Citando
a reportagem, o líder da Minoria na Câmara dos Deputados, deputado federal
Gustavo Gayer (PL-GO), disse ter acionado o Tribunal de Contas da União (TCU) e
o Ministério das Cidades "solicitando apuração sobre eventual desvio de
finalidade na utilização dos imóveis subsidiados".
"A
denúncia levanta questionamentos sobre a efetividade dos mecanismos de controle
e fiscalização do programa habitacional", afirmou o deputado em nota à
imprensa.
Um
deputado da base governista, Alfredinho (PT-SP), também anunciou em suas redes
sociais que acionou o Ministério das Cidades "para exigir fiscalização
máxima em São Paulo" com base nos fatos descritos pela reportagem.
"Não
podemos aceitar que o maior projeto social do Brasil vire esquema de lucro
rápido para investidor imobiliário", afirmou o deputado.
Outro
ponto abordado pela reportagem da BBC News Brasil foram brechas legais que
permitem a imóveis financiados pelo Minha Casa, Minha Vida serem anunciados em
plataformas de aluguel de curta temporada, como o Airbnb.
Hoje,
só beneficiários da faixa 1 do programa, que abarca famílias com renda de até
R$ 2.850 mensais, têm a obrigação legal de morar nas casas financiadas e são
impedidos de colocá-las para alugar por curta ou longa temporada, pelo período
de cinco anos.
Mas
essas restrições não se aplicam às demais faixas do programa, que contemplam
famílias com renda mensal de até R$ 12 mil.
Pelas
regras federais, essas famílias são livres para anunciar imóveis adquiridos
pelo Minha Casa, Minha Vida em plataformas de aluguel por curta temporada e não
precisam morar neles.
Na
cidade de São Paulo, no entanto, as restrições municipais que se aplicam a
unidades HIS e HMP acabam proibindo indiretamente a locação temporária de
unidades financiadas pelo Minha Casa, Minha Vida, já que a grande maioria dos
imóveis financiados pelo programa federal no município se enquadra nessas duas
categorias.
Mesmo
assim, especialistas em habitação entrevistados pela BBC News Brasil criticaram
o regulamento do Minha Casa, Minha Vida acima da faixa 1, afirmando que ele
abre margem para que o programa seja desviado da finalidade de prover moradia.
Para
Bianca Tavolari, professora da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas em
São Paulo e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o
regulamento deveria ser modificado para proibir a locação de curta temporada em
todas as faixas.
"Poderíamos
achar que, quando o Minha Casa, Minha Vida se sobrepõe às restrições municipais
às HIS, haveria mais controle, mas isso é só parcialmente verdade", afirma
Tavolari.
O tema
também entrou no radar dos vereadores da CPI na Câmara Municipal de São Paulo.
Vice-presidente
da CPI, o vereador Nabil Bonduki (PT) diz à reportagem ter pedido à Caixa e ao
Ministério das Cidades mudanças no regulamento do programa que impeçam a
locação por meio de plataformas como Airbnb e Booking de imóveis acima da faixa
1.
"Não
deveria ser permitido o aluguel de curta temporada de nenhuma moradia
subsidiada pelo governo federal", afirma Bonduki.
A
vereadora Silvia Ferraro, segundo informou sua assessoria, também se reuniu com
os dois órgãos para debater possibilidades de mudanças no regulamento que
proíbam a locação de curta temporada.
Outro
pedido da vereadora foi pelo estabelecimento de uma metragem mínima para
imóveis financiados pelo programa.
Muitos
apartamentos financiados pelo Minha Casa Minha Vida em São Paulo nos últimos
anos têm entre 24 e 30 metros quadrados. Ela afirma que as dimensões desses
apartamentos os tornam pouco adequados para moradia e favorecem usos
alternativos, como o aluguel de curta temporada.
O
Ministério das Cidades é responsável pela formulação do Minha Casa, Minha Vida,
enquanto a Caixa trata de sua execução.
A BBC
News Brasil questionou os dois órgãos se há planos de mudar o regulamento do
programa para proibir a locação temporária acima da faixa 1 e estabelecer uma
metragem mínima para os imóveis.
A Caixa
disse em nota que, nas categorias acima da faixa 1, "atua exclusivamente
na condição de agente financeiro, realizando a análise e o enquadramento do
beneficiário no momento da concessão do crédito, não cabendo à instituição a
fiscalização posterior da utilização do imóvel".
A
pergunta também foi enviada ao Ministério das Cidades repetidas vezes, mas o
órgão não a respondeu. Em vez disso, o órgão citou algumas regras para a
participação no Minha Casa Minha Vida e disse que o perfil das pessoas
beneficiadas pelo programa é "distante do perfil de investidor".
<><>
O custo das isenções
Para a
pesquisadora Bianca Tavolari, a remoção de anúncios de imóveis HIS e HMP de
plataformas de locação de curta temporada é positiva, mas não resolve os
problemas desses programas.
Tavolari
coordenou a pesquisa "Panorama da Habitação de Interesse Social no
Brasil", produzida pelo Cebrap e pela Fundação Tide Setubal em 2025. O
estudo calculou que a Prefeitura de São Paulo deixou de arrecadar cerca de R$ 1
bilhão desde que passou a conceder incentivos às construtoras para a construção
de moradias populares, em 2014.
O valor
cobriria a operação de dois grandes hospitais públicos, como o Hospital do
Servidor Público Municipal, ao longo de um ano. Segundo lei aprovada pela
Câmara de São Paulo, em 2024, o hospital tem orçamento de cerca de R$ 500
milhões por ano.
Entre
as vantagens oferecidas às construtoras em troca da construção de moradias
populares, estão isenções fiscais e a possibilidade de construir acima do
limite legal de área construída em relação ao tamanho do terreno sem pagar uma
taxa adicional, chamada de outorga onerosa.
Para
Tavolari, a Prefeitura deveria "retomar" imóveis HIS e HMP que
descumpriram as regras dos programas. Segundo ela, não basta multar as
construtoras que venderam esses imóveis para públicos não enquadrados.
"Esses
imóveis devem ser destinados a pessoas que precisam de moradia em São
Paulo", afirma a pesquisadora.
Tavolari
diz ainda que um dos principais problemas dessa política é a falta de dados,
como o número, a localização e as características dos imóveis construídos com
incentivos da prefeitura.
Hoje,
segundo ela, a Prefeitura deixa nas mãos das construtoras várias decisões sobre
os empreendimentos com moradias populares, inclusive o registro público das
informações sobre essas construções.
Como
resultado, diz Tavolari, muitos dados não são informados de forma adequada. É
por isso que a Prefeitura tem levado tanto tempo para elaborar a lista com os
endereços das HIS e HMP, segundo a pesquisadora.
"Do
jeito que está, essa política é imonitorável e deveria ser suspensa",
afirma a pesquisadora.
Em nota
à BBC News Brasil, a Secretaria Municipal de Habitação disse que tem
intensificado a fiscalização para coibir práticas irregulares envolvendo
unidades HIS e HMP e que divulgará a lista das unidades no prazo acordado com a
Câmara Municipal.
"A
utilização dessas moradias em desacordo com a legislação pode gerar
responsabilização legal, inclusive para os agentes envolvidos na intermediação
ou divulgação dessas ofertas", disse o órgão.
Outros
urbanistas e atores políticos defendem, no entanto, que a política das HIS deve
ser ajustada, mas não interrompida.
O
vereador Nabil Bonduki, que também é professor de Planejamento Urbano da
Universidade de São Paulo, diz que, mesmo com problemas, a política tem
conseguido produzir unidades HIS em regiões centrais da cidade.
O que
falta, segundo ele, é garantir que elas realmente cheguem ao público-alvo:
"Seria muito ruim para a cidade simplesmente desmontar a política".
Fonte:
BC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário