Caso
Master: corrupção, capitalismo e antipetismo
Em meio
ao escândalo do Banco Master, recordei-me deste texto que publiquei no Le Monde
Diplomatique Brasil, em janeiro de 2025:
O pleno emprego e a sombra do golpe. Diante do incômodo dos capitalistas
com a política de pleno emprego praticada pelo Partido dos Trabalhadores (PT),
disse o seguinte à guisa de conclusão:
“Não
será, portanto, total surpresa se um novo grande escândalo de corrupção [do
calibre de uma Lava Jato] estourar durante esta ou uma eventual próxima
administração petista para, outra vez, criminalizar o partido e abrir espaço
para novos ‘outsiders‘”.
O
espantoso é que o Master é, até o momento, um escândalo eminentemente da
direita. Como pontuou o colunista da Folha de São Paulo, Celso Rocha de Barros,
dos 18 entes federativos que investiram no banco, 17 eram governados pela
direita. O governador que tentou comprá-lo foi o bolsonarista Ibaneis Rocha, do
MDB (o PT e outros partidos de oposição ao governo do DF votaram contra a
aquisição).
Os
parlamentares que estão nos contatos de Daniel Vorcaro são basicamente de
direita, incluindo seu “grande amigo de vida”, Ciro Nogueira (PP), autor da
chamada “Emenda Master”, que propunha aumentar o limite de garantia do Fundo
Garantidor de Créditos (FGC), favorecendo bancos de menor porte como o Master.
Lembremos
ainda que foi o Banco Central (BC) de Roberto Campos Neto – indicado à
presidência da instituição por Jair Bolsonaro – que autorizou Vorcaro a assumir
o controle do Master, mesmo sabendo que ele já aparecia em investigações
relacionadas a operações financeiras suspeitas, e que atuou para evitar sua
liquidação.
No
entanto, a Grande Mídia vem generalizando a participação política no Master,
dando brecha para a produção do sentimento anti-esquerda que imperou no país
após a Lava Jato, dado que o escândalo de hoje também estourou em uma
presidência petista. Percepção essa intensificada pela falaciosa ideia de que o
Supremo Tribunal Federal (STF), que tem ao menos dois ministros implicados no
caso, seria de esquerda por ter condenado Bolsonaro à prisão.
Importa
lembrar que a Lava Jato envolvia não apenas gente do PT como diversos
parlamentares do Centrão, o qual, apesar do nome, compõe-se sobretudo de
políticos de direita. E não sejamos ingênuos: as práticas ilícitas desveladas
pela operação da Polícia Federal (PF) não eram novidade. Foi durante a Ditadura
Militar que as empreiteiras brasileiras se agigantaram graças a vultosos
contratos públicos, inclusive com a Petrobras. A diferença é que não havia
transparência alguma, e quem ousasse investigar corria risco de parar em um
centro de tortura ou embaixo da terra.
O fato
de a Lava Jato ter estourado no colo do PT tem mais a ver com questões de ordem
geopolítica (a preocupação dos EUA com a política de desenvolvimento nacional
ancorada na Petrobras após as descobertas do pré-sal[1]) e de luta de classes
(o pleno emprego nos governos do PT, tendo na Petrobras um agente de fomento)
do que uma legítima ambição de combater a corrupção.
Fosse
uma questão de corrupção somente, não teríamos paralisado obras estratégicas
como a construção de refinarias e fábricas de fertilizantes ou interrompido o
processo de internacionalização da Petrobras, que nos projetava geopolítica e
economicamente sobre a América Latina e a África. Não teríamos flexibilizado as
exigências de conteúdo local, que geraram milhares de empregos em estaleiros
brasileiros. Nem privatizado duas refinarias, a maior parte de nossa malha de
gasodutos e adotado a criminosa política de precificação de combustíveis com
base no preço de paridade de importação (PPI), que resultou no aumento da
volatilidade de preços dos derivados durante as gestões Temer e Bolsonaro. A
Petrobras tampouco teria desinvestido a BR Distribuidora, razão pela qual,
hoje, mesmo quando reduz os preços dos derivados em suas refinarias, os
consumidores não sentem efeito nas bombas dos postos de gasolina.
Ademais,
a queda do PT em 2016 – na qual a Lava Jato cumpriu papel relevante – abriu
espaço para outra ação nociva do ponto de vista do interesse nacional: a
privatização da Eletrobras, detentora da maior parte de nossa capacidade de
geração e transmissão de energia. Agora orientada exclusivamente pela lógica do
lucro, a companhia não pode mais ser utilizada como instrumento de
estabilização dos preços da energia, por exemplo.
Evidentemente,
corrupção não é um monopólio da direita ou da esquerda. Ela estará sempre aí,
seja quem for que estiver no poder, vide o escândalo do INSS, que atravessou os
governos Temer, Bolsonaro e Lula. E o caso Master apenas explicita o que é e
como funciona o capitalismo: uma aliança entre o poder e o dinheiro, marcada
pela trapaça, com vistas à eliminação da concorrência, sobretudo na esfera
financeira, conforme notou o historiador francês Fernand Braudel. É nesse
sentido que digo que o Capitalista com “C” maiúsculo é aquele que tem acesso
aos corredores da política, aos “chás e almoços” a que a Profª. Maria da
Conceição Tavares fez referência[2].
Na
impossibilidade de uma solução definitiva para o problema, creio que o que
precisa ser avaliado na hora de votar são duas questões fundamentais: 1. O
projeto de país que o candidato propõe dialoga com os interesses nacionais e as
necessidades da classe trabalhadora, para além do empresariado? 2. Buscará
assegurar transparência em sua gestão, bem como a autonomia dos órgãos de
fiscalização e investigação?
Jair
Bolsonaro foi o primeiro presidente desde o Plano Real a terminar o mandato com
salário-mínimo valendo menos. Ele manteve o índice de desemprego acima dos dois
dígitos em quase todo o período de seu governo, a exemplo do que aconteceu em
Michel Temer. O país voltou ao mapa da fome da ONU, e o desmatamento explodiu.
Suas ações (ou inações) na pandemia da COVID-19 contribuíram para a morte de
centenas de milhares de brasileiros. O ex-presidente ainda colocou órgãos
federais como a Abin e as polícias federais a serviço de seus interesses
pessoais e políticos – inclusive em sua tentativa frustrada de golpe de Estado
– e trabalhou pela autonomização do Banco Central (nome bonito para o processo
de desdemocratização da política monetária, como expliquei no artigo de 2025).
E, dada
a vassalagem bolsonarista ante Donald Trump, não é difícil imaginar que nossos
recursos naturais e energéticos serão entregues de bandeja ao líder
norte-americano se Flávio vier a ganhar as próximas eleições presidenciais. O
senador, por sinal, já celebrou a iniciativa do governo estadunidense de
classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando
Vermelho (CV) como organizações terroristas, o que, caso aprovado, poderá
justificar futura intervenção dos EUA no país.
Seriam
esses anseios da sociedade brasileira?
• BolsoMaster: a circulação e o retorno.
As "doações" a Tarcísio e Bolsonaro. Por Oliveiros Marques
Não é porque a GloboNews recuou em sua
violência em forma de PowerPoint, com um pedido inédito de desculpas sem que
houvesse ação judicial, que devemos recuar em nossa tarefa de deixar claro o
funcionamento do grande cancro que está se mostrando ser o “esquemão” do
BolsoMaster.
Se as
primeiras lâminas revelaram o metabolismo e o sistema nervoso, esta terceira
etapa da biópsia expõe algo ainda mais sensível: a circulação. É nela que se
observa não apenas como o organismo se alimenta, mas também como redistribui os
recursos que acumula.
Nenhum
tumor cresce sem retorno. Ele se expande, captura, processa — e, em algum
momento, reverte parte dessa energia para os tecidos que o sustentam.
É nesse
ponto que a análise passa a observar possíveis fluxos de retornos políticos e
financeiros.
Como
vimos nas colunas anteriores, fortes indícios apontam para a atuação de uma
rede de apoio que inclui nomes como Ciro Nogueira, Filipe Barros, Campos Neto,
Onyx Lorenzoni, entre outros atores que, em diferentes momentos, ocuparam
posições estratégicas na estrutura institucional do governo Bolsonaro. A
hipótese que se desenha é a de uma relação de reciprocidade: apoio político que
viabiliza expansão econômica — e recursos que, posteriormente, retornam para
alimentar esse mesmo sistema.
Esse
retorno não se dá de forma direta e linear. Como em toda patologia complexa,
ele circula por vias indiretas, por estruturas intermediárias, por organismos
aparentemente periféricos.
Nesse
contexto, surge a figura de Fabiano Zettel, pastor e operador vinculado à
Igreja Lagoinha. A mesma de Nikolas Ferreira, é sempre importante destacar. Sua
posição, simultaneamente religiosa e relacional, sugere uma possível função de
intermediação — um canal por onde fluxos financeiros transitam em direção a
espaços de menor visibilidade e maior blindagem simbólica.
Não se
trata de afirmar conclusões definitivas, mas de observar padrões. Relações de
proximidade, coincidências operacionais e interações que, quando analisadas em
conjunto, sugerem a existência de uma rede de circulação mais ampla.
No
campo eleitoral, há também registros e relatos que indicam a possibilidade de
apoio logístico e financeiro a campanhas políticas em 2022. Elementos que, se
confirmados pelas investigações, podem revelar uma dimensão adicional desse
circuito de retorno. E aqui, é evidente, já podemos nos referir aos R$ 5
milhões doados por meio de Zettel às campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio, e ao
empréstimo do jato de Daniel Vorcaro para Nikolas voar pelo Brasil na campanha
derrotada de Bolsonaro em 2022.
Como em
qualquer biópsia, o que inicialmente aparece como fragmento isolado passa, aos
poucos, a compor um desenho mais amplo. E esse desenho aponta para um organismo
que não apenas cresce, mas que retroalimenta suas próprias bases de
sustentação.
Há
ainda um ponto que merece atenção: a possibilidade de deslocamento de parte
desses recursos para fora do país. Quando isso ocorre, o organismo deixa de
operar apenas no plano nacional e passa a integrar circuitos mais complexos de
circulação financeira, dificultando ainda mais o rastreamento.
É por
isso que as investigações em curso — e a eventual delação do banqueiro — serão
decisivas. Seguir o rastro do dinheiro é, em última instância, compreender o
funcionamento completo do sistema.
Se as
primeiras etapas da biópsia revelaram a origem e o funcionamento interno, esta
terceira aponta para algo ainda mais grave: a existência de uma rede de
circulação que conecta poder econômico, político e simbólico.
E, como
em toda patologia avançada, quanto mais se aprofunda o exame, mais evidente se
torna que o problema não está em uma célula isolada, mas na articulação entre
todas as partes do organismo.
• Celular de Vorcaro tinha minuta do TCU
que suspendia ações do Banco Central contra o Master
Uma
minuta de despacho atribuída ao Tribunal de Contas da União (TCU) foi
identificada entre mais de 12 mil arquivos extraídos do celular do empresário
Daniel Vorcaro e encaminhados à CPMI do INSS, no Congresso Nacional. O
documento, sem autoria ou assinatura, determinava que o Banco Central
suspendesse “toda e qualquer decisão” relacionada ao Banco Master, além de
prever a oitiva de técnicos da autoridade monetária no prazo de dez dias,
informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.
De
acordo com a apuração, havia duas versões do arquivo, ambas em formato Word e
intituladas “TCU_mora_excessiva”, criadas em 29 de agosto de 2025, com poucos
intervalos de tempo entre si, conforme apontam os metadados. O material não
indica se foi produzido, recebido ou compartilhado por Vorcaro, e sua origem
permanece desconhecida.
Na
época em que o documento foi elaborado, o processo envolvendo o Banco Master já
estava sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus no TCU. Recentemente, o
magistrado decidiu suspender a análise sobre a atuação do Banco Central na
liquidação extrajudicial da instituição até a conclusão das investigações em
curso. Antes disso, ele havia rejeitado uma representação do Ministério Público
junto ao tribunal que buscava apurar possíveis falhas do Banco Central na
supervisão das operações do banco e no negócio envolvendo o BRB.
O
episódio ocorre em um contexto de intensa movimentação política e
institucional. Jhonatan de Jesus, ex-deputado pelo Republicanos de Roraima, foi
indicado ao TCU com apoio de lideranças do Centrão, entre elas o senador Ciro
Nogueira (PP-PI), que mantém relação de proximidade com Vorcaro e atuou no
Senado em iniciativas consideradas favoráveis ao Banco Master.
A
descoberta da minuta coincide com um período crítico, quando o Banco Central
analisava a viabilidade da operação entre o BRB e o Master e já havia exigido
medidas para sanar problemas de liquidez da instituição. Paralelamente,
representantes do governo do Distrito Federal e do BRB foram alertados pelo
Ministério Público Federal sobre suspeitas envolvendo carteiras de crédito
negociadas por mais de R$ 12 bilhões.
Na
ocasião, procuradores recomendaram ao Banco Central que não aprovasse a
operação e orientaram o governo distrital a aguardar a comprovação da
“fidedignidade e lisura dos ativos”, evitando riscos ao uso de recursos
públicos. Mesmo diante desses alertas, o governo do Distrito Federal solicitou
ao TCU o acompanhamento técnico da análise.
Após o
veto do Banco Central à compra do Master pelo BRB, formalizado em 3 de setembro
de 2025, o governo distrital voltou a acionar o TCU, pedindo a suspensão
imediata de decisões do regulador — com uma redação semelhante à encontrada na
minuta armazenada no celular de Vorcaro.
Auditoria
do TCU, divulgada posteriormente, criticou duramente essa atuação. Em parecer,
técnicos afirmaram que houve tentativa de utilizar o controle externo para
reverter uma decisão técnica baseada em irregularidades já identificadas.
Segundo o documento, havia indícios de fraudes, ativos de existência duvidosa e
ausência de procedimentos adequados de verificação.
A
auditoria também destacou que a insistência em pressionar o Banco Central
poderia expor o BRB a riscos financeiros expressivos, reforçando a necessidade
de responsabilização dos envolvidos.
As
investigações apontam ainda que o Banco Central já vinha identificando
problemas no Banco Master desde 2024, incluindo dificuldades de captação e
cumprimento de obrigações financeiras. Ao longo de 2025, alertas sobre
possíveis sanções foram reiterados, até a decretação da liquidação
extrajudicial da instituição.
A
defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentará o conteúdo do material,
alegando tratar-se de informações oriundas de vazamentos ilegais. Em nota,
declarou que os fatos já são alvo de investigação criminal no Supremo Tribunal
Federal e que qualquer manifestação poderia contribuir para a disseminação de
conteúdo sob apuração. Até a publicação, nem o BRB nem o governo do Distrito
Federal haviam se pronunciado sobre o caso.
Fonte:
Por João Montenegro, no Le Monde/Brasil 247

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