Reforma
educacional: do direito social ao mercado de opções
Lei da
Liberdade Educacional”, promovida pelo governo de Javier Milei, não é
simplesmente uma reforma setorial, mas sim parte de um projeto mais amplo de
reorganização do Estado argentino segundo princípios de mercado. Assim como a
reforma trabalhista redefiniu o trabalho como uma relação contratual mais
flexível e menos protegida, a reforma educacional busca direcionar o direito
social à educação para um sistema de escolha individual/familiar, competição
institucional e terceirização progressiva de responsabilidades públicas.
O
núcleo ideológico do plano é claro: o Estado deve deixar de ser o garantidor
estrutural e o principal provedor do sistema educacional e, em vez disso,
tornar-se o regulador que estabelece padrões mínimos dentro de um ecossistema
pluralista de opções. Assim, a educação não é mais concebida como um direito
coletivo, mas como um serviço que as famílias devem gerenciar em um mercado de
opções. Essa mudança é significativa, considerando que, na Argentina, a
educação pública se consolidou desde o final do século XIX como um dos pilares
da construção do Estado e da integração social. A Lei 1420 estabeleceu a
educação gratuita, obrigatória e universal, e instituiu o princípio de que a
educação era uma questão pública central. Com todas as suas limitações e desigualdades,
esse paradigma organizou o sistema educacional nacional por mais de um século.
Até hoje.
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Liberdade educacional e redefinição do Estado
Oprojeto
oficial redefine o papel do Estado em termos que, sob o pretexto de liberdade,
implicam, na verdade, uma redução de suas funções. O diagnóstico do governo
sustenta que o sistema educacional argentino é excessivamente regulamentado,
burocratizado e dominado por interesses corporativos (especialmente sindicais).
O baixo desempenho em testes internacionais, como o Programa Internacional de
Avaliação de Alunos (PISA), é apresentado como prova irrefutável de uma falha
estrutural. A resposta oficial visa ampliar a autonomia institucional,
diversificar as modalidades educacionais e facilitar a escolha das famílias.
Nesse contexto, o Estado deve se limitar a estabelecer padrões gerais e
supervisionar, sem, no entanto, garantir e organizar diretamente o sistema nacional
de educação.
É claro
que criticar essa abordagem não significa negar os problemas reais do sistema.
A Argentina enfrenta uma deterioração significativa na infraestrutura escolar,
uma profunda crise salarial dos professores e grandes e persistentes lacunas de
aprendizagem. Mas as evidências comparativas não mostram que a competição e a
fragmentação melhoram automaticamente esses indicadores; pelo contrário, tendem
a ter o efeito oposto, reorganizando as desigualdades preexistentes sem
resolvê-las.
Além
disso, existe um problema com o próprio diagnóstico. Os resultados em testes
padronizados como o PISA dependem de múltiplos fatores estruturais — níveis de
investimento, condições socioeconômicas das famílias, taxas de inclusão,
infraestrutura — que a competição entre escolas não altera. Países com sistemas
altamente privatizados não alcançam consistentemente resultados melhores do que
aqueles com sistemas públicos robustos. A Finlândia, um ponto de referência
frequente em debates sobre a qualidade da educação, construiu seu sistema com
base em princípios radicalmente diferentes: forte investimento público, alta
valorização da docência como profissão e ausência de competição entre escolas.
A proposta de privatização do governo está longe de ter o respaldo empírico que
alega.
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Financiamento e lógica da concorrência
Um dos
aspectos mais sensíveis do projeto é a implementação de esquemas que alinham o
financiamento ao princípio de que “o dinheiro segue o estudante”. Embora não
estabeleça explicitamente um sistema de vouchers como o utilizado no Chile —
uma promessa de campanha do partido La Libertad Avanza que foi posteriormente
atenuada no projeto de lei enviado ao Congresso —, a filosofia é semelhante: os
recursos devem ser direcionados de acordo com as escolhas das famílias e não
vinculados a estruturas estatais.
O
argumento oficial baseia-se em supostos critérios de eficiência, segundo os
quais as instituições que oferecem educação de maior qualidade atrairão mais
alunos, o que, por sua vez, as incentivará a melhorar. No entanto, pesquisas em
economia da educação mostram consistentemente que, em contextos desiguais, a
competição tende a beneficiar aqueles que já possuem maior capital social,
cultural e econômico. Nesses sistemas, as escolas localizadas em áreas mais
abastadas atraem mais alunos e recursos, enquanto aquelas que atendem aos
setores mais vulneráveis da população enfrentam ciclos de declínio que se
retroalimentam: perdem matrículas, perdem financiamento, perdem a capacidade de
reter seus professores e perdem qualidade. A competição não apenas deixa de
criar igualdade, como, ao contrário, acentua a estratificação.
O
exemplo regional mais claro é o Chile. Desde a reforma implementada durante a
ditadura de Augusto Pinochet, o sistema chileno operou com base em um esquema
de financiamento por demanda, apresentado por décadas como um modelo de
modernização. No entanto, inúmeros estudos — incluindo os próprios relatórios
da OCDE — demonstraram níveis extremamente elevados de segregação
socioeconômica e segmentação institucional. As mobilizações estudantis massivas
de 2006 e 2011 denunciaram justamente a mercantilização do direito à educação,
e a demanda por uma reforma abrangente do sistema educacional foi uma das
principais forças motrizes do ciclo de protestos de 2019, com o debate
continuando no âmbito do projeto de reforma constitucional que se seguiu à
revolta social. É evidente que o caso chileno não pode ser transferido
mecanicamente para a Argentina, mas oferece alertas contundentes, pois fica
claro que quatro décadas de competição educacional estiveram longe de produzir
equidade. Em vez disso, produziram um sistema segmentado onde a qualidade da
educação recebida depende fundamentalmente da capacidade econômica de cada
família ou de sua habilidade de contrair dívidas.
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Educação domiciliar e educação obrigatória relativa
Outro
aspecto fundamental da reforma é a expansão do ensino domiciliar, uma proposta
apresentada como reconhecimento da diversidade pedagógica e ampliação dos
direitos dos pais. Nessa perspectiva, a escolarização tradicional deixa de ser
o único meio legítimo de cumprir a escolaridade obrigatória.
Em
abstrato, o pluralismo pedagógico não é inerentemente problemático. Contudo, em
sociedades profundamente desiguais, como em grande parte da América Latina, a
terceirização das responsabilidades educacionais tende a levar a uma maior
fragmentação social. Isso ocorre porque as escolas não são meramente espaços
para a transmissão de conteúdo curricular, mas também esferas de socialização
democrática e interação entre diversas classes e grupos sociais. Quando essa
função é privatizada — quando cada família define o percurso educacional de
seus filhos de acordo com seus próprios valores, recursos e redes — a dimensão
pública da educação fica enfraquecida.
No
Brasil, durante a presidência de Jair Bolsonaro, projetos para legalizar
amplamente o homeschooling foram promovidos sob argumentos semelhantes de
liberdade e defesa da família. Embora sua implementação tenha sido parcial, o
debate evidenciou uma tensão fundamental: até que ponto a educação pode ser
privatizada sem corroer sua dimensão coletiva? Os grupos religiosos e
conservadores que apoiaram essa iniciativa não buscavam primordialmente uma
alternativa pedagógica, mas, sobretudo, proteger seus filhos de conteúdos que
consideravam contrários aos seus valores (discursos percebidos como populistas
ou que incluíam educação sexual abrangente), contribuindo, assim, para a
construção de enclaves culturais elitistas à margem do sistema educacional
tradicional.
A
reforma argentina mantém formalmente a escolaridade obrigatória, mas
flexibiliza seu cumprimento, deslocando o foco de uma garantia estatal ativa
para a responsabilidade familiar. Na tradição dos direitos sociais, a obrigação
de ser educado sempre esteve ligada à obrigação do Estado de prover condições
universais, mas quando seu cumprimento depende cada vez mais de uma série de
arranjos e decisões privadas, o direito se individualiza. E um direito que
depende de recursos individuais deixa, na prática, de ser um direito universal.
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O contraexemplo incômodo: a universidade pública
Odiagnóstico
oficial da “falha estrutural” do sistema educacional argentino geralmente se
baseia nos resultados das avaliações nos níveis fundamental e médio. Essa
narrativa, no entanto, encontra uma clara limitação no sistema universitário
público e, particularmente, no desempenho da Universidade de Buenos Aires.
A
Universidade de Buenos Aires (UBA) figura consistentemente entre as melhores
universidades da América Latina em importantes rankings internacionais — QS,
Times Higher Education, Ranking de Xangai — e se posiciona como uma das
principais universidades do mundo hispânico. Isso não é meramente simbólico. A
universidade pública argentina, gratuita e com admissão aberta à maioria dos
cursos, continua a atrair estudantes de toda a região, inclusive de países que
adotaram modelos mais voltados para o mercado. Sua produção científica, seu
engajamento internacional e sua capacidade de formação em áreas de grande
complexidade são inegáveis.
O
contraste com o Chile é particularmente marcante. Embora o sistema chileno seja
frequentemente citado como referência em eficiência e competitividade, seu
ensino superior opera sob um sistema de dívida estudantil elevada e
mensalidades exorbitantes. A Argentina, por outro lado, mantém um modelo de
ensino universitário gratuito que historicamente possibilitou a ascensão social
e o desenvolvimento de recursos humanos altamente qualificados. A lei de
financiamento universitário vetada pelo Poder Executivo em 2025, que permanece
ineficaz até hoje (situação que, juntamente com as reivindicações salariais em
curso, levou a uma greve de professores nas universidades nacionais, ameaçando
o início do semestre), demonstra que o debate sobre esse modelo continua.
A
existência de um sistema universitário robusto não elimina os problemas reais
que existem nos níveis fundamental e médio. Mas coloca em perspectiva a ideia
de que a solução reside necessariamente na mercantilização, privatização e
familiarização do sistema. Se a lógica de mercado fosse uma condição necessária
para a qualidade educacional, seria difícil explicar por que as universidades
públicas da Argentina — gratuitas, massificadas e administradas pelo Estado —
produzem resultados científicos e intelectuais reconhecidos internacionalmente.
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O padrão regional e as novas direitas
Areforma
argentina não é um experimento isolado. Na América Latina, a expansão das
agendas educacionais de direita combina sistematicamente elementos de mercado
com disputas culturais. As discussões sobre o currículo — o que é ensinado,
como é ensinado e quem decide o conteúdo — invariavelmente articulam uma
crítica à suposta “ideologização” das escolas públicas, com uma demanda por
maior controle familiar sobre a educação. Essa abordagem dual — forças de
mercado e valores familiares — é a marca registrada da nova direita no campo da
educação.
O fio
condutor é a mesma concepção de um Estado mínimo e a fé absoluta na competição
como princípio organizador. Se, na esfera laboral, a flexibilidade redefine a
relação capital-trabalho, na esfera educacional, a mercantilização redefine a
relação entre o Estado e os cidadãos em relação ao conhecimento. Em ambos os
casos, a promessa é a liberdade, naturalmente, mas sem esclarecer para quem e
sob quais condições materiais.
Em
contextos desiguais, essa escolha não opera isoladamente. As famílias possuem
recursos informacionais, culturais e econômicos muito diferentes, e quando o
sistema é organizado em torno da competição, essas diferenças não apenas não
são neutralizadas, como também se traduzem em trajetórias educacionais cada vez
mais divergentes, com escolas especializadas em determinados perfis
socioeconômicos e um sistema que se torna estratificado. Assim, a promessa de
liberdade torna-se claramente diferenciada, potencialmente ampla e de alta
qualidade para aqueles com recursos, mas cada vez mais restrita e degradada
para aqueles que dependem exclusivamente do que o Estado pode fornecer.
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A educação como campo de disputa
Aeducação
pública argentina precisa de transformações profundas, sem dúvida, porque seus
problemas são reais: os salários dos professores vêm sofrendo uma grave
deterioração há décadas, perdendo terreno sistematicamente para a inflação; a
infraestrutura escolar é obsoleta e precária em grandes regiões do país, com
enormes disparidades entre os sistemas urbanos e rurais ou entre a cidade de
Buenos Aires e as províncias do norte da Argentina.
Nenhum
analista sério pode ignorar esses fatos, mas o debate aberto pela reforma
educacional proposta pelo mileísmo não se concentra em questões técnicas;
trata-se, antes, de uma discussão sobre o tipo de sociedade que se pretende
construir, sobre se a educação será um direito garantido coletivamente ou se
será transformada em um espaço onde cada família deve negociar sua posição em
um mercado de oportunidades estruturalmente desiguais.
A
experiência regional é eloquente, demonstrando que, quando a educação é
organizada segundo critérios de mercado, a fragmentação social deixa de ser uma
consequência indesejável e passa a fazer parte de sua lógica inerente. O que o
governo de Javier Milei apresenta hoje como solução para os problemas reais do
sistema educacional é, na verdade, um aprofundamento das condições que geram
esses problemas. A desigualdade educacional não se resolve com mais competição
entre escolas; resolve-se com mais investimentos, com mais professores e
melhores salários, com mais infraestrutura escolar e com uma política estatal
ativa para garantir condições educacionais igualmente dignas em todo o país. E
é precisamente essa discussão que a “Lei da Liberdade Educacional” busca
silenciar.
Fonte:
Por Pedro Perucca - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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