O
instituto nacional dos julgamentos definitivos
Conta-se
que, em algum anexo mal ventilado onde outrora viveram indígenas, funciona o
“Instituto nacional de julgamentos definitivos”. Trata-se de uma instituição
dedicada a resolver, de uma vez por todas, os problemas do mundo. Nas paredes,
há quadros dos antepassados dos membros, respeitáveis senhores sesmeiros e
responsáveis pelas mais diversas transações desde os tempos de Tomé de Souza
até os dos delírios de Ernesto Geisel, sempre devidamente apagadas da memória
nacional. Seus membros descobriram recentemente um método revolucionário: em
vez de analisar fenômenos complexos, basta nomeá-los moralmente.
Numa de
suas sessões mais produtivas, decidiram classificar os países do mundo. Após
breve deliberação, chegaram à conclusão de que existe, sim, “o pior país do
mundo”. A descoberta foi celebrada como um avanço metodológico: finalmente, a
geopolítica fora reduzida a um adjetivo. Mas o entusiasmo não parou aí.
Em dado
momento, um dos membros sugeriu que talvez fosse possível ir além dos países e
classificar também os povos. “E se identificássemos traços morais essenciais?”,
perguntou, com a segurança de quem nunca teve de testar uma hipótese.
Foi
então que a discussão enveredou por um terreno ainda mais fértil: a
mediocridade. Não a mediocridade banal, cotidiana, estatisticamente
distribuída, que seria pouco útil, mas uma mediocridade seletiva, atribuível a
certos grupos, convenientemente isolados do restante da humanidade. Ou pior:
alçados à condição de “inimigos da humanidade”.
É aqui
que um convidado inesperado poderia ter prestado algum serviço: Francis Galton,
aquele excêntrico vitoriano obcecado por medir a humanidade, que pensava a
mediocridade não como um insulto, mas uma propriedade estatística. Francis
Galton produziu uma conclusão bastante desinteressante: todos os povos são, em
média, igualmente ordinários. A mediocridade não distingue. Ela nivela. E
depois disso influenciou os discursos eugenistas de seu tempo.
Talvez
os respeitados intelectuais do Instituto tenham um horizonte de propósitos
práticos semelhante. Mas para isso, até a conclusão de Francis Galton deveriam
abandonar, pois teriam de converter o universal em particular e o banal em
estigma, aplicado ao grupo correto.
É
exatamente esse movimento que aparece em recentes manifestações de certos
intelectuais que, no afã de discutir crimes e agressões da maior importância,
deslocam a retórica para julgamentos coletivos contra judias e judeus.
Refiro-me a um artigo “O Pior País do Mundo” publicado no site A Terra é
Redonda por Paulo Nogueira Batista Jr. e às recentes manifestações digitais de
Jessé Souza.
Ao
sugerir a mediocridade de judeus, não como indivíduos, mas como coletivo
indistinto, o argumento de Paulo Nogueira Batista Jr. abandona qualquer
pretensão analítica e ingressa num repertório bastante conhecido: o da
essencialização moral de um povo. Não se trata mais de criticar políticas,
decisões de governo ou estratégias militares, mas de atribuir uma qualidade
intrínseca a uma coletividade inteira (que sequer é nacional). Evidentemente, é
possível condenar práticas de Estado sem associá-las a uma coletividade difusa
ou a pretensas características morais inerentes.
Isso
ocorre pouco tempo depois de Jessé Souza utilizar lentes conspiratórias para
analisar a rede misógina de pedofilia mantida por Jeffrey Epstein. Ao fazê-lo,
não se limitou a analisar redes concretas de poder ou responsabilidade;
preferiu insinuar conexões entre os crimes do financista e um suposto “lobby
judaico” ou “sionismo”, deslocando o problema do plano das práticas e
instituições para o da identidade coletiva. Essas afirmações não apenas carecem
de evidências empíricas, como fazem uso do clássico recurso de substituir uma
imputação situada para uma generalização difusa.
Jeffrey
Epstein e seus associados não são agentes de seus crimes. São receptáculos
inertes de uma força irresistível. Suas vítimas desaparecem como algo
colateral. O recuo posterior, com a alegação de confusão terminológica entre
“judaico” e “sionista”, serve apenas como ato falho e pouco altera a estrutura
do argumento, que permanece assentada na mesma operação de deslocamento e
essencialização.
Esse
gesto tem história. Ele ecoa uma tradição que, ao longo do tempo, projetou
sobre judeus uma dupla imagem tão conveniente quanto contraditória: ora a da
inferioridade moral, ora a de um poder desmesurado de controlar processos
econômicos e sociais. É essa segunda vertente, a hipérbole conspiratória, que
reaparece, por exemplo, quando se questiona a presença de indivíduos de origem
judaica em posições de destaque como se isso, em si, fosse indício de algo a
ser explicado. A tragédia europeia do antissemitismo construiu boa parte de sua
força precisamente nessa fantasia de agência extraordinária.
É uma
das figuras célebres invocadas por Paulo Nogueira Batista Jr. que nos ensina
que quando esse repertório retorna hoje, ele não o faz como farsa.
Aqui, o
paralelo é instrutivo. Em A sagrada família, Karl Marx já ironizava a “crítica
crítica”: uma forma de pensamento que, incapaz de apreender as mediações
concretas de um conflito social, refugia-se em julgamentos abstratos e
grandiloquentes. A farsa contemporânea consiste precisamente nisso: a reedição,
em chave empobrecida, de velhos esquemas explicativos que substituem análise
por imputação.
É nesse
ponto que a figura do bode expiatório entra em cena, teorizada por outro
intelectual extraordinário. Lewis Coser (Ludwig Cohen) mostrou como conflitos
sociais frequentemente são deslocados para alvos simbólicos, permitindo que
tensões reais sejam expressas sem jamais serem enfrentadas. O mecanismo é
conhecido: personaliza-se, simplifica-se, moraliza-se. E, ao final, tem-se a
confortável sensação de ter dito algo importante, quando, na verdade, apenas se
redistribuiu a carga afetiva do problema.
Talvez
isso ajude a entender um detalhe curioso: a centralidade quase obsessiva
atribuída a “intelectuais de origem judaica” em textos que, em tese, tratariam
de Estados e de conflitos geopolíticos. É um deslocamento revelador. Quando a
análise escorrega da política para a origem, da ação para a identidade, algo já
saiu do eixo. Aqui, quem talvez pudesse oferecer alguma pista adicional é
Sigmund Freud: há fixações que dizem menos sobre o objeto visado do que sobre a
estrutura do olhar que insiste em visá-lo.
Mas há
um elemento adicional que não pode ser ignorado e que diz respeito não apenas
aos autores, mas aos circuitos que os autorizam. Quando meios de comunicação e
instituições que se pretendem espaços de debate público passam a acolher
reiteradamente esse tipo de formulação em que coletividades são essencializadas
e reduzidas a traços morais não estão apenas hospedando opiniões controversas.
Estão conferindo legitimidade discursiva a um repertório historicamente
associado a formas de racismo. Ao fazê-lo, não apenas falham em distinguir
entre crítica política e estigmatização coletiva, como contribuem para
normalizar essa confusão.
E a
consequência é previsível. Uma vez atravessado esse limiar, a lógica tende a se
expandir: se é aceitável aqui, por que não ali? O que se inaugura não é um
debate mais franco, mas um rebaixamento do próprio espaço público, onde o ódio
pode circular sob a forma respeitável de “opinião”, e a aniquilação simbólica
passa a ser exercida com a chancela da publicação. E se é aceitável com uns,
porque não com outros? Daí porque o silêncio de intelectuais e suas associações
frente a essas manifestações de seus membros pode ser tão custoso.
No fim,
o que se apresenta como diagnóstico (a mediocridade de um grupo) revela-se mais
como sintoma. Não de qualquer característica intrínseca aos outros, mas de uma
dificuldade bastante conhecida: a de sustentar a complexidade sem recorrer ao
atalho confortável da generalização. Quando interpelados, recorrem ao
expediente usual de invocar as exceções à regra que proclamam (alguns bons
judeus) ou lembram com afeto de algum conhecido (“tenho até amigos”).
Paulo
Nogueira Batista Jr. é, inclusive, reincidente na farsa: ele já empregou
semelhante retórica para expressar seu ressentimento diante da nomeação de um
economista israelense-brasileiro à presidência do Banco Interamericano de
Desenvolvimento.
E,
nesse sentido, talvez não estejamos diante de um problema de “mediocridade
alheia”, mas de algo mais banal e, como Galton lembraria, muito mais bem
distribuído. Inclusive entre aqueles que se arrogam o direito de medi-la.
Fonte:
Por André Vereta-Nahoum, em A Terra é
Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário