Fernando
Horta: De volta para o “futuro”, Ministério das Comunicações?
Em
agosto de 2023, o Ministério da Educação publicou a Portaria nº 33, assinada
pela Secretaria de Educação Básica, estabelecendo novos parâmetros técnicos de
velocidade de internet para as escolas públicas brasileiras. A medida parecia
técnica, burocrática, quase invisível. Não era. A Starlink era a única empresa
com operação no Brasil capaz de cumprir as determinações do MEC para fornecer
conexão via satélite a 40 mil colégios situados em localidades mais distantes.
Exame A engenharia regulatória era perfeita em sua perversidade: até a estatal
Telebras ficava impossibilitada de participar da Estratégia Nacional de Escolas
Conectadas com as novas regras editadas pelo MEC. Dinheiro público brasileiro,
destinado constitucionalmente à educação pública, seria carreado diretamente
para os cofres da empresa de Elon Musk — sem licitação real, sem concorrência
efetiva, sem soberania.
O
escândalo veio à tona pelas mãos do jornalismo de investigação e por acadêmicos
– como esse que aqui escreve. O MEC suspendeu os trechos da portaria após o
Estadão revelar que a nova regra só era atendida, no mercado de satélites, pela
Starlink de Elon Musk. O ministro Camilo Santana foi obrigado a recuar
publicamente a partir de intervenção direta do presidente Lula. Mas o recado
havia sido dado, e o fio que conectava essa operação ao seu centro foi também
exposto: toda a política de conectividade de escolas do MEC era influenciada
por uma única ONG, a MegaEdu, financiada pela Fundação Lemann, do bilionário
Jorge Paulo Lemann, que tem negócios na área de educação. A secretária de
Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt, era liderança da Fundação Lemann, e
foi ela quem levou a MegaEdu para atuar no governo. A cadeia era clara: Lemann
financia a MegaEdu; a MegaEdu coloniza a política pública; a política pública
produz um edital pré-fabricado para a Starlink. Um triângulo perfeito entre
capital privado nacional, capital estrangeiro e aparato estatal capturado.
Essa
operação fracassou. Mas os seus arquitetos permanecem no campo.
Enquanto
esse enredo se desenvolveu no Brasil, o mundo — ou ao menos a parte do mundo
que ainda acredita que o Estado tem obrigações com seus cidadãos — foi
caminhando em direção oposta. A Europa aprovou em 2024 o AI Act, a mais
abrangente regulação de inteligência artificial já produzida por qualquer bloco
político no planeta. O regulamento proíbe o reconhecimento de emoções no local
de trabalho e nas escolas, a classificação social, o policiamento preditivo e a
IA que manipula o comportamento humano ou explora as vulnerabilidades das
pessoas. Mais que isso: soluções de IA utilizadas em instituições de ensino,
que podem determinar o acesso à educação e ao percurso da vida profissional de
alguém, são classificadas como de alto risco e estão sujeitas a obrigações
rigorosas de transparência, supervisão humana e redução de riscos.
A
lógica europeia parte de uma premissa que os entusiastas do mercado preferem
ignorar: tecnologia em ambiente escolar não é tecnologia neutra. Crianças e
adolescentes são sujeitos em formação, cognitiva e afetivamente vulneráveis, e
qualquer sistema que processe seus dados, modele seus comportamentos ou
intermedeie suas aprendizagens precisa ser tratado com a seriedade de uma
intervenção de alto risco. A Organização das Nações Unidas para a Educação
chegou à mesma conclusão pela via da pesquisa: o crescente envolvimento de
empresas privadas de tecnologia na educação pública é alarmante, pois afasta a
tomada de decisões dos educadores e governos, priorizando o lucro em detrimento
dos melhores interesses dos alunos. O relatório da Relatoria Especial da ONU para
o Direito à Educação, divulgado em outubro de 2024, foi ainda mais direto ao
identificar que sistemas de IA aplicados em contextos escolares já produziram,
concretamente, exclusão de estudantes pobres e não brancos.
A
UNESCO, por seu turno, não deixou margem para ambiguidades: a IA deve
complementar as dimensões humanas e sociais da aprendizagem, em vez de
substituí-las, tornando-se uma ferramenta a serviço de professores e
estudantes, tendo como principal objetivo sua autonomia e seu bem-estar. E fez
um alerta de política fiscal que seria bom que o Brasil ouvisse: os recursos
alocados pelos governos para a IA devem ser específicos e não devem estar
incluídos no total de recursos já comprometidos com a educação, em um momento
em que uma em cada quatro escolas primárias ainda não tem acesso à
eletricidade.
O mundo
avança na direção da proteção dos alunos contra a captura tecnológica privada.
O Brasil, na manhã de 24 de março de 2026, realizará um evento em sentido
contrário.
Amanhã,
no Auditorium da Telebras em Brasília — ironicamente, a estatal que foi
excluída dos editais desenhados para a Starlink —, acontece o evento
"EdTechs e Escolas Públicas 2026", organizado pelo portal
Tele.Síntese. O evento tem a aparência de um fórum plural de especialistas em
educação digital. Mas uma leitura atenta de seus participantes revela algo
muito diferente.
A CEO
da MegaEdu, Cristieni Castilhos, está no palco central, discutindo os próximos
passos da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas — a mesma ENEC cujos
parâmetros técnicos sua organização ajudou a moldar em 2023 de forma a excluir
concorrentes da Starlink. O projeto que conectou 100 escolas no Amazonas e no
Pará foi iniciado quando a Starlink procurou o Instituto Escola Conectada com a
MegaEdu para criar um plano de instalação de antenas em regiões remotas com
prioridade para instituições de ensino. A proximidade orgânica entre MegaEdu e
Starlink não é coincidência nem filantropia: é estratégia de mercado. A MegaEdu
mapeia as escolas sem conectividade, credencia-se junto ao governo como
"especialista técnica independente" e, uma vez dentro da formulação
da política pública, inclina os parâmetros em favor de sua parceira comercial.
O ciclo se fecha sobre o dinheiro público.
Também
presente está a representante da Vero, empresa que participa do Instituto Redes
do Futuro — o antigo Instituto Escolas Conectadas, que atuou em conjunto com a
MegaEdu e a Starlink na instalação de antenas nas escolas do Amazonas. Não é
uma associação antiga e superada: as ações mais recentes do Instituto, datadas
de fevereiro de 2026, seguem instalando antenas Starlink em escolas amazônicas.
A linhagem institucional é direta e operante.
Completam
o quadro representantes da Conexis Brasil Digital — o principal lobby das
operadoras de telecomunicações —, a Qualcomm americana com seu braço de
educação e hardware, além de um elenco de edtechs cujo modelo de negócio
depende de que as escolas públicas estejam conectadas e de que os dados dos
alunos circulem pelas suas plataformas. Há, é verdade, representantes da
Telebras, da Anatel, do CNE, da UnB e da UNESCO. Mas sua presença, mais do que
contrabalançar o evento, serve para conferir legitimidade institucional a uma
pauta que, sem eles, seria reconhecível demais pelo que é.
O
mecanismo aqui é mais sofisticado do que o edital de 2023. Naquele caso, havia
uma captura regulatória explícita — um parâmetro técnico redigido para ter um
único vencedor possível. Aqui, o trabalho é de produção de consenso: o evento
constrói o enquadramento discursivo dentro do qual as próximas decisões de
política pública serão tomadas. Normaliza os atores que foram identificados
como problemáticos. Recicla o vocabulário — "conectividade
significativa", "escola pós-conectada", "inovação no
ensino" — para que a chegada da Starlink nas escolas soe como progresso
inevitável, como modernidade, como interesse dos alunos.
Não é.
O investimento previsto na Estratégia Nacional de Escolas Conectadas é de R$
8,8 bilhões, com o objetivo de garantir internet de banda larga a todas as 138
mil escolas públicas de educação básica do país. É dinheiro do contribuinte
brasileiro, recolhido em parte como tributo compulsório sobre as
telecomunicações, e seu destino final não pode ser decidido em eventos que
funcionam como salas de lobby com auditório. A disputa por esses recursos —
especialmente o mercado de conectividade satelital para as escolas rurais e
remotas do Norte e Nordeste, onde a fibra óptica não chega — vale bilhões de
reais e é o coração estratégico do interesse da Starlink no Brasil.
Enquanto
a Europa proíbe que sistemas de IA manipulem comportamentos em escolas,
enquanto a ONU alerta que a privatização da educação digital exclui os mais
pobres, enquanto pesquisadores de todo o mundo documentam que tecnologia mal
regulada em ambientes escolares aprofunda desigualdades — o Brasil discute como
acelerar a entrada do capital privado estrangeiro na infraestrutura digital da
escola pública. Não à toa, a pergunta sobre formação docente, sobre currículo,
sobre projeto pedagógico, sobre o que os alunos vão fazer com a internet quando
ela chegar, ocupa o último painel do dia e divide o espaço com representantes
de plataformas comerciais de IA.
Parece
que volta à baila, no apagar das luzes do governo Lula 3, a velha tentativa de
usar dinheiro público para estreitar a soberania digital brasileira — desta vez
embalada em fogos de artifício tecnológicos, em keynotes de inglês, em painéis
sobre "escola pós-conectada" e "personalização do ensino".
O “packaging” mudou. A operação é a mesma.
De
educação, no sentido pleno da palavra — formação humana, pensamento crítico,
autonomia intelectual, cidadania digital —, há ali muito pouco. O que há, em
abundância, é a tentativa de transformar a escola pública brasileira em
mercado. Em ponto de extração de dados. Em cliente cativo de infraestrutura
estrangeira. Em terreno conquistado por quem chegou primeiro com a antena e o
contrato.
A
diferença entre conectar uma escola e colonizá-la digitalmente não está na
velocidade da internet. Está em quem decide os parâmetros, quem financia as
ONGs que influenciam o governo, quem redige os editais, quem lucra com os dados
das crianças e — sobretudo — a quem a política pública efetivamente serve.
Essa
pergunta, hoje, em Brasília, não foi feita.
• Educação ou cárceres. Por José Guimarães
Em
1982, o antropólogo e educador Darcy Ribeiro formulou uma das mais contundentes
advertências da vida pública brasileira: “Se os governantes não construírem
escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. Mais do que um
vaticínio, um diagnóstico sobre o destino de sociedades que negligenciam a
educação, que não a coloca nas agendas governamentais como estratégia para o
desenvolvimento.
Décadas
depois, por mais que tenha feito, o Brasil ainda não superou o dilema alertado
por Darcy Ribeiro. Conseguimos garantir o direito à educação na Constituição de
1988, aprovar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que organizou o
sistema educacional brasileiro, definiu a repartição de atribuições da União,
dos Estados e dos municípios, e instituiu a lei decenal que estabelece o Plano
Nacional de Educação (PNE), com metas para garantir o acesso e a qualidade.
Além
disso, tivemos governos que colocaram a educação no topo das prioridades: os
governos Lula e Dilma, além de experiências estaduais e municipais. Ainda
assim, insuficientes para superar a profunda desigualdade econômica, social,
política e cultural. Permanecemos entre os países mais desiguais e violentos do
mundo, herdeiros de uma sociedade colonial excludente.
Em
todos os governos do PT, a educação foi colocada no centro da agenda pública.
Isso se expressa não apenas no aumento global dos investimentos, que voltaram a
crescer com força a partir de 2023, ultrapassando R$ 180 bilhões anuais no
orçamento federal da educação, mas também na retomada e ampliação de programas
estruturantes.
Entre
os programas estruturantes, destaca-se o Novo PAC da Educação, que prevê cerca
de R$ 23 bilhões em investimentos em infraestrutura escolar, incluindo
construção de creches, escolas de tempo integral e conectividade. O programa
Escola em Tempo Integral conta com aproximadamente R$ 4 bilhões para ampliar
matrículas nessa modalidade, considerada decisiva para reduzir desigualdades.
Quanto
ao acesso ao ensino superior, o Prouni segue ofertando centenas de milhares de
bolsas por ano em instituições privadas, enquanto o Fies foi reformulado, com
previsão de mais de R$ 7 bilhões anuais para financiamento estudantil. Já as
universidades e institutos federais tiveram recomposição orçamentária superior
a R$ 10 bilhões, revertendo cortes recentes e permitindo expansão e manutenção
das atividades.
A
educação básica também recebeu reforço com a valorização do Fundeb, principal
mecanismo de financiamento do setor, que movimenta mais de R$ 300 bilhões por
ano, com complementação crescente da União. Programas como o Programa Nacional
de Alimentação Escolar (PNAE), com cerca de R$ 5 bilhões anuais, e o Programa
Dinheiro Direto na Escola (PDDE), com mais de R$ 2 bilhões, garantem condições
mínimas de permanência e funcionamento das escolas.
Na área
de inclusão e permanência, o governo retomou o Bolsa Permanência e ampliou
políticas de assistência estudantil, com recursos que superam R$ 1,5 bilhão
anuais. A conectividade nas escolas públicas também foi fortalecida, com
investimentos de cerca de R$ 6,5 bilhões para universalizar o acesso à internet
de alta velocidade.
Essas
iniciativas partem das premissas defendida por Anísio Teixeira: “Educação não é
privilégio” e do Presidente Lula: “Educação não é gasto, é investimento”. Cada
jovem que permanece na escola amplia suas oportunidades e reduz sua exposição à
violência.
Na área
da segurança pública, os dados recentes mostram avanços, mas também limites. O
Brasil registrou, em 2023, a menor taxa de homicídios em mais de uma década,
resultado de maior coordenação entre entes federativos, uso de inteligência e
ampliação de investimentos. Recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública
foram reforçados, e estados ampliaram sua capacidade de execução.
Ainda
assim, o país convive com indicadores alarmantes. A violência letal segue
elevada, e crimes como o feminicídio continuam a crescer, evidenciando que o
problema vai além da repressão. Trata-se de um fenômeno social complexo, ligado
à desigualdade, à falta de oportunidades e à ausência histórica do Estado em
territórios vulneráveis.
Além
disso, o Brasil atravessa uma fase em que o fascismo tem pretensões de criar
raízes e enfrenta o bolsonarismo com seu projeto obscurantista de sociedade, na
busca de um pacto tácito de organização das relações sociais baseada na
alimentação da retórica de ódio, do racismo, da misoginia, da homofobia, da
aporofobia, do desprezo pela vida humana, presentes no discurso da extrema
direita.
É nesse
contexto que a advertência de Darcy Ribeiro continua atual. Os investimentos, o
acesso e a melhoria da qualidade da educação precisam frear a escalada da
violência, da expansão do sistema prisional brasileiro e proporcionar
perspectivas de futuro para milhões de jovens e fortalecimento da democracia.
As
propostas de reforma da segurança pública do governo Lula em debate e votação
no Congresso Nacional integram ações federativas e financiamento permanente no
Sistema Único de Segurança Pública (Susp) a partir da articulação federativa,
na qual predomina a prevenção com uso da inteligência em vez da repressão
violenta. Trata-se de reconhecer que segurança pública também se constrói
aumento dos investimentos na educação pública e com políticas sociais
estruturantes.
Nenhuma
política de segurança será plenamente eficaz sem compromisso duradouro com a
educação. A prevenção da violência começa na primeira infância, passa pela
escola de tempo integral e pelo acesso ao ensino técnico e superior.
O
Brasil já demonstrou que é capaz de avançar quando combina crescimento com
inclusão. O desafio agora é consolidar essa trajetória com visão de longo
prazo, com o projeto nacional, estratégico do Governo Lula, de educação para o
desenvolvimento.
Darcy
Ribeiro não fez uma profecia inevitável, mas um chamado à responsabilidade
política. Ignorá-lo tem custado caro. Levá-lo a sério é condição para construir
um Brasil solidário, menos desigual, menos violento e mais justo.
Fonte:
Brasil 247

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