quinta-feira, 26 de março de 2026

Por que Noruega, Canadá e Rússia são os grandes beneficiados da guerra no Irã (quais os mais prejudicados)

Do vertiginoso aumento das contas de calefação doméstica em Yorkshire, no Reino Unido, até o fechamento de escolas no Paquistão para reduzir os custos, passando pelos preços de combustíveis em países como o Brasil, as repercussões financeiras da guerra no Oriente Médio já estão causando fortes consequências.

Fica cada vez mais evidente que o impacto das represálias de Teerã, projetadas para causar transtornos e danos econômicos, talvez não seja passageiro. E, além disso, também é muito desigual.

Ao lado de uma extensa lista de países que correm o risco de serem gravemente afetados, existem alguns que estão se beneficiando. Quem são eles?

<><> Os favorecidos

Apesar de todos os esforços para impulsionar as energias renováveis, continuamos dependendo, em grande parte, do petróleo e do gás.

Suas reservas abundantes costumam prometer grandes riquezas. E é por isso que o petróleo foi batizado de "ouro negro".

Quando os preços sobem, os produtores costumam sair ganhando, enquanto os consumidores pagam a conta.

Mas esta não é uma crise típica dos preços do petróleo. O Oriente Médio continua sendo o centro do abastecimento e o Estreito de Ormuz, sua principal artéria.

O impacto do bloqueio de facto e dos ataques à infraestrutura energética da região atingiram duramente os produtores do Golfo Pérsico, como o Catar e a Arábia Saudita, com o Irã mantendo os aliados dos Estados Unidos na sua mira.

E, com os clientes procurando fontes alternativas, países como a Noruega e o Canadá podem sair beneficiados.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, muitos países tentaram deixar de depender do gás russo. Com isso, a Noruega conseguiu aumentar sua produção e tirar vantagem dessa situação.

Por outro lado, o ministro da Energia do Canadá, Tim Hodgson, se apressou a posicionar seu país como "produtor de energia estável, confiável, previsível e baseado em valores". Mas existem questões sobre a real capacidade do país de aumentar sua produção.

Na verdade, a Rússia poderá acabar sendo a maior beneficiária. Com Washington flexibilizando as normas para reduzir a escassez global de combustíveis, as vendas de petróleo russo para a Índia aumentaram em cerca de 50%.

Estimativas indicam que Moscou poderia conseguir até US$ 5 bilhões adicionais até o final de março e se encaminhar para fechar o ano com a maior receita obtida com a venda de combustíveis desde 2022.

Os Estados Unidos correm o risco de conceder a Moscou enormes e inesperados lucros, às custas das nações do Golfo. Mas existem também outros possíveis beneficiários.

Com alguns países intensificando seu consumo de carvão, surge uma oportunidade muito atraente para grandes exportadores como a Indonésia, já que o preço deste combustível também está em alta.

<><> Os mais prejudicados

E sobre os Estados Unidos?

O presidente americano, Donald Trump, afirma que, quando sobe o preço do petróleo, os Estados Unidos "ganham muito dinheiro".

De fato, os produtores americanos de petróleo podem estar a caminho de ganhar dezenas de bilhões de dólares em receita adicional este ano, se os preços do petróleo bruto se mantiverem próximos dos níveis atuais.

Mas isso não traz lucros líquidos para os Estados Unidos. Primeiramente, porque alguns produtores estão fortemente expostos às interrupções da produção no Oriente Médio.

A ExxonMobil, por exemplo, detém operações no centro industrial de Ras Laffan, no Catar. Ali, a produção está paralisada desde o início de março e, agora, o local foi alvo de ataques de mísseis iranianos, causando "extensos danos".

Em segundo lugar, após anos de reduzir sua capacidade frente à queda dos preços no atacado, muitos produtores de petróleo de xisto não conseguem aumentar rapidamente sua produção.

E, o mais importante, em termos per capita, os americanos são os maiores consumidores de petróleo e gás do planeta.

Do aumento da calefação durante o forte inverno do meio-oeste americano até o abastecimento de combustível na temporada de viagens de carro, os Estados Unidos estão fortemente expostos à flutuação dos preços dos combustíveis fósseis.

Os economistas da Oxford Economics alertam que, se os preços do petróleo dispararem para US$ 140 por barril e se mantiverem neste nível, a economia correrá o risco de se contrair.

É claro que os americanos não são os únicos que sofrem com esta vulnerabilidade.

A dependência dos consumidores europeus (incluindo o Reino Unido), em relação ao gás importado, apresenta um risco maior para o crescimento econômico, que se materializaria com o impacto sobre a inflação.

A evolução do mercado nas últimas semanas poderia acrescentar cerca de 0,5% à taxa anual de inflação, caso essa tendência se mantenha e o aumento dos preços seja transferido para produtos como fertilizantes e custos de transporte.

A boa notícia é que, ao aumentar sua eficiência energética ao longo dos anos, o Ocidente, de forma geral, agora é mais resiliente às flutuações de preço da energia do que no passado.

Mas, com o petróleo e o gás compondo mais da metade do consumo de energia em países como o Reino Unido, os motoristas, as faturas de aquecimento doméstico e os setores com consumo intensivo de energia, como as indústrias, permanecem vulneráveis em muitas partes do mundo.

Grande parte do impacto não depende apenas da trajetória futura dos preços, mas também da reação dos governos, um tema que suscita intenso debate.

Não surpreende que muitas autoridades relutem em propor resgates financeiros em larga escala, já que suas próprias finanças também se encontram sob fortes pressões.

A reação dos mercados de títulos do governo frente ao risco de aumento da inflação ameaça aumentar em bilhões de dólares os custos já enfrentados por países endividados.

Mas é claro que a maior ameaça imediata recaiu sobre os clientes habituais do petróleo e do gás liquefeito que fluem para o leste, através do Estreito de Ormuz.

<><> O impacto na Ásia

A Ásia importa 59% do seu petróleo bruto do Oriente Médio. E, no caso da Coreia do Sul, este índice atinge 70%.

Com o preço das ações desabando devido à preocupação com as interrupções do fornecimento e os custos, os políticos também alertaram sobre o risco que se apresenta para a indústria de fabricação de chips do país.

A Coreia do Sul produz mais da metade dos chips de memória consumidos no mundo.

Em outros locais, o racionamento de combustível, semanas de trabalho de quatro dias e o fechamento de centros educacionais são algumas das medidas adotadas por países como Sri Lanka, Bangladesh e as Filipinas.

Mas os maiores consumidores de energia do continente conseguiram, até certo ponto, se manter à margem dessas dificuldades, graças ao seu planejamento e à diplomacia.

A China conta com reservas equivalentes a vários meses de consumo e, segundo diversas informações, o país intensificou suas compras de petróleo iraniano.

O mesmo acontece com a Índia, que também aproveita esta luz verde temporária para recorrer à Rússia como seu fornecedor.

É claro que o desenlace dependerá, em última instância, da evolução do conflito. Mas parece improvável que os Estados Unidos tivessem previsto totalmente algumas destas consequências econômicas, já que o país elaborou sua estratégia antes de iniciar os ataques ao Irã.

E, se a guerra se prolongar, maior será o risco — não só de prejuízos a países individuais, mas também de contágio e repercussões em escala global.

¨      Como os supermercados da Finlândia são fundamentais para a defesa do país

Se a Finlândia algum dia enfrentar uma agressão russa, Janne Ahtoniemi saberá exatamente o que fazer.

Ele entrará em ação imediatamente, mas talvez não da maneira que se espera.

Você poderia supor que Ahtoniemi é um soldado do exército finlandês, mas seu preparo está, na verdade, relacionado ao seu trabalho na rede de supermercados S Group, que abrange todo o país.

E, no caso de a Finlândia ser invadida ou atacada de alguma outra forma, como por meio de uma grande violação cibernética em todo o país, o S Group tem um plano detalhado de como ajudaria a causa nacional.

Precisaria garantir que a nação de cerca de 5,6 milhões de habitantes mantivesse suprimentos alimentares suficientes.

Outras grandes empresas em todo o país, também consideradas críticas, como empresas de defesa, transporte e segurança cibernética, têm seus próprios planos de contingência detalhados para seguir em caso de crise, tanto como resultado de conflitos com outros países quanto de desafios como desastres naturais.

"A forte segurança de abastecimento da Finlândia se baseia em décadas de preparação e treinamento consistentes", diz Ahtoniemi, chefe de gestão de riscos do S Group.

"As empresas entendem essa perspectiva e seu próprio papel nela. É por isso que pessoas e empresas estão prontas para investir em segurança de abastecimento."

As quatro nações nórdicas (Finlândia, SuéciaNoruega e Dinamarca) seguem há décadas uma estratégia de "defesa total". Isso significa que existem planos para que os setores militar e civil trabalhem em estreita colaboração.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a Finlândia assumiu a liderança e fortaleceu consideravelmente esse conceito, bem como o nível de envolvimento empresarial. A Finlândia agora o chama de "segurança abrangente".

Considerando que o país compartilha uma fronteira de 1.340 km com a Rússia, essa mudança não é surpreendente.

O governo finlandês delineou a nova política no ano passado em um documento chamado Estratégia de Segurança para a Sociedade, que descreve como "o documento mais importante que orienta a segurança abrangente na Finlândia".

Empresas essenciais se juntam a "comitês de preparação" com representantes das autoridades locais e do governo central e participam de exercícios de treinamento nacionais.

Os preparativos e o planejamento continuam não apenas para o caso de uma guerra convencional, mas também para um ataque cibernético em escala nacional, interrupções no fornecimento de alimentos e água ou um ataque ao sistema financeiro.

Ahtoniemi afirma que "participar dos exercícios é um grande investimento para as organizações". Sua empresa também coopera com a Organização Nacional de Abastecimento de Emergência.

O grupo de supermercados concorrente Kesko está igualmente envolvido. "Queremos fazer a nossa parte para garantir que a sociedade finlandesa seja capaz de funcionar todos os dias, independentemente das circunstâncias", diz Jyrki Tomminen, executivo da Kesko.

"As empresas desenvolvem a preparação para diferentes tipos de cenários de interrupção, usando planos de contingência e exercícios colaborativos."

Tanto os mercados quanto outras empresas alimentícias são legalmente obrigados a manter reservas estratégicas de itens críticos, como farinha, açúcar e óleos de cozinha. Esses itens são armazenados em depósitos específicos ou bunkers subterrâneos que possuem geradores de energia de reserva.

Espera-se também que todos os adultos na Finlândia façam sua parte quando se trata de defesa nacional, diz Tom Woolmore, especialista em segurança em países do norte da Europa. "Não é teórico, é muito colocado em prática."

O professor Frank Martela é um exemplo disso. Ele leciona filosofia na Universidade Aalto, em Helsinque, mas é reservista da Marinha e pode ser convocado em caso de emergência nacional.

Como a segurança não se resume mais ao poderio militar, não seria garantido que ele retornasse à Marinha.

Em vez disso, ele acredita que poderia ser designado para outras tarefas, com base nas habilidades e na experiência que adquiriu desde o serviço militar obrigatório, há duas décadas.

"Quando algo acontecer, me dirão o que fazer", diz ele enquanto toma uma xícara de café em um café em Helsinque.

Jennifer De Paola, psicóloga da Universidade de Helsinque, afirma que as empresas finlandesas e o público em geral estão dispostos a fazer a sua parte por dois motivos principais. Primeiro, confiam no governo e, segundo, porque os finlandeses valorizam a sensação de segurança.

Como parte de sua pesquisa, ela pediu a dezenas de crianças de 10 a 12 anos no país que desenhassem pessoas felizes e infelizes e, em seguida, que explicassem seus desenhos.

"Eu tinha certeza de que encontraria uma forte associação entre felicidade e diversão, mas, em vez disso, descobri que as crianças finlandesas associam a felicidade à sensação de segurança e a infelicidade à sensação de insegurança."

Ela diz que esse foco na segurança persiste na vida adulta, o que significa que os finlandeses valorizam a confiabilidade mais do que a maioria.

"Nós realmente confiamos muito mais em nossas instituições do que em outros países. Isso inclui nossos governos, ministérios e políticos. Há um baixo nível de corrupção na Finlândia."

Além disso, o alto nível de igualdade social na Finlândia é importante, acrescenta Martela. "Quanto mais igualitária a sociedade, mais as pessoas confiam umas nas outras", afirma ele.

Tais valores são fundamentais para a resiliência da Finlândia, afirma Woolmore.

Embora os níveis de confiança pareçam altos, os finlandeses também sabem guardar segredos quando necessário. Ahtoniemi, do Grupo S, recusa-se a dar detalhes sobre os planos da empresa em caso de guerra, explicando que se trata de "informação confidencial".

O cenário é semelhante na Kesko, onde um porta-voz afirma que "em conformidade com nossa prática padrão, não damos mais detalhes sobre nosso planejamento de contingência".

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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