Hormuz,
Petróleo e Transição Energética: lições da Instabilidade Global para a América
Latina
Ao
completarmos o primeiro mês da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o
Irã, o horizonte parece continuar sombrio, com poucas perspectivas positivas à
vista. Na manhã de 28 de fevereiro de 2026, Teerã, Esfahan e Tabriz foram alvos
centrais da chamada Operação Epic Fury, que atingiu centros de
comando das forças iranianas, centrais políticas, hospitais, e até escolas. A
resposta iraniana foi imediata, com bombardeios estratégicos contra ativos dos
EUA no Golfo, rompendo a ilusão de que monarquias como Bahrein, Kuwait, EAU,
Qatar e Arábia Saudita seriam oásis de paz e modernidade na região. Na manhã de
domingo, confirmava-se o assassinato do líder supremo iraniano, Aiatolá
Khamenei, e de vários membros do alto escalão político e militar. Apesar das
confusas tentativas do presidente estadunidense Donald Trump de justificar a
guerra, em 24 horas ficou claro que não se tratava de uma “guerra de
necessidade”, nem apenas de novos ataques preventivos contra instalações
nucleares, que ele próprio afirmou ter “obliterado” em junho de 2025. Trata-se
de uma “guerra de escolha,” com um objetivo político explícito: resolver o
“problema Irã” à raiz, derrubando a República Islâmica.
Para a
cúpula do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Irã representa há muito tempo
uma profunda ameaça a Israel. O regime dos aiatolás opõe-se à existência do
Estado israelense, enquanto líderes iranianos e aliados regionais
frequentemente o descrevem como um “câncer” na região, sobretudo por sua
aliança com os Estados Unidos. Desde os primeiros relatórios da ONU, em 2002,
que atestavam suspeitas sobre o programa nuclear iraniano, o lobby israelense
tem articulado uma coalizão internacional contra sua continuidade, mesmo para
fins civis, sob a convicção de que o Irã não é um ator confiável, incapaz de
cumprir a promessa de não desenvolver capacidades para a bomba atômica. Esse
esforço ganhou força na segunda metade dos anos 2000, com o apoio de monarquias
sunitas como a Arábia Saudita e a Jordânia, temerosas da influência iraniana
sobre populações xiitas na região. O maior revés para a coalizão ocorreu com o
acordo JCPOA, em 2015, entre o Irã e o P5+1 (Estado Unidos, China, Rússia,
Reino Unido, Franca e Alemanha). O pacto previa a remoção de sanções
multilaterais, intensificadas por Barack Obama a partir de 2011, em troca de
rigorosa fiscalização pela Agência Internacional de Energia Atômica. Ao que se
sabe, o Irã, buscando recuperar sua economia em meio à queda dos preços do
petróleo, cumpria os termos. Ainda assim, tendo comprado o discurso da coalizão
liderada por Netanyahu ainda em pré-campanha, Trump retirou unilateralmente os
EUA do acordo em 8 de maio de 2018, desestabilizando parceiros europeus e inviabilizando
investimentos no Irã devido ao risco de sanções secundárias. Com o colapso do
JCPOA, Teerã retomou seu programa nuclear, e o desdobramento desse processo já
é conhecido.
Não
está claro qual é o objetivo real de Trump com a atual intervenção no Irã, se é
que há um. Especula-se que ele buscava repetir a lógica aplicada na Venezuela
em 3 de janeiro de 2026: uma demonstração brande de força (e de desprezo pelo
direito internacional) para substituir um inimigo por um ator disposto a
negociar com Washington. Para Trump, pouco importa se Delcy Rodríguez é ou não
chavista; trata-se de uma nova figura inserida com sucesso sob pressão do poder
estadunidense. Ainda naquele fim de semana, fui questionada sobre a
possibilidade de queda do regime iraniano após o assassinato da liderança.
Minha resposta foi clara: derrubar regimes por bombardeio é historicamente
difícil, forçar um recuo da cúpula do regime iraniano, relativamente bem
organizada em um sistema de autoritarismo competitivo, é uma tarefa
extremamente complexa. Apesar da superioridade técnico-militar dos EUA, o Irã
se prepara há décadas para um conflito assimétrico. Seu objetivo não é destruir
o inimigo, mas elevar, prolongar e difundir os custos do conflito, o que
explica o rápido envolvimento regional, mesmo com Teerã afirmando que seus
ataques visam ativos estadunidenses, e não outras nações regionais.
Qualquer
especialista sabe que o Irã ameaça, há décadas, fechar o Estreito de Hormuz se
pressionado, e que as Guardas Revolucionárias afirmam possuir essa capacidade
por meio de minas, mísseis, drones, embarcações não tripuladas e lanchas
rápidas. Sabe-se também que o país pode atingir centrais de eletricidade e,
sobretudo, de dessalinização na região, além de acionar aliados Houthis no
Iêmen para bloquear o tráfego no Estreito de Bab al-Mandab, riscos já
sinalizados na terceira semana do conflito. Em contrapartida, Israel não
demonstra recuo em sua campanha de assassinatos de lideranças iranianas,
mantendo a pressão alta para o colapso interno do regime. Os EUA, por sua vez,
oscilam entre retórica confusa, com Trump alegando conversar com fontes
poderosas iranianas ao mesmo tempo em que ameaça destruir toda a produção de
petróleo do país se Hormuz não for aberto imediatamente. Assim, nenhuma das
partes parece próxima de seu limite, o que indica potencial de prolongamento e
até de escalada do conflito. Apesar da proposta paquistanesa de sediar as
negociações de cessar-fogo em Islamabad, nenhum ator parece disposto a ser o
primeiro a ceder.
O
Estreito de Hormuz, com apenas 56 quilômetros de largura, concentra cerca de um
quarto do petróleo transportado por via marítima e um quinto do gás global.
Diante das ameaças, milhares de navios interromperam suas rotas, e apenas
alguns seguem transitando ou pagando por sua passagem. Obviamente, isso gerou
pânico nos mercados: os preços do petróleo e do GNL dispararam, alimentando
temores de uma crise energética comparável à dos anos 1970. A cada dia sem
negociação, aumentam os riscos de inflação, desabastecimento e recessão em
vários países. No Sri Lanka, por exemplo, as quartas-feiras foram transformadas
em feriados públicos para conter o consumo de gás e petróleo, o que reflete a
alta dependência de importações.
Para
nós na América Latina, embora sem cenários extremos, os impactos serão sentidos
para além da pressão sobre os preços do petróleo e do gás, com riscos de
inflação e de desvalorização cambial frente ao dólar. O fechamento da rota já
provoca disrupções logísticas, elevando os custos de frete e de seguros nas
rotas às quais as cadeias produtivas são, de uma maneira ou outra, conectadas à
região. Além de combustíveis, pelo estreito passam 33% dos insumos para
fertilizantes, 45% dos sulfídios (essenciais para fosfato), 32% do metanol, 6%
do açúcar, além de outros produtos que importamos. Países como Brasil e
Argentina, grandes exportadores agrícolas, dependem desses insumos para a
produção. A continuidade do conflito ameaça reduzir a produção, elevar a insegurança
alimentar e encarecer os produtos ao consumidor final. Além disso, o Oriente
Médio é um mercado estratégico para o agronegócio brasileiro: cerca de 30% do
frango é exportado para a região, o Irã é o principal comprador de milho
brasileiro, e o Brasil lidera a produção de carne halal. A continuidade do
conflito afetará as estratégias de produção de vários setores nacionais.
Contudo,
há quem veja, cinicamente, oportunidades para a região nesse conflito. Desde os
anos 2000, a América Latina vem se consolidando como uma nova fronteira de
exploração de recursos fósseis “não convencionais”. Isso não significa ausência
histórica de produção de petróleo (o primeiro poço comercial na Venezuela opera
desde 1922), mas sim uma transformação impulsionada por inovações tecnológicas:
o pré-sal no Brasil descoberto em 2006, o shale de Vaca Muerta
na Argentina anunciado em 2010 e as reservas offshore da Guiana em
pré-exploração desde 2015, onde se estima uma produção de 650 mil barris/dia.
Na contracorrente das pressões por descarbonização das economias mundiais para
mitigar os impactos ambientais e o aquecimento global, a América Latina atingiu
seu pico de produção de petróleo entre 2024 e 2025. Nesse contexto, a
instabilidade no Oriente Médio e o risco de interrupções no fluxo energético
global tornam a América Latina ainda mais atraente aos olhos cobiçosos de
atores em busca de segurança energética a preços relativamente baixos.
Entretanto,
isso deve ser visto como um alarme, não como uma vantagem. Para além da
tragédia humana, com quase 2 mil mortos e diversas cidades destruídas, eu
gostaria de apontar que a guerra expõe o entrelaçamento entre geopolítica e
crise climática, mostrando que a transição para fontes renováveis deixou de ser
agenda setorial e passou a ser condição mínima para a segurança econômica,
energética e ambiental da humanidade. Em 8 de março, após bombardeios
israelenses a depósitos de combustível, moradores de Teerã relataram nuvens
tóxicas, e a OMS alertou para os graves impactos ambientais e à saúde desses
ataques. Para quem compreende a urgência da contenção do aquecimento global, os
efeitos de uma guerra centrada na destruição de infraestrutura energética são
alarmantes: em vez de mitigar, estamos acelerando a crise climática.
O
irônico é que as mesmas vozes que, por anos, disseram que a transição
energética, da maneira como precisamos, seria cara demais, agora aceitam os
absurdos custos diários da guerra e suas interrupções logísticas. A solução não
deveria ser aumentar a exploração de recursos fósseis em regiões “mais seguras”
ou onde há menos pontos de escoamento vulneráveis a bloqueios que explorem a
dependência dos compradores. Já vimos em 2022, quando a Rússia invadiu a
Ucrânia e o preço do gás disparou na Europa, que políticos, empresas e
stakeholders clamaram pela desaceleração das políticas de transição energética.
Novos investimentos e revisões de compromissos climáticos em vários países,
geraram lucros recordes e reabilitaram a indústria de combustíveis fósseis
naquele ano. O risco de repetição desse cenário hoje é elevado, especialmente
na América Latina.
Somos
uma região com enorme potencial para energias renováveis e rica em minerais
críticos para produção, transmissão e armazenamento dessas fontes. Quando
ouvirmos que maior produção de petróleo, seja na socioambientalmente
delicada Bacia Amazônica ou na recém-descoberta Bacia de Pelotas, é
“essencial para a segurança energética global”, devemos perguntar: segurança
para quem, a que custo e por quanto tempo? Controlar os ganhos de coalizões
políticas negacionistas e a manipulação do discurso de segurança energética em
prol dos interesses do petróleo e do gás será um dos maiores desafios da
América Latina nos próximos anos. Esse dilema ganha contornos ainda mais graves
diante de um presidente como Trump, que repete o lema “drill, baby, drill”,
ao definir as Américas como “esfera prioritária de interesse estratégico dos
Estados Unidos”, sinalizando possíveis tendências intervencionistas em defesa
dos interesses de Washington, em explícita referência à Doutrina Monroe de
1823. Assim, que essa guerra pelo menos nos ensine que a verdadeira segurança
energética dependerá de escolhas que priorizem sustentabilidade, autonomia e
justiça socioambiental, e não apenas os lucros imediatos decorrentes de janelas
oportunistas.
¨
O outro estreito crucial para a economia global que o Irã
ameaça bloquear
Não se
trata apenas do Estreito de Ormuz. Há um outro ponto
estratégico no Oriente Médio — igualmente vital
para os mercados globais de energia — que o Irã ameaça bloquear
caso Donald Trump não ponha fim à
guerra: o Estreito de Bab el-Mandeb.
Situado
entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, no Mar Vermelho, o estreito controla o
tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta cerca de 12% do petróleo comercializado
por via marítima no mundo.
No
último mês, a rota ganhou ainda mais importância ao se tornar uma alternativa
para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, diante do fechamento do
Estreito de Ormuz.
Na
quinta-feira (26/3), a agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda
Revolucionária, informou que os houthis —
grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã— estariam prontos para assumir o
controle do estreito como parte do que chamam de "forças de
resistência".
"Se
houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda
mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados
para desempenhar um papel fundamental", disse uma fonte militar iraniana à
agência, acrescentando que os houthis já provaram que fechar a rota "é uma
tarefa fácil para eles".
No dia
anterior, a mesma Tasnim já havia publicado uma advertência feita por uma
fonte: "Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de
Ormuz com medidas imprudentes, devem ter cuidado para não adicionar outro
estreito aos seus problemas", disse a fonte, em referência à movimentação
de tropas americanas na região.
Neste
sábado (28/03), os houthis lançaram um ataque com mísseis contra Israel pela primeira vez
desde o início da guerra.
Segundo
o grupo, o objetivo era atingir "alvos militares israelenses
sensíveis". Israel confirmou ter interceptado um míssil lançado do Iêmen.
Antes
mesmo do ataque deste sábado, o líder houthi Abdul Malik Al-Houthi já havia
reforçado as ameaças sobre uma escalda, dizendo que o grupo responderia
militarmente a ataques dos EUA e de Israel caso os desdobramentos da guerra
exigissem, segundo noticiou a Bloomberg.
À
Reuters, um outro dirigente houthi, em anonimato, afirmou que eles estão
"militarmente prontos" para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em
apoio a Teerã.
"Estamos
com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à
liderança, que acompanha os desdobramentos e definirá a hora certa de
agir", declarou.
Após as
ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta
sobre a possibilidade de ataques de houthis no Estreito de Bab el-Mandab.
"Embora
o grupo terrorista houthi não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de
cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, os houthis continuam a
representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais,
nesta região", disse um aviso publicado pela Administração Marítima do
Departamento de Transportes dos EUA na quinta-feira.
Em
outros momentos, como durante a Guerra em Gaza, o Estreito de Bab el-Mandeb já
foi alvo dos houthis, que bloquearam a rota atacando navios, usando drones e
mísseis.
Mas um
eventual bloqueio da passagem hoje agravaria a crise no mercado de energia, já
pressionado pela situação no Estreito de Ormuz.
Ormuz
se tornou um dos epicentros da guerra. A rota, por onde passa cerca de 20% do
petróleo consumido no mundo, está fechada, dificultando a passagem de navios na
região.
A
interrupção do transporte marítimo no Golfo fez os preços do petróleo Brent
saltarem de cerca de US$ 70 (cerca de R$ 350) por barril antes do início da
crise para mais de US$ 100 (aproximadamente R$ 500).
O
comércio global de uma ampla gama de produtos — de bens de consumo a
matérias-primas agrícolas — também está sendo afetado.
Por
isso, a interrupção de mais uma rota marítima poderia elevar ainda mais os
preços e intensificar o impacto econômico do conflito com o Irã.
<><>
O 'portão de lágrimas'
Não é
por acaso que Bab el-Mandeb significa "o portão das lágrimas" ou
"o portão da dor" em árabe.
É uma
referência aos perigos — desde correntes e ventos à pirataria e conflitos — que
durante milênios perturbaram os marinheiros que transitavam pela entrada do Mar
Vermelho vindos do Oceano Índico entre o Iêmen, o Djibuti e a Eritreia.
Alguns
desses perigos permanecem até hoje.
Entre
2023 e 2025, navios comerciais de diversos países foram atacados no estreito
pelo grupo houthi no Iêmen em resposta à guerra de Israel contra o Hamas em
Gaza. Os ataques forçaram muitas empresas a desviar rotas pelo sul da África e
só cessaram após um cessar-fogo mediado pelos EUA entre Israel e o Hamas em
outubro de 2025.
Com 115
km de extensão e 36 km de largura, o Estreito de Bab el-Mandeb está em uma
posição estratégica: ele liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden — e, por
extensão, ao Oceano Índico.
Esta
extensão de água ocupa um espaço fundamental no comércio, na cultura e também
nos conflitos durante grande parte da história da civilização humana.
Seu
valor comercial foi reconhecido desde o antigo Egito com expedições em busca de
bens preciosos como incenso, ouro e animais exóticos, enquanto os romanos
dependiam desta passagem para o comércio com a Índia e o Oriente.
E a
partir da Idade Média, o Estreito de Mandeb consolidou-se como uma importante
rota comercial de especiarias, têxteis e outros produtos, enriquecendo os
impérios da época e posteriormente potências europeias como Portugal, Espanha e
mais tarde o Império Britânico.
No
entanto, foi a abertura do Canal de Suez em 1869 que fez de Bab el-Mandeb um
local essencial para completar a rota marítima mais curta entre a Europa e a
Ásia.
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Qual sua importância
O
corredor do Mar Vermelho é um dos mais movimentados do mundo, transportando
aproximadamente um quarto de todo o comércio marítimo do planeta.
Entre
os bilhões de toneladas de carga que atravessam esta rota, passam diariamente
cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo com origem em países do Médio
Oriente e da Ásia e com destino ao Ocidente, segundo a Administração de
Informação sobre Energia dos Estados Unidos.
Além
disso, remessas globais de gás natural liquefeito (GNL) transitam por este
estreito, tornando-o uma artéria vital para o fornecimento global de energia.
Desde o
fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, a rota ganhou ainda mais importância.
A
Arábia Saudita passou a usar Bab el-Mandeb como passagem para o escoamento do
petróleo saudita proveniente do porto de Yanbu. Riade envia milhões de barris
de petróleo bruto por dia de seus campos orientais para lá através de um
oleoduto.
Pelo
estreito também passa parte significativa das exportações russas de petróleo
com destino à Ásia.
Além do
petróleo bruto e do gás, o Estreito de el-Mandeb faz parte da principal rota
entre o Oriente e o Ocidente, com várias dezenas de navios de carga passando
pelas suas águas todos os dias.
Por
isso, caso a Irã bloqueie a via, isso pode ter efeitos imediatos nos preços
mundiais destes recursos vitais.
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Acidentes, piratas e mísseis
Essa,
contudo, não seria a primeira vez que um incidente nesta área afetaria o
tráfego marítimo, gerando implicações importantes para o comércio mundial.
Por
exemplo, em 2021, o navio cargueiro Ever Given, com bandeira do Panamá,
encalhou no Canal de Suez, causando um bloqueio no corredor e criando
estrangulamentos nas cadeias de abastecimento globais, com aumento de custos e
atrasos na entrega de petróleo e produtos de todos os tipos.
Anteriormente,
especialmente entre 2008 e 2012, o Estreito de Mandeb e seus arredores foram
palco de numerosos ataques de piratas, principalmente da Somália, que
sequestraram a tripulação dos navios para exigir dinheiro em troca da sua
libertação, o que já levou a comunidade internacional, bem como as companhias
marítimas, a reforçar a segurança.
Mais de
uma década depois, a principal ameaça no estreito veio do extremo oposto, com
ataques dos rebeldes houthis.
Após a
invasão israelense de Gaza, em outubro de 2023, os houthis passaram a atacar
embarcações no Mar Vermelho e no Golfo de Aden, alegando solidariedade ao povo
palestino e com o objetivo de pressionar Israel a aceitar um cessar-fogo.
De
novembro de 2023 a janeiro de 2024, o grupo, sozinho, atacou mais de 100 navios
comerciais com mísseis e drones, afundando duas embarcações e matando quatro
marinheiros.
Embora
os houthis alegassem mirar apenas navios com vínculos israelenses, os ataques
foram amplamente descritos como indiscriminados, forçando algumas das maiores
companhias marítimas e petrolíferas do mundo a suspender o trânsito pela rota.
No
final de 2025, os incidentes praticamente cessaram em meio às negociações para
o cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza — embora os houthis jamais tenham
anunciado formalmente uma paralisação ou suspensão das operações.
Agora,
com a guerra entre EUA, Israel e Irã, o grupo volta a ameaçar fechar o estreito
— desta vez em um contexto ainda mais preocupante.
Fonte:
Por Luíza Cerioli, para Le Monde/BBC News

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