segunda-feira, 30 de março de 2026

‘Me senti enganada’: fiéis da Lagoinha cobram respostas sobre escândalos

A revelação de um possível esquema financeiro envolvendo o Banco Master e a Igreja Batista da Lagoinha tem provocado reações de indignação, surpresa e desconfiança entre fiéis de Belo Horizonte. Em meio às denúncias e ao avanço de investigações, frequentadores relatam abalo na confiança e cobram posicionamentos públicos da liderança religiosa.

O caso ganhou repercussão após a divulgação de relatórios de inteligência financeira que apontam movimentações consideradas atípicas envolvendo empresas ligadas ao grupo religioso. Ao mesmo tempo, desdobramentos da investigação da Polícia Federal (PF), como a prisão do ex-pastor da unidade do Belvedere e parceiro de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, ampliaram a crise dentro da comunidade de fé.

“Eu recebi essa notícia com muito choque e indignação. Como fiel, me senti enganada. Quem frequenta uma igreja espera encontrar verdades, integridade e coerência com aquilo que é pregado sobre Deus”, afirma a fiel Jhulian Silva.

Para ela, o episódio fere diretamente a relação de confiança construída com a instituição. “Existe uma expectativa de que o que é pregado no altar seja vivido na prática. Quando surgem notícias assim, é natural que as pessoas se sintam decepcionadas e passem a questionar”, completa.

A fiel também destaca a necessidade de transparência por parte da liderança. “A transparência não é uma opção, é uma responsabilidade com a gente. Quando se trata de uma instituição que recebe a confiança e as contribuições das pessoas, isso precisa ser tratado com clareza”, afirma. Segundo ela, o silêncio institucional agrava a sensação de insegurança entre os membros.

Jhulian vai além e relaciona o caso diretamente ao esforço dos fiéis. “Estamos falando de recursos que muitas vezes vêm do nosso sacrifício, da nossa fé. Parece que a gente está sendo enganado para ganharem nosso dinheiro. Se algo assim realmente aconteceu, é algo muito grave e totalmente contrário aos valores que deveriam ser ensinados dentro de uma igreja”, critica. “Minha indignação é grande e espero que isso seja esclarecido para nós”, conclui.

<><> “Fiéis acabam não acreditando com o que fazem com o dinheiro”

Entre outros frequentadores, o sentimento também é de incerteza. A fiel Raíssa Cristina relata que sequer tinha conhecimento sobre o caso até recentemente, o que, para ela, já demonstra falha de comunicação. “Não recebi e nem sabia sobre o caso”, diz.

Ainda assim, ela defende que a liderança precisa se posicionar. “Deveriam prestar esclarecimentos públicos. É importante para a comunidade entender o que está acontecendo”, afirma.

Para ela, episódios como esse têm potencial de afetar diretamente a credibilidade da igreja. “Os fiéis acabam não acreditando muito no que falam que fazem com o dinheiro”, avalia.

A fiel também aponta que o tamanho da instituição exige um nível maior de transparência. “Apesar de a igreja ter muitas instituições que ajudam pessoas, acho que poderia ter mais clareza, porque envolve um valor milionário. A instituição é muito grande e tem muitos membros, então, isso precisa ser mais bem explicado”, diz.

<><> COAF identifica repasse milionário

As reações surgem após um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) identificar a transferência de aproximadamente R$ 3,9 milhões do Banco Master para a empresa Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., ligada ao ecossistema da Lagoinha, liderado pelo pastor André Valadão. A operação foi classificada como movimentação financeira atípica.

Esse tipo de classificação é utilizado quando transações fogem ao padrão esperado, seja pelo valor, pelo perfil das empresas envolvidas ou pelas características da operação. Embora não indique automaticamente a existência de crime, o alerta pode motivar a abertura de investigações por órgãos competentes.

Os relatórios do COAF são produzidos a partir de comunicações obrigatórias feitas por instituições financeiras, que devem informar operações consideradas suspeitas ou incomuns. O objetivo é prevenir práticas como lavagem de dinheiro e outras irregularidades no sistema financeiro.

A empresa citada no relatório atua na produção musical e audiovisual ligada às atividades da igreja, que nasceu na capital mineira e hoje possui atuação nacional e internacional. O volume da transação e o perfil da empresa foram fatores determinantes para o registro do alerta.

O episódio ocorre em meio a um cenário mais amplo de investigações envolvendo o Banco Master, pertencente ao empresário Daniel Vorcaro, que tem sido alvo de apurações por suspeitas de irregularidades financeiras. Documentos de inteligência financeira podem subsidiar investigações sobre ocultação de patrimônio e movimentações ilícitas.

<><> Unidade da igreja no Belvedere encerra as atividades

A unidade da Igreja Batista da Lagoinha no bairro Belvedere, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, encerrou suas atividades poucos dias após a prisão de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O religioso atuava como pastor no local.

Inaugurada em 2024, a filial funcionava em uma área nobre da capital mineira e tinha estrutura para receber mais de duas mil pessoas por culto, sendo considerada uma das principais expansões recentes da denominação na cidade.

Mesmo após o fechamento, o CNPJ da instituição segue ativo, com Zettel ainda listado como presidente no quadro societário. Outro fator que chamou a atenção de fiéis foi a exclusão de todas as publicações do perfil oficial da unidade nas redes sociais, ocorrida no início da semana, sem qualquer posicionamento público da igreja.

•        Flávio Bolsonaro não explica doação de R$ 3 mi de operador de Vorcaro para seu pai

O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não conseguiu explicar, quando questionado pela CNN Brasil nesta terça-feira (24), a doação de Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela Polícia Federal como operador do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, à campanha do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022.

Quando questionado, o senador tangenciou o assunto ao falar que a doação teria ocorrido “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.

“Não tem absolutamente nada a ver. Várias pessoas fazem doações para a campanha”, disse Flávio Bolsonaro.

Fabiano Campos Zettel, pastor evangélico e cunhado de Daniel Vorcaro, foi o principal doador da campanha de Bolsonaro em 2022. Segundo o portal de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zettel desembolsou R$ 3 milhões na tentativa frustrada de reeleição do então presidente da República.

À CNN, Flávio apenas se limitou a dizer que a equipe de compliance da campanha de Jair Bolsonaro, em 2022, verificava apenas se os doadores não tinham antecedentes criminais ou algo que pudesse trazer consequências eleitorais negativas. “Várias pessoas doaram, como essa pessoa (Zettel) também fez doação”, disse.

Além da campanha de Bolsonaro, Zettel também foi o principal doador da campanha eleitoral de Tarcísio de Freitas (Republicanos), com a doação de R$ 2 milhões na campanha ao governo de São Paulo, em 2022. Zettel foi o maior doador individual de ambas as campanhas. Os valores só são superados pelas verbas desembolsadas pelos partidos dos candidatos, oriundas do fundo eleitoral.

<><> "Flávio é corrupto na essência", diz profundo conhecedor do bolsonarismo

O ex-deputado federal Julian Lemos afirmou acreditar no levantamento da AtlasIntel divulgado na quarta-feira (25), que pela primeira vez aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, indicando uma possível mudança no cenário eleitoral brasileiro, conforme declarou a Diego Amorim, do PlatôBR.

Ex-aliado de Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2018, antes de romper com a família, Lemos passou a adotar posição mais próxima da centro-esquerda na Paraíba e fez críticas contundentes tanto ao bolsonarismo quanto ao atual governo.

Ao comentar uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, o ex-parlamentar afirmou que o país correria riscos estratégicos e econômicos. “Ele vai vender terras raras, tudo. Vai vender o Brasil, vai vender até o que não é dele. Flávio não é direita coisa alguma. É um Bolsonaro moderado e entreguista. Ele não sabe o que faz, mas sabe o que quer: entende a diferença? O pai é burro, ele tem um pouco mais de habilidade. E o DNA de corrupção. Ele é corrupto na essência”, declarou.

Julian Lemos também direcionou críticas ao presidente Lula e ao PT, apontando perda de capacidade de mobilização política. “Nada mais que Lula faça daqui para frente dará um voto para ele. Demoraram muito para se movimentar, perderam tempo. Nada mais chega à ponta. Pode o Lula dar uma casa a todo pobre que ele ver pela frente que ninguém liga mais. O Flávio só não ganha se algo muito negativo acontecer do lado dele”, afirmou.

•        BolsoMaster: a circulação e o retorno. As "doações" a Tarcísio e Bolsonaro. Por Oliveiros Marques

Não é porque a GloboNews recuou em sua violência em forma de PowerPoint, com um pedido inédito de desculpas sem que houvesse ação judicial, que devemos recuar em nossa tarefa de deixar claro o funcionamento do grande cancro que está se mostrando ser o “esquemão” do BolsoMaster.

Se as primeiras lâminas revelaram o metabolismo e o sistema nervoso, esta terceira etapa da biópsia expõe algo ainda mais sensível: a circulação. É nela que se observa não apenas como o organismo se alimenta, mas também como redistribui os recursos que acumula.

Nenhum tumor cresce sem retorno. Ele se expande, captura, processa — e, em algum momento, reverte parte dessa energia para os tecidos que o sustentam.

É nesse ponto que a análise passa a observar possíveis fluxos de retornos políticos e financeiros.

Como vimos nas colunas anteriores, fortes indícios apontam para a atuação de uma rede de apoio que inclui nomes como Ciro Nogueira, Filipe Barros, Campos Neto, Onyx Lorenzoni, entre outros atores que, em diferentes momentos, ocuparam posições estratégicas na estrutura institucional do governo Bolsonaro. A hipótese que se desenha é a de uma relação de reciprocidade: apoio político que viabiliza expansão econômica — e recursos que, posteriormente, retornam para alimentar esse mesmo sistema.

Esse retorno não se dá de forma direta e linear. Como em toda patologia complexa, ele circula por vias indiretas, por estruturas intermediárias, por organismos aparentemente periféricos.

Nesse contexto, surge a figura de Fabiano Zettel, pastor e operador vinculado à Igreja Lagoinha. A mesma de Nikolas Ferreira, é sempre importante destacar. Sua posição, simultaneamente religiosa e relacional, sugere uma possível função de intermediação — um canal por onde fluxos financeiros transitam em direção a espaços de menor visibilidade e maior blindagem simbólica.

Não se trata de afirmar conclusões definitivas, mas de observar padrões. Relações de proximidade, coincidências operacionais e interações que, quando analisadas em conjunto, sugerem a existência de uma rede de circulação mais ampla.

No campo eleitoral, há também registros e relatos que indicam a possibilidade de apoio logístico e financeiro a campanhas políticas em 2022. Elementos que, se confirmados pelas investigações, podem revelar uma dimensão adicional desse circuito de retorno. E aqui, é evidente, já podemos nos referir aos R$ 5 milhões doados por meio de Zettel às campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio, e ao empréstimo do jato de Daniel Vorcaro para Nikolas voar pelo Brasil na campanha derrotada de Bolsonaro em 2022.

Como em qualquer biópsia, o que inicialmente aparece como fragmento isolado passa, aos poucos, a compor um desenho mais amplo. E esse desenho aponta para um organismo que não apenas cresce, mas que retroalimenta suas próprias bases de sustentação.

Há ainda um ponto que merece atenção: a possibilidade de deslocamento de parte desses recursos para fora do país. Quando isso ocorre, o organismo deixa de operar apenas no plano nacional e passa a integrar circuitos mais complexos de circulação financeira, dificultando ainda mais o rastreamento.

É por isso que as investigações em curso — e a eventual delação do banqueiro — serão decisivas. Seguir o rastro do dinheiro é, em última instância, compreender o funcionamento completo do sistema.

Se as primeiras etapas da biópsia revelaram a origem e o funcionamento interno, esta terceira aponta para algo ainda mais grave: a existência de uma rede de circulação que conecta poder econômico, político e simbólico.

E, como em toda patologia avançada, quanto mais se aprofunda o exame, mais evidente se torna que o problema não está em uma célula isolada, mas na articulação entre todas as partes do organismo.

 

Fonte: Brasil de Fato/ICL Notícias/Brasil 247

 

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