‘Me
senti enganada’: fiéis da Lagoinha cobram respostas sobre escândalos
A
revelação de um possível esquema financeiro envolvendo o Banco Master e a
Igreja Batista da Lagoinha tem provocado reações de indignação, surpresa e
desconfiança entre fiéis de Belo Horizonte. Em meio às denúncias e ao avanço de
investigações, frequentadores relatam abalo na confiança e cobram
posicionamentos públicos da liderança religiosa.
O caso
ganhou repercussão após a divulgação de relatórios de inteligência financeira
que apontam movimentações consideradas atípicas envolvendo empresas ligadas ao
grupo religioso. Ao mesmo tempo, desdobramentos da investigação da Polícia
Federal (PF), como a prisão do ex-pastor da unidade do Belvedere e parceiro de
Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, ampliaram a crise dentro da comunidade de fé.
“Eu
recebi essa notícia com muito choque e indignação. Como fiel, me senti
enganada. Quem frequenta uma igreja espera encontrar verdades, integridade e
coerência com aquilo que é pregado sobre Deus”, afirma a fiel Jhulian Silva.
Para
ela, o episódio fere diretamente a relação de confiança construída com a
instituição. “Existe uma expectativa de que o que é pregado no altar seja
vivido na prática. Quando surgem notícias assim, é natural que as pessoas se
sintam decepcionadas e passem a questionar”, completa.
A fiel
também destaca a necessidade de transparência por parte da liderança. “A
transparência não é uma opção, é uma responsabilidade com a gente. Quando se
trata de uma instituição que recebe a confiança e as contribuições das pessoas,
isso precisa ser tratado com clareza”, afirma. Segundo ela, o silêncio
institucional agrava a sensação de insegurança entre os membros.
Jhulian
vai além e relaciona o caso diretamente ao esforço dos fiéis. “Estamos falando
de recursos que muitas vezes vêm do nosso sacrifício, da nossa fé. Parece que a
gente está sendo enganado para ganharem nosso dinheiro. Se algo assim realmente
aconteceu, é algo muito grave e totalmente contrário aos valores que deveriam
ser ensinados dentro de uma igreja”, critica. “Minha indignação é grande e
espero que isso seja esclarecido para nós”, conclui.
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“Fiéis acabam não acreditando com o que fazem com o dinheiro”
Entre
outros frequentadores, o sentimento também é de incerteza. A fiel Raíssa
Cristina relata que sequer tinha conhecimento sobre o caso até recentemente, o
que, para ela, já demonstra falha de comunicação. “Não recebi e nem sabia sobre
o caso”, diz.
Ainda
assim, ela defende que a liderança precisa se posicionar. “Deveriam prestar
esclarecimentos públicos. É importante para a comunidade entender o que está
acontecendo”, afirma.
Para
ela, episódios como esse têm potencial de afetar diretamente a credibilidade da
igreja. “Os fiéis acabam não acreditando muito no que falam que fazem com o
dinheiro”, avalia.
A fiel
também aponta que o tamanho da instituição exige um nível maior de
transparência. “Apesar de a igreja ter muitas instituições que ajudam pessoas,
acho que poderia ter mais clareza, porque envolve um valor milionário. A
instituição é muito grande e tem muitos membros, então, isso precisa ser mais
bem explicado”, diz.
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COAF identifica repasse milionário
As
reações surgem após um relatório do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (COAF) identificar a transferência de aproximadamente R$ 3,9
milhões do Banco Master para a empresa Amando Vidas Produtora e Gravadora
Ltda., ligada ao ecossistema da Lagoinha, liderado pelo pastor André Valadão. A
operação foi classificada como movimentação financeira atípica.
Esse
tipo de classificação é utilizado quando transações fogem ao padrão esperado,
seja pelo valor, pelo perfil das empresas envolvidas ou pelas características
da operação. Embora não indique automaticamente a existência de crime, o alerta
pode motivar a abertura de investigações por órgãos competentes.
Os
relatórios do COAF são produzidos a partir de comunicações obrigatórias feitas
por instituições financeiras, que devem informar operações consideradas
suspeitas ou incomuns. O objetivo é prevenir práticas como lavagem de dinheiro
e outras irregularidades no sistema financeiro.
A
empresa citada no relatório atua na produção musical e audiovisual ligada às
atividades da igreja, que nasceu na capital mineira e hoje possui atuação
nacional e internacional. O volume da transação e o perfil da empresa foram
fatores determinantes para o registro do alerta.
O
episódio ocorre em meio a um cenário mais amplo de investigações envolvendo o
Banco Master, pertencente ao empresário Daniel Vorcaro, que tem sido alvo de
apurações por suspeitas de irregularidades financeiras. Documentos de
inteligência financeira podem subsidiar investigações sobre ocultação de
patrimônio e movimentações ilícitas.
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Unidade da igreja no Belvedere encerra as atividades
A
unidade da Igreja Batista da Lagoinha no bairro Belvedere, na região Centro-Sul
de Belo Horizonte, encerrou suas atividades poucos dias após a prisão de
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O religioso atuava como pastor no local.
Inaugurada
em 2024, a filial funcionava em uma área nobre da capital mineira e tinha
estrutura para receber mais de duas mil pessoas por culto, sendo considerada
uma das principais expansões recentes da denominação na cidade.
Mesmo
após o fechamento, o CNPJ da instituição segue ativo, com Zettel ainda listado
como presidente no quadro societário. Outro fator que chamou a atenção de fiéis
foi a exclusão de todas as publicações do perfil oficial da unidade nas redes
sociais, ocorrida no início da semana, sem qualquer posicionamento público da
igreja.
• Flávio Bolsonaro não explica doação de
R$ 3 mi de operador de Vorcaro para seu pai
O
senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não
conseguiu explicar, quando questionado pela CNN Brasil nesta terça-feira (24),
a doação de Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela Polícia Federal como
operador do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, à campanha do seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022.
Quando
questionado, o senador tangenciou o assunto ao falar que a doação teria
ocorrido “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato
pessoal, inclusive”.
“Não
tem absolutamente nada a ver. Várias pessoas fazem doações para a campanha”,
disse Flávio Bolsonaro.
Fabiano
Campos Zettel, pastor evangélico e cunhado de Daniel Vorcaro, foi o principal
doador da campanha de Bolsonaro em 2022. Segundo o portal de candidaturas do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zettel desembolsou R$ 3 milhões na tentativa
frustrada de reeleição do então presidente da República.
À CNN,
Flávio apenas se limitou a dizer que a equipe de compliance da campanha de Jair
Bolsonaro, em 2022, verificava apenas se os doadores não tinham antecedentes
criminais ou algo que pudesse trazer consequências eleitorais negativas.
“Várias pessoas doaram, como essa pessoa (Zettel) também fez doação”, disse.
Além da
campanha de Bolsonaro, Zettel também foi o principal doador da campanha
eleitoral de Tarcísio de Freitas (Republicanos), com a doação de R$ 2 milhões
na campanha ao governo de São Paulo, em 2022. Zettel foi o maior doador
individual de ambas as campanhas. Os valores só são superados pelas verbas
desembolsadas pelos partidos dos candidatos, oriundas do fundo eleitoral.
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"Flávio é corrupto na essência", diz profundo conhecedor do
bolsonarismo
O
ex-deputado federal Julian Lemos afirmou acreditar no levantamento da
AtlasIntel divulgado na quarta-feira (25), que pela primeira vez aponta o
senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) em um eventual segundo turno, indicando uma possível mudança no cenário
eleitoral brasileiro, conforme declarou a Diego Amorim, do PlatôBR.
Ex-aliado
de Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2018, antes de romper com a família,
Lemos passou a adotar posição mais próxima da centro-esquerda na Paraíba e fez
críticas contundentes tanto ao bolsonarismo quanto ao atual governo.
Ao
comentar uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, o ex-parlamentar afirmou que
o país correria riscos estratégicos e econômicos. “Ele vai vender terras raras,
tudo. Vai vender o Brasil, vai vender até o que não é dele. Flávio não é
direita coisa alguma. É um Bolsonaro moderado e entreguista. Ele não sabe o que
faz, mas sabe o que quer: entende a diferença? O pai é burro, ele tem um pouco
mais de habilidade. E o DNA de corrupção. Ele é corrupto na essência”,
declarou.
Julian
Lemos também direcionou críticas ao presidente Lula e ao PT, apontando perda de
capacidade de mobilização política. “Nada mais que Lula faça daqui para frente
dará um voto para ele. Demoraram muito para se movimentar, perderam tempo. Nada
mais chega à ponta. Pode o Lula dar uma casa a todo pobre que ele ver pela
frente que ninguém liga mais. O Flávio só não ganha se algo muito negativo
acontecer do lado dele”, afirmou.
• BolsoMaster: a circulação e o retorno.
As "doações" a Tarcísio e Bolsonaro. Por Oliveiros Marques
Não é
porque a GloboNews recuou em sua violência em forma de PowerPoint, com um
pedido inédito de desculpas sem que houvesse ação judicial, que devemos recuar
em nossa tarefa de deixar claro o funcionamento do grande cancro que está se
mostrando ser o “esquemão” do BolsoMaster.
Se as
primeiras lâminas revelaram o metabolismo e o sistema nervoso, esta terceira
etapa da biópsia expõe algo ainda mais sensível: a circulação. É nela que se
observa não apenas como o organismo se alimenta, mas também como redistribui os
recursos que acumula.
Nenhum
tumor cresce sem retorno. Ele se expande, captura, processa — e, em algum
momento, reverte parte dessa energia para os tecidos que o sustentam.
É nesse
ponto que a análise passa a observar possíveis fluxos de retornos políticos e
financeiros.
Como
vimos nas colunas anteriores, fortes indícios apontam para a atuação de uma
rede de apoio que inclui nomes como Ciro Nogueira, Filipe Barros, Campos Neto,
Onyx Lorenzoni, entre outros atores que, em diferentes momentos, ocuparam
posições estratégicas na estrutura institucional do governo Bolsonaro. A
hipótese que se desenha é a de uma relação de reciprocidade: apoio político que
viabiliza expansão econômica — e recursos que, posteriormente, retornam para
alimentar esse mesmo sistema.
Esse
retorno não se dá de forma direta e linear. Como em toda patologia complexa,
ele circula por vias indiretas, por estruturas intermediárias, por organismos
aparentemente periféricos.
Nesse
contexto, surge a figura de Fabiano Zettel, pastor e operador vinculado à
Igreja Lagoinha. A mesma de Nikolas Ferreira, é sempre importante destacar. Sua
posição, simultaneamente religiosa e relacional, sugere uma possível função de
intermediação — um canal por onde fluxos financeiros transitam em direção a
espaços de menor visibilidade e maior blindagem simbólica.
Não se
trata de afirmar conclusões definitivas, mas de observar padrões. Relações de
proximidade, coincidências operacionais e interações que, quando analisadas em
conjunto, sugerem a existência de uma rede de circulação mais ampla.
No
campo eleitoral, há também registros e relatos que indicam a possibilidade de
apoio logístico e financeiro a campanhas políticas em 2022. Elementos que, se
confirmados pelas investigações, podem revelar uma dimensão adicional desse
circuito de retorno. E aqui, é evidente, já podemos nos referir aos R$ 5
milhões doados por meio de Zettel às campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio, e ao
empréstimo do jato de Daniel Vorcaro para Nikolas voar pelo Brasil na campanha
derrotada de Bolsonaro em 2022.
Como em
qualquer biópsia, o que inicialmente aparece como fragmento isolado passa, aos
poucos, a compor um desenho mais amplo. E esse desenho aponta para um organismo
que não apenas cresce, mas que retroalimenta suas próprias bases de
sustentação.
Há
ainda um ponto que merece atenção: a possibilidade de deslocamento de parte
desses recursos para fora do país. Quando isso ocorre, o organismo deixa de
operar apenas no plano nacional e passa a integrar circuitos mais complexos de
circulação financeira, dificultando ainda mais o rastreamento.
É por
isso que as investigações em curso — e a eventual delação do banqueiro — serão
decisivas. Seguir o rastro do dinheiro é, em última instância, compreender o
funcionamento completo do sistema.
Se as
primeiras etapas da biópsia revelaram a origem e o funcionamento interno, esta
terceira aponta para algo ainda mais grave: a existência de uma rede de
circulação que conecta poder econômico, político e simbólico.
E, como
em toda patologia avançada, quanto mais se aprofunda o exame, mais evidente se
torna que o problema não está em uma célula isolada, mas na articulação entre
todas as partes do organismo.
Fonte:
Brasil de Fato/ICL Notícias/Brasil 247

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