segunda-feira, 30 de março de 2026


 

Maria Luiza Falcão: Entre o crédito caro e a vida cara - o que está em jogo em 2026

Há algo de aparentemente paradoxal no Brasil que se aproxima das eleições presidenciais de 2026. Os indicadores macroeconômicos não sugerem uma crise clássica: o desemprego caiu, a inflação perdeu intensidade em relação aos picos recentes e o crescimento, ainda que modesto, se mantém positivo. E, no entanto, o humor social não acompanha essa melhora.

Essa dissociação entre números e percepção não é um detalhe — é, na verdade, o ponto central da disputa política que se desenha.

A economia pode estar melhorando nos relatórios. Mas, para milhões de brasileiros, a vida continua difícil. E é nesse descompasso que se definem eleições.

Três elementos, em particular, ajudam a explicar esse fenômeno: o nível elevado dos juros, o grau de endividamento das famílias e o custo dos transportes. Não são variáveis abstratas. São experiências cotidianas.

Comecemos pelo endividamento.

Dados recentes indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas gira em torno de 30%. Esse número, por si só, já diz muito. Não se trata apenas de quantas famílias estão endividadas — que são muitas —, mas de quanto da renda mensal está sendo drenado para o sistema financeiro.

É uma transferência silenciosa e contínua.

O salário entra, mas não permanece. Ele é rapidamente absorvido por parcelas, juros do cartão, crédito consignado, financiamento. O consumo se mantém, mas comprimido. A sensação de sufocamento financeiro se instala mesmo entre aqueles que estão empregados.

Esse é o primeiro posto-chave: o endividamento transforma renda em ilusão de renda.

A esse quadro soma-se o nível ainda elevado das taxas de juros. Mesmo com eventuais reduções, o custo do crédito no Brasil permanece entre os mais altos do mundo. Isso significa que cada parcela paga carrega, embutido, um peso adicional — invisível, mas decisivo.

Juros altos não aparecem na prateleira do supermercado. Mas aparecem na fatura.

Eles operam como um imposto não declarado sobre o presente e sobre o futuro. Travam o investimento, dificultam uma retomada mais robusta da economia e, sobretudo, ampliam o custo de viver.

O resultado é um cotidiano em que o dinheiro não rende — e, mais do que isso, parece sempre insuficiente.

Mas há um terceiro elemento que torna essa equação ainda mais sensível: o transporte.

Poucos preços têm impacto tão direto e imediato na percepção da economia quanto os combustíveis e as tarifas de transporte público. O aumento do diesel encarece alimentos. A gasolina pesa no orçamento das famílias. A passagem de ônibus incide diariamente sobre o trabalhador.

Diferentemente dos juros, que operam de forma difusa, o transporte é concreto, visível, inevitável.

Ele é pago todos os dias.

E, por isso, se converte em um dos principais formadores da chamada “inflação percebida” — aquela que não depende dos índices oficiais, mas da experiência direta das pessoas.

Mas há ainda um elemento adicional, frequentemente invisível no debate público, que agrava esse quadro: o impacto das tensões geopolíticas e dos conflitos internacionais sobre os preços da energia. Guerras e disputas no Oriente Médio, interrupções em rotas estratégicas e a própria revalorização geopolítica do petróleo pressionam os preços globais dos combustíveis. Esse movimento, no entanto, não é percebido como tal pela população. O que chega ao cotidiano não é a geopolítica — é o preço da gasolina e do diesel. A mediação entre esses dois planos simplesmente desaparece. E, na ausência dessa conexão, a alta dos combustíveis tende a ser atribuída diretamente ao governo, reforçando a percepção de deterioração econômica, ainda que suas causas sejam, em grande medida, externas.

É nesse ponto que os três fatores se encontram.

Juros elevados encarecem o crédito. O crédito caro alimenta o endividamento. O endividamento reduz a renda disponível. Ao mesmo tempo, o custo do transporte pressiona o orçamento diário e encarece toda a cadeia de consumo.

Forma-se, assim, um ciclo de compressão do bem-estar.

A economia cresce, mas a vida não melhora na mesma proporção.

E é exatamente esse tipo de situação que costuma produzir resultados eleitorais imprevisíveis.

O presidente Lula chega a 2026 com ativos importantes: recuperação do emprego, programas sociais fortalecidos, alguma estabilidade institucional após anos de turbulência. Mas enfrenta um desafio clássico de governos em contextos de juros altos: a dificuldade de converter melhora macroeconômica em sensação de progresso no cotidiano.

Esse é um terreno fértil para narrativas simplificadoras.

A extrema direita não precisa apresentar um diagnóstico sofisticado. Basta capturar o sentimento difuso de insatisfação e traduzi-lo em uma mensagem direta: “a vida piorou”.

E, quando a experiência cotidiana parece confirmar essa percepção, o argumento ganha força.

O risco, portanto, não está necessariamente em uma deterioração abrupta da economia, mas em algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: a persistência de um mal-estar econômico difuso, alimentado por fatores que atingem diretamente o bolso e a rotina das famílias.

Juros, endividamento e transporte não são apenas variáveis econômicas. São mediadores da percepção social.

E eleições, no fim das contas, são decididas exatamente aí.

Se o governo conseguir reduzir esse descompasso — aliviando o custo do crédito, enfrentando o peso do endividamento e estabilizando os preços que mais afetam o cotidiano —, poderá transformar estabilidade em apoio político.

Se não conseguir, corre o risco de ver uma economia razoavelmente organizada produzir um resultado eleitoral adverso e desastroso.

A história recente mostra que isso não é apenas possível.

É, muitas vezes, o que acontece.

        'Brasil tem uma arma secreta contra crises do petróleo', diz The Economist

Com o petróleo em alta e uma crise energética global em curso devido à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, o Brasil conta com uma vantagem estratégica: os biocombustíveis. É o que avalia a revista britânica The Economist.

A revista publicou um artigo nesta quinta-feira (26/3) em que afirma que "o Brasil tem uma arma secreta contra choques do petróleo" e que "os biocombustíveis vão ajudar o país a enfrentar os efeitos do conflito no Oriente Médio".

A guerra, que teve início em 28 de fevereiro, gerou uma crise energética global, com alta do petróleo e do gás e risco de desabastecimento, especialmente após o bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% da energia mundial.

No início desta semana, o preço do barril de petróleo tipo Brent voltou a ultrapassar os US$ 100, chegando a picos de mais de US$ 110.

Além disso, o cenário de incerteza política tem pressionado ainda mais os preços. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a afirmar que haveria negociações em curso, enquanto Teerã nega qualquer diálogo.

Neste contexto, a The Economist afirma que poucos países estavam preparados para um choque do petróleo, mas "o Brasil estava". Isso porque o país, ao longo de décadas, investiu em alternativas e construiu "a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo".

A reportagem destaca ainda o papel estrutural desses combustíveis na economia brasileira. "Eles são misturados à gasolina e ao diesel, com percentuais obrigatórios definidos pelo governo de 30% e 15%, respectivamente, entre os mais altos do mundo", observa a revista.

O artigo também chama atenção para a frota nacional: "três quartos dos veículos leves no Brasil possuem tecnologia que permite rodar com qualquer mistura, desde gasolina pura até etanol 100%".

"Isso reduz a dependência do Brasil de combustíveis fósseis importados e protege o país contra mercados inflacionados. O preço da gasolina nos postos brasileiros subiu 10% desde o início da guerra, e o do diesel, 20%, segundo dados divulgados em 20 de março pelo regulador de energia. É um aumento doloroso, mas muito abaixo dos saltos de 30% a 40% observados nos Estados Unidos."

A The Economist lembra que essa estratégia começou nos anos 1970, após outra crise do petróleo, e desde então se consolidou como base da política energética do país.

"Na época, o Brasil importava 80% do combustível que consumia; o embargo árabe estava sufocando a economia. Transformar o excedente de cana-de-açúcar em etanol foi uma solução óbvia", aponta o texto.

A revista menciona ainda um plano do governo federal, em 2023, para promover o biodiesel, derivado de sementes, principalmente de soja. Hoje, diz a revista, o governo federal mantém essa linha, já que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que como "poucos abraçaram os biocombustíveis com tanta intensidade".

"Lula vê os biocombustíveis como solução para dois problemas. Primeiro, reforçam a soberania de um país que, apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo bruto do mundo", afirma. "Segundo, permitem ao Brasil reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem alienar os agricultores, que produzem as matérias-primas dos biocombustíveis."

Ainda assim, a revista faz uma ressalva: "os biocombustíveis não podem eliminar totalmente os custos provocados pela alta do petróleo".

Mas a avaliação é que o Brasil entra nessa crise em posição mais favorável. Enquanto grandes economias enfrentam alta mais intensa de preços e risco de escassez, o país consegue amortecer parte do impacto — e até se beneficiar com o aumento da demanda global por alternativas ao petróleo.

A análise aponta também que o modelo começa a chamar atenção internacional, com países como Índia e Japão estudando adaptar a experiência brasileira.

        Governo Lula prepara pacote para arrecadar bilhões com taxação de bets e fintechs

equipe econômica projeta arrecadar R$ 4,4 bilhões adicionais em 2026 com o aumento da tributação sobre fintechs, casas de apostas e juros sobre capital próprio (JCP). A estimativa foi apresentada pela Receita Federal no primeiro Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do ano. 

O documento, que orienta a execução do Orçamento federal, foi enviado na terça-feira (24) ao Congresso Nacional. Essas taxações foram aprovadas pelo parlamento em dezembro de 2025 e fazem parte do esforço da equipe econômica para diminuir o desequilíbrio nas contas públicas em 2026.

<><> Novas alíquotas

A legislação elevou a tributação sobre diferentes setores. No caso das apostas online (bets), a alíquota subiu de 12% para 15%. Já os juros sobre capital próprio passaram a ter incidência de 17,5% de Imposto de Renda, contra 15% cobrados anteriormente.

Para fintechs e instituições financeiras, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) terá aumento progressivo, chegando a 20% a partir de 2028, dependendo do tipo de instituição.

<><> Impacto direto

No relatório, a Receita detalhou de onde virá o reforço de arrecadação previsto para 2026:

        R$ 3,1 bilhões: Imposto de Renda sobre JCP

        R$ 1,1 bilhão: CSLL de fintechs e instituições financeiras

        R$ 260 milhões: taxação de bets

Ao todo, o impacto combinado das medidas tributárias deve alcançar R$ 4,4 bilhões.

<><> Benefícios cortados

Além do aumento de tributos, o governo também promoveu um corte de cerca de 10% em benefícios fiscais. A redução atinge incentivos ligados a tributos como Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).

Segundo o relatório, a Receita Federal estima que o corte de benefícios aumente a arrecadação federal em R$ 16,5 bilhões neste ano.

Somadas, as ações tributárias – tributação de bets, fintechs e de JCP; e redução de benefícios fiscais –  devem produzir um efeito total de R$ 20,9 bilhões em 2026.

<><> Contas públicas

Mesmo com o reforço de receitas, o governo projeta um superávit primário de R$ 3,5 bilhões em 2026, sem considerar os precatórios e os gastos fora do arcabouço fiscal. O valor está abaixo do centro da meta fiscal, fixado em superávit de R$ 34,3 bilhões, equivalente a 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB).

Ao considerar os precatórios (dívidas do governo com sentença judicial definitiva) e alguns gastos com defesa, saúde e educação excluídos do arcabouço fiscal, as projeções para as contas públicas mudam. Em vez de superávit, a estimativa é de déficit primário de R$ 59,8 bilhões.

O resultado primário representa a diferença entre receitas e despesas nas contas do governo sem os juros da dívida pública.

<><> Bloqueio

Para cumprir os limites de gastos do arcabouço fiscal, a equipe econômica bloqueou R$ 1,6 bilhão em despesas discricionárias (não-obrigatórias). Esse bloqueio não está relacionado ao resultado primário porque, de acordo com o relatório, o governo projeta superávit de R$ 3,5 bilhões.

O bloqueio foi necessário após aumento nas despesas obrigatórias, impulsionado principalmente por:

        R$ 1,6 bilhão: Previdência Social;

        R$ 1,9 bilhão: Benefício de Prestação Continuada (BPC);

        R$ 1,4 bilhão: Programa Nacional de Alimentação Escolar.

As despesas primárias sujeitas ao limite do arcabouço chegaram a R$ 2,394 trilhões no primeiro bimestre, acima do teto de R$ 2,392 trilhões.

<><> Cenário econômico

O relatório também atualizou as projeções macroeconômicas:

        PIB: crescimento de 2,33% em 2026, contra previsão de 2,44% divulgada no Orçamento;

        Inflação oficial pelo IPCA: 3,74%, contra estimativa anterior de 3,6%.

O governo também revisou receitas com royalties de petróleo para cima em R$ 16,7 bilhões, enquanto reduziu a previsão de arrecadação administrada pela Receita Federal em R$ 8,6 bilhões.

O detalhamento completo do bloqueio de R$ 1,6 bilhão, por órgãos, será divulgado em decreto previsto para o fim de março.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil/Fórum


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