Com
vários líderes iranianos mortos pelos EUA e Israel, com quem Trump conversaria?
As
forças armadas de Israel foram
autorizadas a atacar qualquer autoridade de alto escalão do Irã, sem aprovação
prévia, segundo o ministro da defesa israelense, Israel Katz.
O
anúncio veio poucos dias depois que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na
sigla em inglês) acrescentaram a principal autoridade de segurança do Irã, Ali
Larijani, e o ministro da Inteligência do país, Esmail Khatib, a uma lista cada
vez maior de altas autoridades iranianas que elas afirmam terem matado nas últimas semanas.
"O
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e eu
autorizamos as IDF a eliminar qualquer autoridade iraniana de alto escalão para
quem tenha se fechado o círculo de inteligência e operacional, sem necessidade
de maiores aprovações", afirmou Katz.
Mas
qual o significado dessas autoridades na estrutura de governo do Irã? E quem
realmente detém o poder neste momento?
Aqui
estão os detalhes da evolução da liderança iraniana nas últimas semanas.
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Aiatolá Ali Khamenei — líder supremo (morto)
O
assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026),
foi um choque para muitas pessoas, principalmente por ter ocorrido em 28 de
fevereiro, o primeiro dia dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao país.
Khamenei,
com 86 anos, liderou o país por mais de três décadas, desde que sucedeu o
aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989), fundador da República Islâmica do Irã
em 1979.
Ele
chefiava um gabinete todo-poderoso. Khamenei era chefe de Estado e
comandante-chefe das Forças Armadas, incluindo a Guarda Revolucionária de
elite.
Embora
não fosse um ditador, ele detinha poder de veto sobre qualquer tema de política
pública e podia selecionar candidatos para cargos públicos.
Khamenei
ficava em meio a uma complexa teia de centros de poder concorrentes entre si.
Às vezes, ele se apresentava quase acima da política, observando as discussões
abaixo dele, entre os reformistas e os conservadores iranianos.
Mas
Khamenei raramente permitia que os dissidentes fortalecessem sua voz e impedia
o desenvolvimento de políticas que ele desaprovava.
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Mojtaba Khamenei — líder supremo (vivo)
Mojtaba Khamenei não foi visto
em público, filmado nem fotografado, desde que foi indicado como sucessor do
seu pai, no dia 8 de março de 2026.
O
secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou, sem fornecer
evidências, que o novo líder supremo teria sido "ferido e provavelmente
desfigurado" durante os ataques a Teerã no dia 28 de fevereiro, que
mataram seus pais e seu irmão.
No seu
primeiro discurso como líder supremo, lido na forma de declaração na TV estatal
iraniana em 12 de março, Khamenei prometeu manter o Estreito de Ormuz fechado para a
navegação internacional. Esta decisão interrompe o transporte de 20% do
petróleo do planeta.
Mojtaba
Khamenei também declarou que seu governo "não deixará de vingar o
sangue" dos cidadãos mortos durante a guerra.
No dia
20 de março, a TV estatal leu outra mensagem escrita pelo festival do Ano Novo
Persa de Nowruz, o que mostra uma profunda diferença em relação às mensagens de
Nowruz do seu pai, que tradicionalmente as apresentava em frente às câmeras.
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Ali Larijani — secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (morto)
Morto
em um ataque dos Estados Unidos e Israel na região de Pardis, em Teerã, no dia
17 de março, ao lado do filho e de um dos seus vices, Ali Larijani (1958-2026) é a
principal autoridade iraniana assassinada desde Ali Khamenei.
Com 68
anos de idade, o ex-comandante da Guarda Revolucionária se tornou uma figura
proeminente como chefe da rádio e TV estatal iraniana IRIB. Ele ocupou o cargo
por uma década, até ser nomeado conselheiro de segurança de Ali Khamenei, em
2004.
Larijani
foi o principal negociador nuclear do Irã com o Ocidente entre 2005 e 2007, mas
foi destituído após desacordos com o então presidente iraniano Mahmoud
Ahmadinejad. Ele foi o presidente do Parlamento iraniano que permaneceu neste
cargo por mais tempo até hoje (12 anos).
Larijani
também representava Ali Khamenei no Conselho Supremo de Segurança Nacional.
Acredita-se que ele tenha supervisionado a repressão sem precedentes das forças
de segurança, incluindo a força paramilitar Basij, contra os protestos que
varreram o Irã em dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Na
ocasião, pelo menos 6.508 manifestantes foram mortos e 53 mil foram detidos,
segundo defensores dos direitos humanos.
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Contra-almirante Ali Shamkhani — secretário do Conselho de Defesa Iraniano
(morto)
Consultor
próximo de Ali Khamenei, figura fundamental para a criação de políticas de
segurança e nucleares do Irã e único contra-almirante do país, Ali Shamkhani
(1955-2026) foi morto durante os primeiros ataques a Teerã, no dia 28 de
fevereiro.
Ele
havia sobrevivido a um ataque à sua casa durante a Guerra dos 12 Dias (2025), entre
Israel e o Irã.
Durante
a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), Shamkhani foi um dos comandantes mais
importantes da Guarda Revolucionária.
Ao
longo das últimas duas décadas, ele ocupou diversos cargos importantes,
incluindo o de ministro do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI),
ministro da Defesa, comandante da Marinha e secretário do Conselho Supremo de
Segurança Nacional.
Nos
últimos anos, Shamkhani desempenhou papel importante na supressão dos protestos
públicos.
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Major-general Mohammad Pakpour — comandante-chefe do CGRI (morto)
O
major-general Mohammad Pakpour (1961-2026) também foi morto nos ataques de 28
de fevereiro a Teerã, segundo a imprensa estatal iraniana.
Comandante
das forças terrestres do CGRI por 16 anos, ele foi promovido a comandante-chefe
após a morte do seu predecessor, Hossein Salami (1960-2025), durante a Guerra
dos 12 Dias.
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Masoud Pezeshkian - presidente (vivo)
O
reformista Masoud Pezeshkian foi eleito presidente do Irã em 6 de julho
de 2024, após ser aprovado pelo processo de verificação conduzido pelo Conselho
Guardião, composto por 12 clérigos e juristas.
O
ex-cirurgião cardiologista de 71 anos e ex-parlamentar critica a famosa polícia
da moralidade do Irã. Ele causou agitação ao prometer "unidade e
coesão" e o fim do "isolamento" do Irã em relação ao resto do
mundo.
No dia
11 de março de 2026, Pezeshkian reafirmou no X o "compromisso iraniano com
a paz na região". E, cinco dias depois, ele pediu o apoio internacional
contra os Estados Unidos e Israel.
"Esperamos
que a comunidade global condene esta invasão e convença os invasores a
respeitar as leis internacionais", declarou ele.
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Mohammad Bagher Ghalibaf — presidente do Parlamento iraniano (vivo)
O
presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, pode ter
substituído seu uniforme da Guarda Revolucionária por roupas civis, mas ainda
preserva sua linha autoritária e defende vigorosamente o regime do país.
Piloto
qualificado, ele é conhecido pela sua ambição e por ter concorrido à
Presidência do Irã por quatro vezes.
Agora
com 64 anos de idade, Ghalibaf parece desempenhar papel fundamental,
encabeçando o esforço de guerra.
Após os
ataques à infraestrutura de energia do Irã, ele postou no X que "a soma do
olho-por-olho está em vigor e começou um novo nível de confronto".
Na
terça-feira (24/3), em resposta aos relatos de negociações entre o Irã e
os Estados Unidos,
Ghalibaf postou no X:
"Nenhuma
negociação foi mantida com os Estados Unidos e as fake news são usadas para
manipular mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro no qual os
EUA e Israel estão presos."
"O
povo iraniano exige a punição completa e impiedosa dos agressores",
escreveu ele. "Todas as autoridades iranianas defendem firmemente seu
líder supremo e o povo até que este objetivo seja alcançado."
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Brigadeiro-general Gholamreza Soleimani — comandante da força paramilitar Basij
(morto)
O
comandante da força paramilitar Basij, o brigadeiro-general Gholamreza
Soleimani (1964-2026), foi morto nos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã
em 17 de março, segundo a imprensa estatal iraniana.
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Brigadeiro-general Ahmad-Reza Radan — chefe da polícia (vivo)
O chefe
da polícia, brigadeiro-general Ahmad-Reza Radan, é responsável por fazer
executar os rigorosos códigos sociais e suprimir a dissidência.
Em
2023, ele anunciou o plano Noor, que emprega câmeras de vigilância e tecnologia
inteligente para identificar e punir mulheres que desrespeitarem as leis do
hijab, incluindo o confisco de carros e o fechamento de comércios.
Mais
recentemente, Radan assumiu uma posição linha-dura em relação aos protestos
contra o governo e, no início da guerra, alertou que suas forças tratariam como
"inimigo" qualquer um que saísse às ruas "a pedido do
inimigo".
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Gholamhossein Mohseni Ejei — chefe do Judiciário iraniano (vivo)
Em
janeiro, o chefe do Judiciário do Irã, o linha-dura Gholamhossein Mohseni Ejei,
alertou que "não haveria leniência" em relação aos condenados por
atos violentos durante os protestos no país que antecederam a guerra.
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Brigadeiro-general Eskandar Momeni — ministro do Interior (vivo)
Ministro
do Interior desde agosto de 2024, o brigadeiro-general Eskandar Momeni tem
profundas origens no CGRI e no Comando Policial da República Islâmica do Irã.
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Brigadeiro-general Esmail Qaani — comandante da Força Quds do CGRI (vivo)
Conhecido
pela imprensa iraniana como o "general do Levante", o
brigadeiro-general Esmail Qaani se tornou comandante da Força Quds do CGRI em
2020.
Em
2012, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos já havia imposto sanções a
ele, por supervisionar auxílio financeiro e embarques de armas para elementos
da Força Quds no Oriente Médio e na África, particularmente para a Gâmbia.
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Esmail Khatib — ministro da Inteligência (morto)
O
ex-presidente iraniano Ebrahim Raisi (1960-2024) nomeu Esmail Khatib
(1961-2026) ministro da Defesa do Irã em 2021.
Ele
estudou jurisprudência islâmica com diversos clérigos de alto escalão,
incluindo Ali Khamenei. E ocupou vários postos importantes no Ministério da
Inteligência e no Gabinete do Líder Supremo do Irã.
O
"covarde assassinato" de Khatib, durante um ataque aéreo israelense,
deixou o Irã "em profundo pesar", declarou Pezeshkian em 18 de março.
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Major-general Abdolrahim Mousavi — chefe do Estado-Maior das Forças Armadas
iranianas (morto)
Também
morto nos ataques a Teerã em 28 de fevereiro, o chefe do Estado-Maior das
Forças Armadas iranianas, o major-general Abdolrahim Mousavi (1960-2026), havia
substituído o major-general Mohammad Bagheri (1960-2025), morto em 12 de junho
de 2025, durante a Guerra dos 12 Dias.
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Sadegh Larijani — presidente do Conselho de Discernimento (vivo)
O irmão
de Ali, Sadegh Larijani, preside o Conselho de Discernimento da Conveniência,
que é o órgão arbitral final e guardião da constituição do Conselho Guardião.
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Abbas Araghchi — ministro das Relações Exteriores (vivo)
Existem
relatos de ligações entre o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas
Araghchi, e o enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, Steve
Witkoff. Mas estes diálogos são descritos como muito preliminares.
No dia
15 de março, Araghchi declarou à CBS News, emissora parceira da BBC nos Estados
Unidos, que o Irã "nunca pediu um cessar-fogo" na guerra com Israel e
os EUA.
"Esta
é uma guerra por opção do presidente Trump e dos Estados Unidos e iremos manter
nossa autodefesa", destacou ele.
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Brigadeiro-general Aziz Nasirzadeh — ministro da Defesa (morto)
O
ministro da Defesa do Irã, o brigadeiro-general Aziz Nasirzadeh (1964-2026),
também foi morto nos ataques a Teerã de 28 de fevereiro.
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Quais as consequências dos ataques aos líderes iranianos?
O plano
de Israel e dos Estados Unidos foi "atordoar e confundir" o regime
iraniano, declarou nos primeiros dias da guerra o general Dan Caine, chefe do
Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos.
No
início da guerra, a mudança de regime era um objetivo declarado dos líderes dos
Estados Unidos e de Israel.
Em
vídeo postado na sua plataforma Truth Social, o presidente americano, Donald
Trump, convocou os iranianos a "derrubar o seu governo". Este
sentimento foi corroborado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin
Netanyahu, ainda em 19 de março, quando convocou o povo iraniano a "se
unir ao momento".
Mas, em
uma cultura em que o martírio detém grande valor religioso e político, a morte
dos altos líderes é projetada como narrativa de continuidade, não de colapso.
Na TV
estatal, por exemplo, um apresentador em lágrimas anunciou a morte de Ali
Khamenei, dizendo que ele "bebeu o doce e puro gole de martírio e se uniu
ao supremo reino dos céus".
Mais de
duas semanas depois, ao informar a morte de Ali Larijani, o Conselho Supremo de
Segurança Nacional declarou: "As puras almas dos mártires abraçaram a alma
purificada do servo justo de Deus, o mártir Dr. Ali Larijani."
"Após
uma vida inteira de luta pelo progresso do Irã e da Revolução Islâmica, ele
finalmente atingiu sua antiga aspiração, atendeu o chamado divino e aceitou
honrosamente a doce graça do martírio, nas trincheiras do serviço."
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Irã recebe oferta de sete países para mediação de
conflito com EUA
Ao
longo desta segunda-feira (23/03), o Irã teria recebido ao menos sete propostas
de países que se oferecem como possíveis mediadores de uma mesa de diálogo com o governo dos
Estados Unidos visando
um acordo que resulte no fim da guerra que envolve os dois países e Israel, e
também no desbloqueio do Estreito de Ormuz.
A
informação é do canal de notícias catari Al Jazeera, que listou os
países que teriam mantido conversas com o chanceler iraniano, Abbas Araghchi:
Azerbaijão, Coreia do Sul, Egito, Omã, Paquistão, Turcomenistão e Turquia.
No caso
de Azerbaijão e Turcomenistão, as conversas entre os chanceleres também
envolveram os ataques lançados por Israel a províncias próximas ao Mar Cáspio.
Araghchi teria afirmado, segundo a Al Jazeera, que os possíveis
transtornos causados a esses países são responsabilidade apenas de Tel Aviv.
Vale
lembrar, ademais, que Omã já foi mediador de um diálogo entre Estados Unidos e
Irã, na semana anterior ao início do ataque de 28 de fevereiro contra Teerã –
razão pela qual a nação persa passou a considerar Mascate como um interlocutor
pouco confiável.
Os
demais países que se ofereceram como possíveis mediadores teriam enfocado sua
proposta na necessidade de desbloqueio do Estreito de Ormuz.
Curiosamente,
o chanceler Araghchi, em comunicado difundido no dia anterior, neste domingo
(22/03) e direcionado aos governos dos países do Ocidente, disse que “o
Estreito de Ormuz não está fechado, os navios hesitam porque as seguradoras
temem a guerra que vocês (Estados Unidos e Israel) iniciaram, não o Irã”.
ameaças.
Tentem respeitar. A liberdade de navegação não pode existir sem a liberdade de
comércio. Respeitem ambas – ou não esperem nenhuma”, acrescentou o ministro.
Segundo
a Al Jazeera, Araghchi também teria dito a parte dos interlocutores
desta segunda que uma das exigências do Irã para que seja iniciado um diálogo
seria a implementação de um sistema que possa trazer “segurança duradoura” para
o país persa, mas que o atual governo, por enquanto, considera que “não há
garantias” de que tal proposta seria confiável.
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Netanyahu e morte de Khamenei
De
acordo com a agência Reuters, o premiê israelense Benjamin
Netanyahu teria ligado ao presidente norte-americano Donald Trump menos de 48
horas antes do início do ataque conjunto contra Teerã.
A
informação teria sido confirmada por três fontes diferentes não identificadas,
que teriam relatado como Netanyahu convenceu Trump de que aquele seria o melhor
momento para um “ataque de decapitação”, com o aiatolá Ali Khamenei como alvo
principal – o então líder supremo do Irã efetivamente foi morto durante a
ofensiva.
Fonte:
BBC News/Al Jazeera

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