sexta-feira, 27 de março de 2026

Com vários líderes iranianos mortos pelos EUA e Israel, com quem Trump conversaria?

As forças armadas de Israel foram autorizadas a atacar qualquer autoridade de alto escalão do Irã, sem aprovação prévia, segundo o ministro da defesa israelense, Israel Katz.

O anúncio veio poucos dias depois que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) acrescentaram a principal autoridade de segurança do Irã, Ali Larijani, e o ministro da Inteligência do país, Esmail Khatib, a uma lista cada vez maior de altas autoridades iranianas que elas afirmam terem matado nas últimas semanas.

"O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e eu autorizamos as IDF a eliminar qualquer autoridade iraniana de alto escalão para quem tenha se fechado o círculo de inteligência e operacional, sem necessidade de maiores aprovações", afirmou Katz.

Mas qual o significado dessas autoridades na estrutura de governo do Irã? E quem realmente detém o poder neste momento?

Aqui estão os detalhes da evolução da liderança iraniana nas últimas semanas.

>>> Aiatolá Ali Khamenei — líder supremo (morto)

O assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), foi um choque para muitas pessoas, principalmente por ter ocorrido em 28 de fevereiro, o primeiro dia dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao país.

Khamenei, com 86 anos, liderou o país por mais de três décadas, desde que sucedeu o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989), fundador da República Islâmica do Irã em 1979.

Ele chefiava um gabinete todo-poderoso. Khamenei era chefe de Estado e comandante-chefe das Forças Armadas, incluindo a Guarda Revolucionária de elite.

Embora não fosse um ditador, ele detinha poder de veto sobre qualquer tema de política pública e podia selecionar candidatos para cargos públicos.

Khamenei ficava em meio a uma complexa teia de centros de poder concorrentes entre si. Às vezes, ele se apresentava quase acima da política, observando as discussões abaixo dele, entre os reformistas e os conservadores iranianos.

Mas Khamenei raramente permitia que os dissidentes fortalecessem sua voz e impedia o desenvolvimento de políticas que ele desaprovava.

>>> Mojtaba Khamenei — líder supremo (vivo)

Mojtaba Khamenei não foi visto em público, filmado nem fotografado, desde que foi indicado como sucessor do seu pai, no dia 8 de março de 2026.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou, sem fornecer evidências, que o novo líder supremo teria sido "ferido e provavelmente desfigurado" durante os ataques a Teerã no dia 28 de fevereiro, que mataram seus pais e seu irmão.

No seu primeiro discurso como líder supremo, lido na forma de declaração na TV estatal iraniana em 12 de março, Khamenei prometeu manter o Estreito de Ormuz fechado para a navegação internacional. Esta decisão interrompe o transporte de 20% do petróleo do planeta.

Mojtaba Khamenei também declarou que seu governo "não deixará de vingar o sangue" dos cidadãos mortos durante a guerra.

No dia 20 de março, a TV estatal leu outra mensagem escrita pelo festival do Ano Novo Persa de Nowruz, o que mostra uma profunda diferença em relação às mensagens de Nowruz do seu pai, que tradicionalmente as apresentava em frente às câmeras.

>>> Ali Larijani — secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (morto)

Morto em um ataque dos Estados Unidos e Israel na região de Pardis, em Teerã, no dia 17 de março, ao lado do filho e de um dos seus vices, Ali Larijani (1958-2026) é a principal autoridade iraniana assassinada desde Ali Khamenei.

Com 68 anos de idade, o ex-comandante da Guarda Revolucionária se tornou uma figura proeminente como chefe da rádio e TV estatal iraniana IRIB. Ele ocupou o cargo por uma década, até ser nomeado conselheiro de segurança de Ali Khamenei, em 2004.

Larijani foi o principal negociador nuclear do Irã com o Ocidente entre 2005 e 2007, mas foi destituído após desacordos com o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Ele foi o presidente do Parlamento iraniano que permaneceu neste cargo por mais tempo até hoje (12 anos).

Larijani também representava Ali Khamenei no Conselho Supremo de Segurança Nacional. Acredita-se que ele tenha supervisionado a repressão sem precedentes das forças de segurança, incluindo a força paramilitar Basij, contra os protestos que varreram o Irã em dezembro de 2025 e janeiro de 2026.

Na ocasião, pelo menos 6.508 manifestantes foram mortos e 53 mil foram detidos, segundo defensores dos direitos humanos.

>>> Contra-almirante Ali Shamkhani — secretário do Conselho de Defesa Iraniano (morto)

Consultor próximo de Ali Khamenei, figura fundamental para a criação de políticas de segurança e nucleares do Irã e único contra-almirante do país, Ali Shamkhani (1955-2026) foi morto durante os primeiros ataques a Teerã, no dia 28 de fevereiro.

Ele havia sobrevivido a um ataque à sua casa durante a Guerra dos 12 Dias (2025), entre Israel e o Irã.

Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), Shamkhani foi um dos comandantes mais importantes da Guarda Revolucionária.

Ao longo das últimas duas décadas, ele ocupou diversos cargos importantes, incluindo o de ministro do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), ministro da Defesa, comandante da Marinha e secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional.

Nos últimos anos, Shamkhani desempenhou papel importante na supressão dos protestos públicos.

>>> Major-general Mohammad Pakpour — comandante-chefe do CGRI (morto)

O major-general Mohammad Pakpour (1961-2026) também foi morto nos ataques de 28 de fevereiro a Teerã, segundo a imprensa estatal iraniana.

Comandante das forças terrestres do CGRI por 16 anos, ele foi promovido a comandante-chefe após a morte do seu predecessor, Hossein Salami (1960-2025), durante a Guerra dos 12 Dias.

>>> Masoud Pezeshkian - presidente (vivo)

O reformista Masoud Pezeshkian foi eleito presidente do Irã em 6 de julho de 2024, após ser aprovado pelo processo de verificação conduzido pelo Conselho Guardião, composto por 12 clérigos e juristas.

O ex-cirurgião cardiologista de 71 anos e ex-parlamentar critica a famosa polícia da moralidade do Irã. Ele causou agitação ao prometer "unidade e coesão" e o fim do "isolamento" do Irã em relação ao resto do mundo.

No dia 11 de março de 2026, Pezeshkian reafirmou no X o "compromisso iraniano com a paz na região". E, cinco dias depois, ele pediu o apoio internacional contra os Estados Unidos e Israel.

"Esperamos que a comunidade global condene esta invasão e convença os invasores a respeitar as leis internacionais", declarou ele.

>>> Mohammad Bagher Ghalibaf — presidente do Parlamento iraniano (vivo)

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, pode ter substituído seu uniforme da Guarda Revolucionária por roupas civis, mas ainda preserva sua linha autoritária e defende vigorosamente o regime do país.

Piloto qualificado, ele é conhecido pela sua ambição e por ter concorrido à Presidência do Irã por quatro vezes.

Agora com 64 anos de idade, Ghalibaf parece desempenhar papel fundamental, encabeçando o esforço de guerra.

Após os ataques à infraestrutura de energia do Irã, ele postou no X que "a soma do olho-por-olho está em vigor e começou um novo nível de confronto".

Na terça-feira (24/3), em resposta aos relatos de negociações entre o Irã e os Estados Unidos, Ghalibaf postou no X:

"Nenhuma negociação foi mantida com os Estados Unidos e as fake news são usadas para manipular mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro no qual os EUA e Israel estão presos."

"O povo iraniano exige a punição completa e impiedosa dos agressores", escreveu ele. "Todas as autoridades iranianas defendem firmemente seu líder supremo e o povo até que este objetivo seja alcançado."

>>> Brigadeiro-general Gholamreza Soleimani — comandante da força paramilitar Basij (morto)

O comandante da força paramilitar Basij, o brigadeiro-general Gholamreza Soleimani (1964-2026), foi morto nos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 17 de março, segundo a imprensa estatal iraniana.

>>> Brigadeiro-general Ahmad-Reza Radan — chefe da polícia (vivo)

O chefe da polícia, brigadeiro-general Ahmad-Reza Radan, é responsável por fazer executar os rigorosos códigos sociais e suprimir a dissidência.

Em 2023, ele anunciou o plano Noor, que emprega câmeras de vigilância e tecnologia inteligente para identificar e punir mulheres que desrespeitarem as leis do hijab, incluindo o confisco de carros e o fechamento de comércios.

Mais recentemente, Radan assumiu uma posição linha-dura em relação aos protestos contra o governo e, no início da guerra, alertou que suas forças tratariam como "inimigo" qualquer um que saísse às ruas "a pedido do inimigo".

>>> Gholamhossein Mohseni Ejei — chefe do Judiciário iraniano (vivo)

Em janeiro, o chefe do Judiciário do Irã, o linha-dura Gholamhossein Mohseni Ejei, alertou que "não haveria leniência" em relação aos condenados por atos violentos durante os protestos no país que antecederam a guerra.

>>> Brigadeiro-general Eskandar Momeni — ministro do Interior (vivo)

Ministro do Interior desde agosto de 2024, o brigadeiro-general Eskandar Momeni tem profundas origens no CGRI e no Comando Policial da República Islâmica do Irã.

>> Brigadeiro-general Esmail Qaani — comandante da Força Quds do CGRI (vivo)

Conhecido pela imprensa iraniana como o "general do Levante", o brigadeiro-general Esmail Qaani se tornou comandante da Força Quds do CGRI em 2020.

Em 2012, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos já havia imposto sanções a ele, por supervisionar auxílio financeiro e embarques de armas para elementos da Força Quds no Oriente Médio e na África, particularmente para a Gâmbia.

>>> Esmail Khatib — ministro da Inteligência (morto)

O ex-presidente iraniano Ebrahim Raisi (1960-2024) nomeu Esmail Khatib (1961-2026) ministro da Defesa do Irã em 2021.

Ele estudou jurisprudência islâmica com diversos clérigos de alto escalão, incluindo Ali Khamenei. E ocupou vários postos importantes no Ministério da Inteligência e no Gabinete do Líder Supremo do Irã.

O "covarde assassinato" de Khatib, durante um ataque aéreo israelense, deixou o Irã "em profundo pesar", declarou Pezeshkian em 18 de março.

>>> Major-general Abdolrahim Mousavi — chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas (morto)

Também morto nos ataques a Teerã em 28 de fevereiro, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, o major-general Abdolrahim Mousavi (1960-2026), havia substituído o major-general Mohammad Bagheri (1960-2025), morto em 12 de junho de 2025, durante a Guerra dos 12 Dias.

>>> Sadegh Larijani — presidente do Conselho de Discernimento (vivo)

O irmão de Ali, Sadegh Larijani, preside o Conselho de Discernimento da Conveniência, que é o órgão arbitral final e guardião da constituição do Conselho Guardião.

>>> Abbas Araghchi — ministro das Relações Exteriores (vivo)

Existem relatos de ligações entre o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e o enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, Steve Witkoff. Mas estes diálogos são descritos como muito preliminares.

No dia 15 de março, Araghchi declarou à CBS News, emissora parceira da BBC nos Estados Unidos, que o Irã "nunca pediu um cessar-fogo" na guerra com Israel e os EUA.

"Esta é uma guerra por opção do presidente Trump e dos Estados Unidos e iremos manter nossa autodefesa", destacou ele.

>>> Brigadeiro-general Aziz Nasirzadeh — ministro da Defesa (morto)

O ministro da Defesa do Irã, o brigadeiro-general Aziz Nasirzadeh (1964-2026), também foi morto nos ataques a Teerã de 28 de fevereiro.

<><> Quais as consequências dos ataques aos líderes iranianos?

O plano de Israel e dos Estados Unidos foi "atordoar e confundir" o regime iraniano, declarou nos primeiros dias da guerra o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos.

No início da guerra, a mudança de regime era um objetivo declarado dos líderes dos Estados Unidos e de Israel.

Em vídeo postado na sua plataforma Truth Social, o presidente americano, Donald Trump, convocou os iranianos a "derrubar o seu governo". Este sentimento foi corroborado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ainda em 19 de março, quando convocou o povo iraniano a "se unir ao momento".

Mas, em uma cultura em que o martírio detém grande valor religioso e político, a morte dos altos líderes é projetada como narrativa de continuidade, não de colapso.

Na TV estatal, por exemplo, um apresentador em lágrimas anunciou a morte de Ali Khamenei, dizendo que ele "bebeu o doce e puro gole de martírio e se uniu ao supremo reino dos céus".

Mais de duas semanas depois, ao informar a morte de Ali Larijani, o Conselho Supremo de Segurança Nacional declarou: "As puras almas dos mártires abraçaram a alma purificada do servo justo de Deus, o mártir Dr. Ali Larijani."

"Após uma vida inteira de luta pelo progresso do Irã e da Revolução Islâmica, ele finalmente atingiu sua antiga aspiração, atendeu o chamado divino e aceitou honrosamente a doce graça do martírio, nas trincheiras do serviço."

¨      Irã recebe oferta de sete países para mediação de conflito com EUA

Ao longo desta segunda-feira (23/03), o Irã teria recebido ao menos sete propostas de países que se oferecem como possíveis mediadores de uma mesa de diálogo com o governo dos Estados Unidos visando um acordo que resulte no fim da guerra que envolve os dois países e Israel, e também no desbloqueio do Estreito de Ormuz.

A informação é do canal de notícias catari Al Jazeera, que listou os países que teriam mantido conversas com o chanceler iraniano, Abbas Araghchi: Azerbaijão, Coreia do Sul, Egito, Omã, Paquistão, Turcomenistão e Turquia.

No caso de Azerbaijão e Turcomenistão, as conversas entre os chanceleres também envolveram os ataques lançados por Israel a províncias próximas ao Mar Cáspio. Araghchi teria afirmado, segundo a Al Jazeera, que os possíveis transtornos causados a esses países são responsabilidade apenas de Tel Aviv.

Vale lembrar, ademais, que Omã já foi mediador de um diálogo entre Estados Unidos e Irã, na semana anterior ao início do ataque de 28 de fevereiro contra Teerã – razão pela qual a nação persa passou a considerar Mascate como um interlocutor pouco confiável.

Os demais países que se ofereceram como possíveis mediadores teriam enfocado sua proposta na necessidade de desbloqueio do Estreito de Ormuz.

Curiosamente, o chanceler Araghchi, em comunicado difundido no dia anterior, neste domingo (22/03) e direcionado aos governos dos países do Ocidente, disse que “o Estreito de Ormuz não está fechado, os navios hesitam porque as seguradoras temem a guerra que vocês (Estados Unidos e Israel) iniciaram, não o Irã”.

ameaças. Tentem respeitar. A liberdade de navegação não pode existir sem a liberdade de comércio. Respeitem ambas – ou não esperem nenhuma”, acrescentou o ministro.

Segundo a Al Jazeera, Araghchi também teria dito a parte dos interlocutores desta segunda que uma das exigências do Irã para que seja iniciado um diálogo seria a implementação de um sistema que possa trazer “segurança duradoura” para o país persa, mas que o atual governo, por enquanto, considera que “não há garantias” de que tal proposta seria confiável.

<><> Netanyahu e morte de Khamenei

De acordo com a agência Reuters, o premiê israelense Benjamin Netanyahu teria ligado ao presidente norte-americano Donald Trump menos de 48 horas antes do início do ataque conjunto contra Teerã.

A informação teria sido confirmada por três fontes diferentes não identificadas, que teriam relatado como Netanyahu convenceu Trump de que aquele seria o melhor momento para um “ataque de decapitação”, com o aiatolá Ali Khamenei como alvo principal – o então líder supremo do Irã efetivamente foi morto durante a ofensiva.

 

Fonte: BBC News/Al Jazeera

 

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