Márcio
Pochmann: A nova arquitetura do Estado na era digital
A
passagem para a era digital ampliou muito o potencial de uso dos registros
administrativos. No entanto, esses dados ainda permanecem, em grande parte,
fragmentados entre órgãos e setores do Estado, como herança do modelo
institucional da era industrial, baseado em estruturas fechadas e pouco
conectadas entre si. Esse padrão, conhecido como “governo de silos de dados”,
dificulta a produção de diagnósticos integrados e limita a formulação de
políticas públicas mais eficazes.
Superar
esse modelo exige novas soluções institucionais. Uma delas é a integração dos
dados públicos por meio de uma infraestrutura moderna, interoperável e
coordenada. Nesse contexto, a proposta do Sistema Nacional de Geociências,
Estatísticas e Dados (SINGED) aponta para uma nova arquitetura institucional do
Estado brasileiro, baseada em integração federada, governança e uso estratégico
da informação pública.
Experiências
internacionais, como as do Canadá, da Estônia e do Reino Unido, mostram que
essa transformação é viável e pode fortalecer tanto a gestão pública quanto a
capacidade preditiva de atuação do Estado.
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A herança do Estado da era industrial
Desde a
Revolução de 1930, a modernização do Estado brasileiro ocorreu com base na
organização setorial das políticas públicas. Cada órgão passou a produzir e
administrar suas próprias informações, de forma relativamente isolada. Esse
modelo foi funcional durante boa parte da era industrial, mas hoje se tornou um
obstáculo.
Na era
digital, muitos dos principais problemas públicos são complexos, intersetoriais
e dependem da combinação de diferentes bases de dados. Quando cada órgão
trabalha de forma isolada, o Estado perde capacidade de formular diagnósticos
abrangentes, identificar padrões e planejar ações de forma coordenada. Além
disso, a fragmentação gera redundância na coleta de informações,
inconsistências conceituais, dificuldades de interoperabilidade entre sistemas
e tempo e custos adicionais.
O
chamado “governo de silos dos dados” descreve justamente esse tipo de
organização verticalizada da informação, em que diferentes instituições
produzem e administram dados separadamente. Segundo Janssen e Kuk (2016), esse
formato dificulta o enfrentamento de problemas complexos e reduz a capacidade
analítica do setor público.
Diante
desse problema, a literatura recente passou a discutir alternativas para
integrar os dados governamentais. Uma possibilidade é a criação de grandes
repositórios centralizados, conhecidos como data lakes. Embora esse modelo
possa ampliar o acesso e a capacidade de cruzamento das informações, ele também
levanta preocupações importantes relacionadas à privacidade, à segurança, aos
custos, à rigidez institucional e aos conflitos de governança (Kitchin, 2014;
OECD, 2019).
Por
isso, ganhou força uma alternativa mais equilibrada, a integração federada de
dados. Nesse modelo, os dados não precisam ficar todos reunidos em um único
repositório. Eles permanecem distribuídos entre os diferentes órgãos, mas
passam a ser conectados por padrões comuns, mecanismos de interoperabilidade e
coordenação institucional (OECD, 2021).
Esse
arranjo permite integrar informações sem exigir centralização plena. Além de
ser tecnicamente viável, o modelo reduz riscos e se adapta melhor a países com
estrutura administrativa complexa e federativa, como o Brasil.
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Experiências internacionais
As
experiências de outros países mostram que há diferentes caminhos para integrar
dados públicos com segurança e eficiência. Nos países escandinavos,
especialmente Dinamarca, Noruega e Suécia, o censo demográfico deixou de
depender do modelo tradicional de recenseamento porta a porta e passou a ser
realizado com base predominante em registros administrativos.
A
Dinamarca foi pioneira nesse processo, sendo apontada pela ONU como o primeiro
país do mundo a realizar, em 1981, um censo demográfico totalmente baseado em
registros administrativos, pois desde 1971, por exemplo, o sistema nacional de
registro civil apoia as estatísticas populacionais. Na Noruega, o órgão
estatístico oficial informa que, desde 2011, o censo é realizado sem
questionário, exclusivamente com dados produzidos por outros órgãos públicos.
Na
Suécia, o próprio instituto estatístico define seu modelo como um censo
demográfico e habitacional baseado em registros. Essas experiências demonstram
que a produção censitária pode ser reorganizada a partir da integração segura e
coordenada de bases administrativas, desde que existam identificadores
confiáveis, interoperabilidade institucional e forte governança estatística.
No
Canadá, o Repositório de Registros Derivados e Registro-Chave para os fins do
Ambiente de Vinculação de Dados Sociais (Social Data Linkage Environment)criado
em 2014 destaca-se enquanto ambiente seguro e capaz de permite relacionar
diferentes bases de dados sem centralização total. O modelo canadense combina
anonimização de identificadores, forte governança estatística e separação entre
dados identificáveis e dados analíticos. Isso demonstra que é possível integrar
amplamente informações públicas mantendo padrões rigorosos de privacidade e
controle institucional.
Na
Estônia, a integração ocorre por meio de infraestrutura digital interoperável
acontece desde o ano de 2001. Com isso, o país se tornou uma referência
internacional operando em Estado digital com a plataforma X-Road que conecta
diferentes sistemas governamentais de forma distribuída. Seus principais
elementos são a identidade digital universal, a interoperabilidade por design,
a descentralização dos dados e o registro de acessos, o que garante
transparência e rastreabilidade. Nesse modelo, os dados não ficam concentrados
em um único lugar, mas circulam de modo seguro entre os sistemas.
No
Reino Unido, a experiência mais relevante está nos ambientes seguros de acesso
a dados, como o Serviço Seguro de Pesquisa (Secure Research Service), ligado ao
Escritório Nacional de Estatísticas (Office for National Statistics)desde 2004.
Esse modelo permite o uso controlado de microdados integrados para pesquisa e
avaliação de políticas públicas, com forte base legal, proteção ética e
mecanismos de segurança. Trata-se de uma abordagem centrada em ambientes
confiáveis de pesquisa (trusted research environments) nos quais a integração
ocorre sob condições rigorosas de acesso, finalidade e proteção.
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O SINGED como proposta para o Estado digital brasileiro
Com
base nessas experiências, o SINGED foi concebido como uma proposta
institucional adaptada à realidade brasileira. Seu objetivo é o promover a
integração dos dados públicos sem ignorar a complexidade federativa e
administrativa do país.
Para
isso, a criação de um catálogo nacional de dados, com inventário padronizado
das bases existentes, a adoção de interoperabilidade técnica e semântica, com
padrões comuns de comunicação, classificação e metadados, a implantação de
ambientes seguros de integração, inspirados nas experiências canadense e
britânica e a construção de uma governança institucional coordenada, com
liderança técnica do IBGE e articulação com a Autoridade Nacional de Proteção
de Dados, assegurando conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados.
A
integração de registros administrativos representa uma mudança estrutural na
produção de estatísticas oficiais. As experiências internacionais indicam que
esse caminho permite ampliar a cobertura e a frequência das informações,
reduzir custos, melhorar a qualidade dos dados, aumentar a granularidade
territorial e fortalecer o desenvolvimento de estatísticas e geociências
experimentais.
Apesar
do potencial dessa transformação, a sua implementação depende da superação de
desafios importantes. Entre eles estão a harmonização conceitual das bases, a
melhoria da qualidade dos dados, a coordenação entre instituições, a
capacitação técnica das equipes e a preservação da confiança pública.
A
experiência internacional mostra que o sucesso de sistemas desse tipo depende
da tecnologia bem como da qualidade da governança dos dados. Mesmo com os
avanços tecnológicos introduzidos pelo IBGE ao longo do tempo, o tempo entre a
realização dos censos demográficos e a publicação final dos dados quase não tem
se alterado.
O
décimo segundo censo demográfico realizado no Brasil no ano de 2022 aproxima-se
do quarto ano sem ainda a publicação final de todos os dados coletados. Em
1872, o primeiro censo demográfico implantado em 1872 somente foi tornado
público a totalidade dos dados no ano de 1876, ou seja, quatro anos depois de
iniciado.
Em
função disso, o SINGED insere o Brasil no debate global sobre a modernização do
Estado por meio da integração de dados. Sua proposta é compatível com a
estrutura federativa brasileira e com a necessidade de construir uma
arquitetura pública baseada em quatro princípios centrais: interoperabilidade,
segurança, governança e finalidade pública.
Ao
substituir o modelo fragmentado dos silos por uma rede coordenada de dados, o
país pode avançar na construção de um Estado mais inteligente, capaz de
produzir conhecimento integrado, melhorar seus diagnósticos e orientar
políticas públicas de forma mais precisa e eficaz. Tudo isso, com maior
agilidade, menor custo orçamentário e soberania de dados na era digital.
• A máquina pensante. Por Márcio dos
Santos
Sabemos
que a história é europeizada. Por mais que a crítica seja válida com relação a
esse assunto, ainda não encontramos formas eficientes de “(des)europeizar” a
história. Quando falamos do século XV, e do humanismo, e do antropocentrismo,
assim como das mudanças do pensamento próprio do período, falamos de uma
história europeia. Uma história europeia que é também a nossa, já que nossas
raízes vieram de três povos: indígenas, africanos e europeus.
A
partir do século XV descobrimos sobre o mundo. O planeta era maior e mais
diversificado. O homem, imagem e semelhança de Deus, era falho, mas também era
capaz de criar. Deus deu a nós o livre arbítrio, portanto, o mal ou o bem, nada
tem a ver com Deus, e sim conosco, meros mortais.
Quantos
anos pode viver um ser-humano? A resposta para essa pergunta difícil, não pode
ser simplificada. Para alguns períodos da nossa trajetória, era trinta, talvez
quarenta ou cinquenta anos. Hoje, cada vez mais, vemos pessoas vivendo para
além dos oitenta anos. Um dia haverá, quem sabe, gente que passe dos duzentos.
A medicina avança, e nós esticamos nosso tempo em um mundo cada vez mais
hostil.
Se na
Idade Média da Europa o homem era um ser dotado do pecado, e que por isso
mesmo, sofria com as consequências desse pecado, hoje não atribuímos mais a
Deus aquilo que é nosso. O ser humano voltou-se para todas as coisas humanas, e
todas as coisas humanas passaram a nos interessar. Se Deus entregou a nós o
livre-arbítrio, ou o poder de decidir sobre nosso caminho, o bem ou o mal, é
coisa nossa. Vivemos e estamos por conta própria.
Não que
a passagem para a idade moderna não tenha deixado suas vítimas. Galileu
precisou encarcerar-se pelo resto de seus dias em sua casa por afirmar aquilo
que a razão dizia a ele. Deus não podia ser contestado. Mas, Deus, embora não
tenha abandonado os homens, muito menos sua importância, passou a ocupar outro
espaço na realidade dos homens e mulheres que passaram a entender que os
problemas terrenos são problemas nosso, e não dele, que está acima de nós.
A roda
da fortuna decidia o destino humano, e depois, deu lugar as nossas variedades
de talento. Logo, começamos a pensar que pensar é existir e que a salvação
estava nas mãos de cada um de modo singular. Não mais Deus ou a magia. Não mais
a superstição. Mas, a ciência e a razão. E assim vivemos, para o bem ou para o
mal, até hoje. Não que esse “projeto” fosse livre de defeitos. O século XX nos
provaria o mal da ciência e da tecnologia sendo usados para fins cruéis.
Aprendemos sobre a não-neutralidade da ciência e da tecnologia. E o mundo
perfeito, pintado pelos homens e mulheres da modernidade, faliu.
Mudanças
climáticas, guerras e armas de destruição em massa. A exploração do solo fértil
e ao mesmo tempo amaldiçoado da África e da Ásia. A exploração da mão-de-obra
barata. A dor e o desespero. Vivemos a maior parte da vida produzindo bens para
serem consumidos por nós mesmos, e a vida se reduz ao mecânico sistema de viver
para conseguir o sustento. Não adiantou ter avançado tecnologicamente. A
tecnologia melhorou nossa vida sob determinados aspectos, mas nos fez
prisioneiros em outros.
A
ciência predomina onde antes o espaço era da fé e da contemplação. Pergunto se
você escolhe ir a uma igreja caso quebre a perna ou a um hospital? A pergunta é
retórica e a resposta obvia demais para ser respondida.
Como um
objeto de toneladas pode atravessar o céu? Todos os dias, milhões de
trabalhadores no mundo inteiro utilizam transporte publico para se locomover do
trabalho para casa. A queima do combustível e a engrenagem da máquina. É
ciência! É tecnologia. E somos dependentes. Criamos necessidades que há décadas
nem pensávamos existir. Tornamo-nos reféns.
O
pensamento, que se inicia no século XV, nos atentava para o fato de que a razão
e a ciência era o contraponto, uma vez que Deus, dando livre-arbítrio, não
podia contra suas próprias regras intervir. Não precisamos mais de milagres e
sim de remédios eficientes. Financiamento publico em educação e saúde. Ciência
e tecnologia! Se o Estado fizer o seu papel, estaremos bem. Mas, o que é estar
bem? Porque nossos direitos, mais elementares, ainda são vilipendiados?
Entramos
na metade da terceira década do século XXI e a inteligência artificial é uma
regra. A realidade que não pode ser esquecida. Os trabalhadores dos textos e
tradução e os de imagem. Os frilas! Estes observam suas economias minguarem
assim como os convites para a realização de trabalhos. São esses os primeiros a
sentirem o odor do hálito dos novos tempos. Tempos esses que não poupam
ninguém.
Há
colegas comparando os novos ares aos da revolução industrial, mas é preciso se
fazer quanto a isso um adendo; as máquinas não roubaram empregos. Criaram
outros. Há gente de peso na intelectualidade desejando a substituição de braços
humanos por máquinas o mais breve possível. Seria a nossa salvação. Quando as
máquinas trabalharem por nós, já não será mais necessário passar tanto tempo
trabalhando. Teremos mais tempo com a família e para o lazer. Mais tempo para
usufruir o que é ser de fato ser-humano.
Eu não
consigo ser tão otimista. Não vejo luz no horizonte. Para cada cem imagens que
vejo hoje, mais da metade já é feita com inteligência artificial. Não sou
contra a inteligência da máquina. As Inteligências artificiais realmente
mudaram o modo como convivemos com a tecnologia e com a informação.
O
problema, a meu ver, é outro. Se antes, o projeto era explorar as totais
capacidades do intelecto e da razão humana para a resolução dos nossos
problemas. Se a empatia e a relação harmoniosa e equilibrada, assim como a
cooperação, fazem de nós humanos… Seres sociais por excelência. Pensantes por
excelência. Quando passamos aquilo que mais é em nós humano, como a capacidade
de pensar e resolver problemas para uma máquina… Que diferença existe entre nós
e em um macaco que passa o dia apertando botões?
Que o
amanhã seja melhor que hoje. Mas, ainda não temos certeza. Isso só o próximo
século, talvez, será capaz de responder.
Fonte:
A Terra é Redonda

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