Quem
são as figuras chave no julgamento de Maduro nos EUA
O
ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa,
Cilia Flores, devem comparecer frente à Justiça americana pela segunda vez após
sua captura na capital venezuelana, Caracas, no dia 3
de janeiro, quando foram levados para os Estados Unidos para julgamento.
No
seu primeiro comparecimento ao tribunal em Manhattan,
no dia 5 de janeiro, Maduro se declarou inocente das quatro acusações. Elas
incluíam participação em uma conspiração com grupos considerados terroristas,
conspiração para tráfico de cocaína para os Estados Unidos e a posse e uso de
armas ilegais (basicamente, metralhadoras) para conduzir a suposta conspiração.
As
forças americanas capturaram Flores ao lado do marido. Ela também se declarou
inocente.
Ao
chegar a Nova York, o casal foi encaminhado para a sede da DEA (a agência
antidrogas dos Estados Unidos) e está detido no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn.
Após a
deposição de Maduro, Caracas e Washington restabeleceram relações diplomáticas
em março, depois de um hiato de sete anos.
A Casa
Branca reconheceu formalmente a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez (ex-vice de
Maduro), como a "única líder" do país.
Analistas
afirmam que estes processos podem levar vários meses até o julgamento, segundo
a imprensa americana.
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O juiz
Quando
Nicolás Maduro compareceu pela primeira vez à Justiça, ele ficou diante do juiz
Alvin Hellerstein, que pediu a ele que confirmasse sua identidade, para que o
processo pudesse começar.
"Senhor,
sou Nicolás Maduro. Sou presidente da República da Venezuela e estou
sequestrado desde 3 de janeiro", declarou ele calmamente, em espanhol, aguardando que o
intérprete traduzisse suas palavras. "Fui capturado na minha casa, em
Caracas, Venezuela."
O juiz
de 92 anos o interrompeu rapidamente, dizendo que haveria "tempo e lugar
para detalhar tudo isso".
Hellerstein
supervisionou diversos casos importantes e vem cuidando do processo contra
Maduro desde seu indiciamento e acusações de tráfico de drogas, em 2020. No
mesmo processo, outro réu — o ex-chefe de inteligência da Venezuela, Hugo
Armando Carvajal — já se declarou culpado.
Formado
pela Faculdade de Direito da Universidade Columbia, nos Estados Unidos,
Hellerstein trabalhou como advogado no Exército americano, antes de iniciar a
prática privada. Ele foi nomeado para o Distrito Sul de Nova York em 1998, pelo
então presidente Bill Clinton (1993-2001).
Hellerstein
presidiu casos civis relacionados aos ataques de 11 de setembro de 2001, bloqueou tentativas
do governo Trump de deportar supostos membros de gangues venezuelanos sem
audiência na Justiça e rejeitou o pedido do presidente Trump de transferir sua
ação sobre suborno para a Justiça federal.
Hellerstein
também julgou uma disputa entre a herdeira e estrela de TV Paris Hilton e uma
empresa italiana do setor de lingerie. Hilton pediu US$ 1,5 milhão (cerca de R$
7,8 milhões) por royalties não pagos e a companhia a culpava por atrasos na
aprovação.
Mais
recentemente, o juiz sentenciou Charlie Javice, fundador de uma startup do
setor de tecnologia, a mais de sete anos de prisão por fraude contra o banco de
investimentos J. P. Morgan Chase e condenou Bill Hwang, fundador do falido
fundo de hedges Archegos, a 18 anos de prisão, em outro caso de fraude.
O juiz
também ordenou a liberação de fotografias do governo americano que documentavam
a tortura de detentos no Iraque e no Afeganistão.
Citando
fontes, o portal de notícias americano Politico descreveu Hellerstein como juiz
"das antigas", que frequentemente adota técnicas incomuns, incluindo
ligações telefônicas diretamente aos promotores.
Na
segunda audiência de Maduro nesta quinta-feira (26/3), espera-se que
Hellerstein analise se Maduro deve ser autorizado a usar fundos do governo
venezuelano na sua defesa contra as acusações americanas de tráfico de drogas.
Em
fevereiro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos revogou uma exceção às
sanções financeiras americanas contra a Venezuela, que permitia ao governo do
país financiar sua defesa.
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A equipe de defesa
Maduro
contratou o famoso advogado americano Barry Pollack para agir em sua defesa.
Pollack
é conhecido por defender o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e conseguir sua
libertação da prisão no Reino Unido em 2024.
Ele é
sócio do escritório de advocacia de Wall Street Harris St. Laurent &
Wechsler, com sede em Manhattan. Ele também é professor do Centro de Direito da
Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, e membro do Colégio Americano de
Procuradores do Estado.
Pollack
foi descrito como "advogado minucioso e de reflexão profunda", que
"vive, respira e sonha com os julgamentos", segundo a publicação
analítica e de pesquisa jurídica Chambers USA.
Ele
negociou o acordo de Assange, pondo fim a uma
batalha legal que durava uma década. Assange se declarou culpado de uma
acusação americana de espionagem e foi sentenciado aos anos que passou em
detenção e confinamento no Reino Unido.
Pollack
também já obteve absolvições e ajudou a reverter condenações erradas.
Elas
incluem a de Martin Tankleff, que passou 17 anos na prisão por ter sido acusado
erroneamente de assassinar seus pais, e Michael Krautz, ex-contador da empresa
Enron que enfrentava acusações de fraude criminal após o colapso da gigante da
energia.
Na
primeira audiência de Maduro, a imprensa americana informou que Pollack questionou a legalidade da sua
captura pelas
forças americanas. Ele defendeu que Maduro tem direito a imunidade, como chefe
de um Estado soberano.
A
esposa de Maduro, Cilia Flores, foi representada separadamente pelo advogado
Mark Donnelly, de Houston, no Estado americano do Texas.
Ele é
ex-promotor do Departamento de Justiça e sua experiência se concentra em crimes
do colarinho branco, segundo o website do seu escritório.
Donnelly
afirmou que Flores havia sofrido "lesões significativas" durante a
operação militar que levou à sua captura e pediu um exame médico completo.
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A acusação
A
acusação está a cargo da Procuradoria Federal do Distrito Sul de Nova York.
A
Procuradoria é chefiada pelo procurador federal Jay Clayton, que assinou a
acusação contra Maduro e sua esposa.
Em
novembro, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, nomeou Clayton
para liderar uma investigação sobre as ligações do criminoso sexual condenado
Jeffrey Epstein (1953-2019) com membros importantes do Partido Democrata e
grandes instituições financeiras.
Uma das
principais advogadas no caso de Maduro é Amanda Houle, chefe da divisão
criminal da Procuradoria. Ela retornou recentemente ao órgão, após atuar na
iniciativa privada.
Entre
2015 e 2023, Houle trabalhou no Distrito Sul de Nova York em diversos cargos de
alto escalão, incluindo a chefia da Unidade de Narcóticos.
Durante
a audiência de acusação de Maduro, em 5 de janeiro, o vice-procurador federal
Kyle Wirshba falou em nome do governo.
Wirshba
é membro da unidade de segurança nacional e internacional de narcóticos da
Procuradoria. Ele tem histórico de lidar com casos importantes, relacionados ao
tráfico internacional de drogas.
Ele
participa da ação contra Maduro desde a acusação inicial do líder venezuelano,
em 2020. Antes disso, ele teve papel importante no processo contra o ex-general
venezuelano Cliver Alcalá Cordones, que foi aliado de Maduro e se declarou
culpado de fornecer apoio material às guerrilhas colombianas das Farc.
Wirshba
também processou a gangue venezuelana Trem de Aragua e seu suposto
líder, Héctor Rusthenford Guerrero Flores, indiciado como réu
ao lado de Maduro neste caso.
Ele é
um dos procuradores na ação contra o mexicano Jesús Méndez-Vargas, líder de
cartel extraditado para os Estados Unidos no ano passado. E também participou
da equipe de acusação que obteve a condenação do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022).
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Quem paga pela defesa de Maduro? E por que isso tem
causado controvérsias nos EUA
Uma
pergunta simples opõe, nestes dias, o governo dos Estados Unidos a Nicolás Maduro: quem deve pagar a
defesa do ex-presidente venezuelano em Nova
York?"
A
questão deve ser um ponto crucial da nova audiência de Maduro diante de um
tribunal federal em Manhattan nesta quinta-feira (26/3), na fase inicial do
processo que ele enfrenta por acusações de narcotráfico — algo que ele nega.
Maduro
e sua esposa, Cilia Flores, que é acusada de crimes semelhantes e também está
presa em Nova York, argumentam que sua defesa deve ser custeada pelo Estado
venezuelano.
O
governo americano, contudo, afirma que essa possibilidade é vedada pelas
sanções aplicadas à Venezuela e que o casal só poderia pagar a defesa com
recursos próprios.
Os
custos de advogados escolhidos em grandes casos como este podem chegar a
milhões de dólares.
Maduro
e Flores negam ter dinheiro para pagar a defesa, e seus advogados pediram ao
juiz do caso, Alvin Hellerstein, que rejeite as acusações, por considerarem que
seus direitos foram violados.
Especialistas
em direito consideram improvável que Hellerstein invalide este caso, que atrai
atenção internacional desde que os EUA prenderam Maduro e Flores em uma operação militar relâmpago em Caracas, em 3 de janeiro.
"A
solicitação de rejeitar a acusação é absurda", disse Ronald Allen,
professor de direito na Universidade Northwestern e especialista em processo
penal, à BBC Mundo — serviço em espanhol da BBC.
Mas a
disputa sobre quem deve pagar a defesa já antecipa os desafios que este caso
apresenta, com poucos precedentes que possam servir de referência.
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'Obrigação de pagar'
Poucos
dias após a prisão e transferência de Maduro e Flores para Nova York, seus
advogados passaram a buscar uma forma de pagar os honorários da defesa com
recursos do governo venezuelano.
Em 7 de
janeiro, eles pediram autorização para isso ao Escritório de Controle de Ativos
Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), um órgão do Tesouro dos EUA
responsável por aplicar as sanções econômicas internacionais de Washington.
A
autorização da Ofac é fundamental porque Maduro e o governo da Venezuela, que
ele chefiou de 2013 até sua prisão, estão sob sanções por acusações de
corrupção, violações de direitos humanos, narcotráfico e outros crimes.
No dia
9 de janeiro, a Ofac concedeu as autorizações solicitadas para Maduro e Flores.
No entanto, revogou a primeira menos de três horas depois e a segunda algumas
semanas mais tarde.
Em
fevereiro, o advogado de Maduro, Barry Pollack, pediu ao tribunal de Manhattan
que rejeite a acusação. Ele alega que o governo dos EUA interferiu no direito
de escolher a defesa, garantido pela Sexta Emenda da Constituição.
"O
governo da Venezuela, de acordo com suas leis, tem a obrigação de pagar as
despesas de defesa do senhor Maduro", afirmou.
Para
sustentar esse argumento, ele apresentou a declaração de um jurista venezuelano
e indicou que o governo do país "está disposto a cumprir sua obrigação de
pagar os custos da defesa".
A
presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que Maduro ainda é o
"presidente legítimo" do país e que tanto ele quanto Flores são
inocentes.
No
entanto, Caracas e Washington restabeleceram relações diplomáticas após a
captura de Maduro, em meio a diversas pressões do governo de Donald Trump sobre
Rodríguez.
Pollack
é um advogado com experiência em grandes casos. Em 2024, ele conseguiu a
libertação de Julian Assange, fundador do WikiLeaks que era acusado pelos EUA
de divulgar informações de segurança nacional.
Mas, em
sua carta em defesa de Maduro, Pollack indicou que deixaria o caso se as
restrições do Tesouro forem mantidas.
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'Erro administrativo'
Os
promotores responderam que a autorização inicial para que Maduro e Flores
pagassem sua defesa com recursos da Venezuela foi um "erro
administrativo" que foi corrigido.
"A
regulamentação da Ofac proíbe expressamente o uso de fundos de uma entidade
sancionada para pagar os honorários dos advogados de outra pessoa
sancionada", indicou um documento apresentado ao tribunal em 13 de março,
assinado por Jay Clayton e outros promotores.
O
documento nega que os EUA estejam interferindo no direito à defesa e afirma que
tanto Maduro quanto Flores podem pagar seus advogados com recursos pessoais,
apesar de estarem sob sanções.
Os
promotores também rejeitaram a alegação de que Maduro e Flores tenham direito a
benefícios do governo venezuelano porque, segundo os EUA, "não eram
funcionários nem empregados legítimos da Venezuela".
Na
semana passada, Pollack e o advogado de Flores, Mark Donnelly, reiteraram ao
juiz que seus clientes não têm recursos para pagar sua defesa — como afirmam em
uma declaração juramentada — e que poderiam apresentar provas financeiras.
Além
disso, negaram que uma eventual designação de advogados públicos para Maduro e
Flores seria suficiente para reparar a violação de direitos que, na avaliação
deles, representa a proibição de acesso a recursos venezuelanos.
Segundo
o professor Allen, uma decisão de arquivar a acusação com base nisso, como pede
a defesa, "só ocorreria se o atraso no acesso aos recursos causasse algum
prejuízo irreparável".
"Neste
caso, se (Maduro) receber os recursos, poderá usá-los para cobrir os gastos de
sua defesa, o que resolve o problema", acrescenta.
Mas ele
alerta que "um acusado não tem direito a gastar o dinheiro de outras
pessoas em sua defesa".
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'Sem precedentes'
Nos
EUA, casos anteriores contra ex-presidentes estrangeiros guardam algumas
semelhanças com o de Maduro, mas também diferenças importantes.
Talvez
o mais parecido seja o processo conduzido pelo governo americano contra o
ex-presidente do Panamá, Manuel Noriega, após invadir o país e capturá-lo em
1990 para ser julgado por narcotráfico.
Inicialmente,
os EUA negaram o acesso de Noriega às suas contas bancárias congeladas para
cobrir os custos de sua defesa, estimados em milhões de dólares.
Mas os
advogados de Noriega também sinalizaram que abandonariam o caso por falta de
pagamento e, após um impasse com a promotoria, chegaram a um acordo validado
pelo juiz do caso para destinar parte dos recursos congelados à defesa.
O
julgamento foi realizado em um tribunal federal de Miami e o general Noriega
foi condenado em 1992.
Mais
recentemente, o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández foi extraditado
aos EUA em 2022 para ser julgado por narcotráfico no mesmo tribunal que conduz
o caso de Maduro.
A
família de Hernández indicou que sua defesa seria financiada com recursos
próprios e doações. O ex-presidente também acabou condenado, mas em dezembro
recebeu um indulto surpresa de Trump e recuperou a liberdade.
No
entanto, em nenhum desses casos anteriores os acusados ainda eram reconhecidos
como presidentes pelo governo de seus países ao enfrentar a justiça americana —
o que ocorre com Maduro.
E isso
começa a gerar complicações que certamente continuarão ao longo do processo,
afirma Chimène Keitner, professora de direito internacional na Universidade da
Califórnia Davis.
"Nada
impediria a Venezuela de reembolsar Maduro por suas despesas legais dentro da
Venezuela, fora da jurisdição dos EUA", diz Keitner à BBC Mundo.
"Mas
os advogados que atuam em tribunais americanos precisam ser pagos de forma
compatível com as sanções aplicadas."
Na
avaliação dela, se os direitos de Maduro sob a Sexta Emenda forem violados pela
proibição de usar dinheiro venezuelano em sua defesa, "trata-se sem dúvida
de uma questão sem precedentes, dados as circunstâncias tão incomuns deste
caso".
Fonte:
BBC News Mundo

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