Como
bloqueio de Ormuz tem sido lucrativo para o Irã
Ao
longo da história, indivíduos e entidades bem relacionados sempre encontraram
um jeito de lucrar com as crises. Não haveria por que ser diferente na guerra
de Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito se aproxima de completar um mês, ao mesmo
tempo em que os EUA anunciam negociar uma trégua.
Nas
últimas semanas, houve alegações de que varejistas de combustíveis teriam
aumentado os preços nas bombas poucas horas após os primeiros ataques; de que
as grandes empresas petrolíferas estariam obtendo lucros extraordinários com
o barril de petróleo ultrapassando os
100 dólares;
e também de que as seguradoras marítimas teriam elevado os preços do prêmio de
forma exponencial depois do bloqueio do Estreito de Ormuz por Teerã.
A
última denúncia, no entanto, aponta para um dos atores do conflito. De acordo
com relatos, o Irã estaria cobrando até 2 milhões de dólares (R$ 10,45 milhões)
de navios-tanque de petróleo e gás para autorizar uma "passagem
segura" por Ormuz.
O Lloyd's
List, uma das publicações marítimas mais antigas e respeitadas do mundo,
informou na semana passada que pelo menos uma embarcação já teria efetuado esse
pagamento.
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Cobrança de "pedágio" em Ormuz?
Se for
confirmada, essa iniciativa transformará um dos gargalos estratégicos mais críticos
do planeta –
por onde passa um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo – em um
pedágio de alto risco.
Embora
vários funcionários iranianos tenham negado a informação, o parlamentar
Alaeddin Boroujerdi afirmou na TV estatal que as taxas estariam sendo cobradas
como parte de um "novo regime soberano" no estreito, justificada como
uma maneira de cobrir "custos de guerra".
De
acordo com Robert Huebert, especialista em relações internacionais da
Universidade de Calgary, no Canadá, uma cobrança de "pedágio" no
Estreito de Ormuz violaria o direito marítimo internacional. "Liberdade de
navegação é a base do comércio marítimo internacional, é a capacidade de
transitar por essas áreas sem qualquer tipo de obstrução", disse Huebert
ao podcast da Energi Media, nessa terça-feira (24/03). "Se você fizer isso
[cobrar uma taxa], enfrentará oposição direta de praticamente todos os Estados",
complementou.
Com
mais de 3,2 mil embarcações retidas, Peter Sand, analista-chefe da empresa de
inteligência marítima Xeneta, com sede em Copenhague, minimizou a importância
da cobrança para a reabertura do estreito. "Por mais alta que pareça, [a
taxa de 2 milhões de dólares] não é o fator essencial", disse Sand à DW.
"O que importa é que ainda não é seguro atravessar [Ormuz]."
Ainda
assim, a disposição de grandes importadores de petróleo e gás de iniciar
negociações diretas e pagar uma taxa tão elevada por navio – além de coberturas
de seguro já exorbitantes – revela o grau de desespero de países altamente
dependentes de energia para garantir ao menos um fluxo mínimo pelo estreito.
"Alguns
[países] podem querer pagar", acrescentou Sand. "É um último prêmio
relativamente pequeno para assegurar algum nível de fornecimento energético
contínuo."
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Drible nas sanções contra o Irã
O Lloyd's
List afirmou que não está claro como a transação foi realizada, já que
o Irã continua sujeito a sanções internacionais, o que dificulta ao país
receber pagamentos em dólares por meio de canais financeiros ocidentais.
A
publicação marítima informou que Índia, Paquistão, Iraque, Malásia e China
estão conversando diretamente com autoridades iranianas para organizar a
passagem segura de seus navios.
A Bloomberg,
que também noticiou a cobrança, citou fontes que pediram anonimato dizendo que
várias embarcações já pagaram para atravessar o estreito, embora o
"pedágio" não pareça ocorrer de forma sistemática.
Uma das
fontes da Bloomberg acrescentou que Teerã estuda formalizar a taxa como parte
de um eventual acordo de paz com Estados Unidos e Israel.
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Trânsito facilitado para navios "não hostis"
Em um
novo desdobramento, o Irã enviou na terça-feira (24/03) uma carta aos membros
da Organização Marítima Internacional (OMI) dizendo que agora permitirá que
"embarcações não hostis" atravessem Ormuz, mediante coordenação com
Teerã.
"Até
agora, [o Irã] havia autorizado entre três e cinco travessias por dia",
disse Sand. "[Agora Teerã está dizendo:] se você não é inimigo do Irã, o
estreito está aberto para você."
Enquanto
isso, um porta-voz da OMI disse à DW que a organização está trabalhando para
estabelecer "uma medida provisória e urgente para facilitar a evacuação
segura dos navios mercantes atualmente retidos na região do Golfo".
Antes
que a crise se agrave ainda mais, a entidade afirmou que é crucial proteger a
vida e o bem-estar dos marinheiros que estão presos, ao mesmo tempo em que
pressiona para que navios dispostos a transitar por Ormuz o façam sem serem
atacados.
Paralelamente,
a produção e as exportações de petróleo do Irã continuam sem interrupção. E na
semana passada, o governo do presidente dos EUA anunciou uma isenção
de sanções de 30 dias para a compra de petróleo do Irã que já se encontra em
petroleiros para aliviar as pressões de fornecimento de energia desde o início
da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. A alta dos preços gerada pela guerra
também significa que os iranianos têm conseguido cobrar mais por esse petróleo.
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Escoltas navais não são uma "solução de longo prazo"
O
presidente dos EUA, Donald Trump, vem pressionando os aliados europeus da Otan a participarem
de uma missão multinacional de patrulha ou escolta naval no Golfo para proteger
a navegação comercial.
Os
países europeus, porém, têm resistido em grande parte a um envolvimento
imediato. Mas muitos deles, incluindo Alemanha, França e Itália, já indicaram
estar dispostos a contribuir com uma missão de escolta ou patrulha naval assim
que os combates ativos cessarem.
A OMI
afirmou que, embora escoltas navais já tenham sido utilizadas anteriormente
–inclusive durante os recentes ataques dos houthis, apoiados pelo Irã, contra
navios no Mar Vermelho – elas não representam "uma solução sustentável ou
de longo prazo".
"É
necessário encontrar uma solução multilateral para diminuir as tensões e
permitir que marinheiros civis e navios sejam evacuados com segurança",
disse o porta-voz da entidade.
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Crise no Iraque se agrava com colapso das exportações de
petróleo e pressão sobre o governo
O
Iraque enfrenta uma grave crise econômica após a queda de mais de 70% nas
exportações de petróleo bruto, consequência direta da guerra com o Irã e do
fechamento do estreito de Ormuz, sua principal rota de navegação.
A
produção despencou de 3,4 milhões para cerca de 250 mil barris por dia,
deixando o orçamento estatal sob enorme pressão.
De acordo com o Financial
Times, a crise recai sobre um governo interino fragilizado, ainda no poder
meses após as eleições e pressionado por ataques dos EUA contra milícias
xiitas apoiadas por Teerã dentro do território
iraquiano.
Em meio a essa instabilidade, sete soldados iraquianos foram mortos em um
ataque atribuído aos EUA.
Especialistas
afirmam à mídia britânica que o Iraque, altamente dependente do petróleo e
sem ter diversificado sua economia nas últimas décadas, está excepcionalmente
vulnerável ao
choque atual.
As
vendas de petróleo representam 90% do orçamento estatal, enquanto 90% dos bens
de consumo, alimentos e medicamentos são importados, muitos via Ormuz, afirma a
apuração.
A queda
nas exportações já custou ao país cerca de US$ 5,4 bilhões (aproximadamente R$
28,22 bilhões), quase 2% do produto interno bruto (PIB) de 2024. O governo
tem dinheiro para pagar salários públicos por apenas um ou dois meses, e
economistas alertam para
dificuldades já
a partir de maio, segundo a mídia.
A dependência de gás iraniano para a rede
elétrica agrava o cenário, já que as importações despencaram após ataques
israelenses ao maior campo de gás do Irã.
A
situação é ainda mais complicada pela atuação de milícias xiitas que atacam
alvos norte-americanos, provocando retaliações dos EUA em várias
regiões do país.
Bagdá
tenta alternativas para escoar o petróleo, incluindo reparos
em oleodutos e a declaração de força maior em campos operados por empresas
estrangeiras. Mesmo que consiga elevar as exportações para 500 mil barris por
dia, isso não seria suficiente para cobrir obrigações básicas, como
assistência social e salários.
O país
depende atualmente de um oleoduto que atravessa o Curdistão até Ceyhan, na
Turquia, um acordo frágil sustentado por pressão dos EUA.
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Um desastre que se aproxima. Por Olímpio Cruz Neto
O
conflito aberto no Golfo Pérsico, com a chuva de mísseis e drones que estão se
espalhando pelo Oriente Médio, vai entrar na quarta semana. E o avanço do petróleo
para patamares superiores a US$ 160 por barril mostra que não
estamos diante de um episódio de volatilidade. Agora, o mundo assiste à
manifestação de uma mudança estrutural. É uma ruptura. Estamos diante da
incapacidade do sistema energético global de absorver choques geopolíticos sem
ruptura de preços, fluxos e previsibilidade.Nesta semana, a revista The
Economist descreveu a escalada no Golfo
sob o título “Operation Blind Fury”, apontando para a perda de controle sobre a
dinâmica de segurança na região, numa crítica direta à administração de Donald
Trump. De fato, o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do
petróleo mundial — agora opera sob risco permanente. E não se trata apenas de
oferta. A crise é na entrega, condicionada a decisões políticas, mísseis e
drones.
O
mercado precificou isso em Dubai, com o barril cravando a assustadora marca de
US$ 166. Para o Brasil, o problema não é o barril de óleo cru. É o diesel.
Cerca de um quarto do diesel consumido no país é importado. Mais de 60% da
carga nacional depende do transporte rodoviário. O fato de o país ter
abandonado investimentos em ferrovias lá atrás agora nos deixa na seguinte
encruzilhada: o diesel passou a ser o principal canal de transmissão de custos
da economia brasileira.
Quando
o diesel sobe, sobe o frete. Se o frete sobe, também há uma elevação do preço
do alimento. E quando o quilo do arroz alcança patamares elevados, não se
escapa da pressão política. Essa cadeia é direta, rápida e difícil de conter.
Não há política tributária capaz de neutralizar de forma sustentada um choque
de tal magnitude. O país não está diante apenas de um problema de preços, mas
de arquitetura econômica.
E, não
podemos esquecer, essa arquitetura foi deliberadamente alterada. A partir de
2016, sob os governos de Michel Temer e posteriormente de Jair Bolsonaro, o
Brasil adotou uma estratégia de reconfiguração do seu sistema energético com
foco em desalavancagem, abertura de mercado e redução do papel coordenador do
Estado. Essa é a realidade que o mercado ainda subestima.
No caso
da Petrobrás, a nova arquitetura se traduziu na venda de ativos de
refino e distribuição, além da redefinição do papel como empresa voltada
prioritariamente à exploração e produção. O efeito foi a perda de integração de
um sistema que, até então, permitia algum grau de amortecimento interno de
choques externos. Agora, o espaço de coordenação é menor.Já no setor
elétrico, a privatização da
Eletrobrás retirou
do Estado o principal instrumento de coordenação de longo prazo em geração e
transmissão de energia. Em um momento em que energia, tecnologia e segurança
nacional se tornam dimensões inseparáveis, a decisão tomada pelo governo
Bolsonaro reduziu a capacidade de planejamento estratégico do país.
Não se
trata de um juízo ideológico. É uma constatação operacional: o Brasil trocou
capacidade de coordenação por eficiência financeira de curto prazo. O resultado
é um “sistema mais leve”, mas que agora se revela profundamente vulnerável. Mas
esse não é o ponto final da crise de 2026. Há um paradoxo ainda mais grave.
O Brasil é um grande
exportador de petróleo bruto. Em momentos de alta de preços, como agora,
o país vai capturar uma renda extraordinária em dólar por meio de royalties,
participações especiais, dividendos e exportações. Isso é bom. Mas, ao mesmo
tempo, estamos importando um diesel caro e absorveremos o impacto inflacionário
dessa mesma commodity que vendemos. Então, vamos ganhar de um lado e perder de
outro.
Resumindo,
exportamos petróleo bruto, ao mesmo tempo que importamos a crise do diesel
caro. Tal assimetria não é inevitável, mas é fruto de uma escolha. Então, como
converter a renda extraordinária do petróleo em capacidade de reduzir a
dependência do próprio petróleo? Em vez do país monetizar a commodity – e
terceirizar a solução –, podemos inverter a lógica.
A
correção desse descompasso exige decisão política clara: vincular parte da
renda extraordinária do petróleo bruto que será vendido a preços
estratosféricos a um programa permanente de desacoplamento energético e
logístico. A ideia é que sempre que o preço internacional ultrapassar uma banda
de referência, a parcela extraordinária dessa renda seja direcionada a um fundo
de soberania energética e logística, com uma missão definida: reduzir a
exposição estrutural do país ao diesel e ao transporte rodoviário.
Não se
trata aqui de política ambiental. Mas de gestão de risco. Estamos diante de uma
guerra que trará consequências graves ao país. É uma questão de semanas, meses.
E se a guerra se prolongar por mais tempo? Então, é hora de ter foco.
E se o
país substituísse progressivamente o diesel na carga pesada por alternativas
como biometano, diesel renovável e eletrificação de corredores logísticos?
Poderíamos expandir a infraestrutura ferroviária e a intermodalidade. E
desenvolver uma base industrial ligada à nova economia energética. O governo
poderia alinhar Finep, BNDES e instituições de pesquisa a uma lógica de indução
tecnológica orientada por missão. Tudo sob uma lógica simples: usar a renda
extraordinária do petróleo para financiar a redução da dependência do petróleo.
Isso
não implica reverter decisões passadas nem reestatizar ativos – comprar a BR
Distribuidora de volta e mais os gasodutos e refinarias, além de retomar o
controle sobre a Eletrobrás. Não é isso. Mas o desafio é igualmente relevante:
reconstruir a capacidade do Estado de coordenar, induzir e planejar.
Hoje, o
país faz o oposto. Trata a alta do barril como evento fiscal e distribui seus
efeitos via preços, inflação e perda de competitividade. Enquanto isso, outras
economias operam sob lógica estratégica.
A Economist noticiou
agora que a China se consolidou
como um dos principais competidores na corrida pela fusão nuclear comercial. O projeto BEST, em
construção em Hefei, deve ser concluído até 2027 e servirá de base para um
reator de demonstração no início da próxima década. O esforço integra uma
estratégia mais ampla que conecta energia, indústria e inteligência artificial.
A premissa do parceiro do BRICS é clara: energia abundante, previsível e
controlável. Isso é base de poder.
O
contraste com o Brasil é evidente. Enquanto o país exporta petróleo bruto e
consome renda energética como fluxo financeiro, outras economias utilizam
instrumentos de política industrial para reduzir vulnerabilidades e construir
autonomia de longo prazo.
O
denominador comum, portanto, não é ambiental. É a geopolítica se impondo. A
energia deixou de ser insumo. É agora, mais do que nunca, poder. E, nesse
contexto, a ausência de uma estratégia energética integrada transforma choques
externos em crises internas e oportunidades de renda em desperdício
estratégico.
Daí que
o barril a US$ 166 em Dubai não é apenas um alerta de mercado, mas um grito de
que a hora é de racionalidade estratégica. O Brasil pode continuar exportando
petróleo bruto e importando inflação. Ou pode usar essa renda para financiar a
ruptura que nunca fez.
A
diferença entre um caminho e outro não está no preço do barril. Está na
capacidade de decidir o que fazer com ele.
No
Brasil, o preço do diesel nunca foi apenas um dado macroeconômico. Ele é o
termômetro da paz social e o veredito implícito sobre a longevidade de qualquer
governo. Ignorar a urgência de uma ruptura estrutural em nome da inércia
burocrática ou de paliativos fiscais não é apenas um erro estratégico — é um
risco político mensurável.
No
cenário de Dubai a US$ 166, a soberania energética deixa de ser um projeto de
longo prazo para se tornar condição mínima de governabilidade. A escolha é
simples: ou o país financia a sua própria autonomia agora — ou continuará
financiando, na bomba, a próxima crise.
Fonte:
DW Brasil/Brasil 247

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