segunda-feira, 30 de março de 2026

Como bloqueio de Ormuz tem sido lucrativo para o Irã

Ao longo da história, indivíduos e entidades bem relacionados sempre encontraram um jeito de lucrar com as crises. Não haveria por que ser diferente na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito se aproxima de completar um mês, ao mesmo tempo em que os EUA anunciam negociar uma trégua.

Nas últimas semanas, houve alegações de que varejistas de combustíveis teriam aumentado os preços nas bombas poucas horas após os primeiros ataques; de que as grandes empresas petrolíferas estariam obtendo lucros extraordinários com o barril de petróleo ultrapassando os 100 dólares; e também de que as seguradoras marítimas teriam elevado os preços do prêmio de forma exponencial depois do bloqueio do Estreito de Ormuz por Teerã.

A última denúncia, no entanto, aponta para um dos atores do conflito. De acordo com relatos, o Irã estaria cobrando até 2 milhões de dólares (R$ 10,45 milhões) de navios-tanque de petróleo e gás para autorizar uma "passagem segura" por Ormuz.

Lloyd's List, uma das publicações marítimas mais antigas e respeitadas do mundo, informou na semana passada que pelo menos uma embarcação já teria efetuado esse pagamento.

<><> Cobrança de "pedágio" em Ormuz?

Se for confirmada, essa iniciativa transformará um dos gargalos estratégicos mais críticos do planeta – por onde passa um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo – em um pedágio de alto risco.

Embora vários funcionários iranianos tenham negado a informação, o parlamentar Alaeddin Boroujerdi afirmou na TV estatal que as taxas estariam sendo cobradas como parte de um "novo regime soberano" no estreito, justificada como uma maneira de cobrir "custos de guerra".

De acordo com Robert Huebert, especialista em relações internacionais da Universidade de Calgary, no Canadá, uma cobrança de "pedágio" no Estreito de Ormuz violaria o direito marítimo internacional. "Liberdade de navegação é a base do comércio marítimo internacional, é a capacidade de transitar por essas áreas sem qualquer tipo de obstrução", disse Huebert ao podcast da Energi Media, nessa terça-feira (24/03). "Se você fizer isso [cobrar uma taxa], enfrentará oposição direta de praticamente todos os Estados", complementou.

Com mais de 3,2 mil embarcações retidas, Peter Sand, analista-chefe da empresa de inteligência marítima Xeneta, com sede em Copenhague, minimizou a importância da cobrança para a reabertura do estreito. "Por mais alta que pareça, [a taxa de 2 milhões de dólares] não é o fator essencial", disse Sand à DW. "O que importa é que ainda não é seguro atravessar [Ormuz]."

Ainda assim, a disposição de grandes importadores de petróleo e gás de iniciar negociações diretas e pagar uma taxa tão elevada por navio – além de coberturas de seguro já exorbitantes – revela o grau de desespero de países altamente dependentes de energia para garantir ao menos um fluxo mínimo pelo estreito.

"Alguns [países] podem querer pagar", acrescentou Sand. "É um último prêmio relativamente pequeno para assegurar algum nível de fornecimento energético contínuo."

<><> Drible nas sanções contra o Irã

Lloyd's List afirmou que não está claro como a transação foi realizada, já que o Irã continua sujeito a sanções internacionais, o que dificulta ao país receber pagamentos em dólares por meio de canais financeiros ocidentais.

A publicação marítima informou que Índia, Paquistão, Iraque, Malásia e China estão conversando diretamente com autoridades iranianas para organizar a passagem segura de seus navios.

Bloomberg, que também noticiou a cobrança, citou fontes que pediram anonimato dizendo que várias embarcações já pagaram para atravessar o estreito, embora o "pedágio" não pareça ocorrer de forma sistemática.

Uma das fontes da Bloomberg acrescentou que Teerã estuda formalizar a taxa como parte de um eventual acordo de paz com Estados Unidos e Israel.

<><> Trânsito facilitado para navios "não hostis"

Em um novo desdobramento, o Irã enviou na terça-feira (24/03) uma carta aos membros da Organização Marítima Internacional (OMI) dizendo que agora permitirá que "embarcações não hostis" atravessem Ormuz, mediante coordenação com Teerã.

"Até agora, [o Irã] havia autorizado entre três e cinco travessias por dia", disse Sand. "[Agora Teerã está dizendo:] se você não é inimigo do Irã, o estreito está aberto para você."

Enquanto isso, um porta-voz da OMI disse à DW que a organização está trabalhando para estabelecer "uma medida provisória e urgente para facilitar a evacuação segura dos navios mercantes atualmente retidos na região do Golfo".

Antes que a crise se agrave ainda mais, a entidade afirmou que é crucial proteger a vida e o bem-estar dos marinheiros que estão presos, ao mesmo tempo em que pressiona para que navios dispostos a transitar por Ormuz o façam sem serem atacados.

Paralelamente, a produção e as exportações de petróleo do Irã continuam sem interrupção. E na semana passada, o governo do presidente dos EUA anunciou uma isenção de sanções de 30 dias para a compra de petróleo do Irã que já se encontra em petroleiros para aliviar as pressões de fornecimento de energia desde o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. A alta dos preços gerada pela guerra também significa que os iranianos têm conseguido cobrar mais por esse petróleo.

<><> Escoltas navais não são uma "solução de longo prazo"

O presidente dos EUA, Donald Trump, vem pressionando os aliados europeus da Otan a participarem de uma missão multinacional de patrulha ou escolta naval no Golfo para proteger a navegação comercial.

Os países europeus, porém, têm resistido em grande parte a um envolvimento imediato. Mas muitos deles, incluindo Alemanha, França e Itália, já indicaram estar dispostos a contribuir com uma missão de escolta ou patrulha naval assim que os combates ativos cessarem.

A OMI afirmou que, embora escoltas navais já tenham sido utilizadas anteriormente –inclusive durante os recentes ataques dos houthis, apoiados pelo Irã, contra navios no Mar Vermelho – elas não representam "uma solução sustentável ou de longo prazo".

"É necessário encontrar uma solução multilateral para diminuir as tensões e permitir que marinheiros civis e navios sejam evacuados com segurança", disse o porta-voz da entidade.

¨      Crise no Iraque se agrava com colapso das exportações de petróleo e pressão sobre o governo

O Iraque enfrenta uma grave crise econômica após a queda de mais de 70% nas exportações de petróleo bruto, consequência direta da guerra com o Irã e do fechamento do estreito de Ormuz, sua principal rota de navegação.

A produção despencou de 3,4 milhões para cerca de 250 mil barris por dia, deixando o orçamento estatal sob enorme pressão.

De acordo com o Financial Times, a crise recai sobre um governo interino fragilizado, ainda no poder meses após as eleições e pressionado por ataques dos EUA contra milícias xiitas apoiadas por Teerã dentro do território iraquiano. Em meio a essa instabilidade, sete soldados iraquianos foram mortos em um ataque atribuído aos EUA.

Especialistas afirmam à mídia britânica que o Iraque, altamente dependente do petróleo e sem ter diversificado sua economia nas últimas décadas, está excepcionalmente vulnerável ao choque atual.

As vendas de petróleo representam 90% do orçamento estatal, enquanto 90% dos bens de consumo, alimentos e medicamentos são importados, muitos via Ormuz, afirma a apuração.

A queda nas exportações já custou ao país cerca de US$ 5,4 bilhões (aproximadamente R$ 28,22 bilhões), quase 2% do produto interno bruto (PIB) de 2024. O governo tem dinheiro para pagar salários públicos por apenas um ou dois meses, e economistas alertam para dificuldades já a partir de maio, segundo a mídia.

dependência de gás iraniano para a rede elétrica agrava o cenário, já que as importações despencaram após ataques israelenses ao maior campo de gás do Irã.

A situação é ainda mais complicada pela atuação de milícias xiitas que atacam alvos norte-americanos, provocando retaliações dos EUA em várias regiões do país.

Bagdá tenta alternativas para escoar o petróleo, incluindo reparos em oleodutos e a declaração de força maior em campos operados por empresas estrangeiras. Mesmo que consiga elevar as exportações para 500 mil barris por dia, isso não seria suficiente para cobrir obrigações básicas, como assistência social e salários.

O país depende atualmente de um oleoduto que atravessa o Curdistão até Ceyhan, na Turquia, um acordo frágil sustentado por pressão dos EUA.

¨      Um desastre que se aproxima. Por Olímpio Cruz Neto

O conflito aberto no Golfo Pérsico, com a chuva de mísseis e drones que estão se espalhando pelo Oriente Médio, vai entrar na quarta semana. E o avanço do petróleo para patamares superiores a US$ 160 por barril mostra que não estamos diante de um episódio de volatilidade. Agora, o mundo assiste à manifestação de uma mudança estrutural. É uma ruptura. Estamos diante da incapacidade do sistema energético global de absorver choques geopolíticos sem ruptura de preços, fluxos e previsibilidade.Nesta semana, a revista The Economist descreveu a escalada no Golfo sob o título “Operation Blind Fury”, apontando para a perda de controle sobre a dinâmica de segurança na região, numa crítica direta à administração de Donald Trump. De fato, o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial — agora opera sob risco permanente. E não se trata apenas de oferta. A crise é na entrega, condicionada a decisões políticas, mísseis e drones.

O mercado precificou isso em Dubai, com o barril cravando a assustadora marca de US$ 166. Para o Brasil, o problema não é o barril de óleo cru. É o diesel. Cerca de um quarto do diesel consumido no país é importado. Mais de 60% da carga nacional depende do transporte rodoviário. O fato de o país ter abandonado investimentos em ferrovias lá atrás agora nos deixa na seguinte encruzilhada: o diesel passou a ser o principal canal de transmissão de custos da economia brasileira.

Quando o diesel sobe, sobe o frete. Se o frete sobe, também há uma elevação do preço do alimento. E quando o quilo do arroz alcança patamares elevados, não se escapa da pressão política. Essa cadeia é direta, rápida e difícil de conter. Não há política tributária capaz de neutralizar de forma sustentada um choque de tal magnitude. O país não está diante apenas de um problema de preços, mas de arquitetura econômica.

E, não podemos esquecer, essa arquitetura foi deliberadamente alterada. A partir de 2016, sob os governos de Michel Temer e posteriormente de Jair Bolsonaro, o Brasil adotou uma estratégia de reconfiguração do seu sistema energético com foco em desalavancagem, abertura de mercado e redução do papel coordenador do Estado. Essa é a realidade que o mercado ainda  subestima. 

No caso da Petrobrás, a nova arquitetura se traduziu na venda de ativos de refino e distribuição, além da redefinição do papel como empresa voltada prioritariamente à exploração e produção. O efeito foi a perda de integração de um sistema que, até então, permitia algum grau de amortecimento interno de choques externos. Agora, o espaço de coordenação é menor.Já no setor elétrico, a privatização da Eletrobrás retirou do Estado o principal instrumento de coordenação de longo prazo em geração e transmissão de energia. Em um momento em que energia, tecnologia e segurança nacional se tornam dimensões inseparáveis, a decisão tomada pelo governo Bolsonaro reduziu a capacidade de planejamento estratégico do país.

Não se trata de um juízo ideológico. É uma constatação operacional: o Brasil trocou capacidade de coordenação por eficiência financeira de curto prazo. O resultado é um “sistema mais leve”, mas que agora se revela profundamente vulnerável. Mas esse não é o ponto final da crise de 2026. Há um paradoxo ainda mais grave.

Brasil é um grande exportador de petróleo bruto. Em momentos de alta de preços, como agora, o país vai capturar uma renda extraordinária em dólar por meio de royalties, participações especiais, dividendos e exportações. Isso é bom. Mas, ao mesmo tempo, estamos importando um diesel caro e absorveremos o impacto inflacionário dessa mesma commodity que vendemos. Então, vamos ganhar de um lado e perder de outro.

Resumindo, exportamos petróleo bruto, ao mesmo tempo que importamos a crise do diesel caro. Tal assimetria não é inevitável, mas é fruto de uma escolha. Então, como converter a renda extraordinária do petróleo em capacidade de reduzir a dependência do próprio petróleo? Em vez do país monetizar a commodity – e terceirizar a solução –, podemos inverter a lógica.

A correção desse descompasso exige decisão política clara: vincular parte da renda extraordinária do petróleo bruto que será vendido a preços estratosféricos a um programa permanente de desacoplamento energético e logístico. A ideia é que sempre que o preço internacional ultrapassar uma banda de referência, a parcela extraordinária dessa renda seja direcionada a um fundo de soberania energética e logística, com uma missão definida: reduzir a exposição estrutural do país ao diesel e ao transporte rodoviário.

Não se trata aqui de política ambiental. Mas de gestão de risco. Estamos diante de uma guerra que trará consequências graves ao país. É uma questão de semanas, meses. E se a guerra se prolongar por mais tempo? Então, é hora de ter foco. 

E se o país substituísse progressivamente o diesel na carga pesada por alternativas como biometano, diesel renovável e eletrificação de corredores logísticos? Poderíamos expandir a infraestrutura ferroviária e a intermodalidade. E desenvolver uma base industrial ligada à nova economia energética. O governo poderia alinhar Finep, BNDES e instituições de pesquisa a uma lógica de indução tecnológica orientada por missão. Tudo sob uma lógica simples: usar a renda extraordinária do petróleo para financiar a redução da dependência do petróleo.

Isso não implica reverter decisões passadas nem reestatizar ativos – comprar a BR Distribuidora de volta e mais os gasodutos e refinarias, além de retomar o controle sobre a Eletrobrás. Não é isso. Mas o desafio é igualmente relevante: reconstruir a capacidade do Estado de coordenar, induzir e planejar.

Hoje, o país faz o oposto. Trata a alta do barril como evento fiscal e distribui seus efeitos via preços, inflação e perda de competitividade. Enquanto isso, outras economias operam sob lógica estratégica.

Economist noticiou agora que a China se consolidou como um dos principais competidores na corrida pela fusão nuclear comercial. O projeto BEST, em construção em Hefei, deve ser concluído até 2027 e servirá de base para um reator de demonstração no início da próxima década. O esforço integra uma estratégia mais ampla que conecta energia, indústria e inteligência artificial. A premissa do parceiro do BRICS é clara: energia abundante, previsível e controlável. Isso é base de poder.

O contraste com o Brasil é evidente. Enquanto o país exporta petróleo bruto e consome renda energética como fluxo financeiro, outras economias utilizam instrumentos de política industrial para reduzir vulnerabilidades e construir autonomia de longo prazo.

O denominador comum, portanto, não é ambiental. É a geopolítica se impondo. A energia deixou de ser insumo. É agora, mais do que nunca, poder. E, nesse contexto, a ausência de uma estratégia energética integrada transforma choques externos em crises internas e oportunidades de renda em desperdício estratégico. 

Daí que o barril a US$ 166 em Dubai não é apenas um alerta de mercado, mas um grito de que a hora é de racionalidade estratégica. O Brasil pode continuar exportando petróleo bruto e importando inflação. Ou pode usar essa renda para financiar a ruptura que nunca fez. 

A diferença entre um caminho e outro não está no preço do barril. Está na capacidade de decidir o que fazer com ele.

No Brasil, o preço do diesel nunca foi apenas um dado macroeconômico. Ele é o termômetro da paz social e o veredito implícito sobre a longevidade de qualquer governo. Ignorar a urgência de uma ruptura estrutural em nome da inércia burocrática ou de paliativos fiscais não é apenas um erro estratégico — é um risco político mensurável.

No cenário de Dubai a US$ 166, a soberania energética deixa de ser um projeto de longo prazo para se tornar condição mínima de governabilidade. A escolha é simples: ou o país financia a sua própria autonomia agora — ou continuará financiando, na bomba, a próxima crise.

 

Fonte: DW Brasil/Brasil 247

 

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