Manoel
Cyrillo: Mais de seis décadas após golpe militar, ainda não se sabe exatamente
quando a ditadura terminou…
Agora,
no dia 31 de março de 2026, o Golpe Militar de 1964 completa 62 anos – vade
retro, satanás!
Com o
golpe, os milicos galgaram o poder e assumiram o (des)governo do país. E, com
isso, o golpe militar é um crime impune. E não poderia ser diferente, os
golpistas não iriam se autocondenar.
E, por
extensão, também não foram condenados os assassinos do Tenente-Coronel Aviador
Alfeu de Alcântara Monteiro – o primeiro dos brasileiros assassinados pelos
golpistas.
Esse
triste episódio histórico é pouco conhecido, quase não é (até hoje!) conhecido.
O Tenente-Coronel Alfeu comandava (vou grifar: comandava) a Força Aérea
Brasileira em toda a região sul do país. E, militar honrado que era, não aderiu
ao golpe. Pois bem, foi assinado a tiros, dentro de sua sala de comando!!!
Quem
foi o seu assassino?
Parece
que ainda não foi apurado…
Nos
primeiros dias de (des)governo dos milicos, eles disparam uma violenta política
repressiva: são presos aproximadamente 50 mil pessoas, entre políticos (muitos
tendo os seus mandatos cassados), sindicalistas, estudantes e militares.
Eram
tantos os presos que o Estado terrorista teve que transformar um navio, o Raul
Soares, em presídio, em Santos no litoral paulista; o campo de futebol do Canto
do Rio Futebol Clube, em Niterói, foi transformado em um campo de prisioneiros;
milhares de militares foram presos e/ou afastados de suas funções.
E a
repressão do Estado terrorista espraiou-se por toda a vida nacional…
Os
golpistas cancelaram eleições e, ao sabor de seu arbítrio, abriam ou fechavam o
Congresso, cassaram todos os partidos políticos (impondo que passariam a
existir somente dois, um que apoiaria o (des)governo, e outro que seria o da
“oposição” permitida; os direitos individuais foram pisoteados, prenderam,
torturaram, mataram.
Aqueles
que não aceitavam as suas idéias, eram tachados e tratados como “inimigos
internos”.
No
poder, os milicos criaram uma excrescência jurídica: os Atos Institucionais.
Entre
os inúmeros Atos Institucionais editados, o mais notório é o Ato Institucional
nº 5. Mas o mais tragicômico foi o Ato Institucional nº 4.
Na
ocasião, o Congresso Nacional estava fechado. O Ato Institucional nº 4 o
reabria e convocava os congressistas, literalmente, a aprovar uma nova
“constituição”, a de 1967.
Outra
curiosidade, essa nova “constituição”, foi escrita por um único homem, um
rábula da ditadura. E assim foi feito…
A
ditadura desequilibrou até a Geografia Política do país. Eu nasci em 1946, em
Salvador, na Bahia.
A Bahia
era um dos estados da Região Leste do Brasil, os outros estados da Região Leste
eram o Espírito Santo e o Rio de Janeiro.
O que
os militares fizeram? Eles acabaram com o Leste brasileiro!!!!
Mas,
outro dos grandes malefícios que a ditadura criou é que a História registra a
data de sua implantação mas… quando ela terminou???
Cada
historiador tem a sua opinião, cada um acha uma coisa (foi com o retorno dos
exilados, foi com a eleição direta para presidente, foi com a constituinte, foi
com a entrada em vigor da nova Constituição).
Assim,
de achismo em achismo, cabe uma pergunta: será que ela verdadeiramente
terminou?
¨
Caminhada do Silêncio - memória, necropolítica e a
persistência da violência de Estado no Brasil. Por Marcelo M. Nogueira
Toda
última semana de março, quando se aproxima a data que marca o golpe
civil-militar de 1964 — marco inaugural de um dos períodos mais sombrios da
história republicana brasileira —, a cidade de São Paulo se transforma em palco
de um dos mais densos e simbólicos atos políticos do país: a 6ª edição da
Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência de Estado.
Realizada
entre o antigo prédio do DOI-CODI, na Rua Tutóia, e o Monumento aos Mortos e
Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, a marcha não se limita a uma
homenagem ritualística às vítimas da ditadura. Trata-se, antes, de um ato
político de enfrentamento à política do esquecimento — uma prática coletiva de
memória que se insurge contra o apagamento histórico e denuncia a continuidade
das formas de violência de Estado no Brasil contemporâneo.
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Em um
país cuja transição democrática foi marcada por pactos de silêncio e pela
institucionalização da impunidade, a Caminhada do Silêncio emerge como uma
poderosa contranarrativa. Ao ocupar as ruas com corpos que se recusam a
esquecer, o ato tensiona a narrativa oficial que tentou encerrar o passado
autoritário sob o manto da conciliação.
Como
nos ensina a filósofa judaico-alemã Hannah Arendt, o esquecimento deliberado
não constitui apenas uma falha moral, mas um risco político profundo: ele
permite a repetição do mal sob novas formas, frequentemente mais difusas e
difíceis de identificar. No Brasil, esse esquecimento foi institucionalizado
pela Lei da Anistia de 1979, que, ao equiparar vítimas e perpetradores,
bloqueou a responsabilização dos agentes do terror de Estado.
A
Caminhada do Silêncio, ao contrário, opera como um dispositivo de memória
ativa. Criada pelo Movimento Vozes do Silêncio, ela transforma o espaço urbano
em território pedagógico. Iniciar o percurso no antigo DOI-CODI — centro
emblemático da repressão, onde a tortura foi sistematicamente empregada como
política de Estado — constitui um gesto de reapropriação simbólica.
Ali,
onde a violência foi administrada burocraticamente como parte de uma engrenagem
estatal, a marcha reinscreve a memória como forma de resistência. O trajeto até
o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos constrói, assim, uma
verdadeira geografia da dor que, ao ser percorrida coletivamente, converte-se
em geografia da denúncia.
Essa
dimensão espacial da memória dialoga diretamente com as reflexões da socióloga
argentina Elizabeth Jelin, para quem os processos de lembrança são sempre
disputas políticas sobre o passado e o presente. A memória, longe de ser um
campo neutro, configura-se como um território de conflito, no qual diferentes
projetos de sociedade se enfrentam. Nesse sentido, a Caminhada do Silêncio não
apenas recorda as vítimas da ditadura, mas disputa o significado da própria
democracia brasileira.
O
silêncio que marca o ato é, talvez, seu elemento mais potente. Em uma sociedade
saturada de discursos, na qual a banalização da violência se manifesta na
naturalização das mortes cotidianas, o silêncio emerge como linguagem política.
Não se
trata de ausência, mas de presença radical. É um silêncio que escuta, que
convoca, que interpela. Um silêncio que rompe com o ruído da desinformação e
das revisões históricas negacionistas. Como afirma a cientista política
argentina Pilar Calveiro, os regimes autoritários não operam apenas por meio da
violência física, mas também pela produção de sentidos que legitimam essa
violência. Romper com tais sentidos exige, muitas vezes, gestos simbólicos
capazes de desestabilizar a normalidade aparente.
No
entanto, limitar a Caminhada do Silêncio ao passado significaria reduzir
drasticamente seu alcance político. O lema que a acompanha — neste ano, em sua
6ª edição, “Aprender com o passado para construir o futuro”, assim como, em
edições anteriores, formulações como “Para que não se esqueça, para que não
continue acontecendo” — explicita a amplitude de sua dimensão temporal.
A
marcha conecta os desaparecidos políticos da ditadura às vítimas contemporâneas
da violência de Estado, especialmente aquelas oriundas das periferias urbanas,
majoritariamente negras. É nesse ponto que a reflexão se articula com o
conceito de necropolítica, formulado pelo cientista político camaronês Achille
Mbembe.
Para
Mbembe, o poder soberano contemporâneo se define cada vez mais pela capacidade
de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No contexto brasileiro, essa
gestão diferencial da morte assume contornos profundamente racializados e
territorializados.
A
violência policial, as chacinas em favelas, o encarceramento em massa e a
negligência estatal diante de determinadas populações revelam uma política de
morte que não constitui exceção, mas regra. A Caminhada do Silêncio, ao reunir
familiares de vítimas dos chamados “Crimes de Maio” e de outras operações
policiais letais, evidencia essa continuidade histórica: a ditadura não
terminou plenamente; ela se reconfigurou.
Essa
leitura se aprofunda quando incorporamos a noção de “vida nua”, elaborada pelo
filósofo italiano Giorgio Agamben. Para o autor, determinadas vidas são
reduzidas à sua dimensão biológica, desprovidas de valor político, tornando-se
matáveis sem que isso configure, necessariamente, um crime reconhecido.
No
Brasil, essa condição recai de forma desproporcional sobre corpos negros e
periféricos — vidas elimináveis sob a justificativa da segurança pública, sem
que o Estado seja efetivamente responsabilizado.
É nesse
ponto que a análise deve necessariamente incorporar o racismo estrutural como
eixo interpretativo central. Como demonstra a historiadora Ynaê Lopes dos
Santos, a formação social brasileira está profundamente marcada pela herança da
escravidão e pela construção de hierarquias raciais que persistem até hoje.
O
Estado brasileiro, desde sua origem, operou como gestor de desigualdades
raciais, definindo quais vidas são protegidas e quais são descartáveis. A
ditadura militar, nesse sentido, não inaugurou a violência de Estado, mas a
reorganizou no interior de um aparato institucional moderno.
A
presença, na Caminhada do Silêncio, de mães e pais que perderam seus filhos em
ações policiais contemporâneas revela a dimensão intergeracional dessa
violência. Trata-se de sujeitos que, embora não tenham vivido diretamente a
repressão dos anos 1960 e 1970, experimentam, em seus corpos e trajetórias, a
continuidade de práticas autoritárias.
A
marcha, ao articular essas diferentes temporalidades, constrói uma narrativa
que rompe com a ideia de ruptura histórica. O passado não passou; ele persiste
e se infiltra no presente sob novas formas.
Essa
continuidade também pode ser compreendida à luz das reflexões de Pilar
Calveiro, que analisa como os dispositivos de repressão se adaptam em contextos
democráticos, preservando lógicas de controle e eliminação.
No
Brasil, a militarização das polícias, a lógica da guerra às drogas e a
naturalização de operações letais em territórios periféricos constituem
expressões dessa adaptação. O inimigo interno, antes identificado como
subversivo político, hoje assume a figura do “suspeito” — quase sempre jovem,
negro e pobre.
O
reconhecimento institucional da Caminhada do Silêncio, por meio da Lei
Municipal 17.886/2023, que a incluiu no calendário oficial da cidade de São
Paulo, representa, sem dúvida, um avanço simbólico relevante. No entanto, como
alertam os estudos de memória, a institucionalização, por si só, não garante a
efetivação da justiça.
A
persistência da impunidade em relação aos crimes da ditadura e a continuidade
da violência policial revelam os limites dessa formalização.
A
Caminhada, portanto, permanece como um ato de cobrança. Ela interpela o Estado
brasileiro em múltiplas dimensões: exige a responsabilização dos agentes do
passado, a reinterpretação da Lei da Anistia à luz do direito internacional dos
direitos humanos e, sobretudo, a transformação das estruturas que produzem
morte no presente.
Nesse
sentido, o ato insere-se em uma tradição mais ampla de lutas por memória,
verdade e justiça na América Latina, dialogando com experiências como as Madres
de Plaza de Mayo, na Argentina.
Há,
contudo, um elemento que distingue a Caminhada do Silêncio de outras
manifestações: sua aposta radical na pedagogia da presença. Ao caminhar em
silêncio, os participantes produzem uma experiência sensível que escapa às
formas tradicionais de protesto. Trata-se de um convite à introspecção, à
escuta e à responsabilidade coletiva.
Como
sugere Hannah Arendt, a política não se reduz à ação visível, mas inclui também
a capacidade de julgar, pensar e se posicionar diante do mundo.
Enquanto
houver valas comuns não escavadas, arquivos não abertos e corpos não
identificados, a memória continuará sendo uma tarefa inacabada. E, enquanto a
violência de Estado seguir produzindo mortes nas periferias brasileiras, a
democracia permanecerá incompleta.
A
Caminhada do Silêncio, nesse contexto, não é apenas um evento anual. É uma
prática contínua de resistência, um dispositivo de denúncia e um espaço de
elaboração coletiva do trauma.
No fim
da tarde do próximo domingo, dia 29 de março, quando centenas de pessoas
percorrerem a Rua Tutóia em direção ao Ibirapuera sem emitir uma palavra, o
silêncio que ecoará não será vazio.
Ele
carregará consigo o peso da história, a dor das perdas e a urgência da
transformação. É um silêncio que acusa, que exige e que resiste. Um silêncio
que, paradoxalmente, fala mais alto do que qualquer discurso.
Um
silêncio que, ao recusar o esquecimento, reafirma o compromisso ético e
político com a vida — todas as vidas.
Fonte: Holofote/Brasil
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