Eleições:
ainda é possível salvar a Amazônia?
Um
ponto de não retorno em uma floresta é o ponto em que sua resiliência é vencida
pela combinação das pressões que se exercem sobre ela. No caso da Amazônia,
essas pressões são a supressão, degradação e fragmentação do tecido florestal,
os incêndios, a biodiversidade, o empobrecimento dos solos, as secas, as
inundações, tudo isso agravado pelas mudanças climáticas. Uma vez vencida essa
resiliência, a floresta transita rapidamente para a morte ou para outro estado
de equilíbrio, muito adverso à sua permanência.
A
resposta à pergunta que dá título a este artigo é clara: não é possível evitar
um ponto de não retorno na floresta amazônica, mantida a atual composição do
Congresso Nacional. A batalha pela Amazônia entrou em sua fase mais decisiva.
Por isso, é imperativo se preparar para as eleições de outubro, unidos em torno
da palavra de ordem: defender a Amazônia. Pois a Amazônia é, antes de mais
nada, um valor intrínseco e um componente maior da biosfera. De sua permanência
dependem, além disso, a sobrevivência da sociedade brasileira e, em grande
medida, a conservação do que resta dos equilíbrios planetários. É preciso,
portanto, mandar de volta para casa todos os deputados e senadores que votaram
a favor do “PL da devastação” (Lei nº 15.300/2025), elegendo um Congresso
comprometido com a Amazônia.
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1. O estado atual da Amazônia
Para
bem avaliar a extensão do que está em jogo nestas eleições, recapitulemos
alguns dados sobre a Pan-Amazônia, a Amazônia Legal e as florestas brasileiras
do bioma Amazônia:
(1) A
Pan-Amazônia abrange 7,8 milhões de km2. Nela vivem 47 milhões de pessoas, 2,2
milhões delas pertecentes a povos autóctones; 400 grupos étnicos e a maior
biodiversidade do planeta. A bacia amazônica recobre cerca de 5,8 milhões de
km². Em 2021, já cerca de 17% das florestas da Pan-Amazônia haviam sido
suprimidos e outros 17% haviam sido degradados.
Segundo David Lapola e colegas, entre 2001 e 2018, 360 mil km2 das
florestas da Pan-Amazônia “encontram-se sob alguma forma de degradação”.
Contudo, “a inclusão de dados sobre secas extremas aumenta a estimativa da área
degradada para 2,5 milhões de km², ou 38% da área das florestas remanescentes”.
(2) A
Amazônia Legal brasileira, com cerca de 5 milhões de km2, compreende o bioma
Amazônia, mais 37% do Cerrado e mais 40% do Pantanal em território brasileiro.
A Figura 1 mostra os acumulados de desmatamento na Amazônia Legal até 2007 em
milhares de km2.
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2. Lula e o empenho em frear o ecocídio
Como
mostra a Figura 2, o desmatamento na Amazônia aumenta muito entre 1991 e 2004 e
diminui em 83% entre 2004 e 2012. Com o novo Código florestal (2012), ele volta
a crescer, acelerando-se a partir de 2019 na Pan-Amazônia e em especial no
Brasil:
“O
desmatamento intensificou-se substancialmente desde 2019 na bacia [amazônica],
embora a taxas diferentes em cada país. A maior parte do desmatamento
concentrou-se no Brasil, que perdeu cerca de 457.237 km² de florestas entre
1988 e 2020. Na Amazônia brasileira, o desmatamento anual entre 2019 e 2020 foi
superior a 10.000 km², um nível não atingido desde uma década antes (2008)”.
Entre
Temer e Bolsonaro, isto é, entre agosto de 2018 e julho de 2022, a floresta
primária amazônica brasileira perdeu 45.720 km2, uma área maior do que a do
estado do Rio de Janeiro (43.750 km2)! A exemplo de seus dois primeiros
mandatos, é grande mérito do terceiro mandato do governo Lula ter reduzido o
desmatamento amazônico a partir de 2023, freando o ecocídio perpetrado por
Bolsonaro. De agosto de 2022 a julho de 2023, o desmatamento ainda atingiu
9.064 km2. Mas de agosto de 2023 a julho de 2024, ele caiu para 6.288 km2, e de
agosto de 2024 a julho de 2025 ele caiu pela segunda vez para 5.796 km². Uma
enorme vitória! Mas ainda muito insuficiente, pois apenas nos últimos três anos
– entre agosto de 2022 e julho de 2025 –, a Amazônia brasileira perdeu 21.121
km2, uma área quase equivalente à do estado de Sergipe (21.910 km2). Apenas
entre agosto de 2024 e julho de 2025, a floresta amazônica brasileira perdeu
mais 5.796 km², ou seja, quase quatro vezes a área total do município de São
Paulo (1.521 km2)! É admissível perder um Sergipe de floresta amazônica a cada
três anos e perder, a cada ano, uma área quase quatro vezes o município de São
Paulo?
Como
reportado acima, a área da cobertura florestal amazônica brasileira era,
originalmente, de 4.027.000 km2. Dado que mais de 874 mil km2 (853 mil km2 +
21.121 km2) foram já suprimidos, então essa perda até julho de 2025 corresponde
a 21,7% de sua área original. Isso posto, Luciana Gatti e colegas alertam que,
até 2024, na porção nordeste da Amazônia a floresta já havia sido amputada em
38% e na região sudeste, em 34%. Essa parte leste da floresta já está cada vez
mais difícil de recuperar e essas perdas vulnerabilizam a floresta como um
todo.
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3. O agronegócio, vetor principal da destruição
Mais de
90% da destruição da floresta amazônica teve por objetivo a abertura de
pastagens. Nos seis anos dos governos Temer e Bolsonaro (2017-2022), essa
abertura derrubou mais de 800 milhões de árvores, sendo que 17 mil km2 de
florestas foram suprimidos perto de grandes frigoríficos atuantes na Amazônia:
“Pesquisadores
da consultoria AidEnvironment utilizaram imagens de satélite, registros de
movimentação de gado e outros dados para calcular a perda florestal entre 2017
e 2022 em milhares de fazendas próximas a mais de 20 frigoríficos. Todas as
unidades de processamento de carne pertenciam às três maiores exportadoras de
carne bovina do Brasil: JBS, Marfrig e Minerva”.
Além
disso, 38% dos solos da América Latina estão degradados pelo desmatamento, por
pastagens e por monoculturas, um processo agravado pela emergência climática.
No Brasil, os solos degradados perderam 1,4 bilhão de toneladas de carbono ou
5,13 bilhões de toneladas de CO2 (C = 3,67 CO2) em relação à capacidade de
conservação do carbono orgânico nos 30 cm superficiais do solo sob a vegetação
nativa.
4.
Novas ameaças sobre a Amazônia
Em
janeiro de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE),
vinculado ao Ministério da Justiça, suspendeu a moratória da soja na Amazônia,
em vigor há 20 anos. Essa suspensão, muito comemorada pelo agronegócio, deixa
vulneráveis ao desmatamento mais 130 mil km2 de floresta. Se ocorrer (e alguém
duvida disso?), o desmatamento amazônico superará, enfim, uma área de mais de
um milhão de km2, ou mais de 25% da área original da nossa floresta. Além
disso, em 2026 os deputados e senadores do agronegócio planejam acelerar sua
Blitzkrieg contra a Amazônia e demais biomas brasileiros. Vejamos apenas três
de seus projetos:
(1) PL
nº 4.554/2025, alterando a Lei de Crimes Ambientais de forma a proibir o
embargo cautelar de áreas desmatadas ilegalmente.
(2)
PEC48, que muda a Constituição para implantar o absurdo marco temporal.
(3) PL
3.358/2025, que propõe desembargar propriedades com base apenas na inscrição no
Cadastro Ambiental Rural.
Seja
qual for a distância que separa a floresta amazônica de seu ponto de não
retorno, essa distância será muito diminuída ou anulada se permitirmos que
esses projetos prevaleçam. A vitória indígena no Tapajós, em fevereiro, pode e
tem de ser o estopim de uma grande mobilização da sociedade brasileira em
defesa das condições de habitabilidade de nosso país.
Fonte:
Por Luiz Marques, em Outras Palavras

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