Cecília
Olliveira: Nova CPI do crime organizado debate hoje o que Brasil já sabe há 20
anos
Há pelo
menos 20 anos o Brasil investiga o tráfico de armas como se fosse um fenômeno
“menor”. Como se o problema estivesse sempre “lá fora”: no Paraguai, em Miami,
em uma rota clandestina que a polícia anuncia ter desmantelado pela décima vez.
A cada operação, a promessa é a mesma — agora a conexão foi interrompida, a
rota foi fechada, o fluxo acabou.
Nessas
duas décadas, o país teve três CPIs voltadas especificamente ao tema. A
primeira foi a CPI do Tráfico de Armas, instalada na Câmara dos Deputados entre
2005 e 2006, para investigar as organizações criminosas envolvidas no tráfico,
suas rotas nacionais e internacionais e suas conexões com o mercado legal. As
outras duas aconteceram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: em 2011, a
primeira CPI das Armas, focada no tráfico e nas falhas de fiscalização e
rastreabilidade; e entre 2015 e 2016, uma nova CPI voltada especificamente para
o extravio e desvio de armas e munições das polícias e das Forças Armadas.
Houve ainda a CPI das Milícias, em 2008.
O
diagnóstico das três foi convergente e desconfortável para o estado. Grande
parte das armas apreendidas com a criminalidade não vinha de grandes operações
clandestinas internacionais. Vinha do mercado legal. Muitas delas tinham sido
vendidas originalmente a lojas autorizadas ou ao próprio poder público.
Os
relatórios identificaram múltiplas portas de saída dentro do circuito formal:
comunicações falsas de perda, fiscalização ineficiente de clubes de tiro,
compras por militares sem controle adequado, desvios durante o transporte,
irregularidades na exportação. O problema não era o contrabando internacional.
Era a fragilidade estrutural do controle do estado sobre seu próprio arsenal.
As
recomendações se sofisticaram ao longo das CPIs. A raiz do problema, não.
Agora
fui convocada a participar de mais uma investigação parlamentar.
A CPI
do Crime Organizado, instalada no Senado em novembro de 2025, foi criada para
investigar a atuação, expansão e funcionamento das organizações criminosas — em
especial milícias e facções —, mapear seu modus operandi e propor
aperfeiçoamentos legislativos.Ela surge num momento em que o papel do Brasil no
tráfico internacional de drogas mudou. O país que por muito tempo foi rota de
transporte é hoje um dos maiores refinadores de cocaína do planeta, com mais de
500 laboratórios espalhados país afora. Esse novo papel é, em grande parte,
resultado da incapacidade do estado de transformar em política pública os
diagnósticos que as três CPIs anteriores já haviam produzido.
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Onde falhamos — e por quê
Em
2006, a CPI do Congresso fez um rastreamento inédito de milhares de armas
apreendidas no Rio de Janeiro. A conclusão deveria ter provocado uma reforma
estrutural na política de controle de armas. A maioria esmagadora das armas
apreendidas com a criminalidade havia sido originalmente vendida pelas fábricas
brasileiras a lojas legalizadas e ao próprio estado. Não era contrabando
sofisticado. Era desvio.
O
relatório já mapeava as portas de saída: compras diretas por militares e
policiais sem controle adequado no Sistema Nacional de Armas, o Sinarm,
fiscalização ineficiente sobre clubes de tiro, falsas comunicações de perda
cobrindo vendas clandestinas, desvios de lotes irregularmente fabricados,
falhas no transporte, triangulações internacionais mascarando exportações.
Desde 2006 sabemos que o problema não estava só na fronteira. Estava dentro do
sistema que diz combater o crime que municia.
Cinco
anos depois, a CPI das Armas da Alerj aprofundou o diagnóstico. Ao rastrear
mais de dez mil armas, constatou que cerca de 18% haviam sido originalmente
vendidas ao poder público antes de entrarem na ilegalidade. Entre essas, 28%
eram das Forças Armadas.
Os
números impressionam. O Exército informou o desvio de 75 armas, incluindo fuzis
de assalto. A Força Aérea registrou 133 armas desviadas entre 2000 e 2010.
Milhares de munições de calibre restrito. Granadas. Em muitos casos, apenas uma
fração mínima foi recuperada.
A CPI
também escancarou o mito da rastreabilidade. O Estatuto do Desarmamento, de
2003, estabeleceu a marcação de lotes de munição vendidos às forças de
segurança. Em tese, cada lote poderia ser identificado. Na prática, o acesso ao
banco de dados dependia de consulta à própria fabricante. E os lotes, que
deveriam ter dez mil cartuchos, chegaram a ultrapassar esse limite em dezenas
ou centenas de vezes.
O caso
mais conhecido é o do assassinato de Marielle Franco. As balas do lote UZZ-18,
fabricado pela CBC, foram usadas para executar a vereadora em 2018 — e também
para matar 19 pessoas numa chacina em Osasco e dois traficantes em São Gonçalo.
O lote havia sido vendido à Polícia Federal em 2006. Em nenhum desses crimes a
PF estava envolvida.
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Falhas intencionais
O
“coração” do sistema, o Sinarm, dependia do envio de dados pelos estados — que
simplesmente não alimentavam o banco de forma regular. Sem integração entre
Sinarm e Sistema de Gerenciamento Militar de Armas, o Sigma, controlado pelo
Exército, não há rastreamento eficaz. Sem rastreamento, não há
responsabilização. E a vida de quem abastece o crime fica tranquila.
A CPI
de 2011 trouxe, por exemplo, o caso do lote AAF88, distribuído a diversas
superintendências, incluindo a do estado do Rio, com 55 mil unidades. Granadas
do mesmo lote foram encontradas em favelas diferentes. Desde os anos 2000,
reportagens já apontavam munições e explosivos de origem institucional em
territórios controlados pelo crime. Em 2011, 60% das armas apreendidas nos
complexos do Alemão e da Penha eram de uso restrito das polícias e das Forças
Armadas.
Na
investigação para Como Nasce um Miliciano, publicado 19 anos após a primeira
CPI, descobri que todas as munições usadas pelos milicianos contra policiais
eram do estado — vindas das polícias Militar e Civil do Rio, do Exército, da
Marinha, da Aeronáutica, da Acadepol do Ceará e da Força Nacional de Segurança
Pública.
Duas
décadas depois, o diagnóstico é o mesmo.
As três
CPIs repetem as mesmas recomendações: integração real entre bancos de dados,
auditorias permanentes de arsenais, controle rigoroso de lotes de munição,
transparência sobre extravios, responsabilização administrativa automática.
Nada disso se consolidou como política de estado com monitoramento contínuo.
Não há comitê permanente de acompanhamento. Não há metas públicas de redução de
desvios. Não há auditoria independente sistemática.
O ciclo
se repete: escândalo, CPI, relatório robusto, crise política, esquecimento.
Em
março de 2026, o governo federal instituiu a Rede Nacional de Enfrentamento ao
Tráfico de Armas, Munições, Acessórios e Explosivos, a Renarme, por portaria conjunta dos ministérios da
Justiça, Defesa e Fazenda. A proposta é enfrentar exatamente o que as CPIs
apontavam: a falta de integração. Compartilhamento de dados, operações
conjuntas, articulação entre PF, PRF, Receita, Exército e polícias civis,
produção de inteligência integrada, capacitação contínua.
Em
tese, é o que se recomenda há duas décadas. A pergunta é desta vez vai sair do
papel? Porque o Brasil não sofre de falta de diagnóstico nem de desenho
institucional. Sofre de descontinuidade, de baixa implementação e de ausência
de controle sobre o próprio sistema que deveria regular. Sem enfrentar o desvio
interno e sem transformar a coordenação em rotina — e não em exceção —, a
Renarme corre o risco de se somar à longa lista de boas iniciativas que não
alteraram o fluxo de armas para o crime.
O
Brasil não sofre apenas com o tráfico de armas. Sofre com a incapacidade — ou a
falta de vontade política — de controlar o próprio arsenal, que vai parar nas
mãos de traficantes e milicianos. Enquanto o debate público continuar
concentrado nas rotas internacionais e ignorando o desvio interno, estaremos
tratando metade do problema.
As CPIs
já disseram isso. Os dados governamentais já disseram isso. As munições
encontradas nas cenas de crime dizem isso.
A
pergunta que permanece é simples e incômoda: o estado está disposto a assumir
que parte do armamento que alimenta o crime saiu de dentro dele próprio?
• Apple reclamou para deputados de projeto
do governo Lula contra monopólio das big techs. Por Laís Martins
Uma
semana depois que o governo brasileiro apresentou ao Congresso um projeto de
lei para combater o monopólio das big techs, em setembro de 2025, uma comitiva
de parlamentares e políticos ouviu reclamações de executivos da Apple no Vale
do Silício sobre a proposta. A empresa alegou que a iniciativa poderia criar
“custos desproporcionais e barreiras à inovação”.
A
proposta, elaborada pela Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da
Fazenda e atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, prevê mudanças nos
mecanismos brasileiros que asseguram a livre concorrência, como o Conselho
Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, para enfrentar o poder econômico
das big techs.
É uma
das propostas com maior potencial de impacto financeiro para essas empresas,
hoje as mais ricas do mundo, porque mira o coração de suas operações: o modelo
de negócios. Mais do que as propostas de regulação que impactam na moderação de
conteúdos, regular o modelo de negócios das big techs carrega um potencial
gigantesco de mudar a internet como a conhecemos hoje.
A
informação consta em um telegrama sobre a missão obtido com exclusividade pela
organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública Fiquem
Sabendo, cedido para o Intercept Brasil.
“As
plataformas têm tanto medo desse projeto porque ele é o que mais mexe com o
ambiente de negócios. Ele mexe com a maneira como essas plataformas se
constituíram, que foi baseado na concentração, no monopólio. Essas plataformas
são tão grandes porque elas destroem a concorrência, elas absorvem outras
empresas e elas funcionam de um modo que não permite que outros negócios se
desenvolvam”, disse Raquel da Cruz Lima, coordenadora do Centro de Referência
Legal da organização de direitos humanos Artigo 19.
A Apple
já esteve sob a mira do Cade, antes mesmo de o governo federal enviar o PL de
regulação econômica de plataformas ao Congresso. Em junho do ano passado, a
Superintendência-Geral do órgão recomendou, na conclusão de uma investigação
iniciada em 2022, que a big tech fosse condenada por conduta anticompetitiva no
ecossistema digital do sistema operacional iOS. Em dezembro, Cade e Apple
assinaram um acordo, uma espécie de termo de ajustamento de conduta, em que a
empresa se comprometeu a cumprir as obrigações acordadas sob pena de multa e
retomada da investigação.
Na
semana passada, o Cade abriu uma nova investigação contra a empresa por
restringir o pagamento de PIX por aproximação para usuários de iPhone. Fora do
Brasil, a empresa também esteve sob a mira de autoridades concorrenciais pelas
mesmas práticas ligadas à sua loja de aplicativos. Em abril do ano passado, a
União Europeia multou a Apple em R$3,2 bilhões.
“Esse
movimento de olhar para o problema de concentração econômica já começou pelo
mundo, e as plataformas estão vendo como isso é sério e afeta como elas
trabalham. Nos Estados Unidos, já existem casos bastante importantes que
reconhecem que elas atuam de forma monopolista e exigem mudanças na estrutura
dos negócios”, explicou a advogada da Artigo 19.
Da
perspectiva de usuários, projetos como esse, que fomentam a concorrência, podem
permitir o surgimento de outros negócios – plataformas, aplicativos, redes –
com outra racionalidade que não a exploração e captura da nossa atenção.
“Hoje
só existe esse modelo que explora a economia da atenção, que se baseia em fazer
com que a gente tenha conteúdos muito curtos e viciantes que permitem que as
empresas façam perfilamento dos usuários e vendam nossos dados para conseguir
mais lucro”, disse Cruz Lima.
“A
partir desse projeto e de obrigações que podem vir a partir dele, por exemplo a
interoperabilidade e portabilidade, pode ser possível então que haja um cenário
de uma diversidade maior de negócios, porque ele visa então a combater a
concentração, e que outros negócios que tenham novas racionalidades possam
florescer”, acrescentou.
Imagine,
como exemplo, que hoje você se sente “preso” a uma rede social porque todos
seus amigos e contatos estão lá e você não quer perder essa conexão. Ou que tem
um determinado modelo de smartphone e comprou aplicativos na loja oficial e, se
mudar de sistema operacional, teria que comprar tudo novamente em outra loja
oficial. O que o projeto propõe é que as diferentes redes, empresas e serviços,
devem estabelecer maneiras de fazer com que os usuários possam conversar entre
si.
Na
prática, regular o modelo econômico das big techs significa dar maior poder de
escolha aos usuários. “Essa diversidade, pluralismo, é uma das melhores
consequências que pode ter a partir desse projeto e que favorece muito para os
usuários, a perspectiva do cidadão, um ambiente com mais diversidade, com essas
informações diferentes, com vozes, com outras lógicas e isso é muito positivo
para as pessoas que usam as redes”, explicou a advogada.
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Pressão sobre parlamentares
O
telegrama obtido pelo Fiquem Sabendo e Intercept é assinado por Ronaldo Costa
Filho, cônsul-geral do Brasil em São Francisco, que acompanhou as visitas da
comitiva brasileira ao Vale do Silício.
Segundo
o seu relato, durante a visita à Apple, representantes da empresa “manifestaram
preocupação” com o projeto de lei 4675/2025. “Assinalaram que medidas de
interoperabilidade obrigatória e exigência de abertura a terceiros podem
inviabilizar lançamento de funcionalidades que dependem de integração entre
hardware e software, como a tradução simultânea nos AirPods, sem previsão de
lançamento na Europa, privilegiando mecanismos mais flexíveis de supervisão via
Cade”, escreveu o cônsul-geral Costa Filho no telegrama. O que a empresa alega,
em outras palavras, é que obrigações como uma maior abertura do seu sistema
operacional poderiam dificultar lançamentos de outros recursos da empresa.
A Apple
teria dito que há “riscos de que a regulação brasileira, se não calibrada, crie
custos desproporcionais e barreiras à inovação, sem necessariamente resolver
falhas de mercado”, e sugeriu aos parlamentares que o Brasil evite a
“transposição literal do modelo europeu”. Na Europa, o Digital Markets Act,
aprovado em 2022, é o instrumento regulatório que visa combater práticas
monopolistas das empresas de tecnologia. A legislação é aplicada para
plataformas consideradas “porteiras”, as que operam serviços essenciais. Isso
vai desde redes sociais até mecanismos de busca.
Não é a
primeira vez que empresas de tecnologia usam o argumento de que regulação
frearia inovação. Em novembro, mostramos, por exemplo, como a OpenAI, empresa
que criou o ChatGPT, condicionou investimentos no Brasil a uma mudança na lei
de direitos autorais. Mas a Apple não é uma empresa que costuma se manifestar
diretamente, apenas através de entidades da qual é membro ou associada.
A
comitiva, composta por políticos de direita, visitou empresas-chave do mercado
de tecnologia e do desenvolvimento de inteligência artificial, como OpenAI;
Anthropic, responsável pelo Claude; xAI,
desenvolvedora da Grok; Apple; a desenvolvedora de hardware Nvidia; e Palantir,
empresa especializada em serviços para o governo dos Estados Unidos.
A
delegação foi composta por integrantes da comissão especial sobre inteligência
artificial da Câmara. O colegiado discute o projeto de lei 2.338, de 2023, que
visa regulamentar o uso de IA no Brasil. Estiveram nessa viagem a deputada federal Luisa Canziani, do PSD do
Paraná, presidente da comissão; o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, do PP da
Paraíba, relator da proposta; e a deputada federal Adriana Ventura, do Novo, de
São Paulo, primeira vice-presidente do colegiado. A senadora Daniella Ribeiro,
do PP da Paraíba, também participou.
Além
deles, também integraram o tour o vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth;
o secretário-geral do governo de Goiás, Adriano da Rocha Lima; e o
subsecretário de Tecnologia da Informação de Goiás, Marcio Cesar Pereira.
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A volta do ‘PL da Censura’
A
extrema direita tem tentado colar ao projeto de lei de regulação econômica o
rótulo de “projeto de lei da censura”, já usado no caso de outras propostas de
regulação de redes. “Na prática, abre caminho para o estado intervir no que
você vê nas redes sociais”, disse o Partido Liberal em uma publicação no
Instagram.
É uma
visão equivocada, já que o projeto não visa regular conteúdo, mas sim o modelo
de negócios das plataformas. “O projeto não tem nenhum impacto relacionado à
dinâmica de moderação de conteúdo. Todos os dispositivos que estão no projeto
de lei não tratam da maneira como as plataformas se comportam em relação aquilo
que é apostado pelo usuário. Então não faz absolutamente nenhum sentido que
haja argumento falando que esse PL é um PL da censura. Ele não trata de
conteúdo de nenhuma maneira”, disse Raquel da Cruz Lima, da Artigo 19.
Apesar
da oposição da extrema direita, o projeto deve avançar na tramitação graças a
um acordo entre o governo, o relator do texto, deputado Aliel Machado, do PV do
Paraná, e o presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba,
conforme apurado pelo Intercept.
No dia
18 de março, a Câmara dos Deputados aprovou um requerimento do deputado federal
Gilberto Abramo, do Republicanos mineiro, para que o projeto tramite em regime
de urgência. Com isso, ele pode ser submetido à votação em plenário a qualquer
momento.
Fonte:
The Intercept

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